FECHADO COM AS ÁGUAS ABERTAS

Você acorda às sete da manhã e sente o vento frio que gela a cidade. Imediatamente dá aquela vontade de tomar um chocolate quente ou de voltar pra debaixo das cobertas. Nesse momento, uma turma de malucos está deixando seus casacos num quiosque do Posto 6, em Copacabana, e mergulhando no mar. Somos nós, os adeptos da natação em águas abertas.

Comecei a nadar como forma de me manter saudável. Não tenho paciência pra malhar em academia, optei pela natação. Depois de algum tempo em piscinas, me impus um desafio: fazer a Travessia dos Fortes, que consistia em nadar do Posto 6 ao Leme. Meu professor Coutinho, do Clube Federal, preparou um plano de treinos que incluía umas aulas no mar. Tomei gosto pela coisa e nunca mais parei. Hoje faço parte da equipe Luiz Lima Gladiadores, o primeiro clube de águas abertas do Brasil.

Nadar no mar é praticar um esporte na Natureza. Dá a sensação de estar desfrutando mais da cidade que os demais cariocas. Passeamos por locais inusitados, como a costa entre Copacabana e o Arpoador, que só é vista por quem visita o Forte ou mora num apê de fundos na rua Francisco Otaviano.

Surpreendemos os amigos quando contamos ter atravessado das Ilhas Cagarras a Ipanema no braço. E poucos acreditam quando, em dias frios e chuvosos, vamos nadar e ainda postamos fotos dizendo que o mar estava uma delícia. Confesso que são os dias que mais me dão prazer. Primeiro porque o treino costuma ser mais dinâmico e também porque saio da água mais macho do que entrei. Dar inveja aos amigos é parte importante desse esporte.

Nem tudo é maravilha. Às vezes, a água está quentinha e não é resultado de nenhuma corrente, mas sim do esgoto lançado ali. Acontece. Por isso, estou sempre com as vacinas contra hepatite em dia. As competições não são momentos de harmonia. Na largada, a disputa de centenas de atletas por um espaço na água provoca tiro, porrada e bomba. Cotoveladas, pernadas, socos, na maioria das vezes involuntários, são comuns. Mas o final é sempre feliz.

Por outro lado, em dias de águas claras, temos a companhia de peixes, tartarugas, arraias. Outro dia tive a experiência de ver de perto um tubarão-baleia, que veio treinar no nosso circuito de boias. Na hora deu um friozinho na barriga, mas o prazer de contar uma aventura como essa não tem preço.

Nem passa pela minha cabeça disputar uma Olimpíada. Nessa encarnação não tenho mais chance. Porém, o fato de treinar cotidianamente onde será realizada a prova de Maratona Aquática da Rio 2016 é o suficiente para me sentir mais atleta. É uma grande satisfação saber que os melhores nadadores do mundo estão dando o melhor de si nas classificatórias para terem o direito de competir na raia olímpica, o nosso quintal.

Tenho esse privilégio sem precisar de todo esse esforço. Afinal, sou o melhor humorista de águas abertas negro, acima dos 50 anos, do grupo Casseta & Planeta que já atuou numa novela. Cadê minha medalha?


Publicado na Revista O Globo em 3 jul 2016

 

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