Vida de quadrúpede

vida de quadrupede

Faz aproximadamente dez dias que um tombo bobo me deixou prejudicado. Virei um quadrúpede, só me desloco com quatro membros, sendo minhas as duas pernas e alugadas, duas muletas. A vida mudou muito nesses dias. Minha mobilidade é quase zero. Tive que reaprender a andar. Não me lembro se demorei a dar meus primeiros passos na infância, mas agora, a coisa tá complicada.

Sempre achei que as distâncias eram relativas. Nadar 3 quilômetros, por exemplo, é custoso para muitos, impossível para outros. Para mim, era só um pouco cansativo. Atualmente as distâncias são absolutas. Qualquer uma. Tudo ficou muito longe. Da cadeira onde estou agora até meu quarto são uns sete metros, mais ou menos. É praticamente um Caminho de Santiago. Além de demorar séculos para vencer o percurso (não diria vencer, no máximo, empatar), tenho que estar atento aos movimentos. Você pode pensar em diversos assuntos enquanto anda. Eu tenho que pensar no próximo passo. E só. Os neurônios têm que comandar cada célula do corpo para que a operação seja bem sucedida. As muletas acompanham a perna esquerda, a mais afetada com a fratura do quadril; em seguida, ordeno a direita para nos seguir. Nada de mudanças rápidas de direção!

Nem deitado tenho sossego. Tenho que prestar muita atenção em como me mexer na cama. Não se anime, não estou falando de posições sexuais, a única coisa que posso fazer na horizontal é dormir mesmo. E com cuidado até com o que vou sonhar. Não posso ser perseguido por leões na África, certamente vou ser alcançado e destroçado. Levantar-me para ir ao banheiro exige um raciocínio afiado. Que movimentos não afetariam a lesão?

Fui forçado a uma prisão domiciliar sem tornozeleira eletrônica. Tenho que pedir autorização médica para ir ao quintal. E, claro, preciso arrumar o que fazer dentro de casa. Já vi toda terceira temporada de Narcos, passada em Cali. Espero ansioso o lançamento da quarta e da quinta: Narcos/México e Narcos/Rocinha. Por enquanto, assisto a Disjointed, Masters of None, Larry David na HBO… Tirei o atraso e li “Sapiens”, agora estou encarando o tijolaço “Tancredo Neves”, do Plinio Fraga. Tem outros na fila e não paro de receber sugestões. São livros que amigos acham que eu gostaria de ler e outros que eles mesmos não têm tempo e pedem pra eu ler e depois contar pra eles.

Apesar de passar o dia de bobeira, sou um inútil nas tarefas domésticas, já que não posso carregar nada além das muletas. A vantagem é que sou um imprestável que não leva bronca por isso.

No momento, meu maior medo é da consulta médica. Temo chegar no consultório e o ortopedista dizer que fiz tudo errado, não segurei a muleta corretamente, não fiz o repouso adequado, forcei movimentos bruscos ao escovar os dentes… Com isso o problema se agravou e vou ter que operar a bacia.

De resto, vai tudo bem. Ao menos aprendi uma coisa importante nesse período de imobilidade. Nunca tomar o último gole do chope antes de ir ao banheiro. Pode não dar tempo de chegar lá.

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ao todo.

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