Vida de quadrúpede – #02

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Como assim? Ainda não ficou bom? Não é possível, já tá tirando onda. Meu vizinho, Nuzman, já deixou a cadeia, agora está em casa escondido embaixo da cama. O ex-vizinho, atual morador de Benfica, Sérgio Cabreiro, está de mudança para Rondônia. Temer disse que trabalho escravo é mimimi de trabalhador nutella, depois voltou atrás, Cristiano Ronaldo foi eleito o melhor Neymar do mundo, a novela “A Forçx do Querer ser Gay, Lésbicx e Trans” acabou. Pois é, tanta coisa aconteceu enquanto continuo aqui na minha prisão domiciliar.

No início, sentindo dores e muito desconforto, estava revoltado. Não adiantou nada. Hoje estou adaptado a essa vida.

Foram necessárias algumas alterações na minha rotina. Só vou à rua para consultas médicas. Não posso carregar nada além das muletas, o que me obriga a andar com uma mochila dentro de casa, caso queira transportar um livro, um jornal ou uma garrafa d’água. Se o telefone está longe e começa a tocar, esquece, não vou chegar a tempo. Afinal, não ando, me locomovo e mal. Dependo de parentes e amigos pra me poupar de deslocamentos. Se esqueci meus óculos no quarto, tenho que pedir a alguém para pegar.

Apesar de magro, tenho que tomar cuidado com a comida, pois tinha uma vida de atleta amador. Agora descer escada é meu esporte radical – e pratico pouco. O ortopedista manteve a ordem de mexer o mínimo possível com o quadril. Se já não tinha essa malemolência toda – nunca fiz um quadradinho de oito, sairei dessa com a ginga de um alemão da Bavária. Sexo segue proibido. Acho até que já zerei o X-Videos.

Nem tudo é ruim, porém. Uma das vantagens é escapar de roubadas. Não preciso mais dar desculpas esfarrapadas, o farrapo sou eu mesmo e todos sabem disso. Penso, inclusive, em manter a fama de muletado por mais algum tempo depois da alta. Aliás, aguardo ansiosamente o dia em que o doutor Ney Pecegueiro vai me se inspirar no Temer e revogar essa portaria que me impede de ir e vir livremente. Aguardem para breve o lançamento da campanha “Libertem o De La Peña!”

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ao todo.

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