O vendido… e mal pago

o vendido

Fui convidado pela revista literária QUATRO CINCO UM pra fazer uma resenha sobre o ousado livro O VENDIDO, do escritor americano Paul Beatty. Confere aí.

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“É um negro de primeira linha.”– diria um certo ministro do nosso STF se fosse convidado a depor como testemunha no julgamento “Eu x O Povo dos Estados Unidos”. A declaração não chamaria a atenção do leitor de O Vendido. Também não ficaria claro se a declaração é a favor ou contra o réu. É preciso ler e reler para tentar captar a intenção do autor. Talvez nem assim se consiga. Paul Beatty escreve em camadas e deixa que se desfrute seu texto como quiser. Você pode ficar irritado e arremessar longe o exemplar por não querer acompanhar nem mais uma linha desse raciocínio reacionário. Pode rolar de rir com as tiradas de humor negro (ou seria humor afro-americano?). Pode refletir sobre a descrição crua e desaforada do racismo. Faça o que quiser, ele não está nem aí. Não se preocupa se o leitor é branco, negro, mexicano ou asiático. Beatty causa repulsa porque te faz rir de algo muito grave. Eu estou rindo disso? Então quer dizer que sou mais racista do que eu mesmo imaginava? Mas eu sou preto. Quer dizer, nem tão preto assim, tenho cabelo bom!

O Vendido tem o espírito de um show de stand-up em que qualquer piada é permitida, por mais escrota que seja. Desde que você seja negro. Ou preto. Ou crioulo. Nossas gradações para definir um afrodescendente param por aí. Não temos uma palavra equivalente ao “nigger”, que ele usa e abusa sem pedir licença. Não se importa se o leitor enrubesce frente a ela. Se for branco, claro. Se for preto, não vamos perceber na pele o incômodo. Por dentro, pode ser que se irrite. Talvez se acalme, ao saber que o autor é um crioulo, como ele. Aí vem a dúvida. Ele está mesmo fazendo troça de um drama por que passam os milhões de negros nos EUA, aqui ou em qualquer lugar? É indiferente ao preconceito, à discriminação? Qualé a desse negão?

Em tempos politicamente corretos, Beatty tem a audácia de inventar uma história em que o protagonista, um negro, filho de um militante da causa negra, aceita escravizar um octogenário também negro. Por isso é preso e vai a julgamento. Ali apresenta os atenuantes. Não houve tráfico. Hominy, um artista de tevê aposentado, não foi negociado, é escravo por livre e espontânea vontade. Também não é obrigado a trabalhar, chega e deixa o serviço a hora que bem entende. Faz questão de ser submisso, a ponto de ficar de quatro para se fazer de banquinho, de modo que o “Vendido” alcance a sela do seu cavalo. Às vezes, leva umas chibatadas. Sem dramas, ele admite merecer por ser indolente e preguiçoso. “A verdadeira liberdade é o direito de ser escravo”– comenta o ex-Batutinha, Hominy.

Se não há problemas em possuir um escravo em pleno século XXI, o narrador vai mais fundo. Demarca Dickens, um gueto pobre nos arredores de Los Angeles, onde possui uma fazenda precária e produtiva, e ali passa a praticar todo tipo de racismo inverso. Ressegrega restaurantes, hospitais, lojas, proibindo brancos de entrarem ali. A Escola de Ensino Fundamental Chaff é uma instituição educacional para negros. Ou para não brancos, já que nativos, asiáticos e latinos povoam a região e ocupam uma zona cinzenta nessa discussão. É como o caso brasileiro do porteiro nordestino (leia-se paraíba) que discrimina o entregador de pizza negro (crioulo). O entregador poderia revidar: “Pra ser racista, meu chapa, precisa ser mais branco que isso daí.”.

Os brancos também terão sua escola exclusiva, a Academia Wheaton. A área está demarcada e os tapumes são ilustrados com o projeto de instalações confortáveis e de alto nível. Detalhe: não há brancos na região. Ainda assim, a ressegregação surte efeito. Os índices de criminalidade baixam e as notas dos alunos da Escola Chaff sobem a ponto de alunas brancas desejarem ingressar na instituição. Barradas, são escoltadas como no triste episódio de 1957 ocorrido com estudantes negros que recorreram à Justiça para assistir às aulas no Little Rock Central High School, em Arkansas. Naquela vez, os alunos brancos xingaram os negros e cuspiram neles. Aqui, a população implora por autógrafos das branquinhas. Os clientes das lojas se sentem privilegiados ao verem a placa de “Proibida a Entrada de Brancos” nas vitrines. O narrador é bem-sucedido na intenção de elevar a autoestima dos moradores.

O autor corta as amarras supostamente impostas por movimentos de emancipação do negro. Beatty não hesitaria em pôr um turbante numa personagem branca, assim como deixaria uma banda tocar a marchinha Nega do Cabelo Duro no carnaval. Passa ao largo da discussão sobre apropriação cultural. Logo no início da história, o narrador relata o que ganhou no seu afro mitzvá, uma cerimônia afrorreligiosa equivalente ao judaico bar mitzvá. Indiferença? As aparências não têm importância, os problemas são mais profundos e tão arraigados que os personagens não se detêm aos detalhes. O pai do “Vendido” era um conselheiro da comunidade, um mediador de conflitos. Para o narrador, era um “encantador de crioulos”. Estão mergulhados no ceticismo. Não se comemora a eleição de um presidente negro. Nada mudou na vida dos pretos. Obama não acabou com o racismo, sequer o aliviou. A certa altura, “Vendido” chega a afirmar que o único lugar da América onde não havia racismo era nas fotos do afropresidente de mãos dadas com a família no gramado da Casa Branca.

Talvez Monteiro Lobato fosse lido livremente. Talvez sua obra passasse por uma revisão, como o clássico O Grande Gatsby, que ganha uma paródia com o título O Grande Blacksby. Nunca sabemos que rumo a conversa com o protagonista pode tomar. Sua franqueza e sinceridade desconsertam o leitor. A menina é miss, apesar de não ser tão bonita, “mas é negra”. Inverte ironicamente situações típicas, como sua desculpa para ter sempre maconha boa: “Eu conheço uns branquelos”. Trata com naturalidade generalizações que a boa educação manda evitar, como o gosto dos afros por melancia e a promiscuidade sexual em famílias pobres. Os mexicanos também não escapam. E o mexicano aqui pode ser oriundo de qualquer região da América Central ou do Sul. Quantas vezes esse equívoco acontece na vida real? A questão que se coloca é: o que se ganha escamoteando o fato? Muito (ou pouco) se fala da discriminação dos negros. E dos nativos, das mulheres, dos latinos, dos japas? Estão liberados para o bullying?

A discriminação está entranhada na sociedade e hipocritamente negada. Não percebemos a sua presença, chegamos a acusar desconforto em certas situações, enquanto outras passam despercebidas. É o caso do neurocientista Carl Hart, que veio ao Brasil em 2015 para ministrar uma palestra e foi barrado na portaria de um hotel paulistano. A notícia causou indignação e furor nas redes sociais. Hart, porém, rebateu de forma contundente. Diminuiu o peso do incidente e centrou fogo em algo visto com naturalidade: era o único negro no auditório. “Vocês deviam ter vergonha disso”– disse à plateia.

Nem sabemos do que nos envergonhar. Canso de ser chamado de moreno, de forma respeitosa. Aliviam minha negritude, como forma de elogio. Cheguei a ouvir de um guardinha as desculpas por tratamento desrespeitoso: “O senhor não é negro”. Não? Como assim? “O senhor é da Globo…”. Não sou mais. Será que agora virei (ou voltei a ser) negro? Pertenço a uma raça nova catalogada pelo narrador: as celebridades. A ausência de negros nas propagandas de artigos de luxo não é problema. Diz ele: “A única coisa que jamais vi em comerciais de carro não são judeus homossexuais ou negros: são engarrafamentos”.

E Beatty brinca nessa corda bamba sem uma tela de proteção. Certas passagens não podem ser tiradas do contexto sem prejuízo ao julgamento do autor e do leitor. Não é um livro que se leia tranquilamente num metrô; é preciso manter as páginas quase fechadas para que os vizinhos não acompanhem, como uma revista pornográfica. Não se sabe qual seria a reação do companheiro de vagão se, num relance, pescar o trecho em que o narrador descreve com orgulho uma brincadeira que criou para as crianças negras – o túnel da brancura. Num lava-jato desativado, a molecada podia escolher o tipo de lavagem racial que gostaria de ter: brancura regular, que resultava em maior expectativa de vida; brancura luxo, em que recebia uma advertência em vez de ser levada para a cadeia pela polícia; e brancura superluxo, que dava direito às regalias acima, mais “um barco que você nunca usa e um terapeuta que ouve”. A sensação de ser branco por alguns minutos era uma alegria pros neguinhos.

Não cabe a mim me aprofundar nas considerações sobre o livro. Posso acabar tirando o prazer da leitura e atrapalhando a sua própria avaliação. Também não revelarei se o “Vendido” será ou não condenado. Digo apenas que Beatty rasga as etiquetas do bom comportamento literário.

Existem várias formas de discutir o racismo. O humor abusado, audacioso e malcriado é uma delas. Mas exige sofisticada interpretação. Ainda me pergunto quantos negros brasileiros lerão esse livro. Estará à venda para brancos ou exigirão atestado de afrodescendência?

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O PORCO ME TIRA DO SÉRIO!

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Vamos começar por onde o cara tinha os maiores prazeres, dentre os que podemos comentar nesse horário: a boca. Uma frase definitiva, repetida infinitas vezes: “O porco me tira do sério”. O cara perdia o rebolado quando o assunto era um lombo assado, uma linguicinha, uma costeleta no ponto. Traía sua origem judaica diante de uma bela feijoada – talvez um rabino devesse pensar em criar um suíno kosher se quisesse vê-lo de volta a uma sinagoga. Ultimamente estava se segurando para não cair em tentação e já tinha perdido vinte quilos. Mas seu objetivo não era ficar fininho, virar top model e passar a se alimentar de saladinhas e bifes de soja. Queria só que a balança parasse de lhe encher o saco para que pudesse novamente cair de boca numa iguaria bem temperada.

Confesso que tentei fazer a minha parte e por diversas vezes na nossa juventude forcei-o a uma dieta. Quando nossa carreira estava apenas engatinhando, nos reuníamos na casa de seus pais em Copacabana. Como eu morava na Vila da Penha e passava o dia na rua, chegava ali morrendo de fome, prudentemente minutos antes do jantar. Bussunda ainda não tinha aparecido, então, convidado por sua mãe, Helena, sentava-me à mesa com a família e traçava o bife que estava reservado pro gordo. Não me importava do que seria xingado quando ele chegasse, estava forrado, pronto pra falar merda noite a dentro.

Sua outra paixão era o futebol. Paixão não, tara mesmo. Era capaz de assistir a qualquer jogo, eu disse qualquer jogo!, de um grande clássico da Copa a uma pelada de garçons no Aterro do Flamengo. E assistia profissionalmente, fazendo anotações num caderninho em que fazia a avaliação dos jogadores. Na Alemanha nos mostrou seu caderninho, onde acompanhava a carreira de todos os integrantes de todas as seleções nos últimos anos, incluindo o número de vitórias e derrotas, o estado de saúde, as condições psicológicas do sujeito, os cartões recebidos, o salário, se era ou não era corno, enfim, tudo que pudesse afetar o desempenho do atleta na próxima partida. Também não dispensava uma peladinha e, por incrível que pareça, jogava bem, desafiando com sua proeminente barriga, as leis da lógica e da gravidade.

O cara era um moleque. Sua última perfomance foi no jogo do Brasil contra a Croácia, em que respondeu à provocação de um croata gritando “Sérvia” em sérvio, coisa que aprendeu assistindo a um jogo no meio da torcida daquele país. Ao gritar “Sir-biah! Sir-biah!”, levou o mané à loucura, que partiu pra cima da gente querendo declarar guerra ao Brasil. Por sorte nosso país fica bem longe dos Bálcãs.

Bussunda não acreditava que alguém pudesse se irritar se a piada fosse realmente boa. Discutimos, em 2006, a respeito da propaganda em que o Maradona aparecia vestido com a camisa da nossa seleção. Ele tinha certeza de que os argentinos não ligariam para a brincadeira porque a piada era ótima. Ele, se fosse argentino, certamente aplaudiria.

Esse espírito gozador arrebatou milhões de fãs e o cara não tinha sossego aonde fosse. Certa vez, chegou correndo ao banheiro do aeroporto Santos Dumont, num tremendo piriri. Ao se trancar num reservado, ouviu um admirador comentar com o amigo: “Tu não sabe quem tá cagando ali…” Foi preciso perder o vôo pra se livrar do mala.

Valeu, Bussunda!

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LOJA DE DISCOS

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A notícia da morte de B.B.King me levou a procurar na prateleira de casa um dos seus cd’s. Queria especificamente “Live at the County Jail”. Não sei se é o melhor, mas é dos que mais gosto. Não ouvia há tempos. Revirei tudo e não achei. Lembrei então que não tinha o cd. Tinha comprado o LP quando era bem novo. Ouvi até quase furar o vinil. Avisei ao meu filho que ia sair pra comprar o cd.

– Pra quê, se você pode baixar de graça? – perguntou ele, espantado.

Me toquei da mudança de hábitos. A vontade de ter o álbum do B.B.King comprovou nossa distância. Há anos meu filho não paga pra ouvir uma música. Ou põe numa rádio online ou baixa de um site. É bastante prático, sem dúvida. Ouço algo que me agrada, identifico no Shazam e procuro no itube, no dubmash ou em algum site que ainda não foi proibido. A música fica salva numa pasta. Acabo esquecendo seu nome e nunca mais a encontro. Eventualmente, quando ponho a biblioteca no random, ela reaparece. E, como veio, volta a submergir entre milhares de outras.

Lembrei de como eram as coisas, décadas atrás. Quando ia ao centro da cidade, entrava numa loja de discos sem saber ao certo o que estava procurando. Flanava pelos corredores, sem ter em vista nada especificamente. Apreciava as capas, até que era seduzido por uma delas. O artista gráfico podia ajudar muito o músico ou a banda a vender seu trabalho. Também podia derrubar. Afinal, uma capa mal feita levava o consumidor a rejeitar um possível bom disco.

Em casa, botava o LP na vitrola, como um ritual. Não tinha grana pra comprar vários ao mesmo tempo. Saboreava cada faixa como a última colherada de uma mousse de chocolate. A gente era obrigado a ouvir todo o disco e na ordem pensada pelo artista. Há os que veem isso como uma imposição autoritária, mas também pode ser a chance de conhecer a proposta do artista. Se não gostasse de determinada música, tinha que levantar a agulha e pousá-la na próxima. Mais fácil deixar rolar.

Hoje o julgamento é automático. Ao comprar música num loja eletrônica, temos a opção de só levar as que gostar. Para isso, cada faixa tem alguns segundos pra nos convencer. Senão, já era, nunca mais.

Quantas músicas no passado foram resgatadas do limbo, depois de terem sido odiadas pela primeira vez? Me lembro disso ter acontecido com um disco inteiro: Imagine, de John Lennon. Tinha onze anos quando entrei numa loja pra comprar um LP com a grana que havia economizado deixando de comer os lanches do recreio por quase um mês. Tinha ouvido falar naquele cara que era dos Beatles: É esse mesmo que vou levar, moço. Achei a capa meio estranha, aquela fumaceira mal dava pra ver o sujeito. Ao botar na vitrola, uma decepção, um sonzinho esquisito. Como não tinha dinheiro pra comprar outro, insisti. Aos poucos, fui entrando na onda. Tempos mais tarde, aquele era um dos meus preferidos. Se fosse hoje, teria deletado tudo.

Bom, agora chega. Vou ouvir meu cd do B.B.King. Fui!

BBKING

 

 

 

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ABAIXO A DENTADURA!

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–       Nunca serei um general de pijamas!

Seu Abujamra, um coronel reformado do exército passava o dia no bar da esquina na Vila da Penha contando causos de quando era o fodão da Barão de Mesquita. Realmente não poderia ser um general de pijamas. Além de ser apenas um coronel, preferia usar um surrado uniforme Adidas.

O coronel Abujamra não esteve no Vietnã, nem em Monte Castelo, muito menos na guerra do Paraguai – devia estar gripado, pois idade pra isso ele tinha. Mas fazia questão de contar sua atuação na guerra contra o comunismo, onde o inimigo era solerte e insidioso. Ninguém tinha coragem de dizer que não sabia o que era isso, temiam ser mandados pro pau de arara. Detestava tudo que era de esquerda. Não falava com seu Almeida, o eletricista, que além de morar à sua esquerda, tinha votado no Jango. Também não frequentava o Suvaco de Cobra, um bar de chorinho que teve seus quinze minutos de fama. O motivo: o bar ficava na rua Francisco Enes, uma ladeira da Penha conhecida como “Montanha Russa”, devido à aglomeração de operários. Ali, nas eleições de 78, podiam-se ler pichações do tipo “Prestes indica”, assinalando os candidatos a deputado ligados ao PCB. Não me lembro se algum deles se elegeu.

Abujamra se gabava de participar de sessões de tortura nos áureos tempos da Longa Noite.

–       Detesto comunistas,  um bando de raquíticos, fumantes de óculos fundo de garrafa, com aquela cara de quem não pega ninguém…Quando eu chegava, avisava logo que não suportava mentira, em seguida dizia: vamos começar pelo caderno B. Ou seja, perguntas de cultura. Queria saber quem gostava do Chico Buarque, do Gonzaguinha, do Geraldo Vandré, aqueles subversivos que só fizeram sucesso às nossas custas. Se o sujeito confessava que era fã do Vandré,  eu falava: “Pra não dizer que não falei de flores”, essa eu conheço. Agora cite-me outra canção dele. Normalmente não sabiam. Eu começava: Você está me escondendo alguma coisa! Por quê? O sujeito se desesperava: “Eu não sei, eu não sei!” Não é fã? Então, abre o bico! Outra música do Geraldo Vandré, anda! Fala! – Gostava de ver o desespero na cara do pessoal da canhota. Ra-ra-ra-ra! – a gargalhada antecedia a baforada na bombinha de asma.

 

Passada a euforia, Abujamra baixava a crista. Dizia-se magoado com a esquerda. Seu nome não apareceu em nenhum livro sobre a ditadura. Não foi denunciado por ninguém. Nunca houve um parente de desaparecido ou de preso político que citasse seu nome. “São uns ingratos! Depois de tudo que fiz por eles…Venderam livros, fizeram filmes, ficaram ricos, graças a mim. Onde está o reconhecimento?” – lamentava ele. Tinha inveja do Newton Cruz, do Geisel, do Médici. Gostaria de ser odiado pelos esquerdistas. Mas ninguém tinha ideia da sua existência.

Até hoje não se sabe se o coronel Abujamra realmente foi um torturador ou se era apenas um milico aposentado querendo chamar atenção das viúvas conservadoras mais fogosas do bairro. E dava certo. Ao menos com a dona Alzira da avenida Meriti, e com a dona Zileide, a costureira do Largo do Bicão.

 

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MOMENTO HISTÓRICO

    de pé: NILSON DIAS, leo russo, zeca marques, eu, JAIR FURACÃO. sentados: AMARILDO,PC CAJU, ZAGALLO, ROBERTO MIRANDA

de pé: NILSON DIAS, leo russo, zeca marques, eu, JAIR FURACÃO. sentados: AMARILDO,PC CAJU, ZAGALLO, ROBERTO MIRANDA

Era pra ser um encontro de torcedores pra ver a volta do Fogão à Liberta. Cá entre nós, nem isso era. Estamos ainda na pré-Libertadores e o Deportivo de Quito é o nosso Enem. Mas quando temos pouco o que comemorar, tudo é motivo. Ao invés de roer minhas unhas no sofá de casa, aceitei o convite pra acompanhar o jogo numa churrascaria. Logo pensei: boa! Assim posso encher a cara e ficar tão alto quanto a cidade de Quito. Porque careta não ia dar pra pra encarar.

Ao chegar ao bat local, a coisa mudou de figura. Um salão à parte reunia vários coroas partilhando chopes, picanhas e a paixão pelo Bota. Mas não eram quaisquer coroas. Alguns conhecia bem: Furacão, por conta de sua Fábrica de Talentos, em Manguinhos, que fiz questão de visitar. PC Caju já esteve na minha casa contando causos do seus áureos tempos. Zagallo tinha o mesmo alfaiate que o meu pai. E tive a alegria de jogar uma pelada ao lado do Nilson Dias, numa preliminar do Engenhão. A outros fui apresentado ali. Amarildo, Roberto Miranda, Nei Conceição… Não acreditei que estava cercado de ídolos que acompanhei garoto das arquibancadas – Amarildo, só no Canal 100.

Estávamos numa grande mesa em formato de U, junto com figuraças como Stepan Nercessian, o sambista Leo Russo (quem me pôs nessa fita) e o radialista Zeca Marques. A bola rolava quadrada na tela da tevê. Enfrentávamos uma equipe fraca em que o adversário mais perigoso era altitude. Perdemos o holandês Seedorf, mas temos agora um treinador Húngaro, uma troca desigual. Este, preocupado com o poder ofensivo dos equatorianos, armou um esquema com três cabeças de área e apenas um atacante – um Tanque que deu pouquíssimos tiros.

O time sem padrão de jogo – tenho fé que vai melhorar – nada fazia pra atrair nossa atenção. Não consegui tirar os olhos da plateia. À minha frente estavam PC Caju, Roberto Miranda e Jairzinho – o ataque do meu time de botão! Ali estavam alguns dos nomes que fizeram o Brasil conquistar a fama de melhor futebol do mundo. Os históricos Amarildo e Zagallo fizeram parte da geração que, segundo Nelson Rodrigues, acabou com o complexo de vira-latas do brasileiro. O citado ataque foi a glória dos nosso anos 60 e ainda trouxeram o tri de Guadalajara. Nei e Nilson foram o alívio dos torcedores em períodos difíceis.

No final, vi de relance que perdemos o jogo. Minha vontade era descolar uma máquina do tempo pra botar aquela turma em campo de novo. Até a próxima quarta não vou achar uma. Tudo bem. No Maraca podemos ir à forra, mesmo sem esses mitos. Mas não foi isso que me veio à cabeça quando cheguei em casa. Pela primeira vez assistir a uma derrota do meu time não tinha por que me aborrecer. Aqueles imortais fizeram a minha noite.

São esses ídolos, entre tantos outros, que me fazem ter orgulho de torcer pelo Botafogo. E ninguém cala…

 

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NA TERRA DE MANDELA

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Na primeira vez em que estive na África do Sul faltavam dez dias pra eleição do Mandela. Era 1994. Fomos gravar um especial pro Casseta & Planeta, Urgente! O país estava querendo limpar sua barra e aumentar o fluxo de turistas, a gente tava querendo viajar pra fazer piadas. Eu e Hubert fomos escalados pra uma série de matérias, a principal delas, um safári, em que Hubert era o nativo e eu, o homem branco.

Era uma situação complicada. Havia uma tensão no ar. O apartheid tinha acabado no papel, mas na prática as coisas não eram assim tão harmônicas. Já no aeroporto notamos que a miscigenação ia custar a vingar por ali. Já era possível ver etnias diversas no saguão, mas cada uma no seu quadrado. Se num banco sentasse um branco, só brancos sentavam ao lado. O mesmo no caso de negros, indianos, judeus… Johannesburgo aprendendo a ser multicultural. Nossa equipe era a única mesclada, tinha branco, preto, árabe andando juntos. Difícil era escolher um restaurante ou barzinho. Entrávamos num, só víamos africâners, eu não me sentia à vontade. Num outro, só negão, era a vez dos outros ficarem desconfortáveis. O racismo era geral, sem discriminação.

A elite andava assustada com o que podia vir pela frente. Muitos já estavam de mudança para a Holanda ou qualquer outro país da Europa. Não seria surpresa pra ninguém se a África do Sul mergulhasse numa guerra civil. E se a negada resolvesse ir à forra, depois de séculos de opressão?

Quem estava comandando as mudanças era um cara que passou 27 anos preso em condições precárias. O mundo deu sorte, Mandela era superior à unanimidade e preferia batalhar pacificamente a urrar por vingança. E olha que teria muito mais motivo pra reagir com ódio contra seus opressores do que qualquer black bloc que toma seu Toddynho na casa da mamãe antes de sair pra apedrejar bancos e saquear lojas.

Madiba (que deve significar “Pelé”em xhosa, sua língua materna) tinha outros planos. Saiu da prisão de Roben Island pra ser o primeiro presidente negro em um país com o regime mais racista do planeta. Cinco anos antes seria algo tão viável quanto elegerem um palmeirense para a presidência da Gaviões da Fiel.

Mandela aturou 27 anos de maus tratos, trabalhos pesados e humilhações num fétido presídio. Conquistou a liberdade e voltou pra casa. Tomou conhecimento das falcatruas, picaretagens e chifradas da mulher, Winnie Mandela, e não resistiu mais de seis anos àquele casamento. “Aquilo sim era uma tortura!” – declarou o mito sul africano tempos depois.

As evidências da história estavam bastante presentes. Não havia transporte coletivo. Nas rodovias circulavam os carros da minoria branca, enquanto o acostamento era usado pelos negros que cruzavam a pé distâncias de até 50 quilômetros de suas tribos até o trabalho. Os hotéis eram territórios onde só víamos turistas europeus.

Vivi um episódio inesquecível no Mala Mala Game Reserve, um resort de luxo onde nos hospedamos. No intervalo entre as gravações, pus uma sunga e fui dar um mergulho na piscina. Bastou dar as primeiras braçadas pros branquelos gringos saírem de fininho da água. Eu era o único negro que andava pelo hotel sem empunhar uma bandeja ou fantasiado de zulu. Talvez tenham ido reclamar com a gerência. Hoje certamente seria diferente. Mandela pode não ter acabado com o racismo na África do Sul, mas obrigou os racistas a enfiar suas opiniões no… deixa pra lá, vamos manter o espírito conciliador.

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ONDE VOCÊ ESTAVA NO 11 DE SETEMBRO?

11 de setembro é o dia do mundo inteiro parar para escrever a redação “Onde você estava no 11 de setembro?”. O tema superou o batido “Minhas férias adoráveis”. Todos se consideram parte integrante da história e,mesmo não estando em Nova Iorque em 2001, todos são testemunhas oculares do “dia em que mudou o mundo” ou do “dia em que a América nunca mais foi a mesma”. Bastava estar assistindo tv.

Ninguém perguntou, ninguém quer saber, mas vou escrever mesmo assim porque tô de bobeira esperando a torradeira liberar meu pão. Naquela terça-feira estava me preparando pra ir para o Projac quando minha mulher me ligou. No carro ouviu a CBN anunciar que um piloto desastrado errou a rota e bateu numa das torres do WTC. Imediatamente liguei a tv pra ver que milionário idiota e bêbado resolveu passear por Nova Iorque no seu jatinho e causou o acidente.

Não era um jatinho, não era um milionário bêbado e não era um acidente. Enquanto as hipóteses eram chutadas, assistia a tudo, junto com desocupados do planeta que se postaram em frente às tevês da vitrine do Ponto Frio. Foi o primeiro fato histórico que vi acontecer. Já tinha perdido a descoberta do Brasil, o suicídio do Getúlio, o assassinato de John Kennedy, mas agora eu tava ligado.

Fui para o Projac gravar algumas cenas do Casseta & Planeta, Urgente! Àquela altura era impossível entrar com uma atualidade no programa que já estava pronto e editado. Acompanhamos as notícias um tanto atônitos, sem nos darmos conta da dimensão dos fatos.

Na quarta-feira, aquele foi o tema da nossa reunião. Bolamos vários quadros zoando o atentado para exibir na terça seguinte. Alguém mais sensato que nós embarreirou as piadas, argumentando que aquilo ainda teria uma grande repercussão e que o público não reagiria bem à sacanagem com tantos cadáveres ainda desaparecidos sob os escombros. Achamos absurdo na hora, depois vimos que escapamos de um linchamento mundial – ainda não existia a moda de falar mal de qualquer coisa no twitter, aliás, ainda nem existia twitter.

Pouco depois, os noticiários perguntavam: “Onde está você, Osama Bin Laden?”, Criamos nosa hipótese. Osama estava escondido numa favela carioca, amasiado com a mulata Jurema. Incógnito, tinha uma vida pacata no morro, tomando uma cervejinha, jogando seu videogame e revendo imagens do seu grande feito. Quando Obama foi eleito, descobrimos que Jurema era sua prima, com quem tinha um romance secreto. Osama era corno de Obama!

No ano passado, porém, Sacha Baron Cohen, o famoso Borat, revelou em seu novo filme, “O Ditador”, que não foi bem assim.  Na realidade, os americanos mataram um sósia do Osama. O verdadeiro está malocado na mansão de Aladeen, o ditador de Wadija, um pequeno país encravado no Oriente Médio.

Agora eu me pergunto: quanto tempo levará para essa versão sair das telas de cinema e chegar ao noticiário internacional? Talvez este seja o tema da redação do próximo 11 de setembro.

Opa! Minha torrada ficou pronta.

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À procura da tuitada perfeita

Twitter

– E aí, vamos ver o D2 lá no Circo Voador?

– Pô, não vai dar. Meu celular tá quebrado.

– Ah, e tua mãe não deixa você sair sem telefone…

– Não é isso. É que sem celular, não tenho como tuitar do show. Aí nem vale ir.

– Por quê?

– Se ninguém souber que eu fui, o que eu vou fazer lá?

– E quem precisa saber onde você está? Por acaso tá na condicional?

– Meus seguidores. Eles ficam ansiosos.

– Eles ou você?

– Os dois.

– Dois?

– É, meus dois seguidores.

– Dois seguidores? E quem são, tua mãe e quem mais?

– Um anônimo. Ele me segue e eu sigo ele.

– E quantos seguidores ele tem?

– Só um. Eu. Tô desconfiado de que é um famoso com perfil fake. Só tem um seguidor pra manter a privacidade.

– Mas pra manter a privacidade não seria melhor não ter twitter?

– Ou ter um perfil fake…

– E vai seguir só você por quê?

– Sei lá, esses famosos são cheios de manias estranhas.

– Peraí, tu vai perder o show do D2 no Circo porque não pode tuitar pra um seguidor? Vamos fazer o seguinte. Quando quiser tuitar, eu te empresto o meu celular.

– Fechado.

Chegando ao Circo.

– Me empresta teu celular?

– Toma.

Puxa rapidamente o aparelho da mão do amigo e digita, como um recém saído de uma crise de abstinência: “Chegando no circo. Mó muvuca! kkkkk”

– Cabô de tuitar? Então me devolve.

– Vamo fazer diferente: eu fico com teu celular, quando você precisar falar, te empresto.

– Porra, vê se não detona toda a bateria!

– Não tem bateria extra? Que vacilo…

O show começa. O tuiteiro baixa a cabeça e começa a teclar.

– Ei, você tá perdendo o show.

– Por isso que tô tuitando, ó: “Ainda não sei o que tô achando do show”.

– Mas seu seguidor precisa saber que você não sabe o que acha? Quer saber? Vou ali comprar uma cerveja. Tá a fim?

– E como eu seguro a lata? Não tenho três mãos, não!

O dono do celular toma a cerveja e volta.

– E aí?

– Hã?

– Vai ficar nessa a noite toda? Tá cheio de mina na área. Larga esse troço, vamo dar um rolé.

– E perder o show?

– Me dá o meu celular, deixa eu ver o que você tanto escreve aí… Ué, tu tá metendo o pau no show do D2?

– É o papo.

– Como “é o papo”? Vai dizer que não tá curtindo?

– Tô. Mas sabe como é twitter.  Se eu não falar mal, o cara me dá unfollow…

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