Prisão domiciliar

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Aquela quinta-feira não começou bem na minha área. Acordei com um insistente despertador: helicópteros zunindo sobre a cabeça. A diferença deles para os mosquitos é que são à prova de raquete elétrica. Levantei e me preparei para ir nadar. Quando pus a bike fora de casa, vi o burburinho. Meu vizinho, Carlos Nuzman, presidente do COB – Comitê Olímpico da Bandidagem, estava aceitando uma carona da Polícia Federal. No ato, pensei em chegar mais perto para acompanhar o noticiário sem precisar da Globo News. Mirei a multidão, subi na bike, forcei a primeira pedalada e em segundos estava no chão, com uma dor lancinante no quadril. Não entendi o que tinha acontecido. Vi apenas um pequeno arranhão na cintura, como aquela feridinha sem vergonha podia estar provocando tamanha dor. Pensei em guardar a bike e chamar um táxi para ir malhar – naquela altura, já tinha perdido o melhor da fofoca. Quando tentei me levantar, notei que a coisa foi pior do que imaginava.

Bem pior. Mais tarde, uma tomografia revelou que o problema tinha um nome impronunciável na frente de crianças, mesmo acompanhada dos pais: fratura da espinha ilíaca ântero-superior. Em português: quebrei a pontinha do osso da bacia e dói pra cacete! É o ponto onde o músculo que sustenta a perna se prende ao osso. Vou ficar ao menos 40 dias de molho, andando de muleta, subindo escadas feito uma múmia, sentando no carro e puxando a perna com as mãos. Ou seja, o melhor é ficar em casa, pensando na morte da bezerra. Ou escrevendo bobagens, como agora.

Quando o analgésico fez efeito, voltei a pensar no meu vizinho. Ele também vai ficar um bom tempo sem poder ir à academia. E a restaurantes, a cinemas, a livrarias, a padarias e a aeroportos. Naquela fatídica manhã, na mesma hora fomos cerceados da nossa liberdade. Enquanto minha dor foi no quadril, a dele foi no bolso. No momento, ele está recolhido numa cela. Eu já estou em prisão domiciliar. Mesmo que ele volte pra casa, vai levar um tempo como eu – sem poder vestir uma bermuda e passear no quarteirão. Eu, porque não posso andar muito, ele por não querer ostentar a tornozeleira eletrônica.

Em termos de esporte, meu ano acabou. Tchau maratonas aquáticas, treinos no mar, passeios de bike, caminhadas na orla. Mas em 2018 retomo tudo. Já ele, vai levar mais um tempo até praticar outro esporte que não o xadrez. Minha situação não é boa, mas não dá pra invejar a dele. Mesmo sabendo que vou ter que cumprir minha pena na íntegra. Não tem delação premiada que me livre dessa chatice.

Ah, sim, outra coisa: consultei um ortopedista e ele garantiu que meu caso não dá direito a um Habeas Corpus.

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Aquele abraço!

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Numa obra surpreendentemente bem-sucedida, o Rio transferiu a Apoteose do Sambódromo para o Maracanã. Impossível, nesse momento, descobrir algum elogio que não tenha sido usado nas trocentas de crônicas feitas sobre a Cerimônia de Abertura dos XXXI Jogos Olímpicos. Os cri-críticos tiveram que deletar seus artigos escritos de véspera catimbando a festa. Não tiveram do que falar mal. Não teve zika, não teve bomba. Teve Paulinho da Viola cantando o Hino Nacional. Podia parar por aí. Mas não. Zeca Pagodinho, Marcelo D2, Benjor, Gisele Bündchen… Efeitos incríveis, coreografias contando nossa história para o mundo, mostrando nossa música, nossos artistas famosos e anônimos, a alegria e o orgulho das arquibancadas.

O Rio, que vem sendo bombardeado de más notícias, deu uma respirada. Os problemas acabaram? A abertura da Olimpíada melhorou a saúde pública? Elevou o nível da educação? Tornou a cidade – e o país, diga-se de passagem – mais segura? Nenhum carioca que comemorou o êxito do evento acha que “seus problemas acabaram”. Mas é muito bom valorizarmos as ações positivas. Em meio a toda essa crise, temos algo do que nos orgulhar. Ainda mais quando o fiasco era esperado. É uma vitória do Rio, é uma vitória do Brasil. Três bilhões de pessoas acompanharam ao vivo a festa e viram um espetáculo maravilhoso, que teve de tudo, até as vaias para o Temer.

O desfile dos atletas é indispensável, mas é meio chatinho. Eles não têm culpa de serem tantos. Pelo menos, aprendemos algumas curiosidades. Tonga existe e é independente de Mironga e de Kaburetê. Lá o povo anda besuntado de óleo. Existe também um país chamado Kiribati, uma ilha do Pacífico onde a linha do fuso-horário é desviada – deve estar em obras.

Nesse sábado, a Olimpíada já acordou com força total. E a primeira medalha dos jogos foi no tiro. A primeira brasileira também foi no tiro. Nossa especialidade, a bala perdida, marcou presença e faturou a prata. Na porta da minha casa os ciclistas de estrada passaram voando. Os caras pedalaram 250 quilômetros! Ficaria cansado de fazer o percurso de carro. Passei a tarde na frente da tevê, praticando o revezamento de canais, passando por remo, vôlei de praia, tiro com arco, hóquei na grama, handebol, rúgbi…

Agora, tô partindo pro Parque Aquático pra ver ao vivo a natação.

Caraca! Esse negócio de olimpíada tá só começando e já tô mortão. Deviam exigir índice olímpico também pra quem quer assistir aos Jogos.

E pra quem não curte nada disso, aquele abraço!

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A OLIMPÍADA JÁ CHEGOU?

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Mas, já? Assim, tão rápido, de uma hora pra outra? Como assim, sem avisar nada?

As autoridades cariocas foram surpreendidas com a chegada dos Jogos Olímpicos. Acontece de quatro em quatro anos e há sete nos candidatamos e ganhamos o direito de sediar a maior festa mundial dos esportes. Fizemos como todos os políticos que querem se eleger para alguma coisa nesse país: mentimos adoidado. Prometemos coisas que sabemos impossíveis de cumprir. O maior exemplo deles é a despoluição da Baía de Guanabara. Toda vez que um governante quer descolar uma grana, manda um caô que vai transformar nossa poça imunda numa baía tão limpa que veremos do alto de um barco um fogão enferrujado no fundo do mar. E finge que não sabe que isso só seria possível com a instalação de redes de esgoto nos municípios e controle dos dejetos industriais nos rios, lagoas e praias.

Ao aceitar realizar uma olimpíada no Rio, o COI deveria saber com quem estava tratando. O comitê precisava entender melhor o espírito carioca. Aqui todo mundo é gente boa, todo mundo é brother, é parça, é braço. Mas não se pode levar a sério o que combinamos. Na praia, ao encontrar um velho conhecido, nos despedimos falando “a gente se fala!”. E nem anota o celular do amigo. Com a Olimpíada foi assim. “Beleza, pode deixar. A gente arma essa parada numa boa. Quer uma caipirinha?”

Mas esse pessoal do COI é muito estressado. Querem tudo certinho, tudo funcionando. Que caretice! Aqui as coisas não funcionam, mas a gente curte assim mesmo.

Outra coisa é essa história de prazo. Tá certo, combinaram que os Jogos seriam em 2016. Mas nós entendemos que seria “por volta de 2016”. Na certa houve falha de comunicação. Pra nós, 2016 pode ser 2017, 2018, até 2020… A gente sempre conta com um pequeno atraso quando marca um compromisso. Por que esse estresse agora?

Essas delegações apressadinhas chegaram muito antes de começarem as competições. Pra que isso? Se viessem com uns diazinhos de atraso, ninguém ia notar. Já experimentou chegar numa festa na hora marcada aqui no Rio? Vai pegar o anfitrião ainda no banho. É isso que está acontecendo. Resultado, vamos ter que correr pra arrumar tudo às pressas…

Esses gringos querem aplicar aqui a experiência acumulada 30 edições dos Jogos. Não é assim que a banda toca por aqui. De qualquer forma, relaxa, tudo vai dar certo. Quer outra caipirinha?

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UMA PALAVRINHA ESTÁ ACABANDO COM O PAÍS

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Ao contrário do povo brasileiro, nosso vocabulário é muito rico. São mais de 430 mil palavras. Um delas, porém, tem nos causado graves problemas. Não, não estou falando de “corrupção”. Não é substantivo, nem adjetivo. Trata-se de uma conjunção. A conjunção adversativa “mas“.

O país seria outro se ela não existisse. Senão, vejamos:

“Ele é um policial honesto, mas tem que achacar os cidadãos porque ganha muito pouco”.

Ou…

“É um partido que preza a ética, mas teve que desviar verba para financiar as campanhas eleitorais”.

Ou…

“Precisamos enxugar a máquina pública, mas tenho que dar um aumento pro funcionalismo pra governar em paz”.

Ainda…

“Sou a favor da Lei Seca, mas vou dar uma olhada no aplicativo porque tomei um porre e vou dirigir”.

Recentemente essa palavrinha dominou com força os jornais e as rodas de conversa. Bastava falar do estupro coletivo e lá estava ela.

“Trinta e três homens fizeram sexo com ela, mas foi consentido.”

“Foi estupro, sim, mas viu o shortinho que ela tava usando?”

“Foi estupro sim, mas ela ficou grávida aos 13 anos.”

“Foi estupro coletivo, mas não foram 33 homens de jeito nenhum!”

A conversa vai bem, até tropeçar no “mas”. Aí o papo muda de rumo e descamba. O sujeito que tinha uma opinião razoável resolve usar a conjunção e estraga tudo.

Por que não abolimos o “mas” da língua portuguesa? Temos muitas palavras, uma a menos não vai fazer falta. E a vida pode ficar bem melhor.

Esqueça o “mas“. O país agradece.

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CADÊ TODO MUNDO?

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17 de abril foi um dia histórico para os brasileiros. Pela primeira vez todos puderam ver com detalhes o nível da gentalha que nos representa. Sessão do Congresso é como espinha na bunda: só os mais íntimos podem ver, senão dá a maior vergonha.

Muitos não param de comemorar o aumento do desemprego na capital fuderal. Outros não param de chiar e gritar que não vai ter golpe. O fato é que Dilma, a quase futura ex-presidenta sapiens, agora está liberada pra dar suas pedaladas por Brasília à vontade, pois não tem mais que bater ponto no Palácio do Planalto.

Agora falta investigar a propina que a maioria dos deputados recebeu em tintura pra cabelos. Quem financiou o implante do Renan? Quantos litros de óleo de peroba o Eduardo Cunha depositou na Suíça? Falta denunciar o patrocínio de Viagra que o Temer cobra pra manter o casamento com a novinha. Falta saber por que o Bolsonaro nunca foi torturado na Praça dos Três Poderes. E por que Jean Wyllys não está na equipe brasileira de cuspe à distância na Olimpíada.

Mas nada está resolvido. Aliás, falta muito. Faltam muitos! E as empreiteiras já começaram a se organizar para construir mais cadeias superfaturadas. Precisamos botar muita gente em cana para que o Brasil tenha um faturo melhor.

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