MUDANDO PRA MELHOR

pedra

A prisão dos mensaleiros está mudando o país. Os políticos perceberam que vão ter que mudar seus hábitos. Ou param de roubar ou aprimoram seus métodos. Essa forma primária de atuar não vai mais colar. Negociar por telefone, receber propina em salas cheias de câmeras escondidas, esconder grana na cueca são procedimentos que fazem parte do nosso passado recente e, ao mesmo tempo, remoto.

Mas o legado do mensalão não para por aí. Os políticos encarcerados podem ser responsáveis por uma série de transformações da nossa sociedade.

Os primeiros a sentir as mudanças serão os outros presos. A comida do bandejão pode sofrer uma grande melhora, desde que sejam proibidas mordomias como as quentinhas vindas de restaurantes de luxo. Os novos hóspedes não iam aturar a gororoba e iam mexer seus pauzinhos pra mudar o cardápio.

Se algum corrupto passar mal, nem pensar em clínica particular! O nobre meliante deverá entrar na fila do SUS e aguardar sua vez, quando finalmente será atendido por um médico cubano. Em pouco tempo estarão lutando por melhores hospitais e por profissionais mais capacitados.

Na hora da transferência para outros presídios, nada de camburão exclusivo. Terão que ir para o ponto de ônibus em frente à penitenciária (acompanhados de um guardinha, claro) e pegar um coletivo, depois outro, depois outro, até chegar ao seu destino. Não é pelos vinte centavos! O Pizzaiolo que tá na Itália também deverá pegar um avião comum e sentar na última fileira da classe econômica, aquela em que o assento não recosta.

Se o sujeito está atrás das grades porque embolsou o seu, o meu, o nosso, além de pagar uma etapa, deveria devolver a grana. Portanto, nada de advogados de grife. Defensoria pública neles! Em pouco tempo as faculdades de Direito dariam um salto de qualidade.

E aqueles que apelam para a prisão domiciliar? Se a Suprema Corte considera justa a reivindicação, não há o que discutir. Porém, vamos rever o conceito de domicílio. Não pode ser o palacete nababesco bancado por nós. O excelentíssimo enclausurado terá que chamar de lar um casebre numa favela não pacificada e sem saneamento básico, como faz a grande massa dos seus ex-patrões. Nesse caso, nem uma tevê tela plana, já que o nome do condenado deverá ir direto pro Serasa. Tenho certeza de que iriam batalhar por moradias mais decentes pra todo mundo.

Enfim, o país pode avançar muito, basta saber usar o potencial desses distintos condenados.

 (ilustração: obra do artista plástico Raul Mourão)

PROCURE SABER!

–       Recebi a visita de um oficial de justiça hoje.

–       O que foi, atraso de pensão? Cuidado, isso dá cadeia, hein.

–       Nada disso. Estou sendo processado.

–       Por quem?

–       Por você!

–       Ah…é verdade.

–       Que historia é essa, Armandinho?

–       Cara, quero preservar a minha privacidade. Não posso permitir que minha biografia seja manchada por calúnias.

–       Que biografia, rapaz? Eu nem sou escritor!

–       Mas é fofoqueiro. E uma fofoca espalhada por aí pode causar um grande estrago na minha imagem. Você não tá acompanhando a discussão sobre as biografias não autorizadas?

–       E desde quando fofoca é literatura?

–       Literatura oral.

–       Armandinho, não fui eu que espalhei por aí que você é corno. O bairro inteiro tá falando.

–       Vou processar o bairro inteiro. E tenho o apoio do Roberto Carlos, do Caetano, do Gil e até do Francisco Bosco, aquele filho do João Bosco com o Aldir Blanc.

–       Que babaquice! Você tá maluco! Se ficar de viadagem, vai acabar perdendo todos os amigos.

–       Vai espalhar isso também? Entro com outro processo.

–       Porra, Armandinho, eu não tenho grana pra gastar com advogado. Vou ter que recorrer ao cara que tá te corneando. Afinal, a culpa disso tudo é dele, sem falar que ele é rico pra cacete?

–       Peraí! E quem é esse mauricinho?

–       Procure saber, Armandinho, procure saber!

QUEM É PRETO, QUEM É BRANCO NO BRASIL?

Quem é mais preta: Beyoncé, que é loura ou Anitta, que é funkeira?

O sistema de cotas para afrodescendentes no processo de seleção do Itamaraty botou carvão na fogueira. A discussão é complexa, já que o critério é a autodeclaração. Nas entrelinhas do edital não se fala que afrodescendentes mais escuros terão prioridade em relação a afrodescendentes mais claros.

Num país miscigenado esse critério sempre vai gerar confusão. Pode ajudar muitos negros, mas também pode provocar injustiças. Quem deveria ser mais favorecido, o filho do Pelé ou o filho do porteiro nordestino do prédio do Pelé? Por isso acho que as cotas sociais podem fazer mais sentido no Brasil.

Não nego que haja racismo, mas os mestiços ficam em situação cafusa, digo, difusa. Se o cara tem mãe preta e pai branco, pode se considerar negro? É obrigado a se considerar branco? Um país onde os brancos são os privilegiados é um atraso. Mas o avanço está onde a cor não pesa e não na inversão dos valores.

O Instituto Rio Branco se sentiu pressionado pela repercussão do candidato alvo de críticas, embora ele não seja assim tão alvo. Diante dessa polêmica, o  Itamaraty decidiu aperfeiçoar seu critério de seleção e fazer alguns testes complementares para verificar a negritude do candidato. Entrei pelo elevador de serviço, cheguei até a gráfica e consegui roubar a prova do próximo concurso. Aqui vão algumas perguntas:

1-    Você já levou dura da polícia?

a-    Sim.

b-    Não.

2-    Você sabe sambar?

a-    Sim.

b-    Não.

3-    Se ganhasse na sena acumulada, que carro você compraria ?

a-    Mercedes Benz prata.

b-    Camaro amarelo.

4-    Se você estivesse andando à noite numa rua escura, qual seria a reação de uma loura bem vestida vindo em direção oposta:

a-    mudaria de calçada com medo de ser assaltada.

b-    chegaria perto e passaria uma cantada, pois toda loura se amarra num negão.

Em caso de empate entre dois candidatos, ambos seriam submetidos ao teste do pente fino. Os dois viriam correndo em direção a um juiz que estaria segurando o pente na altura de suas cabeças. Se o sujeito passar pelo pente, está provado que é branco, pois tem cabelo liso. Se ficar no pente, o cabelo é crespo, portanto, afrodescendente legítimo. Afinal, segundo a banca examinadora, no Brasil, pior que o preconceito de cor é o preconceito de cabelo!

O SONHO DO DEPUTADO

picaretaCerta noite no presídio da Papuda, o deputado Natan Donladron trocou o terno pelo pijaminha xadrez e logo pegou no sono. Em pouco tempo, estava sonhando. Sonhou que tinha morrido – pelo menos em sonho ele pode nos dar uma alegria – e ficou cara a cara com o Todo Poderoso que, no caso, não era o Renan Calheiros.

 –       O Senhor me chamou?

–       Chamei.

–       Puxa. Obrigado. Eu não aguentava mais aquela vida. A Papuda é um inferno – me desculpe a palavra. Bom, mas isso são águas passadas. Graças a Deus, quer dizer, graças ao Senhor, eu fui perdoado.

–       Quem disse que tu foi perdoado?

–       Ninguém, mas como tô aqui, deduzi que…

–       Nada disso. Eu te chamei aqui pra te dar uma chamada.

–       Por quê, Senhor?

–       Depois daquele episódio lamentável, você se ajoelhou, levantou suas mãos algemadas, olhou pra mim aqui em cima e disse: “Obrigado, meu Deus!”

–       Eu tinha quer ser grato. Foi um milagre!

–       Grato a mim? Eu não votei em você não! Eu jamais ia dar força pra um escândalo daqueles. Agora, você se dirigindo a mim num momento como aquele é uma tentativa de queimar o meu filme. Foi demais! Aliás, já não suporto esse pessoal que põe adesivo nesses carros merdas “Foi Deus que me deu!” Eu não dei coisa nenhuma. Primeiro: por que daria um carro tão chinfrim a um filho meu? E segundo: por que daria pra um e não pra outro? Trato todo mundo igual, comigo não tem essa de favorecimento. Mesma coisa esses jogadores que apontam pra mim depois de um gol. Sou imparcial, nem tenho tempo pra acompanhar futebol. Me dá vontade de mandar um raio cada vez que alguém diz que Deus é Fiel. Não torço pra ninguém. Se fosse pra dar força pra algum time, seria pro São Cristóvão, São Caetano… e vê a situação deles. O próprio Santos, se mexesse meus pauzinhos segurava o Neymar até a Copa, pelo menos…Nem sei por que tô dando tanta conversa pra você. Chega, pode ir.

–       Pra onde? Ainda não me disseram qual a minha nuvem.

–       Que mané nuvem! Você tá dispensado. Pode voltar lá pra baixo.

–       Mas peraí, eu não morri?

–       Acaba de desmorrer.

–       Milagre! Milagre!

Sobressaltado, Donladron acorda.

–       Que susto! Acabei de ter um pesadelo que eu tinha morrido. Obrigado, Senhor, eu tô vivo! E com meu mandato intacto!

Seu companheiro de cela, o Coisa Ruim lhe dá uma situada.

–       Se eu fosse você, não me animava tanto assim. Acabei de ver no meu celular. Parece que vão anular aquela sessão.

–       Tá sonhando, rapá? Isso aqui é Brasil! É Brasil!

Enquanto isso, o povo, ressabiado, acompanha o noticiário ainda em dúvidas se um dia vai se livrar desse pesadelo.