AFINAL, A FINAL!

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Ainda não estou plenamente recuperado. O corpo doído,as unhas no sabugo, o coração no freezer do meu cardiologista – talvez amanhã possa fazer-lhe uma visita. Este é o resultado da batalha épica de sábado.

Botafogo entrou em campo em desvantagem, precisava de um gol para levar a disputa aos pênaltis, dois para chegar à final. Começamos em ritmo fulminante. Em vinte minutos, 2 x 0. Mas como nada com a gente é tão simples…

Um pênalti pôs o Flu de novo. Pênalti. Essa é a palavra da tarde. Foi repetida 21 vezes! Nem um jogo do Vasco tem tantas penalidades!

O primeiro tempo definiu o placar. O segundo foi apenas um longo intervalo para a verdadeira batalha daquele sábado. Dramático intervalo. A equipe alvinegra foi se desmantelando, jogadores contundidos, com cãimbras, se arrastando em campo, contando os minutos para a disputa decisiva.

Eis que chega o grande momento. A interminável sequência de penalidades. Poucas disperdiçadas. A vaga disputada palmo a palmo. Um erro a mais e…

A torutura dos torcedores levada ao extremo. Até o confronto dos que fizeram diferença. Os goleiros. Diego Cavalieri x Renan. Cavalieri, várias vezes convocado para a seleção. Renan, várias vezes substituto de Jefferson, nosso representante no escrete.

Os botafoguenses estavams tensos, lamentando a falta do seu titular. Mas Renan, naquela noite, na semana de São Jorge, era um cavalo. Recebeu o santo guerreiro e defensor. Segurou dois chutes e agora se via frente à frente ao seu correspondente do time de lá. Nunca antes na história do campeonato dois goleiros decidiram a vaga. (Se houve alguma vez, me ajudem nos comentários, não vou parar agora pra conferir o que diz o Google).

Diego Cavalieri é um craque. E como craque bateu seu pênalti. O detalhe infeliz (dependendo do ponto de vista) é que o craque que o inspirou foi Roberto Baggio, na final da Copa de 94. A bola entrou em órbita e hoje gira em torno do planeta, como um satélite perdido.

Renan toma distância. O juiz apita. Ele caminha para a bola e lembra que nunca treinou para aquele momento. Talvez tenha tido uma chance na infância. Perdeu e foi por isso condenado a jogar no gol o resto de sua vida. Estava a três, quatro passos da vingança. Bateu rasteiro. Bola num canto, Cavalieri no outro, arrancando irado um naco de grama do Niltão. Ainda teve tempo de ver Renan se ajoelhando e agradecendo aos céus. O Fogão estava na final.

Todo este suspense poderia ter sido evitado, se o regulamento não fosse tão lusitano. É a primeira vez em que o time que tem dois empates como vantagem, não avança no campeonato em caso de dois resultados iguais. Na soma dos dois jogos, temos um empate de 3 x 3. Mas isso não configura empate! Vai entender esse pessoal. Neste caso, ao menos a falta de lógica nos levou a um desfecho emocionante, mais do que talvez esse Estadual merecesse. Mas isso é Botafogo. As coisas nunca são tão simples.Sorria, você está na final!

Agora, respire fundo, tome um banho, cure as feridas e vá treinar. A guerra ainda não acabou. Domingo que vem temos o Vasco pela frente. E no outro também. Precisamos mais do que nunca deste título para provar que estamos vivos.

Pra cima deles, Fogão!

E ninguém cala…

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MAITÊ NO MARACA

Maitê prometeu ficar nua pelo Fogão. Isso, caso a gente volte para a série A do Brasileirão. Portanto, a promessa pode ser cumprida em dezembro. Pra ela ir se acostumando, levei-a ao Maraca. Marinheira de primeira viagem na nossa van, cometeu um erro grave: carregou um tricolor. Nunca antes na história isso tinha acontecido. O resultado, vocês conhecem: perdemos a primeira batalha. Claro que deu azar. Mas nada está perdido. Ainda temos chances, ainda mais se jogarmos reforçados pela ausência do Fred. Dessa vez, não vai ter nenhum “alemão” infiltrado. Se bem que o que dá azar mesmo, é jogar com ataque inoperante e com zaga que cochila e não mata a jogada.

O video acima é um trecho do programa Extra Ordinários, que foi ao ar em 12/4/2015.

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NÃO GANHAMOS NADA, MAS NOS DIVERTIMOS

13-04

Nem sempre um jogo de futebol é só um jogo de futebol. Neste sábado, Botafogo 0 x 1 Fluminense foi muito mais. Em termos de campeonato, tinha sua importância: foi o primeiro jogo das semifinais. O Botafogo, ao vencer a Taça Guanabara, conquistou o direito a dois empates para chegar à vaga nas finais. Estranho ganhar um turno e não estar na final. Por outro lado, também é estranho um campeonato que não é de turno único, mas não tem segundo turno. A regra é clara, Arnaldo? Sei lá, acho meio confusa. Mas, não é sobre isso que quero falar.

Durante a semana, uma campanha ganhou força. Maitê afirmou no programa ExtraOrdinários que ficaria nua, caso o Botafogo voltasse à série A no Brasileiro. A frase virou notícia em tudo que é canto. A torcida alvinegra ficou em polvorosas. Maitê se surpreendeu com a repercussão da brincadeira. E muita gente achou que a promessa tinha a ver com o campeonato estadual. Não tinha, mesmo assim, resolvemos esquentar a rodada.

Reunimos amigos que costumam ir juntos ao Maraca e convidamos Maitê pra ir com a gente. Nossa van ficou pequena para tanta gente que queria a companhia da musa. Acho que teve quem pensasse que ela fosse antecipar a promessa e ficaria pelada dentro da nossa van, a caminho do Maraca. O blogueiro Zé Fogareiro foi um dos agraciados com uma vaga junto à Maitê.

Brincamos, cantamos, bebemos, nos divertimos, como , aliás, deve ser o programa “uma tarde no Maraca”. Estávamos confiantes no Bota, apesar de recohecermos as limitações. A alegria era maior por conta de juntarmos os amigos que têm algo em comum – torcer pelo Fogão – e termos Maitê entre nós.

Ao chegarmos ao templo do futebol, todos se renderam ao charme da nossa musa. Os tricolores, que não tinham ninguém à altura para contrabalançar, correram para tirar fotos com ela. Tentamos blindá-la, dizendo que era exclusiva dos botafoguenses, mas não teve jeito. Todo mundo tirou uma selfie com a atriz – vestida!

Em campo, nossa euforia não foi correspondida. Não jogamos mal, mas um driblinho irresponsável do Jobson, um cochilo da defesa e o Flu saiu na frente. No segundo tempo, um pênalti bisonho do Gilberto, que lembrou o Giba do vôlei, e a vantagem foi ampliada. Na pressão, William Arão diminuiu pra nós com um belo gol. Mas ficou nisso. Perdemos o jogo e a vantagem. Agora, semana que vem, teremos que correr muito atrás dessa vaga na final.

Nessas condições, não há como voltar pra casa animado. Ainda temos chances. Pelo menos, o time lutou, e a guerra ainda não está perdida. Por outro lado, foi uma tarde divertida. Perdemos o jogo, mas não perdemos o bom humor. É sempre bom notar que, mesmo quando seu time não colabora, juntar amigos pra ver um jogo no Maraca é um programaço.

ANTES…

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DEPOIS…

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BORA VER UM JOGO NA ITÁLIA?

Sempre que viajo, um programa não pode faltar: assistir a uma partida de futebol no estádio local. Gosto de ver como se comporta a torcida, as instalações, a organização. Ah, sim, o nível do futebol em campo. Mas isso é um mero detalhe. Sentar numa arquibancada, independente de quem tá em campo, pra mim já é diversão garantida.

Estava em Roma, soube que ia haver um jogo no Estádio Olímpico, fui conferir. Comprei com antecedência os ingressos pela internet. Imprimi em casa, não precisei ir a lugar nenhum validar. Eles acreditam em código de barra! Em certos aspectos, a Itália só é primeiro mundo por questões geográficas. A zona é muito parecida com a nossa. A entrada no estádio, o desrespeito aos lugares marcados, torcedores que não sentam um minuto…Estava com meu filho pequeno, que não conseguia ver o campo. Quando falei com uma senhora que estava à nossa frente, ela respondeu: “Quer sentar, vai pro teatro!” Fiquei na minha antes que ainda tomasse uma bandeirada nos cornos – lá não é proibido entrar com bandeira nos estádios. Não quis conferir se era proibido entrar com bandeira nos cornos de turista.

Mas chega de papo. Vem comigo assistir a Roma x Empoli.

 

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TeU ceNáriO é uMa BeleZa!

carnaval avenida

 

1

Rusevel estava ansioso para chegar ao Rio. Estava há cinco anos fora, jogando no futebol do Catar. Desde que se transferiu para o futebol árabe ainda não tinha voltado ao Brasil. Sonhava em dar um mergulho no mar, passear pelas areias da Barra da Tijuca. Não por saudade de areia, que isso não faltava no Oriente Médio. E sim pelas criaturas que circulam por ela, aquelas coisinhas formosas, bronzeadas, de corpinho sarado trabalhado nas academias e, o melhor, sem um resquício de burka, véu ou qualquer tecido cobrindo as partes. Apenas um micro biquíni que muitas vezes era preciso um grande esforço para conseguir enxergar. De olhos fechados, recostado na poltrona executiva,  imaginou-se passando entre as bundas dispostas nas cangas, voltadas para Meca. Morenas, negras, branquinhas, umas rechonchudas, outras sequinhas, algumas perfeitas, todas recebendo generosamente o sol escaldante. Rusevel armou sua barraca.

– Deseja comer alguma coisa, senhor? – perguntou a aeromoça.

– Sim… – quando percebeu que ela falava de refeição, decepcionou-se. Ajustou o assento, cobriu a ereção com o guardanapo e beliscou o peito de frango.

Rusevel não era bem um craque. Cabeça de área esforçado e vigoroso, não chegou a se destacar nos clubes brasileiros. Na realidade, não chegou a jogar profissionalmente por aqui. Peladeiro, frequentava os campos do Aterro do Flamengo, onde imaginava que um dia poderia surgir um olheiro que reconheceria seu talento. Durante quase dois anos sua rotina era essa: descia o morro do Juramento, andava até a estação do metrô de Vicente de Carvalho, viajava até o Catete, dali seguia a pé para os jardins projetados por Burle Marx. Na volta, passava no Árabe do Largo do Machado para forrar o estômago com uma esfiha e dois quibes antes de fazer o caminho de volta. O olheiro não apareceu, mas ganhou a simpatia do dono da lojinha  de quitutes árabes que acabou fazendo contato com um parente distante. Distante mesmo, seu primo morava na Síria e estava montando um clube de futebol, mesmo sem conhecer muito do assunto. Acabou se interessando em importar Rusevel, que topou a parada e assinou contrato pelo equivalente a algumas centenas de quibes por mês.

Em terra de cego, quem tem um olho é oftalmologista. Rusevel se criou. Mais tarde foi transferido para um outro clube, dessa vez ganhando um pouco mais de quibes, até que foi artilheiro do campeonato local. Um milionário do Catar arrebatou-lhe o passe e sua vida enfim se aprumou. Rusevel mantinha uma página no Orkut por onde se comunicava com amigos no Brasil. Seus antigos vizinhos  invejavam sua sorte. Quando não estava jogando ou treinando, passava as noites no hotel em que vivia hospedado. Para evitar que se metesse em confusão, o milionário o proibia de sair sozinho. Para ir a um shopping era acompanhado por um segurança, um árabe que tinha o hábito de andar de mãos dadas com ele. Rusevel nunca contou isso no Orkut.

Aos poucos foi rareando suas visitas ao shopping. Distraía-se na boate do hotel, um templo da sacanagem onde o islamismo não tinha vez. Ali encontrava os outros jogadores, entre eles dois brasileiros casados que apreciavam os costumes da região.

– Isso aqui é um paraíso, rapá! Onde já se viu um lugar que você passa a noite cercado de piranhas e a tua mulher não pode fazer nada?

– A patroa fica injuriada, mas não tem como dar uma incerta na gente. Eu ainda falo pra ela: “Pô, querida, como é que você vai desconfiar de mim? Tu acha que eu vou te trair com um trubufu desses? Por que você acha que elas andam todas cobertas ?”

– Outro dia, a Gislaine teve uma crise. Quebrou a casa toda porque eu estava cheirando a perfume e uísque. Inventei que esses árabes são esquisitos, além de se encharcarem de loção, gostam de abraçar a gente toda hora e ainda e obrigam os jogadores a beber contra a vontade, pra fazer companhia pra eles. E eu não posso perder esse contrato, né? – contava e ria ao mesmo tempo.

O tempo foi passando, a solidão aumentando. Rusevel que era solteiro, sentia falta de ter uma mulher que quebrasse tudo quando voltasse pra casa bêbado da putaria. Estava decidido a arrumar uma esposa quando viesse de férias ao Brasil.

2

A vontade de casar de Rusevel passou assim que se aprumou na cadeira de alumínio que o barraqueiro armou para ele sob o guarda-sol na praia da Barra.

– Vai um coquinho, doutor? Tá geladinho. – ofereceu o solícito barraqueiro.

– Vai catar coquinho, bróder! Me traz um suco de cevada no casco escuro. Meu médico me proibiu de beber esses bagulhos saudáveis durante as minhas férias.

Enquanto tirava a tampa de isopor e enchia o copinho de plástico, seus olhos acompanhavam o balé da mulata sem defeitos à sua frente. Tirou sua canga do corpo exibindo o par de silicones zerinho. Em seguida estendeu a peça na areia – a canga, não o silicone. Mergulhou de bruços no tecido colorido, deixando-o com uma vista panorâmica das costas, de uma abençoada escoliose que realçava magnificamente a bunda exuberante. Movimentos perfeitos e cadenciados, superior a qualquer dança do ventre dos países árabes.

“Peraí, essa mulata tá nua!” – pensou boquiaberto. “Nuinha!”- repetiu pra si mesmo. “Ah não…” – reparou melhor. De fato, a bunda estava toda ali exposta para ele e quem mais quisesse apreciar. Mas não de todo despida. Havia um estreito fio dental passando onde ele desejava estar. O fio ressurgia das profundezas e seguia até um minúsculo triângulo de lycra que cobria uns três dedos de pele acima das nádegas. Rusevel ficou intrigado. Caraca, a mulher deixa as coxas e a bunda toda de fora e se preocupa em esconder aquele trechinho do corpo ! O que será que tem ali embaixo? Será ali o tal do ponto G ? A essa altura, seu pau já estava em ponto de bala. Resolveu dar um mergulho pra esfriar as cabeças.

À noite, Rusevel reapareceu na quadra da Mocidade Unida da Vila Cosmos, uma pequena agremiação que lutava pela permanência no Grupo C das Escolas de Samba do Rio, uma espécie de quarta divisão do campeonato momesco. Uma escola humilde, celeiro de ritmistas, com pouca grana e pouca história no carnaval carioca. Mas era perto de Vicente de Carvalho, seu bairro de origem. Ali era certo encontrar amigos de infância, gente que não via há cinco anos, até mais. Alguns estavam irreconhecíveis. Castigados pelo tempo, pelos hectolitros de cerveja e Velho Barreiro, apresentavam avançada calvície e barrigas pornográficas. Mas era tudo gente boa, boa conversa, principalmente quando era ele quem bancava o malte da rapaziada.

– Você voltou na hora certa, Rusê – falou Serginho Capivara. – Parece que tu tava advinhando. Hoje é o dia D da escola.

– Dia D? Pensei que ela tava só grupo C…caiu de novo, é? – o jogador emendou a piadinha e meteu no ângulo. A galera riu e mandou descer mais uma.

Marquinho Cocô, que sempre foi meio lesado, não acompanhou a brincadeira e esclareceu:

– Não é isso não. É que hoje é que decide tudo aqui na escola. O samba-enredo, a rainha da bateria, o casal de mestre-sala e porta-bandeira…

– Tá, tá, Cocô. Rusevel já entendeu. Ele não é burro, é só cabeça de área… – sacaneou Tiquinho.

– E aí, tem samba bom na disputa? – fez-se um silêncio. Todo mundo olhou para Magriça, um coroa ossudo e cachaceiro, um dos compositores da escola.

– Meu craque, vou abrir o jogo com você. O melhor samba é o meu. – O pessoal murmurou, como quem concorda.  – Mas a política aqui dentro é braba. Eu precisava de um padrinho.

– Ih, Magriça, se o negócio é dinheiro, tô fora. Deixei minha carteira lá nas Arábias…

– Não é nada disso! Só precisava de uma força. Você é uma grife, sabe disso. – Rusevel se aprumou na cadeira. – Vou te fazer uma proposta.

– Pode propunhetar, meu caro.

– A parada é a seguinte. Quero que tu assine esse samba comigo. Comigo só não, tem mais quatro parceiros na jogada. sou eu, o Caneta, o Jairo Bode, o Bom Cabelo e o seu Antonio da padaria. Foi ele quem bancou a impressão dos prospectos pro pessoal cantar junto. E aí, topa?

– Peraí, Magriça. Eu nem ouvi esse samba. Tu acha que esse papo vai colar? Se me perguntarem o que eu fiz, o que eu vou dizer?

– Diz que tu fez o seguinte verso, olha aqui… – Magriça apontou no prospecto a pérola : “Ê ô ê ô alá lá ô”.

– Ê ô ê ô alá lá ô? – repetiu.

– Esse é facinho. Até um cabeça de área podia ter bolado. – falou Tiquinho.

– Tu cala a boca, moleque, ou eu te encho de porrada!

– Ô Tiquinho, não bota vinagre no meu azeite! – gritou Magriça irritado. – E então, Rusevel? Pensa bem, o enredo é “As Mil e Uma Noites”, você mora nas Arábias.

– No Catar.

– Tudo a mesma merda. Teu nome nos créditos vai dar moral pro meu samba. quer dizer, pro nosso samba.

– Tá legal, onde eu assino?

Magriça deu-lhe um abração, beijou-lhe a bochecha e saiu excitado pelo meio do salão.

Excitado mesmo ficou Rusevel quando viu subir as escadas para o camarote um par de pernas que lhe pareceu familiar. Firmou a vista e confirmou. Era a mulata da praia. Reconheceu pela tatuagem na batata da perna (só os jogadores possuem panturrilhas).  Estava escrito: “Gaia”, com uma letra um tanto garranchuda. Ainda assim, as pernas eram maravilhosas.

– Quem é aquela deusa ali?

– Vai dizer que não sabe! – respondeu Serginho Capivara – É a Janaína, filha da dona Dirce, a mãe de santo.

– Que princesa! – babou ele.

– Princesa não, rainha. Rainha da bateria. Quer dizer, pelo menos, até hoje.

– Ah, é ruim esse monumento perder o cargo. Só se for contratada por uma escola da primeira divisão.

– Ela já disse que não vai. – disse Capivara. – Só quer defender a escola do bairro. Não quer fazer carreira nisso. Estuda Administração na Estácio.

– Que desperdício…

3

O clima de alegria e descontração se desfez na quadra. No palco, um sujeito alto, calvo e barrigudo tomou o microfone.

– Quem é a figura? – perguntou Rusevel.

– Shhh! Cala a boca que tu chegou a pouco de fora! Esse aí é o seu Alberto, presidente da escola. Ele é o miliciano que acabou com o tráfico aqui no bairro.

– Senhoras e senhores, antes de dar início à escolha do  samba enredo que nossa escola vai defender este ano na avenida, eu quero apresentar a todos a Rainha de Bateria da Escola de Samba Mocidade Unida da Vila Cosmos para o carnaval de 2011.

A mulata ficou de pé no camarote superior. Vários homens desviaram seus olhos do palco para o parapeito, onde se destacava o peito de Janaína.

– É com muita honra que eu chamo ao palco… Luciene Peixoto! Uma salva de palmas para ela!

A plateia atônita viu surgir das cortinas surradas uma gordinha muito parecida com o seu Alberto. O aplique de cabelos afro mal disfarçava os traços pouco atraentes. Não fosse ela filha de um poderoso miliciano, diria que é uma tremenda mocreia. Silêncio. Dos cantos do salão, alguns sujeitos com pinta de policial puxaram aplausos. O público timidamente obedeceu. Luciene sorriu e agradeceu. Janaína desmaiou.

– Puta que o pariu! – exclamou Rusevel. – O cara acabou com o tráfico, agora quer acabar com o samba também!

O jogador correu para acudir a ex-rainha.

– Como você tá?

– Ahn? Qu-quem é você?

– Um amigo. Aceita uma água?

– Sim… mas quem é você?

– Um amigo de infância, você não me conhece.

– E como é que é meu amigo? Me dá licença, eu tô muito confusa…

– Calma, você precisa de um pouco de ar fresco. Vamos lá fora.

Ainda que desorientada, se apoiou nele e caminharam para a rua. Rusevel não ficou para ver seu primeiro samba ser classificado para o desfile.

– Que sacanagem aprontaram pra você!

– Esse Alberto é um filho da pu… Peraí, por que eu tô aqui na rua desabafando com um desconhecido? Quem é você, afinal de contas?

– Desculpe não ter me apresentado. É que eu já te conhecia. Te carreguei no colo quando você era pequenininha, Janaína. Eu sou o Rusevel. – disse, querendo carregá-la no colo, deitá-la no solo, fazê-la mulher num motelzinho barato, ouvindo o Wando.

– Rusevel, o jogador?

– Ele mesmo. Quer dizer, eu mesmo… Morava pertinho de você quando você…

– Rusevel, me desculpa mas eu não tô pra ficar de conversinha. Eu vou pra casa, minha cabeça tá estourando.

– As minhas também… – Ato falho.

– O quê?

– Nada. Entra no carro que eu te dou uma carona.

– Olha, eu vou aceitar porque não tô em condições de ir a pé. Mas não pense que eu sou dessas que não pode ver carro de jogador de futebol…

– Isso aqui nem é carro de jogador. É um quebra-galho alugado. Meu carro tá na garagem do hotel em Doha.

– Onde fica isso?

– Depois te explico. Agora é você quem tem que me explicar como chego na sua casa. As coisas mudaram um pouco aqui no bairro, tô meio perdido.

– Perdida tô eu! Como aquele cachorro foi fazer uma safadeza dessas comigo? Botar a baranga da filha no meu lugar! Ele sabia que esse era o meu último ano na escola, custava me deixar desfilar?

– E justo no meu samba…

– Teu samba?

– É, eu o Magriça tamos concorrendo e…

– Como assim? Você também compõe?

– É…eu mandava uma dicas pelo MSN, ele pegava na lan house, a gente fez uma parceria digital…

– Nossa, o Magriça! Não sabia que ele era tão moderno.

– Pois é.

Eles chegaram em frente ao pequeno prédio onde Janaína morava com a mãe.

-É aqui. Obrigada.

– Peraí. – ele segurou sua mão. – Só queria saber uma coisinha. O que é Gaia?

– Gaia é uma divindade grega, a mãe terra.  Você viu minha tatuagem?

– Sim, mas caraca, por que você tatuou esse bagulho na perna?

– É uma longa história. Um dia quando tiver tempo, te conto. Hoje não.

– Por favor…não vou dormir de curiosidade.

– Tá bom rapidinho. Na verdade, eu tinha tatuado Caio, meu ex-namorado. Mas aí a gente se separou.

– E você fez um remendo…

– Não fui eu. Foi o…o… – vamos deixar isso pra lá.

– Fala!

– Foi o Alberto. É, isso mesmo. A gente começou a ter um caso, ele mandou um tatuador da confiança dele lá em casa fazer esse serviço. Eu me apaixonei por ele, faria qualquer coisa que ele pedisse. Até que eu vi que ele não ia largar a mulher dele. Aí a gente abriu.

– Faz muito tempo isso?

– Foi ontem.

– Então tá explicado, né? Ele quis se vingar de você. Esse cara não merece, você é muita areia pro carrinho de mão daquele…

Rusevel não completou a frase. Puxou Janaína e tascou-lhe um beijo. Ela se assustou, resistiu um pouco, mas pensou que poderia ser uma boa vingança pra aquele babaca. Permitiu o beijo, a mão nos peitos siliconados e apalpou o volume que se formava na calça dele. Não era um pacote de Halls. A coisa tava esquentando quando ouviram uma batida vigorosa na janela.

– Que porra é essa? – vociferou o sujeito enorme.

– Caralho! – desesperou-se Rusevel.

– Eu sei, tô vendo.

Janaína soltou um grito.

– Calma! É um assalto. Vamos deixar ele levar tudo.

– Assalto nada. Esse é o Marreta, capanga do Alberto.

-Pe-peraí, não é nada disso que você tá pensando, meu chapa.

– Primeiro: eu não penso. Segundo: não sou teu chapa. E terceiro: o patrão não vai gostar nada de saber disso.

– E o que que o Alberto tem a ver com a minha vida? A gente não tá mais junto. – Janaína peitou.

– Isso a senhora desenrola com ele. Mas esse daí a gente mesmo resolve. Vamos capar esse escroto.

– O meu escroto? Tá doido!

4

Rusevel conseguiu escapar da faca. Negociou a sobrevivência do pissulim por vinte mil dólares e o embarque no dia seguinte para o Catar.

Nunca mais viu Janaína, que reatou com o miliciano e recuperou o posto de rainha da bateria.

E a gordinha Luciene? Deprimida, se trancou no quarto por seis meses, onde só fazia chorar e se encher de Cheesitos. Vinte e cinco quilos mais tarde, casou-se com Marreta.

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conto publicado na Playboy em fev/2011)

foto: ana quintella

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A Biografia Brasileira do Mick Jagger!

mick

O pessoal lá fora não está acostumado com o hábito tupiniquim de desautorizar a publicação de biografias não autorizadas. Por isso, Mick Jagger se surpreendeu quando entrou na Amazon e comprou a edição brasileira de “Mick – A Vida Louca e Selvagem de Jagger”, do escritor Christopher Andersen. Para evitar pobremas com a encrenqueira Luciana Ex-Quase-Jagger, a editora Subjetiva contratou o biógrafo Roberto Carlos para reescrever a obra, aliviando a história do rolling stone. Segundo o livro que acaba de ser lançado, Jagger só entrou pro rock’n’roll depois que foi gongado no Vaticano, onde sonhava seguir carreira de Papa. As outras carreiras foram omitidas. O rebolante pop star teve uma vida celibatária e só fez sexo para fins de reprodução. Seu maior hobby era pagar pensões milionárias. Mas isso também é mais um detalhe. O resto, se você quiser saber, vá a uma livraria e compre o seu exemplar. Mas corra, antes que o Rei ou a Luciana proíbam!

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