ATENÇÃO SENHORES PASSAGEIROS

Todos acomodados nos seus lugares. Cintos afivelados, aparelhos telefônicos desligados ou  fora da visão dos comissários de bordo. Atrás da cortina, as aeromoças batem “par ou ímpar” pra ver qual delas terá de se levantar e encenar os avisos de segurança.

A perdedora começa a fazer a mímica, enquanto sua colega despeja a lenga-lenga monocordicamente no microfone.

” Solicitamos a sua atenção para os procedimentos de segurança que serão apresentados neste momento. Durante a decolagem e o pouso , o encosto de sua poltrona deverá estar em posição vertical. Em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão automaticamente. Puxe uma delas, ajuste o elástico à cabeça e…”

Nesse momento, por trás da aeromoça que coreografa os avisos, sua colega abre a cortina e flagra os passageiros dispersos, sem dar a menor bola para elas.

– Ei, você aí, ô mocinha! – grita pelo microfone.

As pessoas se surpreendem e se entreolham.

– É, você mesmo! – aponta para uma passageira com um fone no ouvido.

– Eu?

-Você mesmo! O que eu acabei de falar?

– Bom, a senhora tava … tava falando as normas de segurança, né?

– Sim, mas que norma?

– É..é…era sobre não fumar?

– Não, eu ainda não cheguei lá.

– Bom…acho que era das saídas de emergência.

– Ah era? E onde ficam?

– Eu não ouvi direito…

– Claro, eu também não falei disso. E com esse i-phone no ouvido não tinha como ouvir nada mesmo. Aliás, nem ouviu que já era pra ter desligado esse troço?

A aeromoça que fazia a dança da segurança se aproxima.

– Me dá esse negócio aqui! (Ela arranca o fone violentamente)

– Ai, tá me machucando, sabia?

– Ah, não quer se machucar mas não presta atenção aos avisos de segurança. Sabia que se esse avião cair, você vai se machucar bem mais que isso?

– Olha aqui, o que é que está havendo com a senhora? Algum problema? – Um senhor sentado ao lado se intromete.

-Por enquanto não, mas se tiver problema, você tá ferrado,sabia? Você e toda essa cambada de passageiros que nunca presta atenção no que eu digo. A gente passa horas decorando esse troço. Fazemos teste, vários colegas são demitidos por não saberem essas normas. E de que adianta? Ninguém tá nem aí pro nosso trabalho! E depois ficam reclamando da educação do Brasil. Vocês não querem aprender nada, mesmo se estiverem correndo risco de vida!

– Peraí, dona! – levanta-se um passageiro – Vamos baixar essa bola! Não tem ninguém correndo risco de vida aqui, está tudo sob controle.

– Tem certeza? Você conhece o comandante dessa aeronave? O comandante Silveira é um merda, sabia? Levou pau três vezes e comprou o brevê!

Burburinho no avião.

– Isso é um absurdo! Como é que a companhia contrata um sujeito desses?

O piloto aparece:

– Ei, ei, que historia é essa que você tá inventando aí sobre mim? Só porque eu não te peguei lá em Cuiabá? Você é muito da mal amada mesmo!

– Não me pegou porque eu não quis! Tava completamente bêbado, dormiu no saguão do hotel!

– Ei, quem é que tá pilotando o avião?? – gritou um passageiro apavorado.

– Fica tranquilo, gordinho, tá no piloto automático – respondeu o piloto.

– Então estamos mais seguros assim. – respondeu a outra aeromoça.

– Ah, vocês tá mancomunada com essa aerovelha, é?  Então, tá. Tão vendo esse troço nas minhas costas? (Mostra para toda a cabine) Não é mochila não, é um pára-quedas. Fui!

O piloto tenta forçar a porta, mas é contido por um lutador de ultimate fighting que estava no voo.  Gritaria, desespero, alvoroço.

– Deixa de frescura e dirige esse troço até próximo aeroporto, onde eu vou te moer de porrada, ô viadinho!

O piloto reassume a aeronave, a contra-gosto. Os passageiros vibram. Quando tudo se acalma, a aeromoça retoma o microfone.

– Acho que agora todo mundo vai prestar atenção aos avisos de segurança. Esta aeronave possui duas saídas de emergência na frente…

Silêncio absoluto. Todos ouvem atentamente, alguns chegam a tomar nota.

10 COISAS QUE VOCÊ NÃO SABE SOBRE HOMENS CASADOS

1 – Homem casado não empresta o controle remoto

Não adianta pedir, implorar, fazer beicinho. O controle é dele. Afinal, é a única coisa que ele controla na casa, o resto é todo seu: a decoração, o cardápio das refeições, as empregadas, os filhos, o telefone e o marido. Portanto, não insista. Se quiser um controle remoto, compre outro pra você, mas nem pense em colocar pilhas!

2 –  Homem casado não lembra a data do aniversário de casamento

É inútil anotar na agenda dele, escrever no espelho do banheiro, pichar a parede do quarto. Ele vai esquecer mesmo assim. Ele lembra a escalação do Botafogo de 1967, lembra o dia em que tomou um porre com os amigos e entrou em coma alcoólica, lembra o dia de trocar os amortecedores do carro. Mas, devido a um defeito de fabricação, ele veio sem o neurônio que armazena a data mais importante da sua vida. E não adianta levar na autorizada, eles também não darão jeito.

3 – Homem casado só quer casar com você, não com sua mãe

Você é a cara da sua mãe, que por sinal é simpática, prestativa e ótima companhia. Ela tem 50 anos de casada e muitas dicas pra passar a um casal que está começando agora. Nesse caso, mande ela passar um e-mail. Nunca, em hipótese alguma, convide sua mãe para ficar uns dias debaixo do mesmo teto que vocês. Em poucas horas ela estará mandando nos dois. E ele estará louco pra se mandar.

4- Homem casado não sabe que toalha molhada molha

Assim como não sabe que a tampa do vaso não abaixa sozinha e que o prato sujo não sabe ir para a pia após o jantar, ele não imagina que toalha encharcada sobre a cama faz uma poça no colchão. E também não entende para que arrumar uma cama que vai ser desfeita logo mais à noite.

5- Homem casado prefere ficar em casa vendo futebol

Não existe programa melhor. Antigamente ele saía com você para ir ao teatro, te convidava para jantar fora, depois te levava para dançar. Mas tudo isso era só pra pegar você! Agora que casaram, você é que dançou. E não adianta marcar o programa para depois do futebol. Tem ainda os melhores momentos, os gols da rodada e todas as mesas redondas que ele perdeu quando vocês estavam namorando.

6- Homem casado adora ficar doente

Esse é o verdadeiro sexo frágil. Basta uma unha encravada e o sujeito cai de cama, fica gemendo, exigindo que a patroa fique ali do seu lado paparicando-o. Mas é só chamar o negão da farmácia para aplicar-lhe uma injeção que o sujeito logo fica sarado.

7- Homem casado já foi solteiro e teve namoradas

Não sei se devia estar te falando isso agora, mas esse cara que você está levando para o altar não nasceu quando vocês se conheceram. Ele teve outras namoradas e, o que é pior, talvez ainda se lembre do nome e de outros detalhes que podem escapar durante o sono após uma porranca.

8- Homem casado não é telepata

Por mais que você fique muda do seu lado, explodindo de raiva por dentro, poucos maridos têm o poder mediúnico de descobrir o que a mulher está sentindo. E o mais grave: quando ele lhe perguntar o que é que você tem e sua resposta for “nada”, ele vai acreditar.

9- Homem casado também olha pra bunda de mulher na rua

Ele não está fazendo uma comparação com o que tem em casa, também não necessariamente está avaliando se vale a investida. É uma reação natural e instintiva, ele não saberá explicar por que olhou. Mas se ele parar de olhar as bundas das mulheres na rua, verifique se ele parou de olhar também em casa. E passou a alugar filmes do tipo “Brokeback Mountain”.

10- Homem casado morre de medo de advogado

Marido que é marido não tem medo de barata, de rato, nem de filme de terror. Mas se o bicho pegar e ele começar a te encher a paciência, ameace chamar um advogado. O cara amansa na hora. Mesmo sendo péssimo em matemática, todo marido sabe fazer uma conta de dividir por dois.

TE AGARRA NAS CAGARRAS

Tinha quinze pra dezesseis anos quando soube o nome daquelas ilhas. Cheguei ali da Vila da Penha, os pés ainda sujos de barro, acompanhado de um amigo de colégio que morava na Tijuca. Isso mesmo, pra ir à praia em Ipanema pernoitava na casa desse meu amigo tijucano, pra ficar mais perto do mar. Nadava mal pacas, passei a infância fugindo das aulas de natação, das quais tinha um verdadeiro horror. A gente se sentava na areia e eu só entrava na água quando estava quase desidratando. Foi esse meu amigo quem me disse o nome daquelas ilhas, que eu pensava ser só uma. Ele sempre brincava, dizendo  “quando uma onda surgir atrás das Cagarras, pra onde você vai correr?” Ficava apavorado com essa hipótese e me imaginava correndo toda a avenida Brasil de volta pra casa.

Por conta dessa história, fazer uma travessia daquelas ilhas até a praia de Ipanema sempre teve contornos míticos. Não acreditava que alguém pudesse ter fôlego pra isso, muito menos que esse alguém pudesse ser eu. E não é que esse dia chegou?

Um bote nos leva até as ilhas, onde começará a aventura. À medida que o barco avançava mar adentro, eu me perguntava pra quê? Por quê? Eu tava bem na minha caminha, tava tranquilo  naquelas areias, o que ia fazer lá longe? Se estivesse num transatlântico afundando, tudo bem, faria todo sentido arriscar e sair nadando pra alcançar a praia. Mas e se você já está na areia? A resposta é a tal da superação. O ser humano, esse idiota que precisa se por à prova pra se convencer de que é capaz de desafiar sua força, seus limites, para alcançar seus objetivos.

Entendo, a travessia é uma metáfora da vida. Você sabe onde tudo começa e onde tudo vai dar, o que acontece entre um ponto e outro é um mistério, surpresas te aguardam e elas podem ser boas ou ruins. No final, acaba valendo a pena. Mas será isso mesmo? Pô, se é pra vivenciar essa filosofia barata, não seria mais fácil ler um livro de auto-ajuda? Não precisaria treinar nem acordar cedo.

O barco chega às Cagarras. A praia está bem longe, não se vê a areia. Impossível saber qual daquelas caixinhas de cimento é o Hotel Caesar Park, ponto da chegada. Os organizadores nos orientam. “Nadem mirando o Cristo!” Fico na dúvida se aquilo é uma dica de navegação ou um toque religioso. Mas logo vejo que o Corcovado fica alinhado com o ponto final da prova. É difícil acreditar que vou nadar tentando chegar ao Cristo Redentor! Mas é exatamente isso que começo a fazer. Oito boias demarcam o trajeto. É o que dizem, pois uma vez no mar, não vejo uma delas sequer. A sorte é que tenho um salva-vidas particular, um sujeito que nunca vi na vida em quem tenho que confiar cegamente.

A correnteza naquele trecho do oceano é bastante forte, de leste para oeste. Se nadar despreocupadamente posso atingir o litoral no Recreio dos Bandeirantes. Sou orientado pelo salva-vidas a mirar o Arpoador e acreditar nas aulas de Física: a resultante será uma linha reta. Então tá. Agora a questão é o ritmo. Nadar calmamente e chegar em terra três dias depois ou dar braçadas vigorosas e morrer em quinze minutos? Como estou de férias, opto pro chegar em três dias.

No decorrer da travessia vou adquirindo confiança e forçando a barra. Pra vencer a correnteza e não chegar na Barra. Em pouco tempo todas aquelas pessoas que começaram a prova ao meu lado desaparecem. Fico em dúvida se houve um afogamento coletivo ou se todo mundo já chegou em Ipanema e estão me esperando. Pelo menos o salva-vidas não me abandonou. Sem trocar uma palavra estamos cada vez mais íntimos. Sem nenhum contato físico, claro.

Quando menos espero, começo a ver os prédios. Dali a pouco, a areia da praia. Fico animado. Intensifico as braçadas. Me aproximo da chegada, ouço ao longe a música do evento. Imagino quantos moradores são acordados com aquela zoeira toda. Gente que paga uma fortuna de IPTU pra ser perturbada no domingo por um locutor animadão e uma música em altos decibéis. O desespero desse pessoal é o nosso alívio. Sonho com a hora em que vou tomar um caldo de uma onda que vai me jogar no pórtico de chegada. Não é preciso sonhar muito, a onda logo chega, me encaixota  e me despacha para a areia. Enfim, de volta ao ponto de onde nunca devia ter saído.

Com a respiração ofegante faço uma profunda reflexão. Que lição posso tirar dessa experiência? A resposta é só uma: agora estou pronto pra seguir a vida me achando, tirando com a cara de geral. Você já nadou das Cagarras até Ipanema? Não? Eu já!

VIAGEM AO PLANETA ZECA PAGODINHO

Solidariedade não é moda nem novidade na vida dessa figura que, além de grande sambista, sempre estendeu sua mão amiga, tanto pra dar uma força aos amigos quanto pra pegar uma cerveja geladinha.Este texto foi escrito em 2009, muito antes de toda a tragédia de Xerém. Achei oportuno mostrar pra vocês.

*    *    *

 O tempo chuvoso me deu vontade de visitar o Zeca Pagodinho. Minha mulher liberou, desde que eu não voltasse bêbado e inutilizado. E qual a graça de visitar o Zeca sem voltar pra casa bêbado e inutilizado? Preferi ficar na minha e dividir com vocês algumas passagens desta figuraça.

Conheci o Zeca na Vila Mimosa, um prostíbulo famoso no Rio. Antes que vocês tirem conclusões precipitadas, vou logo explicando. Queríamos fazer uma entrevista para a revista Casseta Popular com o sambista que estava começando a fazer sucesso. Ele marcou nosso encontro lá. Na época era o seu segundo lar . “Aqui todo mundo me conhece, ninguém fica me pedindo autógrafos”. Além disso, era um bom lugar para encontrar parceiros de samba, gente da malandragem que não quer ser encontrada. Zeca explicou que ir à Vila Mimosa não tem necessariamente a ver com sacanagem. É um ambiente familiar, segundo ele, que já levou até a sogra lá.

Mas é no seu sítio em Xerém que Zeca Pagodinho costuma receber os amigos. Circular com ele pelo bairro, dar um pulo na feira, jogar conversa fora na esquina é muito mais divertido que ir à Disney. Certa vez eu e Hubert chegamos ao sítio pra fazer uma matéria para o programa. É boêmio, mas acorda cedo. Fomos logo convidados a dar uma passada na banca de jornal.

No portão, uma fila de vizinhos. Vieram contando com a distribuição de cestas básicas que rola quando ele tá na área. É o Bolsa-Pagodinho, mais eficiente que qualquer projeto social do governo.

– Hoje não tem nada, não. Volta semana que vem que hoje eu tô com os cassetas.

Ele vai passando pela cidade cumprimentando todo mundo. Alguns aproveitam pra tentar descolar um qualquer. Zeca vai desfiando pequenas biografias pelo caminho.

– Aquele ali cortou o saco.

– Como assim, Zeca? – perguntamos espantados.

– Ele andava meio perdido. Foi à igreja e o pastor mandou ele cortar o sexo. Não teve dúvida: tirou o saco fora. Acho que ele não entendeu a mensagem.

Estamos quase chegando à feira e uma figura pedala distraidamente sua bicicleta. Acaba atropelando o carro de Zeca que vinha em baixa velocidade.Vemos duas pernas deslizando pelo pára-brisa. O carro sofre um pequeno arranhão, assim como o ciclista. Mais tarde ele aparece na casa do Zeca e recebe uma cesta básica como indenização.

– O cara atropela meu carro, me dá um preju e ainda ganha uma cesta básica!

Mais tarde,  o aroma do leitão que está no forno começa a perfumar o ambiente. Começam a chegar os compositores. Zeca reúne uma rapaziada da pesada, a nata do samba carioca está ali. Aparecem  Xande, do grupo Revelação, o maestro Rildo Hora, Paulão 7 Cordas, Nilze Carvalho, Barbeirinho do Jacarezinho, Luís Grande, Marquinho Diniz,  Alamir… Gente que criou sucessos como “Dona Esponja”, “Tá ruim mas tá bom”,”Exaustino”, “Vida da Gente” e uma pá de outras obras-primas que chegam às rádios na voz de Zeca Pagodinho.

Tava na época do vestibular do Zeca. Todo mundo fica ouriçado, tentando emplacar mais um samba no seu próximo cd. Ninguém tá ali pra fazer feio. “É como diz o ditado: Cachorro não mija em fogueira” – filosofa o homem.  Eu e Hubert saímos no lucro, ouvimos na fonte várias músicas sensacionais, algumas delas estão no seu último cd, “Uma Prova de Amor”.

Várias cervejas depois, o leitão não passava de uma carcaça totalmente destroçada. Perda Total.

*      *     *

Anoiteceu, o quintal ficou às escuras, Mônica, sua mulher, apareceu:

– Ô Zeca, por que vocês estão aí nesse breu?

– É que lâmpada queimou.

– Então troca!

– Eu moro aqui, não trabalho aqui. – rebateu de improviso o bamba do partido alto.

Nunca mais esqueci essa frase. E de vez em quando uso aqui em casa. Sábias palavras!

O CASSETA & PLANETA FOI FUNDO!

CASSETA & PLANETA VAI FUNDO from Ricardo de Barros on Vimeo.

21 de dezembro de 2012. O planeta não, mas o Casseta & Planeta Vai Fundo acabou. O vigésimo episódio temático é justamente sobre o fim do mundo. Encerramos assim um ciclo vitorioso. Em 1992 ia ao ar o primeiro Casseta & Planeta, Urgente! Inicialmente era mensal. Em 1998, o programa tornou-se semanal e assim foi até 2010. Em 2011, demos uma parada e voltamos em duas temporadas em 2012. Foram quase 600 episódios no ar, liderando a audiência em todos estes anos. Divertimos muita gente, nos divertimos muito também. Trabalhamos com uma pá de pessoas talentosas em todas as áreas, na direção, na caracterização, na arte, edição, fotografia, direção musical, cenografia, figurino, produção, efeitos especiais, etc etc etc… Com essa galera fizemos quadros memoráveis, personagens esporrantes, programas históricos, enfim demos o nosso recado muito bem dado, por sinal.

Agora, como diz Zeca Pagodinho, é vida que segue. Aproveitando a carona do calendário Maia, vamos dar início a um novo ciclo. E daqui a pouco estaremos apresentando novidades na telinha. Por enquanto, vocês podem acompanhar o que andamos aprontando pelo site do grupo casseta.com.br.

Nosso diretor, Ricardo de Barros, sempre registrava os bastidores das gravações deste ano com seu celular. Agora juntou tudo, editou e preparou este video que dá uma pequena ideia  do quanto foi bacana fazer este programa. Deixo aqui meu agradecimento a todos que fizeram parte desta historia. Valeu, Ricardo, por essa homenagem!

 

O TUBARÃO HUMANO

Esse cara aí do meio é o nadador australiano Trent Grimsey, que conheci no posto 6, através do Luiz Lima. Trent veio disputar – e ganhar – o desafio Rei do Mar, uma prova que consiste em 5 voltas  de 850 metros no mar e 50 metros na areia. Veio defender o tridente que havia faturado no ano passado.

Mas não é só apenas isso. Sua camisa tem impresso 6:55. Não é a hora que ele acorda todo dia para nadar. É seu tempo na travessia do Canal da Mancha. O sujeito nadou 34 quilômetros em impressionantes seis horas e cinquenta e cinco minutos!

Fiquei atônito com os números. O cara manteve uma velocidade média de 4,92 km/h durante quase sete horas. Tenho dúvidas se conseguiria acompanhá-lo num jet ski. Tentei fazer um paralelo com meus números. Pelo resultado da última etapa deste ano do Rei e Rainha do Mar – categoria prego – fiz 3 quilômetros em 1 hora, meu recorde! Ou seja, mantive a média de 3 km/h. O que significariam 11horas e 18 minutos de natação, quase o dobro do tempo do Trent. Só que tem um detalhe: ele fez toda a prova de uma só vez, claro. Eu só manteria minha alta performance se nadasse três quilômetros por dia.

Portanto, precisaria de 11 dias e mais um pouquinho pra sair da Inglaterra e chegar à França. É… no meu caso, melhor economizar uma graninha e pagar uma passagem de avião.. E, olha, considerando o deslocamento, praia-aeroporto-praia mais o tempo de voo, acho que Trent Grimsey chegaria na frente…

PRIVILÉGIO

Sou um caso raro. Enquanto botafoguense, tenho algo a comemorar neste fim de ano. Tive o privilégio de conhecer nosso craque Seedorf num jantar para pouquíssimos torcedores na casa de um amigo. Ele deve estar pegando a telefonista do clube e assim conseguiu o contato do negão. Quando anunciou que faria o encontro, viu uma multidão se aglomerar na portaria do seu prédio. Eram fanáticos que o ameaçavam de morte, caso não fossem convidados. Para preservar a vida meu amigo teve que trocar de identidade, fez uma cirurgia plástica e pediu asilo político numa cracolândia, onde aguarda passar a raiva dos que ficaram de fora dessa.

A impressão que tivemos ao vivo correspondeu plenamente às expectativas. Seedorf não é um jogador como os outros. Discreto, inteligente, casado e caseiro, é um dos raros atuando no futebol carioca que não montou escritório no Barra Music. O cara sabe que faz a diferença, que é uma referência para a garotada que está começando. Mas não é por isso que é o primeiro a chegar e o último a sair dos treinos, e sim porque é profissional e considera ser pago para isso. Estranho, já que a maioria acha que é paga pra poder bancar as despesas de um camarote lotado de bebidas e popozudas. Nada contra, desde que não seja do meu time…

É curioso como Seedorf vê o futebol brasileiro. A falta de seriedade e o amadorismo o incomoda muito. A pouca dedicação aos treinamentos, a falta de estrutura comercial dos clubes, a falta de planos de médio e longo prazos são alguns dos problemas que aponta. Mas sua crítica mais apimentada recai sobre um detalhe curioso: os lanchinhos da concentração em véspera de jogo. São bolinhos, salgadinhos, docinhos, tudo pouco nutritivo e muito engordativo. É por isso que nenhum jogador brasileiro chega na Europa com a musculatura definida, todos, mesmo os magros, com algum nível de flacidez, pneuzinho e até uma certa barriguinha. Tentamos argumentar que o jogador brazuca (ou será fuleco?) está tirando a barriga da miséria. O papo não cola. Lembra que nasceu numa família pobre e isso é mais um motivo para se empenhar em manter a forma e ter preparo físico pra enfrentar os 90 minutos de cada jogo.

E a pergunta que todos queriam fazer: por que o Botafogo? Seedorf nos disse que recebeu propostas de diversos clubes do mundo, mas  foi seduzido pelos planos do Fogão, pela forma como nossa diretoria o via contribuindo para trazer experiência e uma nova metalidade. Considera o presidente Maurício Assumpção uma pessoa séria. Nosso craque  vê um horizonte bastante positivo para nosso clube. Não crê numa transformação do dia para a noite, mas no resultado de uma evolução contínua. Sinto alívio ao ouvir isso. Quem não queria chegar ao Engenhão e ver o Barcelona com a camisa alvinegra? Na vida real, o buraco é mais embaixo…

Alguns torcedores presentes pedem que Clarence faça uma comparação com o ambiente europeu. Como são os jogadores de lá? Eles se cuidam? São educados, cultos, frequentam concertos de ópera nas folgas? Nada disso. Jogador, de uma maneira geral, é tudo a mesma coisa. Uma diferença: os daqui bebem mais. Em compensação, os de lá fumam muito mais. O negócio é que, se for mal em campo, a fila anda, e o cara sabe disso.

Ficamos curiosos por saber como a família Seedorf se comunica em casa. Nascido no Suriname, casado com uma brasileira, com filhos criados na Europa, ele fala fluentemente holandês, inglês, italiano, espanhol e francês, além do português. Os esporros na molecada são dados na nossa língua, o que a torna o idioma oficial da casa. Ele conta que tem primos e um irmão que também são jogadores. Quem sabe não vale a pena abrirmos um CT na sua terra natal?

Lá fora atuou ao lado de Roberto Carlos, Ronaldo, Dida e Ronaldinho Gaúcho,  entre outros. De todos, destaca o Fenômeno. Sem firulas, objetivo, raciocínio rápido. Na sua opinião é, disparado, o melhor com quem já jogou.

Pra finalizar, fala pra gente: qual de seus gols você considera o mais bonito? Seedorf responde de primeira, nem deixa a bola quicar. Foi no Real Madrid contra o Atlético de Madrid, em 1997. Dê uma olhada nisso:

 

Quem sabe não repete um desses com a nossa camisa em 2013?