NÃO É PARA AMADORES

– E aí, tudo bem?

– Tudo certo.

– E as coisas, como andam?

– Maravilha. Conforme o combinado. Tá tudo no esquema.

– Falou com o pessoal?

– Falei. Eles já estão sabendo que você vai procurá-los.

– Ótimo.

– Só tá faltando a gente acertar a nossa parte.

– Pois é, ainda bem que você tocou no assunto. Eu estava meio sem jeito de falar nisso…

– É, eu entendo. Mas faz parte, né?

– Claro, faz parte.

– E, falando em parte, cadê a minha parte?

– Olha, nem quero saber quanto é a sua parte. É só você me dar a minha parte que…

– Como a sua parte? Você é quem tem que me pagar, esqueceu?

– Eu acho que você está se confundindo. Eu é quem tenho a receber.

– Peraí, eu tô resolvendo tudo pra você e ainda tenho que desembolsar?

– Vamos com calma, eu fiz os contatos, articulei tudo, agora é com você.

– Justamente porque agora é comigo que você tem que entrar com uma compensação monetária.

– Eu já arrisquei a pele! Se me pegarem, eu tô frito, você sabe disso!

– Não se faça de vítima! Eu só entrei nessa pra aliviar o seu lado.

– Então como é que vai ficar?

– Tenho uma ideia. Pra ninguém sair no prejuizo, você me dá dez mil que eu te dou dez mil.

– Hum…olha…tá bom, fechado. Quer saber de uma coisa?

– O quê?

– É a primeira e última vez que eu entro numa jogada dessas. Prefiro trabalhar. Definitivamente não nasci pra isso.

– Nem eu.

VíCiOS de LinGuAGeM

O português é muito maltratado no Brasil. Poucos tratam o coitado como merece. Não estou falando do  dono da padaria da esquina.. Me refiro ao português que usamos pra nos comunicar. Nada a ver com as gírias, que acho maneiras, da hora mesmo. O problema está nas expressões que soltamos sem nos darmos conta. Essa conversa me ocorreu ontem quando, tomando um chope, ouvi um sujeito dizer: “Pode procurar o Luisão e pedir o que você quiser. Fala em meu nome, ele vai te atender. Luisão é meu amigo pessoal.”

Fiquei pensando… será que esse cara tem algum amigo que não é pessoal? Como seria um amigo impessoal? Uma pessoa com quem não se tem muita intimidade? Isso não é um amigo. Ou alguém que não seja uma pessoa? Um cachorro, por exemplo. O cachorro é o melhor amigo do homem, mas não chega a ser um amigo pessoal, é um amigo animal. E como pedir favor a um cachorro, mesmo que esse cachorro seja um grande amigo?

Pedi mais um chope e, enquanto aguardava a chegada de um amigo pessoal, duas mulheres trocavam confidências. Não entendo o que levam duas pessoas a trocar confidências num bar lotado, mas tudo bem, não foi isso que me intrigou. Fiquei bolado quando ouvi: “Aí, ele virou pra mim e disse…” Como assim? A moça estava discutindo a relação com um sujeito que estava de costas pra ela? Ela estava falando e o cara nem aí, continuava de olho no futebol? Ou na bunda de uma gostosa? E por que ela não mandou-lhe um pesco-tapa, como faria a minha mulher?

Até que finalmente meu amigo chegou. Meia hora atrasado. Veio com uma desculpa esfarrapada. “Pô, foi mal aí…até tentei te avisar. Liguei pra você, mas o telefone chamou, chamou…” Nem precisou completar. O verbo “chamar chamar” só é usado para telefones e sempre no caso em que a ligação não se completa. Tremenda cascata, já que meu celular estava ligado e cheio de sinal. Fingi que acreditei.

Começamos a conversar sobre a situação do Oriente Médio, até que meu amigo mandou na lata: “Na minha modesta opinião…” Entendi tudo. “Modesta opinião” é aquela que não se discute, você escuta e fecha o bico, porque ninguém muda de modesta opinião. Não levei o papo adiante, pois o bate-boca podia ficar exaltado e não queria queimar meu filme naquele bar. Aliás, nem ali, nem em lugar nenhum. Não se queima mais filme, já que fotos e videos hoje são digitais. Foi quando me caiu a ficha, seria melhor virar o disco. Mas que ficha poderia cair? Será que alguém com menos de quarenta anos faz ideia, sem nunca ter visto uma ficha? Quando se tem um orelhão, o que é raro, usa-se cartão telefônico. E só  vira disco quem for DJ. Fora isso, ouvimos cd pirata ou mp3…

Pra evitar um desentendimento, pedi a saideira e a conta. Paguei e ainda deixei uma gorjetinha. O garçom agradeceu:

– Obrigado, chefia! E desculpe qualquer coisa.

– Como assim?

– Como assim o quê? – perguntou o garçom.

– Por que eu tenho que te desculpar?

– Por nada. Tá tudo certo, doutor!

– Como nada?! Se você tá pedindo desculpas é porque alguma você fez. A conta tava certinha ou você tá de caô?

Achei melhor deixar tudo como estava. Nos dias em que se está levando as palavras ao pé da letra, é melhor voltar pra casa pra não se aborrecer.

SEJA FEIO!

Os homens andam desesperados. A cada dia crescem as prateleiras de  creminhos e poções mágicas que prometem desmocreiar o macho brasileiro. Ele não está satisfeito com sua condição. Envergonha-se da sua pança, tenta disfarçar a careca, procura pavimentar a pele muitas vezes mais esburacada que as estradas do país. E tudo isso pra quê? Será que esse pessoal está no caminho certo?

Querem nos convencer de que a evolução da espécie passa necessariamente pelo redesenho da sobrancelha, pela depilação do peito, virilha e contorno. O que é isso, minha gente! Uma coisa é um cara bem vestido e elegante, outra é a figura se apresentar de unhas pintadas e portando mais acessórios que um carro de luxo.

Duvido que a mulher esteja à procura de um companheiro para dividir a penteadeira. Não é esse o caminho. Apesar da mídia insistir em alimentar o mito de que a mulherada esteja atrás de um Brad Pitt ou um Rodrigo Santoro, o que vemos por aí são garotas lindas frequentemente acompanhadas por homens normais, sem nenhum atrativo físico aparente. E quando isso acontece a concorrência feminina fica intrigada, atiça a curiosidade delas. Ficam se perguntando na mesa ao lado do restaurante: o que será que aquele cara tem de tão especial para estar ao lado daquela modelo?

Ao ver um homem feio bem acompanhado, imediatamente a imaginação das mulheres no bar ou na festa começa a trabalhar a favor do sujeito. Deve ser um cara sensível, pensa uma. Deve ser uma figura bacana, sonha outra. Deve ser rico, projeta a interesseira. Deve ser bem dotado, apalpa uma mais fogosa. E se ele for tudo isso ao mesmo tempo? – pergunta-se a mais otimista.

Portanto, amigo, não fique grilado se os cabelos começam a ficar pela estrada da vida, se a barriga estufa um pouco os botões da camisa, se o seu sorriso não lhe permite estrelar um anúncio de pasta de dentes. Antes de procurar um instituto de beleza, entre na livraria mais próxima e compre uns livros. É isso que elas querem, uma conversa agradável e divertida antes e depois. Seja um cara gentil, atencioso.

Mas, claro, não abra mão de um bom sabonete, um desodorante eficiente, uma loção de barba bacana. Ah sim, e algum no bolso para as despesas também continua pegando bem. De posse de tudo isso, relaxe, pare de se preocupar. E seja feio numa boa.

AMIGO? QUE AMIGO?

Reginaldo e  Silveirinha não se viam desde o ensino médio. Mentira. Eles não fizeram ensino médio. Estudaram no científico, há quase cinquenta anos. Jogavam bola juntos. Reginaldo era centro-avante rompedor, Silveirinha, um lateral arisco e veloz. Hoje jogam no meio de campo no time de suas firmas. Se encontraram na fisioterapia, por acaso e marcaram um chope.

–  Reginaldo! Quanto tempo!

– Como é que você tá, Silveirinha? Posso te chamar assim, né?

– Sempre. E aí, o que tem feito?

– Nos últimos quarenta anos? Não sei se tenho esse poder de síntese…

O papo correu meio aos trancos e barrancos. Reginaldo lembrou, inclusive, que eles não eram grandes amigos. Nunca foram. Mas o tempo vai misturando as memórias. Aquele reencontro casual acaba por se tornar o momento mais íntimo dos dois.

– E aí, tem visto o pessoal? Saudades daquele tempo… – disfarça Reginaldo.

– Rapaz, eu tenho saudades é do nosso campeonato. – Silveirinha suspira. –  “Quem mija mais longe”, lembra?

– Não tô lembrado, não. – lembrava sim, mas não queria estender esse papo.

– Como não lembra, Reginaldo? Eu ganhava sempre de você.

Até que chegam ao quarto chope. Silveirinha mais extrovertido, decide se abrir.

– Se fosse hoje, ia perder feio.  A velhice é uma merda, cara. Numa noite dessas, me levantei pra fazer xixi e mijei no meu pé!

– Sério? – Reginaldo não estava à vontade na conversa.

– Porra, sabe lá o que é nem molhar a louça? Antigamente eu me distraía e mandava um jato que inundava o botão de descarga. Agora tenho que me empenhar pra acertar a água…

– Pois é, e tem gente achando que o problema maior é a calvície ou a barriga… – Reginaldo tenta por a conversa num trilho mais macio.

– Você já sofreu uma disfunção erétil?

– Como é que é?! – Reginaldo se assusta.

– Vai dizer que não sabe? É brochar, pau mole na hora H… e na hora I, e na hora J…

– Eu sei o que é, sim. Só perguntei pra ganhar tempo, não esperava uma pergunta tão íntima.

Silveirinha precisava desabafar.

– É horrível, cara! Você ali se concentrando, tentando fazer a levitação o bicho deitado eternamente em saco esplêndido…

– Olha, eu nunca passei por isso não, mas imagino que seja brabo.

– É, eu também imagino. – Silveirinha recua. – Um amigo meu que me contou, morri de pena do cara. Mas ele me disse que o pior não é não concluir o serviço. É a próxima vez. O cara fica cismado, a cena não sai da cabeça. O sujeito passa a achar que nunca mais vai conseguir.

– Mas hoje em dia isso é bobagem. Tem vários remedinhos que resolvem.

– E se ele ficar viciado? Se toda vez tiver que tomar um antibrochante? Isso é brochante…

– É, tem razão.

– Desde que isso aconteceu, ele vive pensando no pau. Sabe que homem que pensa o tempo todo em pau ou é brocha ou é viado. Tô parecendo viado com esse papo?

– Relaxa. Viado só pensa em pau duro. Você só tá falando de pau mole, e isso é papo de bocha.

– Bom, é verdade… Peraí, você então tá achando que eu sou brocha?

– Cara, agora você tá me deixando confuso…

O garçom chega com mais dois chopes.

– Por quê?

– Porque uma outra diferença é que o brocha só pensa no próprio pau, enquanto o viado pensa no pau dos outros.  Esse pau mole é o do seu amigo?

– Amigo? Que amigo? Não tem amigo nenhum não, fui eu mesmo. Eu que brochei! Eu que brochei!

Silveirinha falou tão alto que o pessoal das outras mesas se virou para olhar.

– Que é que tá acontecendo ali? – um cliente perguntou ao garçom.

–  Ih, liga não. – respondeu o garçom – São dois viados discutindo porque um deles brochou.

O MAR da BARRA é BARRA!

 Sempre achei perigoso nadar na Barra. Quando pequeno, até a areia era uma ameaça. O  carro do meu pai invariavelmente atolava na areia fininha quando estacionávamos na avenida Sernambetiba. Ficava apreensivo – não tinha certeza se conseguiríamos desenterrar as quatro rodas, e não dava para voltar a pé pra Vila da Penha.

Toda vez que olhava as ilhas lá fora, pra mim eram como territórios avançados da costa africana. Nunca pensei em conhecê-las de perto, só em caso de um naufrágio ou acidente aéreo. E não é que acabei indo lá por livre e espontânea vontade?

Era um domingo ensolarado, o mar estava tranquilo,  a  temperatura da água agradável, condições perfeitas para encarar os dois quilômetros que separam as Tijuquinhas da costa brasileira. Talvez a África não fosse tão longe assim…

O grande barato da natação em águas abertas é que você se torna seu próprio meio de transporte. A corrida também tem essa característica, a diferença é que quando se tem um oceano pela frente, só correndo sobre as águas, coisa que até hoje apenas um cara conseguiu – mesmo assim, há controvérsias.

A organização da prova foi um tanto caótica. Ninguém sabia direito qual o percurso, ainda por cima tínhamos que passar por um cânion que não víamos da praia, era preciso se aproximar das ilhas para descobrir que não são duas e sim várias! Dois mil metros não é uma distância assustadora para quem está habituado a treinar no mar. Porém, uma coisa é nadar paralelo à costa, outra é se enfiar mar afora, qual um descobridor ibérico, sem caravela. Você tem certeza disso quando vê os barcos passarem e, pelo estado de conservação de alguns deles, dá pra imaginar um marinheiro com o leme numa das mãos e uma garrafa de pinga na outra.

Esses devaneios me distraíram e quando já não esperava, cheguei ao tão falado cânion, entre a ilha Alfavaca e as Tijucas. Fiquei aliviado. Até lembrar que tinha que voltar. Contornei a pequena ilha e fiquei de frente para a costa. E agora, pra onde nadar? O tempo estava mudando, uma vento forte soprava, nuvens esconderam o sol, o mar agora estava mexido. O edifício que tinha marcado como referência parecia um tatuí enterrado na areia. Procurei por um apoio, algum salva-vidas e nada. Eles tinham motivo pra não ficar por ali, era muito perigoso!

Nadava sem saber se ia parar no Recreio dos Bandeirantes ou na praia de Ipanema. Não vi mais nenhum nadador, tinha a impressão de que todos os outros resolveram ia ficar nas ilhas.

Teoricamente a travessia, ida e volta, tinha uns quatro mil metros, na prática, quase 5 quilômetros! Estava a ponto de desistir e deixar a vida me levar. Até que lembrei que não podia faltar às gravações do Casseta nem morto! Foi o que me deu forças pra beber mais água e enfim ser empurrado pelas ondas até a areia.

Ufa! Missão comprida (*)!

(*) Alô, revisor, é comprida mesmo! Vai lá conferir!