UPA, UPA, CAVALINHO!

stephanie athina

Tenho um amigo que não entende nada de cavalos. Mas como sua mulher é amazona, vez por outra se vê num evento de hipismo. Não pode deixá-la circular sozinha num meio em que o pessoal é mestre em pular cerca. Recentemente ele esteve no Athina Onassis Horse Show, o maior evento do hipismo no país, que reúne os melhores cavaleiros e os cavalos mais marrentos do mundo.

O hipismo é um esporte difícil. Você tem que saltar vários obstáculos com mais de um metro e meio de altura e ainda acertar a ordem deles – os caras não facilitam, não põem um atrás do outro, tem que achá-los espalhados na pista, sem a ajuda de um GPS. Tudo isso com um sujeito nas suas costas! Sim, estou falando com o cavalo, o verdadeiro atleta dessa historia.

São cavalos alemães, holandeses e belgas que viajam de primeira classe, frequentam cabeleireiros, acupunturistas, manicures, psicólogos e se recusam a ser atendidos por veterinários. No Brasil só aceitam ser medicados pelo doutor Dráuzio Varella. Valem milhões de euros. O proprietário de um bichano desses poderia vendê-lo, aplicar a grana num fundo de investimentos e passar a vida pastando.

O torneio é uma festa da abastada elite da sociedade. A maior parte do PIB nacional está concentrado nas mesas dos camarotes. Os milionários pagam uma fortuna para comer e beber de graça, enquanto assistem às provas. Muita gente sem bala na agulha vai aos bancos fazer um empréstimo para investir num ingresso da área VIP. É a maneira mais fácil de se passar por milionário. Andando devagar, falando baixo, rindo alto,  de camisa polo, óculos Ray Ban de camelô e um Rolex falsificado no pulso, é possível fechar um negócio de milhões de dólares com um outro picareta que está ali pelo mesmo motivo. Porque o rico de verdade não está ali para ganhar dinheiro. Ele também não se impressiona com a champanhe ou o cardápio oferecido, por melhor que seja. Entra na fila do buffet e mistura risoto de pato com bobó de camarão para se sentir povão. Tudo aquilo é folclórico, é como se estivesse na Portela saboreando a feijoada da Tia Surita.

Um outro ponto que não dá pra entender são os trajes dos cavaleiros. Por que usar uma casaca abotoada até o pescoço pra montar um cavalo debaixo do maior sol? E o culote, aquela calça apertadinha de bailarino? Fica muito bem nas moças, moldando o corpo e realçando a marca da calcinha cada vez que a amazona tira o bumbum da sela na hora do salto. Mas fica difícil parecer macho vestindo aquilo. O sujeito tem que entrar na pista, cuspir no picadeiro e enfiar o chicote no cavalo pra não ouvir os risinhos vindo da arquibancada.

Foi-se o tempo em que um concurso internacional de hipismo era para poucos. Hoje em dia o esporte é apreciado por muita gente. Mesmo quem não tem grana para ir ao evento pode acompanhar pela tevê. Os melhores momentos das provas são transmitidos por canais de tevê a cabo. E os piores passam nas videocassetadas do Faustão.

 

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VIDA DE CASADO

leão-casado

Gabriel e Lourenço não se viam há anos. Estudaram juntos na época do vestibular. Estudar é modo de dizer. Lourenço estudou, passou para medicina e se formou. É ginecologista. Gabriel tentou comunicação, arquitetura, desenho industrial e passou. Passou o rodo geral. Não chegou a ter nada muito sério com nenhuma delas, fora um corte na cabeça – sete pontos.  Clarinha mandou-lhe o celular nas ideias quando o flagrou embarcando com a Janine para Porto Seguro com as passagens que ela, a Clarinha, comprou com ele, o cafajeste (Clarinha nunca mais pronunciou o seu nome. ).  Isso foi nos anos 90, na época em que os celulares eram tijolaços pesados.

Lourenço se casou com Carla, a única da galera que Gabriel não pegou. É  monógamo assumido, mesmo quando sua mulher não está por perto. Gabriel é solteiro convicto. E não acredita muito nesse papo do Lourenço.

– Duvido! – grita Gabriel na mesa do bar. – Isso não existe! Imagina um homem que só come uma mulher a vida inteira!

– Tô te falando, rapaz. Pra que eu ia mentir? Pra você ficar me zoando a noite toda?

– Porque você tem medo de eu sair espalhando por aí e a Carla acabar sabendo.

– Não é isso. Sinceramente acho que não vale a pena. Prefiro dormir tranquilo depois do vuco-vuvo a ter que ficar arrumando desculpa ao chegar em casa.

– Você é um cara inteligente, não ia ter dificuldade pra inventar uma cascata convincente.

– Gabriel, eu já te falei: eu amo minha mulher!

– O que é que amor tem a ver com nosso papo? Amor é coisa do coração, eu tô falando de xoxota, que é outro órgão. E você é ginecologista, sabe disso. Vai dizer que nunca se encantou por nenhuma paciente que já tá ali à sua disposição?

– Você é insano mesmo. Além de poder dar uma merda federal, tem que considerar que quando a mulher procura um ginecologista, algum problema ela tem – e não é no coração.

– Não adianta. Nesse assunto eu fecho com Mr. Catra. Ele diz que o homem que só come uma mulher é viado. Uma questão de estatítica: o cara pega uma e dispensa todas as outras do planeta. Tá muito mais perto de um gay, que não come nenhuma, do que de um macho de fato, que comeria quantas pudesse.

–  Gabriel, na boa, quando foi a última vez que você comeu alguém?

– Não tem nem uma semana. Ou duas. Ou três…por aí.

–  Tô te falando, rapaz. Vale mais a pena ser casado. O tempo que você gasta na noite pra convencer uma mulher a te dar, eu tô no meu sofá assistindo meu futebol e depois ainda vejo quantos episódios de Two and a Half Men eu quiser. Vida de solteiro é boa depois de editada. Você só conta pros amigos o compacto com os melhores momentos.

– Você não cansa não? Sempre a mesma coisa?

– E quem disse que é sempre a mesma coisa? O importante é os dois terem o mesmo nível de animação. O cardápio lá em casa é variado. A gente pesquisa novidades na internet e vai testando.

– Novidades, é? O quê? Menage, suingue, fio terra?

– Aí você já tá querendo saber demais. Só digo que pra ter uma vida sexual saudável, sendo casado é preciso ter imaginação. E também é muito mais barato.

– Claro. Não gasta com noitadas, bebidas, restaurantes caríssimos, camisinhas…

– Eu tô falando de pensão e advogados.

– Ah sei lá… Tenho arrepios só de me imaginar uma D.R. com a patroa.

– D.R. é com namorada, rapaz. Com a patroa é só ficar calado, tomando esporro. Depois passa. agora o importante é a mulher se cuidar.

– E se ela começa a embarangar, como faz?

– Você começa a fazer dieta e a correr na Lagoa. Ela vai ter certeza de que você tá de olho em outra. No dia seguinte tá na academia. O problema do casamento é o desleixo. Uma calcinha desbeiçada, uma cueca freada acabam com qualquer relacionamento estável.

– Chega, Lourenço. Você já me convenceu. Vou mudar de vida.

– Tá ligando pra quem?

– Pra tua mulher. Se ela topar, eu faço um test drive na vida de casado.

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Superando limites

esporte

Um dos conceitos mais difundidos pela humanidade no momento é a tal da superação de limites. Não existe propaganda que não se refira a isso. Estou convencido de que alguém sai ganhando com essa historia. Os bancos, por exemplo. Se você se habitua a superar limites, não vai se importar em pagar uma fortuna de juros.

Algumas pessoas estão sempre em busca do inusitado, do inédito, ultrapassando barreiras, quebrando recordes, provando que é muito mais fodão que qualquer outro, inclusive você. São figuras destemidas que não estão nem aí para os riscos de uma aventura encagaçante. Não é o seu caso, ô bundão. Você foi feito para  assistir ao documentário, ler o livro e comprar o dvd para o aventureiro ter grana para gastar com viagens e mulheres selvagens.

Existem diversas formas de superar limites. Quando um sujeito resolve bater o recorde mundial dos 100 metros rasos, ninguém discute. Usain Bolt é reconhecido como um deus por onde quer que passe. E olha que na velocidade em que ele passa, é difícil reconhecer alguém. Se por acaso ele não atingir seu objetivo numa prova, não tem problema. Ele volta pra Jamaica, treina mais um pouco e tenta de novo.

Mas e quando o objetivo do sujeito é subir o Himalaia pela face mais difícil, no período mais frio, se defrontando com os maiores riscos possíveis, entre eles o de uma avalanche? Fico me perguntando: esse cara não tem mãe, não tem amigos, pessoas razoáveis em volta dele que ponha uma pulga atrás de sua orelha? Ou sua orelha já está coberta por touca, cachecol, protetor de ouvidos e por isso não escuta conselhos de ninguém? Algo tipo: “Olha lá, rapaz! Tem certeza?”

Não tem nada pra fazer lá no alto da montanha mais alta do planeta. A vista é horrível, um nevoeiro insuportável, não se enxerga um palmo à frente do nariz. O ar puro tampouco é uma atração, já que este é rarefeito em oxigênio. Não tem  zona de wi-fi nem pega celular, não tem como postar no facebook, twitter ou instagram uma foto que comprove que você acabou de chegar lá. Mas o pior disso tudo, é muito, muito perigoso.

Por isso, não me espanto quando vejo uma notícia de que uma “forte avalanche soterrou alpinistas que tentavam subir o Himalaia pela face mais difícil, se defrontando com os maiores riscos possíveis, entre eles o de uma avalanche.” Não podemos chamar isso de fatalidade. Se todos sabem que é praticamente impossível chegar lá, qual a surpresa quando o sujeito não consegue? Aliás, não entendo sequer as equipes de resgate. O sujeito entra nessa fria por conta própria, dizendo que se garante, que é isso, que é aquilo. Depois, bombeiros e para-médicos têm que parar de resolver os problemas de quem ficou aqui embaixo pra ir lá em cima tirar o teimoso da enrascada que se meteu?  Antes de se meter nessa roubada, acho que o aventureiro deveria assinar o atestado “Eu Que Me Foda”,  eximindo a sociedade de qualquer responsabilidade

Uma outra solução seria o resgate preventivo. Ao invés de bombeiros e para-médicos, uma equipe formada por halterofilistas e lutadores de UFC ficaria plantada nos pés das montanhas mais perigosas do planeta, enchendo de porrada qualquer idiota que insistir em escalar aquilo. Vai superar limite no playground da mamãe!

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Tulio Maravilha é 1000!

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Pacaembu, São Paulo. 17 de dezembro de 1995. Botafogo e Santos fazem a segunda partida decisiva do Brasileirão. A primeira ganhamos no Maraca por 2 x 1. Na segunda tivemos drama, polêmica, stress, adrenalina e euforia.  Aos 24 minutos do primeiro tempo, Túlio escreveu seu nome na história do Botafogo. Abriu o placar no empate que nos deu o segundo título nacional. Até hoje os santistas resmungam, vociferam, esperneiam: impedido! impedido! gol irregular! Temos que concordar que um gol que determina um título dessa magnitude não pode ser considerado regular, no sentido de mediano. É fora do comum, excepcional, foge à regra, portanto, irregular. Ilegal? Aí não, o juiz nada marcou. Apontou o centro do gramado quando a bola dormiu no fundo da rede.

Podia ter apontado o aerporto de Congonhas, para onde centenas de torcedores foram, e dali voaram escoltando a taça até se juntar com a multidão que se espremia na pista de pouso do Santos Dumont, ameaçando a segurança da manobra do avião que trazia Túlio e companhia. Corriam o risco de ser atropelados. Pouco importa, morreriam campeões brasileiros.

Túlio é o maior ídolo alvinegro das últimas décadas. Temos no passado uma constelação de craques: Heleno, Garrincha, Nilton Santos, Didi, Paulo Cesar Caju e Jairzinho Furacão, entre tantos. Páginas memoráveis da nossa historia. Mas o troféu do Brasileirão de 95 tem um valor incontestável. E o artilheiro da conquista foi Túlio. Seus 23 gols fundamentais se somam a outros 136, somando 159 com a nossa camisa. E não foram só os gols. Sua alegria, sua descontração, seu jeito moleque cativaram a torcida. Foi responsável pela maior renovação nas arquibancadas, arregimentando uma molecada pra gritar seu nome.

Figura muitas vezes apagada em campo, ressurgia na pequena área, onde impiedosamente empurrava a redonda entre as traves. Não se discute a qualidade de um cara que sabe fazer isso. E no momento sabemos bem como faz falta um jogador assim.

Aos 43 anos, Túlio retorna à casa para uma grande festa. No currículo, 993 gols. Alguns insistem em grifar a expressão “segundo suas contas” ao tratar do assunto. Parafraseando não sei quem, tenho a dizer: se a versão não corresponde as fatos, problema dos fatos. A versão é deliciosa!

Faltam 7 para Túlio comemorar seus 1000 gols. Não quero compará-lo a ninguém. Apenas agradecer por ter feito os mais importantes da sua carreira pela gente. Por isso a gente te recebe, Túlio, e celebra com você os 1000 gols. O Engenhão, te aguarda, artilheiro!

Túliio Maravilha, faz mais 7 pra gente ver!

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Esse recorde até eu batia!

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A olimpíada é a alegria do sedentário. Você não precisa praticar nenhum esporte pra se tornar um especialista. Aliás, nem precisa ter assistido a uma competição num estádio. Basta sentar-se em frente à tevê, atrás de um pote de salgadinhos e um engradado de cerveja e acompanhar os atletas se esfalfando nas quadras, pistas e piscinas. A cada erro do esportista, você se irrita e come mais um torresminho.

–  Como é que esse idiota do Kobe Bryant me perde uma cesta de três pontos assim? Esse Michael Phelps não é mais o mesmo, só quer saber de fumar maconha, tinha que nadar pela Jamaica…

Esparramado no sofá, reclamamos da falta de empenho, da pouca dedicação aos treinos, do corpo mole, das amareladas. Falamos como se acompanhássemos a rotina desse pessoal, cujos nomes a gente só aprende durante os jogos e para meter o malho. Mais engraçado é compararmos nossa peladinha de fim de semana com uma competição cascuda. “Eu sei como é isso, às vezes no futebol do condomínio eu também sinto a pressão da torcida no alambrado. Mas aí eu reajo, não tenho sangue de barata!”

Fico espantado com o nível de detalhe em que uma prova é decidida. É o sujeito que salta dois centímetros acima da marca anterior, o outro que bate na borda da piscina 3 décimos de segundos à frente do adversário. Tento imaginar o que consigo fazer em 3 décimos de segundos. Piscar os olhos? Olhar pro lado? Se for tirar uma meleca, levo em média 64 centésimos de segundo pra que meu dedo chegue ao nariz, tempo suficiente pra perder duas posições num ranking qualquer. E ainda chamam uma transa que dura três minutos de rapidinha…

Nas provas de natação, fico nervoso com aquela linha imaginária do recorde. Algumas vezes vemos o nadador que consegue ficar à frente da marca, tendo que nadar  perseguido por aquela linha. Minha impressão é que ele vai ser eletrocutado ao ser atingido por ela. Na maioria dos casos, ela caga na cabeça do esforço que o cara tá fazendo e simplesmente o atropela.  É possível escutá-la zoando: “Perdeu, playboy!”.

“Citius, Altius, Fortius” é o lema dos jogos olímpícos. Os mais rápidos, mais altos, mais fortes. Então quer dizer que os baixinhos estão fora? O tênis de mesa está cheio deles. O badmington também.  E os mais magros, os etíopes que sempre faturam as corridas de longa distância?  No hipismo, os mais ricos se dão bem por possuir os melhores cavalos, que nem sempre são os mais altos ou mais fortes. No tiro ao alvo também não é preciso ser forte e sim ter boa mira. No nado sincronizado as gêmeas mais simpáticas e sorridentes sempre levam as melhores notas.

Se o atleta bater um recorde, deixa seu nome gravado na história dos esportes. Mas ele pode bater um recorde e ser superado na mesma prova por outro ainda mais rápido. Seu feito cai no esquecimento. Agora, também pode ser destaque na tevê e na internet se for mais marrento ou mais gostosa ou se pagar o maior mico. “Micus, Bundus, Marrentus” é o lema das olimpíadas em tempos midiáticos.

Banho de rio em Nova Iorque

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Aproveitando o espírito olímpico, decidi encarar um desafio: nadar em Nova Iorque, sob a ponte do Brooklyn, no East River. A Brooklyn Bridge Swim, um evento tradicional da cidade, foi minha primeira travessia no exterior. Água fria, salgada, cheia de correnteza e, o mais complicado, ter que nadar em inglês!

Às cinco e meia da manhã já estava num táxi a caminho do Brooklyn. Pra muita gente a noite não tinha acabado. Pra mim também não, estava morrendo de sono. Mas sabia que quando caísse na água fria, acordaria no ato.

Tinha gente de tudo quanto é canto do mundo – australianos, ingleses, chineses, franceses, americanos (a maioria, claro), além de seis brasileiros. Uns 400 malucos que poderiam muito bem estar comendo um hot dog no Empire State.

A animação da minha personal torcida era contagiante. Dá pra sentir a empolgação da galera.

Pausa para o turismo. Qual é a graça de nadar tudo isso e não ter uma foto pra tirar onda?

É medalha! E é do Brasil! Em apenas 23’48″ completo os mil metros e conquisto o 99′ lugar, minha melhor colocação na história das travessias de Nova Iorque. Espero estar recuperado até as Olimpíadas de 2016!