À procura da tuitada perfeita

Twitter

– E aí, vamos ver o D2 lá no Circo Voador?

– Pô, não vai dar. Meu celular tá quebrado.

– Ah, e tua mãe não deixa você sair sem telefone…

– Não é isso. É que sem celular, não tenho como tuitar do show. Aí nem vale ir.

– Por quê?

– Se ninguém souber que eu fui, o que eu vou fazer lá?

– E quem precisa saber onde você está? Por acaso tá na condicional?

– Meus seguidores. Eles ficam ansiosos.

– Eles ou você?

– Os dois.

– Dois?

– É, meus dois seguidores.

– Dois seguidores? E quem são, tua mãe e quem mais?

– Um anônimo. Ele me segue e eu sigo ele.

– E quantos seguidores ele tem?

– Só um. Eu. Tô desconfiado de que é um famoso com perfil fake. Só tem um seguidor pra manter a privacidade.

– Mas pra manter a privacidade não seria melhor não ter twitter?

– Ou ter um perfil fake…

– E vai seguir só você por quê?

– Sei lá, esses famosos são cheios de manias estranhas.

– Peraí, tu vai perder o show do D2 no Circo porque não pode tuitar pra um seguidor? Vamos fazer o seguinte. Quando quiser tuitar, eu te empresto o meu celular.

– Fechado.

Chegando ao Circo.

– Me empresta teu celular?

– Toma.

Puxa rapidamente o aparelho da mão do amigo e digita, como um recém saído de uma crise de abstinência: “Chegando no circo. Mó muvuca! kkkkk”

– Cabô de tuitar? Então me devolve.

– Vamo fazer diferente: eu fico com teu celular, quando você precisar falar, te empresto.

– Porra, vê se não detona toda a bateria!

– Não tem bateria extra? Que vacilo…

O show começa. O tuiteiro baixa a cabeça e começa a teclar.

– Ei, você tá perdendo o show.

– Por isso que tô tuitando, ó: “Ainda não sei o que tô achando do show”.

– Mas seu seguidor precisa saber que você não sabe o que acha? Quer saber? Vou ali comprar uma cerveja. Tá a fim?

– E como eu seguro a lata? Não tenho três mãos, não!

O dono do celular toma a cerveja e volta.

– E aí?

– Hã?

– Vai ficar nessa a noite toda? Tá cheio de mina na área. Larga esse troço, vamo dar um rolé.

– E perder o show?

– Me dá o meu celular, deixa eu ver o que você tanto escreve aí… Ué, tu tá metendo o pau no show do D2?

– É o papo.

– Como “é o papo”? Vai dizer que não tá curtindo?

– Tô. Mas sabe como é twitter.  Se eu não falar mal, o cara me dá unfollow…

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Suburbio carioca: lições de geografia

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Muita gente pensa que eu sou do bairro da Penha. Nada disso, nasci na Vila da Penha. É perto, mas não é a mesma coisa. Vila da Penha não tem nada a ver com Penha. Nem são tão vizinhas assim: entre uma e outra, ainda tem a Penha Circular , que era aonde os bondes antigamente faziam a volta, um pouco distante do centro nervoso da metrópole, o Largo da Penha, onde fica a subida para a Igreja da Penha, o Corcovado da Leopoldina.

Os bairros no Rio têm fronteiras mais definidas do que muitos países. Por exemplo, o Romário sempre disse que morava na Vila da Penha, mas não era bem assim. Ele era da estrada do Quitungo, muito além do Largo do Bicão, portanto, morador de Brás de Pina. Desculpe ter revelado seu segredo, Peixe! Eu sei que você queria tirar onda de bacana, aí espalhava que era de um bairro muito mais classudo, com um IDH (índice de desenvolvimento humano) equivalente a um bairro da zona sul. Aliás, quem seria esse Bicão, um famoso penetra da área? Mais um mistério dos subúrbios cariocas.

Um confusão geográfica pode gerar sérios conflitos. A região da Tijuca é um exemplo. Até onde o morador pode se considerar um autêntico tijucano? Se o cara mora na praça Saens Peña, não tem dúvida: é tijucano da gema. Mas e o largo da Segunda-Feira, ainda é Tijuca ou já é Rio Comprido? O pessoal do Andaraí também dá uma de Romário: ou espalha que é da Tijuca ou não come ninguém. Assim como os habitantes do bairro da Muda, da Usina e até do Grajaú, um bairro com tantos milicos que é considerado a Urca da ZN.

Alguns bairros se dividem em vários com o passar dos tempos, fenômeno semelhante ao da antiga Iugoslávia, que deu lugar a Eslovênia, Sérvia, Croácia, Bósnia e Herzegovina, Macedônia, Montenegro, Kosovo e algum outro país que surgiu depois que escrevi este texto. Com o advento da Linha Amarela o bairro do Méier passou a ter vista para o mar – em menos de quinze minutos você está na Barra – isso se não tiver trânsito na via e você estiver pegando carona com o Thor Batista.

O Méier se emancipou do Lins, do Engenho de Dentro, de Cachambi, de Todos os Santos e hoje faz parte da região litorânea carioca. Os imóveis valorizaram cerca de 300%. Em compensação a maresia agora estraga a prataria das donas de casa e ninguém quer comprar um carro usado oriundo deste bairro – sabe que vai estar comido pela ferrugem. Nem tudo são flores na vida de um bairro emergente…

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Só faltam 37!

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A tarde de domingo começou desanimada. Liguei a tevê atrasado e o placar já registrava 1 x 0 para os Bambis. O pessimismo se abateu sobre uma torcida que viveu péssimos momentos nos últimos dias. A apatia do time apontava para mais um pesadelo.

Mas a coisa não ficou nisso. No segundo tempo a equipe reagiu. Herrera injetou adrenalina na partida, empatando logo de cara. Luís Fabiano em seguida repôs os caras na frente, mas a tarde era nossa. Ou melhor, era do Herrera, que meteu mais dois – um de pênalti e outro depois de uma tremenda bobeira da defesa deles. Entre um e outro o garoto Vitor Junior mostrou que é responsa: mesmo novato no elenco, pediu pra bater a falta e não se intimidou. Resultado: 4 a 2 pra nós.

Matamos um Leão. Está tudo resolvido? Claro que não. Mas não podemos desprezar um bom começo. O estádio estava vazio e muita gente em casa se arrependeu de não estar lá. Eu fui um deles. Sabemos o que significa assumir a liderança na primeira rodada: nada. Mas perder é pior. Bem pior.

Pra quem passou 22 jogos sem perder e em três partidas viu o primeiro semestre escorrer pelo ralo, resta a esperança de que nosso time jogue bem o campeonato inteiro. E não apenas as primeiras 37 rodadas.

E ninguém cala…

O silicone

silicone

O casal se preparava para ir dormir. Otávio ajeitava a garrafa d’água na mesinha de cabeceira quando comentou:

– A Rosana botou silicone nos peitos?

– Por que você ta perguntando?

– Dá pra notar. Mas não queria dar furo. Vai que eles tão só inchados.

– Botou, sim.

O casal voltou a ficar em silêncio. Otávio pegou um livro e fingiu estar lendo. Não conseguia se concentrar.

– Você se incomodaria se eu pegasse no peito dela?

– O quê? Será que eu ouvi direito?

– Vou repetir: posso pegar nos peitos da Rosana?

– Que ideia mais idiota!

– Idiota nada, eu queria saber como é. Só uma apalpadinha, sem compromisso.

– Me dê um motivo pra eu permitir uma sem-vergonhice dessas.

– Muito simples. Uma vez eu sugeri e você disse que nunca botaria silicone nos peitos. Eu concordei. Mas pô, eu tenho essa curiosidade. Como é que faço?

– Ah, Otávio, que besteira! Vai no google e pesquisa. Tem tudo lá.

– O google não é de carne, nem em 3D.

– Silicone também não é de carne.

– Marcela, gente tá casado há vinte anos e eu não quero ter que me divorciar só pra poder pegar num peito com silicone. Ao mesmo tempo não acho justo passar toda minha existência sem meter a mão num peitinho turbinado.

– Peitinho turbinado? E ainda quer me convencer que é mera curiosidade científica…Isso é tara! Você é um tarado, Otávio.

– Você é que é paranóica, Marcela.

– Ah, é? E se eu quiser saber se o Paulão tem pau grande? Posso dar uma apalpada?

– É completamente diferente! Nada a ver! O Paulão não pôs enchimento no pau.

– Como você sabe? Já apalpou?

– Engraçadinha. Tô falando que ali é tudo dele. E eu tô querendo sentir como fica um seio feminino recheado com matéria artificial

– Não me venha falar de “seio feminino” só pra fingir isenção. Eu sei muito bem qual a sua intenção, é dar uma mamadinha.

– Mas aí depende de ela deixar, e não você.

– Se ela deixasse, mesmo sem o meu consentimento você…

– Hum hum…

– Então só precisa de autorização minha pra apalpar?

– São só hipóteses, Marcela. Não precisa ficar assim.

– Tudo bem. Boa noite.

Marcela virou-se de costas e puxou a coberta.

– Boa noite.

Otávio apagou a luminária e se ajeitou, enquanto Marcela perguntava:

– Ah, e qual o telefone do Paulão?

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