O silicone

O casal se preparava para ir dormir. Otávio ajeitava a garrafa d’água na mesinha de cabeceira quando comentou:

– A Rosana botou silicone nos peitos?

– Por que você ta perguntando?

– Dá pra notar. Mas não queria dar furo. Vai que eles tão só inchados.

– Botou, sim.

O casal voltou a ficar em silêncio. Otávio pegou um livro e fingiu estar lendo. Não conseguia se concentrar.

– Você se incomodaria se eu pegasse no peito dela?

– O quê? Será que eu ouvi direito?

– Vou repetir: posso pegar nos peitos da Rosana?

– Que ideia mais idiota!

– Idiota nada, eu queria saber como é. Só uma apalpadinha, sem compromisso.

– Me dê um motivo pra eu permitir uma sem-vergonhice dessas.

– Muito simples. Uma vez eu sugeri e você disse que nunca botaria silicone nos peitos. Eu concordei. Mas pô, eu tenho essa curiosidade. Como é que faço?

– Ah, Otávio, que besteira! Vai no google e pesquisa. Tem tudo lá.

– O google não é de carne, nem em 3D.

– Silicone também não é de carne.

– Marcela, gente tá casado há vinte anos e eu não quero ter que me divorciar só pra poder pegar num peito com silicone. Ao mesmo tempo não acho justo passar toda minha existência sem meter a mão num peitinho turbinado.

– Peitinho turbinado? E ainda quer me convencer que é mera curiosidade científica…Isso é tara! Você é um tarado, Otávio.

– Você é que é paranóica, Marcela.

– Ah, é? E se eu quiser saber se o Paulão tem pau grande? Posso dar uma apalpada?

– É completamente diferente! Nada a ver! O Paulão não pôs enchimento no pau.

– Como você sabe? Já apalpou?

– Engraçadinha. Tô falando que ali é tudo dele. E eu tô querendo sentir como fica um seio feminino recheado com matéria artificial

– Não me venha falar de “seio feminino” só pra fingir isenção. Eu sei muito bem qual a sua intenção, é dar uma mamadinha.

– Mas aí depende de ela deixar, e não você.

– Se ela deixasse, mesmo sem o meu consentimento você…

– Hum hum…

– Então só precisa de autorização minha pra apalpar?

– São só hipóteses, Marcela. Não precisa ficar assim.

– Tudo bem. Boa noite.

Marcela virou-se de costas e puxou a coberta.

– Boa noite.

Otávio apagou a luminária e se ajeitou, enquanto Marcela perguntava:

– Ah, e qual o telefone do Paulão?