O VÍCIO

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Quando Mariana se casou com Gervásio todo mundo avisou. Gervásio tinha fama de galinha e não sossegava em poleiro nenhum. Dava em cima de tudo que é mulher que passava na sua frente, prometia amor eterno a três namoradas ao mesmo tempo, uma ao vivo, outra pelo celular e outra via mensagem no orkut. Mas jurava que no dia que encontrasse a parceira da sua vida ia pendurar a camisinha.

Mariana é uma mulher de personalidade. Olhou para Gervásio e se encantou. As amigas se desesperaram.

– Deixa de bobagem. – ela rebatia. – Vocês implicam com o Gervásio só por causa daquele bigode. Na minha gestão ele vai ter que raspar e vai perder aquela cara de cafajeste.

– Sei não, Mariana. Você não tem medo de ele começar a pegar as suas amigas?

– Qual delas?

– Eu, por exemplo. Quer dizer não é que vá dar mole pra ele, é só uma maneira de falar sem ficar citando nomes…

– Ainda confio mais nele do que em você, Valeska. Afinal, é mais fácil ele raspar o bigode do que você trocar esse seu nome que é quase uma condenação.

Mariana enfrentou a opinião pública e se casou com Gervásio. Antes, liberou o futuro marido para armar a despedida de solteiro como quisesse, com direito a baile funk com jogadores de futebol e cachorras à vontade. Ainda deixou no bolso dele o telefone da Valeska.

O casamento se consumou e Gervásio mudou mesmo. Raspou o bigode, leiloou entre os amigos o celular, cuja agenda de contatos era mais cobiçada que ações do Google. E sossegou.

O maior problema para Gervásio não era deixar de pular a cerca e sim perder a fama de garanhão da qual sempre se orgulhou. Até que um dia teve uma ideia. Conversou com Mariana e ela topou. À noite se arrumaram e foram a um restaurante. Mariana entrou sozinha e pediu uma mesa. Gersávio deu um tempo, quinze minutos depois  chegou e se dirigiu ao bar. Chamou o garçom e pediu-lhe que entregasse um bilhete à moça solitária, junto com um drink. O garçom trocou um olhar cúmplice ao se dirigir à mesa.

– O senhor do balcão está lhe oferecendo um proseccozinho, madame.

Mariana agradeceu e abriu o bilhete. Ele tentou se afastar, mas foi puxado pela manga do paletó. No mesmo papel, Mariana escreveu o número do seu celular e devolveu ao garçom.

Gervásio mudou-se para a mesa de Mariana. Os dois jantaram, depois saíram juntos. Discretamente, ele escorregou uma gorjeta para o garçom e quase pediu “Espalha!”.

Passaram a repetir a trama com frequência. Gervásio foi readquirindo a autoestima que andava em baixa. Aos poucos foi elaborando a brincadeira. Chegava, contava vantagens ao barman, fazia apostas de que pegaria aquela dona e, ao invés de bilhetes carinhosos e galantes, passou a escrever algo tipo: “Quero te comer todinha, sua cachorra”.

Mariana deu um fim na brincadeira quando Gervásio foi fundo no personagem do marido que trai a mulher com a amante. Como de hábito, foram a um restaurante e ele passou-lhe uma cantada. Mais tarde levou-a para um motel, encheu a cara e caiu broxa na cama, depois de passar horas falando mal da própria esposa.

AMOR CASUAL

– Foi uma noite fantástica. – contava Alex ao amigo. – Há muito tempo que eu cercava ela. Mas ela não abria a guarda. Tinha um namoro sério que, graças a Deus, acabou. Respeitei o período de resguardo, sabe como é, conhecia o namorado e não queria queimar o filme com as amigas delas. Convidei pra sair, tomamos um vinho. Deixei que ela escolhesse. Pediu uma garrafa que custava R$ 150,00. Bem acima do meu padrão. Mas aí pensei: mulher que pede vinho acima dos 100 reais é porque tá a fim de dar.

– Ele não veio logo me atacando assim que a notícia correu – disse Roberta à amiga.- Respeitou minha dor que nem chegava a ser tanta, o namoro durou um ano mas os últimos dois meses dava sinais de que não ia muito longe. Quando saímos, ele me deixou que escolhesse o vinho. Pedi uma garrafa bem acima do meu padrão. Ele não chiou. Bom sinal.

– A conversa era boa.- continuou Alex. – Variei bastante os assuntos pra não dar a entender que só queria uma coisa com ela. Tudo levava a crer que ia rolar .

– Ele puxou assunto. Parecia realmente interessado em mim. – explicava ela. – Não era desses que só queria uma coisa. É um cara diferente.

– Estava duro e sem gasolina pra ir até a Barra, acabei levando ela pra casa mesmo, apesar de estar meio bagunçada.

– Se ele tomasse o caminho pra Barra, ia pedir pra parar. Como assim, logo na primeira vez, me levando pra um motel? Podia pensar que sou dessas. A casa dele estava meio bagunçada. Sinal de que queria intimidade logo de cara. Comecei a achar que o Alex não era nada do que falam por aí.

– Nada de tapa na bunda, puxão no cabelo, gritos de “vem cá, cachorra!”. Peguei leve pra não assustar.

– Que delicadeza! Quanta sensibilidade! Evidente que queria o meu prazer. Até que… – contou ela.

– Até que… – contou ele…


 

–       Ah, você é um amor! – disse Alex sorrindo.

–       Oi? – Roberta chegou a sentir um arrepio.

–       Disse que você é um amor.

–       Eu… – não resistiu a tanta delicadeza. – …te amo, sabia?

–       Você… o quê?

–       Eu te amo.

–       Maneiro.

–       Como é que é?? Então eu me declaro pra você, de coração aberto e tudo que você me diz é “maneiro”?

–       Mas eu achei maneiro!

–       Vou repetir: eu te amo. E você?

–       Eu? Eu… também.

–       Você também me ama?

–       Não, eu disse que concordo com você.

–       Eu disse “eu te amo”, você disse “eu também”.

–       Isso mesmo. Eu também me amo. É disso que eu gosto em você. Você tem muito bom gosto.


– Não pude acreditar no que ouvi. – desabafou ela pra amiga. – Aliás, a última frase que ouvi daquele sujeito.

– Não entendi nada. – se abriu Alex. – Fui o mais sincero possível, a mina se levantou e foi embora lá de casa sem dizer tchau! E ainda dizia que me amava. Vai entender essas mulheres…