(Des)prezado Presidente

Há seis anos você chegou ao Botafogo sem que soubéssemos direito quem era. Sua imagem, a de alguém que não vinha dos meios futebolísticos, era um bom sinal. Um dentista que poderia dar um trato no sorriso alvinegro.

Sua primeira gestão foi elogiada por torcedores e pela imprensa esportiva. O Botafogo começou a despontar como um clube sério. E você, um dirigente que estava pondo a casa em ordem.

Veio o segundo mandato. Eleito unanimemente, teve a chance de escrever seu nome nas páginas mais gloriosas. Contratou Seedorf, uma estrela internacional, e elevou assim a auto estima da torcida. Voltávamos a ter um ídolo e a dar inveja aos rivais. Sabíamos que sozinho ele não poderia resolver a parada. Mas tínhamos um bom elenco ao seu redor e os resultados começaram a aparecer. Infelizmente, o sonho durou pouco.

Perdemos o Engenhão, perdemos receita, a coisa desandou. Aos poucos o time começou a ser desmontado. Vitinho foi o caso exemplar. No final do Brasileirão 2013, víamos Jefferson no gol, Seedorf lá na frente e mais nada. De favoritos, passamos a rezar por uma vaga na Libertadores.

Começamos este ano disputando o mais importante torneio da América do Sul, o que não acontecia havia 17 anos. De que maneira? Com um técnico que nunca comandara a equipe principal e um elenco bem abaixo do que tínhamos seis meses antes – Seedorf voltou para a Europa. O resultado não podia ser outro.

Aliás, 2014 é um ano para se esquecer. O pior desempenho num Campeonato Carioca neste milênio. Dívidas não honradas, jogadores medíocres contratados, salários não pagos, derrotas sucessivas. Até que você resolveu dar um basta na indisciplina. Demitiu quatro titulares e assumiu em público a responsabilidade das consequências do ato. Se mereciam, não vem ao caso. O fato é que o momento foi o mais inadequado possível. Já não estávamos bem no campeonato e só pioramos. Na verdade, você deu um basta na nossa esperança.

No instante em que escrevo, acumulamos 9 vitórias em 35 jogos! Para escapar da segunda divisão, precisamos de 3 vitórias em 3 jogos! Haja margem de erro… E isso não basta, dependemos de uma milagrosa combinação de outros resultados. O ideal é trocar a comissão técnica por uma comissão de matemáticos e rezadeiras.

Mas a torcida pode dormir tranquila. Você assume a responsabilidade da queda para a série B. O que significa isso? Se alguém vier nos sacanear, mandamos ligar pra você?

Dia 25 de novembro teremos eleições no clube. No dia seguinte alguém assumirá esta cadeira. E você volta para seu consultório de dentista sem responder por nenhum dos atos irresponsáveis. Ficamos nós, torcedores, arrasados após a passagem de um tsunami. Sem time, sem dinheiro, sem estádio, sem série A. Vai ser duro sair deste buraco.

Mas vamos resistir. Vamos juntar nossos cacos, levantar a cabeça e olhar para o futuro. Brigando para que um dia voltemos a ver lá na frente o Botafogo de craques como Garrincha, Nilton Santos, Jairzinho, Paulo Cezar Caju, entre tantos outros.

E ninguém cala…

Jornal Extra, 22/11/14

ELES JOGAM POR NÓS!

Onde está a lógica do futebol? O Cruzeiro, líder inquestionável do Brasileirão com apenas duas derrotas em 12 jogos vem ao Rio enfrentar o Botafogo que somava 3 vitórias no campeonato. O clube carioca chafurda hoje na maior crise de sua história.O que o torcedor alvinegro podia esperar? Uma reedição de um Alemanha 7 x 1 Brasil, sendo o Cruzeiro uma Alemanha sabor pão de queijo. Pra surpresa geral, temos um empate que, nessas circunstâncias, deveria valer 3 pontos pra nós.

Se dermos uma googada na palavra “Botafogo”, recebemos de volta uma série de artigos e colunas sobre salários atrasados, escândalos de má conduta da diretoria, jogadores reclamando da forma como têm sido tratados. Nenhuma boa notícia. As dívidas se multiplicam, as receitas são retidas, a perspectiva não melhora. O botafoguense está habituado a sofrer pelo seu clube, mas dessa vez estamos indo longe demais. Os jogadores não jogaram a toalha. Estão lutando em campo com suas próprias forças, contra todas as adversidades. Quem continuaria trabalhando se o patrão deixasse de pagar seus salários por 3 meses? E os caras estão! Obrigado, time!

Tenho acompanhado a movimentação de grupos de oposição à atual diretoria. Boas propostas têm sido apresentadas. Fala-se em profissionalização da gestão, mudanças de regras e estatutos, contratação de jogadores e executivos, reestruturação das bases e outros bichos – os bichos, aliás, seriam pagos em dia!

Como fazer tudo isso sem dinheiro? Como acabar com a gestão amadora sem ter dinheiro pra remunerar os profissionais? Como vão sobreviver os membros de uma diretoria se não forem milionários dispostos a torrar a fortuna da família? Não faço a menor ideia. Espero ouvir respostas pra essas questões antes das próximas eleições.

Sempre dei força para o clube, independente de quem estava no poder. Mas fico profundamente decepcionado quando leio as denúncias que envolvem o presidente Maurício Assumpção. Comemorei a chegada do Seedorf, mas o projeto não se sustentou e ele saiu sem ter nos dado um grande título. Agora estamos vivendo um sufoco sem tamanho.

Torcedor é um bicho maluco e irracional. Continua torcendo, mesmo com as mais ínfimas chances de vitória. E sonhando com um dia em que tudo vai ser divino e maravilhoso. Ainda que ninguém consiga mostrar como.

Só podemos dizer uma coisa: tamos juntos, jogadores!

(Crédito da imagem: Uol Esportes)