A COPA DAS COÇAS

Demoramos pra entrar no clima. Mas quando os gringos chegaram, a gente viu que ia ter Copa. Pintamos as ruas, fizemos festa, nos confraternizamos com os turistas…só esquecemos de jogar bola. Veja os momentos inesquecíveis dessa Copa.

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A Holanda não foi à final mas tirou onda. Contrários a esquemas penitenciários, eles jogaram futevôlei e frequentaram a noite carioca. Golearam a Espanha na chegada e a gente na saída . Ainda por cima, Van Peixe fez o gol mais bonito da Copa. O craque treinou o belo mergulho pegando jacaré na praia de Ipanema.

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Se você é português mas não é azeite, pouco adianta ser o melhor do mundo. CR7 sabe disso. Trocou de penteado três vezes mas fez apenas um golzinho. Só ganhou quando não adiantava mais nada. O atacante se recusou a voltar na mesma caravela que seus companheiros. Cristiano Ronaldo assinou contrato com o GNT e vai ser a próxima apresentadora do Super Bonita, no GNT.

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Uma das cenas mais bizarras aconteceu durante o jogo de Gana contra Portugal. O zagueiro Ayew foi puxado e mostrou ao mundo a pujança da sua ferramenta. Mais tarde, a imagem de uma supercâmera mostrou que não era bem isso. Aconselhado por um deputado brasileiro, o jogador entrou em campo carregando seu dinheiro na cueca.

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O mais perigoso atacante da Copa foi, sem dúvida, o uruguaio Luis Suárez. Raivoso, avançou na área adversária várias vezes e no ombro do italiano como se fosse uma pizza. Tomou o maior gancho da história das Copas e passará o resto de sua carreira preso num canil de segurança máxima. A Polícia Militar já negocia seu passe e vai usá-lo como centro avante no combate à criminalidade.

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A maior passeata ocorreu em frente ao hotel da Fifa. Não foi promovida por sem tetos, metroviários ou black blocs. O sindicato dos Apostadores de Bolão reuniu milhares de manifestantes para protestar contra a entidade. O clima era de revolta. Por causa das diversas zebras da Copa, ninguém conseguiu acertar os palpites. Os prêmos das apostas ficará acumulado para o  Mundial da Rússia.

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Não sei se teremos algum legado, mas temos o delegado da Copa. Foi o que desbaratou a quadrilha internacional de cambistas. Um turista desavisado pagou 45 mil reais por um ingresso na final. O cambista argelino Lamine Afana justificou o preço dizendo que seu ingresso dava direito a ver o Brasil jogando no Maraca com Neymar e tudo.

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A choradeira foi a única jogada ensaiada da seleção brasileira. Choravam em bloco, na defesa e no ataque, orientados pela psicóloga. Havia treinos de choro tático pela manhã e choro físico pela tarde. Entre um e outro, os jogadores aproveitavam o tempo no salão de beleza, alisando e descolorindo os cabelos.

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O Brasil foi invadido por turistas do mundo inteiro. Europeus, asiáticos, africanos e sul americanos. Todos muito bem vindos, se divertiram, interagiram numa boa e movimentaram a economia. Os argentinos foram um caso à parte. No Rio, ocuparam a praia de Copacabana, se alimentaram de alfajores e queriam pagar as cervejas com artesanato de durepoxi e macramê. A prefeitura liberou pra eles o Sambódromo, onde fizeram o maior carnaval. Até os alemães acabarem com a festa.

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Inesquecível. Batemos todos os recordes negativos. Entramos para Guiness Book como o país sede que pagou o maior mico em Copas do Mundo. Segundo a comissão técnica, formada por Felipão, Parreira, Murtosa e dona Lúcia, tudo deu certo, tirando o resultado. A conclusão é que não precisamos só de um técnico estrangeiro. Temos que importar com urgência desculpas melhores pra serem usadas nas coletivas. E contratar uma empreiteira pra demolir a CBF.

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O complexo do alemão chegou ao fim. Eles agora são tetra e são os primeiros europeus a ganhar uma Copa na América. Os argentinos foram calados e vão aguardar mais 24 anos pra chegar à outra final. Enquanto isso, os alemães estão mais brasileiros do que nunca. Agora dançam como os índios pataxós, lambem a tampinha do iogurte e botam farofa até na sobremesa.

ACABOU

– Pronto. Paramos de tomar gols. Paramos de perder. Paramos de dar vexame nessa Copa.

 

– Levamos azar. Se aquela bola na trave do Chile entrasse, não teríamos passado por tudo isso.

 

– Quando viajávamos pro exterior, só tirávamos onda quando o assunto era futebol. Agora nem isso.

 

– A pergunta que não cala: quantos anos duram os tais seis minutos de apagão?

 

– É verdade que o Felipão vai ser substituído pela dona Lúcia?

 

– Agora só falta os argentinos que estão acampados no Sambódromo aprenderem a sambar melhor que nós.

 

#foraCBF! #foraFelipão! #foratodomundo!

O PROFESSOR

 Não soa estranho que, justo num país que não investe em educação, o técnico de futebol seja chamado de professor? A maioria dos nossos jogadores passou poucos anos da sua vida dentro de uma sala de aula. Por que será que se referem ao treinador como “professor”?

Que tipo de professor é esse? Será aquele durão, exigente, que enche o quadro de matéria, passa dever de casa em véspera de feriado, marca prova pra quinta feira de cinzas?

Não creio. O “professor” dos nossos jogadores é aquele mestre gente boa, que não ensina nada, mas também não cobra muito. A aula dele é a maior zona, mas na hora do exame, deixa todo mundo colar. Organiza passeios, tá em todas as chopadas, sacaneia os nerds, é amigão da turma do fundão e todo ano é eleito paraninfo dos formandos.

O professor estava no comando de uma caminhada pela mata. Todo mundo confiava nele. Escureceu, o professor não levou lanterna, não tinha mapa, não sabia como voltar. Os alunos entraram em pânico, ninguém sabia o que fazer, começou a choradeira. Os pais dos alunos se reuniram na porta da escola, nenhum membro da direção apareceu pra prestar esclarecimentos. Só restava aos pais torcer pra tudo dar certo.

Não deu. O único professor que não reclama de salário não preparou os alunos, mas injetou-lhes ânimo. Na hora do vestibular, eles não sabiam a matéria, mas estavam confiantes. Todos tinham certeza de que iam passar. Os pais também acreditaram, até compraram as passagens pra um fim de semana no Rio de Janeiro.

Quando saiu o resultado, um vexame. Os nomes dos 23 alunos não estavam na lista dos aprovados. A choradeira foi maior, não só dos alunos, mas dos pais, do professor, dos assistentes, da coordenação. “Onde foi que erramos?” – alguns se perguntavam. “Fizemos tudo certo, só o resultado do vestibular não funcionou”- afirmavam arrogantemente outros.

Agora os pais querem a mudança do professor. É pouco. Está na hora de fechar essa escola. Ou nós, os pais que pagamos pesadas mensalidades, nunca veremos esses alunos numa faculdade.

COM MUITO ENGULHO, COM MUITO HORROR

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Somos todos Neymar. Levamos sete joelhadas nas costas e vai demorar muito tempo pra gente se recuperar. Aliás, Neymar deve agradecer ao Zuñiga por livrá-lo de estar em campo. Foi poupado desse vexame histórico.

Estávamos preocupados com aeroportos e estádios inacabados, mas o que não ficou pronto para a Copa foi o futebol brasileiro.

Só Minas pode tirar proveito desta tragédia. Basta transformar o viaduto que caiu no monumento ao Dia da Vergonha e criar um centro de visitação no Mineirão com tour guiado em alemão. Muitos turistas germânicos vão querer mostrar pra seus filhos e netos o estádio onde sua seleção esculachou o Brasil.

Essa foi mais uma bela historia de superação. Superamos todos os micos vividos até aqui. Não vamos mais nos nos envergonhar dos 3 a 0 pra França na Copa de 98. Enfim superamos o trauma do Maracanazzo. Agora nós temos o Mineironsfunden. Elevamos o mico a um patamar inimaginável, com muito engulho, com muito horror!

Fé, garra e amor na chuteira 1 x 7 tática, técnica e treinamento.

Uma coisa agora nós temos certeza: essa Copa não foi comprada pelo Brasil.

PRA CIMA DOS ALEMÃO!

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Vamos esquecer os pobrema e focar no jogo. Nada de chororô, nada de reclamar de arbitragem, nada de se vingar do colombiano. O Brasil tem que entrar ligado e não pode cochilar um minuto sequer! Essa noite teremos 200 milhões de brasileiros preparando seus despachos pra despachar os alemão. Por sorte a partida não é em Brasília, onde não tem esquina pra fazer macumba. Até os analistas mais frios deixaram suas pranchetas de lado e agora escrevem suas colunas de joelhos. Todos justificam seus palpites com fé, mas sem deixar de lado a lógica: é lógico que a gente vai ganhar! Quem mora no Rio conhece o complexo do alemão. Ele se borra de medo do Brasil. Podem estar mais preparados, mais treinados, não importa. Quando virem a camisa amarela em campo, vão amarelar! Acabou o estoque de velas do país. Nas lojas de umbanda não se acha mais charuto, farofa ou alguidá. Na falta de galinha preta, tem gente fazendo suas oferendas com galinhas mulatas, morenas e criloras. Nosso time tá unido e turbinado pela adversidade. Além disso, os germanos foram tão simpáticos até aqui, não vão manchar essa boa impressão por um mero título mundial. Tem que dar certo! Vamos com tudo! Vamos atropelar os alemão!

O ROTEIRISTA DA COPA

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A Copa está comprada, todo mundo sabe disso. E para não chamar atenção da mídia, a Fifa contratou um renomado roteirista do cinema americano para que as armações fossem muito bem acobertadas. É ele o responsável por todas as surpresas e reviravoltas dessa Copa tão emocionante.

–       Tem que botar umas três ou quatro seleções inéditas nas oitavas. Pode ser da África,  da América Latina, até do Caribe.- diz o produtor. -Temos que ter uma muçulmana também.

–       A única com chance é a Argélia. – explica Blatter. – Só não sei o que a França vai achar disso.

–       Não vai achar nada. Vamos deixar eles chegarem até as quartas.

–       A França vai querer mais.

–        Eles nunca reclamam dos alemães. Perder pra eles no Maracanã vai ser honroso. – argumenta o produtor. – O que você acha da Costa Rica nas quartas?

–       Tá louco! Quem vai acreditar nisso? – rebate Blatter.

–       Vai por mim, a Costa Rica vai até as quartas e perde pra Holanda nos pênaltis. – o roteitirsta delira. – Imagina só: no último minuto da prorrogação, a Holanda usa uma arma secreta: um goleiro especializado em pênaltis em Copas do Mundo no Brasil. Um goleiro de laboratório, que treina numa estufa que reproduz o clima dos trópicos. Ele agarra dois pênaltis e classifica a Holanda.

–       Vocês de Hollywood não entendem mesmo de futebol.É totalmente inverossímil!  – desiste o capo da Fifa. – E a Argentina ?

–        A Argentina vence a Bélgica. Mas vai enfrentar a Holanda sem o Di Maria.

–       Sem o Di Maria? – duvida Blatter.

–       É pra dar suspense. Esse é o momento do roteiro onde tem que entrar algum drama.

–       Se isso acontece, os argentinos vão apedrejar nossa sede. – Blatter fica preocupado.

–       Nada! Olha aqui o roteiro: nas semifinais estou botando Brasil x Alemanha e Holanda x Argentina, dois clássicos. Quem curte futebol vai ficar alucinado! – se exalta o americano.

–       É, isso nunca aconteceu. – admite Blatter

–       Então, gostando do trabalho? – quis saber o americano.

–       Mais ou menos. – o cartola balança a cabeça – Essa contusão do Neymar…sei lá, acho que você pesou muito a mão.

–       O quê? Aquela entrada criminosa no Neymar? A culpa é do Zúñiga! Aquele cara é animal! Pior foi o juiz. Que sujeito omisso! Quem deixou aquele cara apitar numa Copa? Ele quase f*$#ode tudo! – diz o americano.

–       E a final? Já pensou alguma coisa pra final? – Blatter quis saber.

–       Ainda não. Vou aproveitar esses dias sem jogo pra fechar o roteiro. – avisa o americano – Te entrego até segunda à noite. Mas falta você me dizer quem vai ganhar.

–       Dilma, Cristina e Ângela estão discutindo isso com a Holanda. – confidencia o cartola.

–       Mas a Copa não está comprada?

–       Estamos sempre abertos à negociação. – o cartola deixa um cheque com o roteirista e some no meio dos oito seguranças.

OLHA O MENINO, UI!

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Olha o menino, ui, ui , ui.

Nem tinha terminado o chope da vitoria quando veio a notícia que abalou o mundo da bola. O cafeteiro Zúñiga conseguiu enfim seus quinze minutos de glória. Ele parou Neymar. Uma entrada criminosa, um joelhaço nas costas, muito mais grave que uma mordida no ombro. Espero que a Fifa concorde comigo.

O carniceiro colombiano declara que não teve a intenção. Não me convenceu. Sua intenção, além de quebrar nosso craque, era se vingar. Não se conformava em deixar a Copa. Desde 94 a Colômbia vinha prometendo sem cumprir. Esse ano tinham até o artilheiro, James Rodriguez, que me presenteou com um golaço contra o Uruguai em pleno Maraca bem na minha frente. Obrigado, James. Agora que chegou em casa, pode contar pros netinhos que vocês quase tiraram o Brasil da Copa. Conseguiram tirar o Neymar, mas a gente segue em frente.

Neymar chamou pra si a responsa, botou sua cara à tapa, não fugiu da violência das zagas, nem da acidez dos jornalistas. Respondia com leveza, ginga e alegria as perguntas e as agressões. E ainda irritava os pernas-de-pau quando esses lembravam que ainda por cima, o cara pega a Bruna Marquezine.

Neymar é tudo que um garoto sonha ser. Bom de bola, gente boa, adorado pelas gatinhas, o cara e a cara do Brasil. Vai sair dessa. Não a tempo de nos ajudar a conquistar esse caneco – que virá. Mas nas próximas estará inteiro e mais alerta. Um craque como ele tem que ter câmeras de segurança apontada para todos os lados. Sempre pode aparecer um vilão querendo apagar-lhe o brilho.

Passamos dias falando sobre psicologia. Agora, entendemos tudo sobre traumatologia. Chega de medicina, gente! Vamos falar de futebol! Vamos falar de vitória! Vamos falar de atropelar os alemão e chegar à tão esperada final no Maraca!

Força, Neymar!

 

O GRAMADO DO ADVERSÁRIO É MAIS VERDE

O Brasil é uma nação bipolar. Num momento tem certeza de que vai ser hexa. Quinze minutos depois não tem dúvidas de que não passa do próximo jogo. Coloca uma lente de aumento nos problemas de forma que os torna intransponíveis. Depois de superados, considera tudo uma bobagem. Sem falar no complexo de viralatas que não nos larga.

Olhamos os possíveis adversários com reverência e complexo de inferioridade. São invencíveis, infalíveis, não choram, têm meio campo consistente, craques inquestionáveis. Eles também têm seus pobremas.

Cinco dos oito sobreviventes garantiram suas vagas na prorrogação. A Holanda derrotou o México, mas até os 40 do segundo tempo estava a caminho do balcão da KLM. A França custou pra tirar a Nigéria da Copa. Só a Colômbia venceu tranquila o Uruguai. Todas as favoritas tropeçaram em algum momento e ouviram resmungos de suas torcidas. O torcedor tem um time ideal na cabeça, um escrete do passado que pode não ter ganhado nada, mas está guardado na memória afetiva. O que entra em campo nunca chega aos pés do que está na lembrança. E essa fantasia não é um privilégio nosso. Torcedores da França, Alemanha, Argentina e Holanda também pensam assim.

Estamos todos na briga pelo título, todo mundo quer ser campeão. Não vamos levar o título porque precisamos mais, porque as crianças das enchentes precisam ter uma alegria ou porque não temos estrutura emocional para uma derrota. Vamos levar se jogarmos mais. E se tivermos sorte – ela também conta.

Dá pra ganhar. Mas como diria Milton Nascimento, “é preciso ter garra, é preciso força, é preciso ter gana”. Quer dizer, Gana não, que essa já dançou.

Vamos parar de achar que só os outros podem levantar a taça. Tá tudo igual. A Argentina depende do Messi, a Holanda depende do Robben, a França depende do Benzema. Por que não podemos depender do Neymar? O problema é depender da psicóloga!