O PRESENTINHO

No final do expediente, dois amigos se encontram no chope.

– Ih, rapaz, tenho que sair fora. Amanhã é dia dos namorados.

– Vai comprar presente? Mas você já não é casado?

– Sou sim, muito bem casado. Não preciso comprar presente, minha mulher não liga pra essas frescuras. Isso é data comercial, coisa pra nego vender flores e jóias. Tô fora. E você?

– Cara, tô solteiraço, você sabe. Tô mais livre que táxi domingo de manhã. Se tem uma grana que eu não gasto é com presente em dia dos namorados. E não é só presente não. Nada de cineminha ou restaurante. Amanhã é dia de ficar na encolha em casa. Mantenho até o celular sem bateria pra não correr o risco de esbarrar e ligar por engano pra uma da gaveta.

– É melhor tomar cuidado mesmo. Um passo em falso e você fica na beira do altar.

– Vai dizer que a sua mulher não cobra um presentinho.

– No começo até cobrava. E eu sempre pintava com uma lembrancinha. Mas a coisa não ficou por aí. Também não podia esquecer de celebrar o dia do nosso casamento.

– Isso é claro. Afinal, se você dá presente de namorado e não comemora o casamento, é sinal de que preferia os bons tempos sem compromisso.

– Talvez. Aí ela passou a exigir presente no dia em que a gente se conheceu, no dia do primeiro beijo, no dia que a gente transou pela primeira vez.

– E você guardava todas essas datas?

– Não, ela me lembrava na véspera, soltava indiretas. Eu não queria decepcionar, né?

– Pô, mas isso não tem limite!

– Por isso eu comecei a cortar. Passei a esquecer de propósito.

– E ela?

– Reclamou um pouco. Pra compensar eu passei a dar um mimo ou outro fora de época, sem motivo. Ela ficava alucinada com essas surpresas. A noite era sempre uma loucura, ela fazia o diabo na cama.

– É uma boa solução.

– E tem mais, quando o presente é fora de época pode ser qualquer bobagem, já tá no lucro, certo?

– Cara, você podia ter uma coluna de economia popular.

– Garçom, a conta!

– Um chope e já vai, cara? Se não vai comprar presente, pra que tanta pressa?

– Quero chegar cedo em casa. Se eu me comportar direitinho, ainda rola um amorzinho gostoso hoje.

– Como assim, cara?

– Aprende mais uma coisa: a única maneira de chegar em casa sem presente no dia dos namorados e não rolar DR é não pedir pra patroa fazer sexo. Nem no dia, nem no resto da semana. Sem chance.

– Então corre, cara. Deixa que eu pago esse chope.

O casado sai apressado. O solteiro pega o celular:

– Alô, Claudinha? O que você vai fazer hoje?

VIDA DE CASADO

Gabriel e Lourenço não se viam há anos. Estudaram juntos na época do vestibular. Estudar é modo de dizer. Lourenço estudou, passou para medicina e se formou. É ginecologista. Gabriel tentou comunicação, arquitetura, desenho industrial e passou. Passou o rodo geral. Não chegou a ter nada muito sério com nenhuma delas, fora um corte na cabeça – sete pontos.  Clarinha mandou-lhe o celular nas ideias quando o flagrou embarcando com a Janine para Porto Seguro com as passagens que ela, a Clarinha, comprou com ele, o cafajeste (Clarinha nunca mais pronunciou o seu nome. ).  Isso foi nos anos 90, na época em que os celulares eram tijolaços pesados.

Lourenço se casou com Carla, a única da galera que Gabriel não pegou. É  monógamo assumido, mesmo quando sua mulher não está por perto. Gabriel é solteiro convicto. E não acredita muito nesse papo do Lourenço.

– Duvido! – grita Gabriel na mesa do bar. – Isso não existe! Imagina um homem que só come uma mulher a vida inteira!

– Tô te falando, rapaz. Pra que eu ia mentir? Pra você ficar me zoando a noite toda?

– Porque você tem medo de eu sair espalhando por aí e a Carla acabar sabendo.

– Não é isso. Sinceramente acho que não vale a pena. Prefiro dormir tranquilo depois do vuco-vuvo a ter que ficar arrumando desculpa ao chegar em casa.

– Você é um cara inteligente, não ia ter dificuldade pra inventar uma cascata convincente.

– Gabriel, eu já te falei: eu amo minha mulher!

– O que é que amor tem a ver com nosso papo? Amor é coisa do coração, eu tô falando de xoxota, que é outro órgão. E você é ginecologista, sabe disso. Vai dizer que nunca se encantou por nenhuma paciente que já tá ali à sua disposição?

– Você é insano mesmo. Além de poder dar uma merda federal, tem que considerar que quando a mulher procura um ginecologista, algum problema ela tem – e não é no coração.

– Não adianta. Nesse assunto eu fecho com Mr. Catra. Ele diz que o homem que só come uma mulher é viado. Uma questão de estatítica: o cara pega uma e dispensa todas as outras do planeta. Tá muito mais perto de um gay, que não come nenhuma, do que de um macho de fato, que comeria quantas pudesse.

–  Gabriel, na boa, quando foi a última vez que você comeu alguém?

– Não tem nem uma semana. Ou duas. Ou três…por aí.

–  Tô te falando, rapaz. Vale mais a pena ser casado. O tempo que você gasta na noite pra convencer uma mulher a te dar, eu tô no meu sofá assistindo meu futebol e depois ainda vejo quantos episódios de Two and a Half Men eu quiser. Vida de solteiro é boa depois de editada. Você só conta pros amigos o compacto com os melhores momentos.

– Você não cansa não? Sempre a mesma coisa?

– E quem disse que é sempre a mesma coisa? O importante é os dois terem o mesmo nível de animação. O cardápio lá em casa é variado. A gente pesquisa novidades na internet e vai testando.

– Novidades, é? O quê? Menage, suingue, fio terra?

– Aí você já tá querendo saber demais. Só digo que pra ter uma vida sexual saudável, sendo casado é preciso ter imaginação. E também é muito mais barato.

– Claro. Não gasta com noitadas, bebidas, restaurantes caríssimos, camisinhas…

– Eu tô falando de pensão e advogados.

– Ah sei lá… Tenho arrepios só de me imaginar uma D.R. com a patroa.

– D.R. é com namorada, rapaz. Com a patroa é só ficar calado, tomando esporro. Depois passa. agora o importante é a mulher se cuidar.

– E se ela começa a embarangar, como faz?

– Você começa a fazer dieta e a correr na Lagoa. Ela vai ter certeza de que você tá de olho em outra. No dia seguinte tá na academia. O problema do casamento é o desleixo. Uma calcinha desbeiçada, uma cueca freada acabam com qualquer relacionamento estável.

– Chega, Lourenço. Você já me convenceu. Vou mudar de vida.

– Tá ligando pra quem?

– Pra tua mulher. Se ela topar, eu faço um test drive na vida de casado.