O MARIDO IDEAL

conversa

Uma amiga me enviou esse print screen. M (pediu pra não ser identificada, nem pra ser seguida no Instagram) reclamava do marido, que não vinha demonstrando muito interesse pela coisa. O sujeito preferia passar a noite vendo clássicos do Cariocão (como Volta Redonda x América) a cumprir com suas obrigações horizontais.

A falta de apetite pode ser provocada por uma rotina burocrática do casal, o que leva o sujeito a buscar emoção e adrenalina num Tigres x Cabofriense. As jogadas ensaiadas na fase de namoro se repetem até hoje, ela joga na retranca, ele toca as bolas pro lado, a tática do chuveirinho foi abandonada, enfim, as animadas peladas em campos de várzea deram lugar a sonolentas partidas em grama sintética.

O pior é que além de ruim, durava pouco. O maridão podia obter índice pra próxima Olimpíada, já que era mais rápido que o Usain Bolt. Quando a brincadeira acabava, M. ficava sempre na mão – ou nas leguminosas, caso já tivesse feito a feira. O maridão, nem aí. Contanto que não atrapalhasse seu ronco pós-coito, tava tudo certo.

Errado.

M. cansou-se dessa pasmaceira, resolveu tomar uma providência. Foi ao mercado, pesquisou a concorrência e partiu para um test-drive. Aprovou alguns modelos e terceirizou a brincadeira.

Algumas amigas a aconselharam a anunciar no Mercado Livre o marido sem uso, abandonado no quarto dos fundos junto com a bicicleta ergométrica. Mas ela preferiu deixar as coisas como estavam pra não se aborrecer.

A vida de M. mudou. Voltou a irradiar alegria, a cantarolar enquanto faz as tarefas domésticas – o casal não tem empregada e o parceiro é um inútil também pra isso. M. achava que tinha controle absoluto da situação até sua descoberta surpreendente: ele sabia de tudo. Como? E desde quando? Não podia lhe perguntar, preferiu manter o silêncio dos indecentes.

A tensão de um possível flagra apagou parte da sua alegria. Não toda, pois quando o couro come, ela esquece dos riscos da vida. Com o passar do tempo, voltou a relaxar.  Veio o desleixo com a segurança – só não abria mão da camisinha. E o prazer era desavergonhadamente extravasado em gritaria, o que à tarde, ninguém do prédio até hoje reclamou. Nada a levou a uma saia justa ou ao Programa do Ratinho.

Foi quando M. percebeu que seu marido, além de conformado, era discreto. Não queria confusão. Uma vizinha lhe confidenciou que o pacato morador, quando chegava mais cedo, passava na banca de jornal da esquina, comprava uma revistinha de Sodoku, se prostrava no sofá que a síndica instalou no saguão da portaria e dali só se levantava quando um desconhecido saía do elevador sem cumprimentar o porteiro. O caminho para o lar doce lar estava liberado. Há dez anos o casal vive na mais perfeita harmonia.

396
ao todo.

FOME NOTURNA

fome noturna

– Demorou! Onde você foi?

– Fui ali comer uma coisinha.

– Te procurei na cozinha e não te achei.

– Não tinha nada que me apetecesse, aí fui na rua.

– Cheiro de perfume barato… Gervásio, isso é perfume de mulher.

– É, sim.

– É sim??? Você foi encontrar outra mulher?

– Encontrar não1 Comer…

– O quê? Peraí, acho que não tô ouvindo direito. Deixa ver se entendi: você estava aqui deitado comigo, se levantou, foi na rua, pegou uma mulher e…

– …Comi.

– …Tá, comeu. Detesto essa palavra! Me deixou aqui, pra co… argh! Comer uma piranha.

– Qual é o drama? Você disse que tava com preguiça, não queria saber de sexo hoje.

– Aí você sai na maior cara dura e…

– Você não tava, mas eu tava. E deixei bem claro. Vai dizer que não sentiu o volume…

– Como você é grosso!

– Grosso, eu? Poxa, achei que tava sendo educado. Não quis incomodar você. Imagina ser um desses maridos que praticamente estupram a mulher quando querem sexo! Eu te respeito, não vou forçar você a fazer nada que não queira.

– Por acaso eu quero ficar deitada ao lado de um homem que se deitou com outra?

– Você pode se levantar, tô cansadão.

– Que nojo! Nem um banho.

– Não queria ficar muito tempo longe de você, meu amor.

– Amor? Deus me livre! Tenho horror a você. E para de tentar me agarrar. Saia já dessa cama! Desse quarto! Dessa casa! Dessa vida!

– Tá bom, tá bom. Só tava sendo sincero com você. Você sabe como eu detesto mentiras.

– Nesse caso, eu preferia que você mentisse.

– Você ia acabar descobrindo, sou péssimo nisso. Não tem nada a ver, pô. Sexo é uma coisa, amor é outra, será que você não consegue entender?

– Nem eu, nem meu advogado.

– Advogado? Deixa que eu explico pra ele. Só tomar um banho, primeiro…

– Gervásio, não tô acreditando que ainda tô ouvindo sua voz! Qual é a parte de “se manda daqui agora!” que você não entendeu? Some! Evapora! Tenho asco de você, seu escroto, babaca, promíscuo, doente!

Sentado no meio fio da rua de madrugada, Gervásio protegia a cabeça da chuva de roupas e livros que a janela do terceiro andar vomitava sobre ele. Jurava inocência e achou exagerada a reação da namorada. “Vai entender essa mulher… Só pode estar na TPM…”- pensava enquanto recolhia os pertences.

 

 

 

 

147
ao todo.

PROIBIDO PARA MENORES

sex

O casal andava meio entediado. A rotina estava instalada e não havia meio de sair. Ele não chegava a se incomodar tanto. Afinal, o mais importante era a estabilidade. E a rotina servia muito bem para esse fim. Sem invencionices, não passavam pela sua cabeça ideias que pudessem pôr o relacionamento a perder. Claro que, como a maioria dos homens, tinha suas fantasias, sonhava em pegar uma funkeira popozuda e esculachar geral. Mas achava arriscado. Não confiava que tudo pudesse dar certo, que não houvesse efeitos colaterais.

Ela, porém, não estava satisfeita com o rumo que as coisas haviam tomado. A acomodação se traduzia em pasmaceira, em falta de imaginação. Era um cineminha aqui e ali – se bem que ele preferia netflix. Restaurante uma vez por mês, quando saía o salário – no último ano nem variou mais de restaurante; nos últimos quatro meses, até o prato dele era o mesmo.

Na cama, ele só se deitava sem meias quando tinha certeza de que ia rolar. Ou seja, às sextas-feiras. Sábado era dia de pôquer com uns casais amigos, ele enchia a cara e voltava inutilizado. Perda total.

Algo precisava ser feito. As crianças já estavam crescidas, nem serviam mais de desculpa para o atraso do casal. Ele tinha sido promovido na firma, agora era gerente administrativo, ganhava razoavelmente bem, não tinha motivo para estresse.

Um dia, ao sair do cinema, resolveram voltar a pé para casa. Sem pressa, apreciavam as vitrines das lojas. Roupas, calçados, celulares, armarinhos…até que… Uma porta discreta, com uma placa “Proibido para Menores”. Ávida por novidades, ela ficou curiosa. Ele estava temeroso, podia ser um lugar barra-pesada. Ela perguntou se ele se considerava de menor. Não se tratava disso, mas não queria arriscar levá-la a um lugar perigoso.

– O que pode acontecer, se a gente entrar? – perguntou ela – Vão nos sedar e roubar um rim?

– Deus me livre! Tá louca?

– Que é que tem? Mesmo que nos roube um rim, tenho dois. Pode ser divertido.

– Não fale uma coisa dessas! Agora mesmo é que não entro.

– Deixa de ser bobo!

Ela tomou a iniciativa, segurou a mão dele e empurrou a porta preta. A iluminação de boate, a música eletrônica criavam uma atmosfera libidinosa. Atravessaram um corredor e, no fundo, o óbvio se revelou: tratava-se de uma loja de objetos eróticos.

Ela nunca tinha entrado numa. Ele, sim, com colegas de trabalho numa viagem da empresa. Não comprou nada e nada falou em casa, temia dar a entender que a tinha traído. Ele não sabe mentir e, em certas circunstâncias, não sabe nem dizer a verdade, soa como mentira mal contada.

Ela estava curiosa e foi se animando ao ver os produtos expostos. Ele relaxou. Risinhos nervosos de cumplicidade. O uso de alguns objetos era evidente, de outros, nem tanto.

– Como funciona isso? – perguntou ela.

– Menor ideia.

– Vamos perguntar ao vendedor.

– Tá maluca! Não quero que a gente passe por um casal careta que não entende nada disso.

– Mas a gente é um casal careta que não entende nada disso.

– E os outros precisam saber?

– Que diferença? Ninguém conhece a gente. E está tão escuro que nem conseguem ver nossa cara direito.

Foram olhando, pegando em algemas, máscaras, se divertindo com as fantasias de colegial, bombeiro, enfermeira, dançarina do ventre, policial…

– Calcinha comestível! – ela se espantou, ingênua.

– É aperitivo. – ele brincou. – O parceiro já vai fazendo uma boquinha.

– Tem vários sabores: morango, caramelo, limão.

– Bacalhau…

– Sério?

– Brincadeira. Mas não duvido que exista.

Depois de examinarem algumas peças, passaram à outra seção de objetos, que de fato chamaram a atenção dela. O enigmático colar tailandês foi o que mais a intrigou.

– Quem daria um colar desses de presente pra namorada?

– Se tá aí é porque deve vender.

– E será que a mulher usa?

– Pelo menos uma vez, pra agradar o amante.

– Mas que coisa de mau gosto, sair por aí com uma bijuteria de plástico dessas no pescoço.

– Querida, isso não é bijuteria. E nem se usa no pescoço.

– Não.?

– É de enfiar lá.

– Lá onde?

– Onde o sol não bate.

– Sério? Todo ele?

– Pois é…depois puxa.

– Nossa! Então é tipo motor de lancha, daquelas que ligam puxando a cordinha?

– Mais ou menos.

– Não, não. Preferia algo mais convencional.

– Você tá pensando em comprar ? – ela o surpreendeu.

– Por que não?

– Já vi que tá animada!

– Nem estava, mas fiquei.

Foram se dirigindo ao balcão onde estavam diversos modelos de vibradores. Ela ficou excitada. Ele gostou.

– A gente podia levar um desses.

– Você quer mesmo, querida?

– Não me chame de querida, me chame de cachorra.

– Quer um desses, cachorra?

– Au, au!

Ele sentiu uma leve ereção.

– Olha só este! – ela pegou um que parecia a réplica de um pênis.

– Parece real.

– Prefiro um menos real, mais fantástico. Este aqui!

– Uau! Tá mal intencionada!

– Pensei que fosse me achar bem intencionada. Se é pra gente experimentar, por que ficar de miserinha? Olha este! Será que existe na vida real?

– Desse tamanho, acho que nem no xvideos…

– O que é isso?

– Em casa eu te mostro. – respondeu como quem fosse revelar a senha da conta numerada na Suíça.

– Vamos levar?

Ele sempre teve vontade de propor isso, mas nunca soube como ela poderia reagir. Agora que ela embarcou, não podia dar chance de desistir.

– Claro!

O vendedor percebeu o interesse do casal e logo se aproximou.

– Pois não?

– Queremos levar. – disse ela, mostrando, um tanto acanhada, um modelo de dildo de proporções nada acanhadas.

– Vou pegar um no estoque.

– São dois. – ela corrigiu.

– Oi? – ele se assustou.

– Um pra mim, outro pra você.

– Um só dá. A gente vai brincar juntos, não é?

– Sim, claro. Mas cada um com o seu.

– Como assim?

– Ué. Você usa em mim, eu uso em você.

– Não… – risinho nervoso – Esse modelo é feminino.

– Desculpe, senhor. É unissex.

– Não lhe perguntei nada. – rebateu ele, ríspido.

– Bom, se você não quer, eu também desisto.

Ele ficou sem saber o que dizer. Não estava pensando em ser atravessado por aquilo. Por outro lado, não queria apagar o fogo dela. Olhava para o objeto estático. Num silêncio reflexivo.

– Então, o que vocês decidiram? – perguntou o vendedor.

– Querida, ou melhor, cachorra, o meu pode ser aquele menorzinho?

244
ao todo.

O VÍCIO

Captura de Tela 2014-11-11 às 17.53.25

Quando Mariana se casou com Gervásio todo mundo avisou. Gervásio tinha fama de galinha e não sossegava em poleiro nenhum. Dava em cima de tudo que é mulher que passava na sua frente, prometia amor eterno a três namoradas ao mesmo tempo, uma ao vivo, outra pelo celular e outra via mensagem no orkut. Mas jurava que no dia que encontrasse a parceira da sua vida ia pendurar a camisinha.

Mariana é uma mulher de personalidade. Olhou para Gervásio e se encantou. As amigas se desesperaram.

– Deixa de bobagem. – ela rebatia. – Vocês implicam com o Gervásio só por causa daquele bigode. Na minha gestão ele vai ter que raspar e vai perder aquela cara de cafajeste.

– Sei não, Mariana. Você não tem medo de ele começar a pegar as suas amigas?

– Qual delas?

– Eu, por exemplo. Quer dizer não é que vá dar mole pra ele, é só uma maneira de falar sem ficar citando nomes…

– Ainda confio mais nele do que em você, Valeska. Afinal, é mais fácil ele raspar o bigode do que você trocar esse seu nome que é quase uma condenação.

Mariana enfrentou a opinião pública e se casou com Gervásio. Antes, liberou o futuro marido para armar a despedida de solteiro como quisesse, com direito a baile funk com jogadores de futebol e cachorras à vontade. Ainda deixou no bolso dele o telefone da Valeska.

O casamento se consumou e Gervásio mudou mesmo. Raspou o bigode, leiloou entre os amigos o celular, cuja agenda de contatos era mais cobiçada que ações do Google. E sossegou.

O maior problema para Gervásio não era deixar de pular a cerca e sim perder a fama de garanhão da qual sempre se orgulhou. Até que um dia teve uma ideia. Conversou com Mariana e ela topou. À noite se arrumaram e foram a um restaurante. Mariana entrou sozinha e pediu uma mesa. Gersávio deu um tempo, quinze minutos depois  chegou e se dirigiu ao bar. Chamou o garçom e pediu-lhe que entregasse um bilhete à moça solitária, junto com um drink. O garçom trocou um olhar cúmplice ao se dirigir à mesa.

– O senhor do balcão está lhe oferecendo um proseccozinho, madame.

Mariana agradeceu e abriu o bilhete. Ele tentou se afastar, mas foi puxado pela manga do paletó. No mesmo papel, Mariana escreveu o número do seu celular e devolveu ao garçom.

Gervásio mudou-se para a mesa de Mariana. Os dois jantaram, depois saíram juntos. Discretamente, ele escorregou uma gorjeta para o garçom e quase pediu “Espalha!”.

Passaram a repetir a trama com frequência. Gervásio foi readquirindo a autoestima que andava em baixa. Aos poucos foi elaborando a brincadeira. Chegava, contava vantagens ao barman, fazia apostas de que pegaria aquela dona e, ao invés de bilhetes carinhosos e galantes, passou a escrever algo tipo: “Quero te comer todinha, sua cachorra”.

Mariana deu um fim na brincadeira quando Gervásio foi fundo no personagem do marido que trai a mulher com a amante. Como de hábito, foram a um restaurante e ele passou-lhe uma cantada. Mais tarde levou-a para um motel, encheu a cara e caiu broxa na cama, depois de passar horas falando mal da própria esposa.

254
ao todo.

FOME

Captura de Tela 2014-08-26 às 18.53.52

 –       Demorou! Onde você foi?

–       Fui ali comer uma coisinha.

–       Te procurei na cozinha e não te achei.

–       Não tinha nada que me apetecesse, aí fui na rua.

–       Cheiro de perfume barato…Gervásio, isso é perfume de mulher.

–       É, sim.

–       É sim?? Você foi encontrar outra mulher?

–       Encontrar não, comer.

–       O quê? Peraí, acho que não tô ouvindo direito. Deixa ver se entendi: você estava aqui deitado comigo, se levantou, foi na rua, pegou uma mulher e …

–       …comeu

–       …tá, comeu. Detesto essa palavra! Me deixou aqui, pra co… argh! Comer uma piranha.

–       Qual é o drama? Você disse que tava com preguiça, não queria saber de sexo hoje.

–       Aí você sai na maior cara dura e…

–       Você não tava, mas eu tava. E deixei bem claro. Vai dizer que não sentiu o volume…

–       Como você é grosso!

–       Grosso, eu? Poxa, achei que tava sendo educado. Não quis incomodar você. Imagina ser um desses maridos que praticamente estupram a mulher quando querem sexo! Eu te respeito, não vou forçar você a fazer nada que não queira.

–       Por acaso eu quero ficar deitada ao lado de um homem que se deitou com outra?

–       Você pode se levantar, tô cansadão.

–       Que nojo! Nem um banho.

–       Não queria ficar muito tempo longe de você, meu amor.

–       Amor? Deus me livre! Tenho horror a você. E para de tentar me agarrar. Saia já dessa cama! Desse quarto! Dessa casa! Dessa vida!

–       Tá bom, tá bom. Só tava sendo sincero com você. Você sabe como eu detesto mentiras.

–       Nesse caso, eu preferia que você mentisse.

–       Você ia acabar descobrindo, sou péssimo nisso. Não tem nada a ver, pô. Sexo é uma coisa, amor é outra, será que você não consegue entender?

–       Nem eu, nem meu advogado.

–       Advogado? Deixa que eu explico pra ele. Só tomar um banho, primeiro…

–       Gervásio, não tô acreditando que ainda tô ouvindo sua voz! Qual é a parte de “se manda daqui agora!”que você não entendeu? Some, evapora! Tenho asco de você, seu escroto, babaca, promíscuo, doente!

Sentado no meio fio da rua de madrugada, Gervásio protegia a cabeça da chuva de roupas e livros que a janela do terceiro andar vomitava sobre ele. Achou exagerada a reação da namorada. “Só pode estar na TPM…”- pensava enquanto recolhia os pertences.

110
ao todo.

CASAL AMIGO

discussão

O casal voltava do teatro. A peça foi uma merda. Eles detestaram mas estavam satisfeitos, foram vistos por muita gente. E qual a outra razão de ir a uma peça de vanguarda se não ganhar fama de moderno?

Otávio e Clara estão casados há quinze anos. Quando o casamento entrou em crise, procuraram um terapeuta. O especialista diagnosticou o problema. Rotina. O casal não variava de programas, de restaurante, até as posições na hora de dormir e de transar eram as mesmas. A diferença entre uma e outra era o ronco. Na hora da transa, Clara roncava mais baixo.

Era preciso dar uma sacudida na vida. Os dois estavam dispostos a qualquer esforço pra salvar o casamento. A paixão já tinha se esvaído, mas eles se davam bem e seria a maior trabalheira mudar tudo. A solução era dar a impressão de que estavam em movimento. A peça de vanguarda fazia parte do plano.

–          Acho que estamos indo bem. – disse Clara.

–          É, foi difícil, mas consegui. Resisti por uma hora e meia. Quando começou aquela fumaceira e baixaram a luz, aproveitei pra dar uma cochilada. – comentou Otávio.

–          Você dormiu com aquela zoeira de serra e guitarras? Que inveja!

–          Nem aí pro barulho, tava preocupado em não dar bandeira. E nem você notou! O importante é que todo mundo nos viu, não somos mais aquele casal careta que vai dormir depois da novela.

–          Agora vai chover convite pra performances ousadas e criativas.

–          Já fomos nessa, ficamos com crédito. Podemos dar uma sumida.

–          E se a gente desse uma festa? Pode ser um sucesso. A gente contrata um DJ, serve comida japonesa, bota um grafiteiro, um tatuador. Acho que o terapeuta até nos dá alta.

–          Pode ser…

–          Falta uma coisa.

–          O quê?

–          Nossos amigos.

–          O que tem nossos amigos, Clara? Você acha que eles não viriam?

–          Viriam, sim. O negócio é que nosso grupo tá incompleto. Falta um casal gay na lista.

–          Verdade, não temos um casal gay amigo.

–          Pode pegar mal.

–          Ninguém nunca reclamou.

–          Se dermos uma festa, o pessoal vai notar.

–          O seu cabeleireiro não é gay?

–          É, mas não tem namorado, tá solteiro.

–          Solteiro não, pode ser problema. Se der em cima de um amigo, pode criar saia justa.

–          Que nada, imagina se um amigo sai do armário? Nossa festa entra pra historia.

–          Clara, é só uma festa e não um programa de auditório.

–          E se a gente chamasse aqueles dois que moram no prédio da sua mãe? São animados, podem abrir a pista.

–          Vão vir com tarefa? Vão acabar cobrando cachê.

–          Mas se ficarem quietinhos num canto da sala, ninguém nem vai notar. Eles são tão discretos.

–          Você começou falando em ter amigos gays, agora já quer uma exibição. Qual é a sua ideia, afinal?

–          Só quero acabar com a sua fama de homofóbico.

–          Homofóbico, eu?!

–          Todo mundo deve achar que não temos um casal gay amigo porque você não tolera.

–          Então é isso, a gente entrou em crise porque eu tenho fama de homofóbico.

–          Não digo que esse é o motivo, mas não ajuda.

–          Vamos parar por aqui. Tudo é culpa minha. Quer saber, tô de saco cheio! Chega dessa viadagem de ficar tentando salvar casamento.

–          Agora entendi o que você quer encobrir com todo esse machismo.

–          Peraí, um minuto atrás eu era homofóbico, agora você suspeita que sou gay. Você precisa se decidir, Clara.

–          O indeciso aqui é você, Otávio.

–          Não dá mais pra conversar com você. Vamos parar por aqui. Fui!

–          Otávio? Peraí! Tá indo pra onde? Pra casa da mamãe? Não sai assim, não. Olha, sábado tem festa aqui. Pode trazer seu namorado…vocês ficam quietinhos num canto, tá?

 

69
ao todo.

SE FOR ROUBAR, NÃO SE SEPARE!

destaque

–       Precisamos conversar.

–       Agora não posso.

–       É urgente.

–       Eu sei.

–       Você sabe que é urgente e não quer conversar?

–       Não questão de querer, é questão de não poder. Eu sei muito bem o que você quer. Você quer se separar.

–       Isso mesmo. Eu já até falei com meu advogado e…

–       Sem chances.

–       Como assim, “sem chances”? A gente não se entende mais, não rola sexo há três meses. A gente nem se fala mais.

–       Eu não falo. Você continua falando pelos cotovelos. Mas além de não falar, eu também não escuto.

–       Você acha isso normal? Manter um casamento nessa base? Eu não aguento mais isso! Quero ser feliz, quero ser livre.

–       Eu também quero ser livre, aliás, quero continuar livre.

–       Mas esse casamento é uma prisão.

–       Você não sabe o que tá falando. Prisão é Papuda, é Bangu 1… não vou acabar num lugar desses.

–       Não quero te botar na cadeia, só quero o divórcio.

–       Sei. Depois vai pedir uma fortuna de pensão. Aí nós vamos discutir, vamos brigar. E você vai me dizer que gravou todas as minhas conversas telefônicas, que sabe de todas as negociatas que eu me meti. Vai botar na imprensa todas as concorrências fraudulentas que eu facilitei pros empreiteiros, vai dar o número da minha conta na Suíça pro primeiro jornalista que aparecer…

–       Eu?

–       É, você mesma! Não se faça de sonsa, eu sei muito bem quais são suas intenções! Vai ficar numa boa, enquanto eu não vou poder me reeleger, nem vou poder andar na rua, vão apontar pra mim: “Olha lá o ladrão! Fala, corrupto! Devolve o meu dinheiro seu filho da pu…”

–       Mas Roubôncio Afanásio, como vou te denunciar se não sei de nada disso?

–       Não sabe?

–       Não.

–       Não gravou minhas conversas?

–       De que jeito?

–       Não instalou câmeras no meu escritório?

–       Tá maluco? Claro que não!

–       Ah…então…nesse caso, nem precisamos conversar. Vou te dar o telefone do meu advogado e você liga direto pra ele. Me empresta sua caneta?

–       Que caneta?

–       A que tá no bolso da sua blusa, com a luzinha vermelha piscando.

–       Toma a Bic. Essa aqui tá…tá sem carga…

 

175
ao todo.