FOME NOTURNA

fome noturna

– Demorou! Onde você foi?

– Fui ali comer uma coisinha.

– Te procurei na cozinha e não te achei.

– Não tinha nada que me apetecesse, aí fui na rua.

– Cheiro de perfume barato… Gervásio, isso é perfume de mulher.

– É, sim.

– É sim??? Você foi encontrar outra mulher?

– Encontrar não1 Comer…

– O quê? Peraí, acho que não tô ouvindo direito. Deixa ver se entendi: você estava aqui deitado comigo, se levantou, foi na rua, pegou uma mulher e…

– …Comi.

– …Tá, comeu. Detesto essa palavra! Me deixou aqui, pra co… argh! Comer uma piranha.

– Qual é o drama? Você disse que tava com preguiça, não queria saber de sexo hoje.

– Aí você sai na maior cara dura e…

– Você não tava, mas eu tava. E deixei bem claro. Vai dizer que não sentiu o volume…

– Como você é grosso!

– Grosso, eu? Poxa, achei que tava sendo educado. Não quis incomodar você. Imagina ser um desses maridos que praticamente estupram a mulher quando querem sexo! Eu te respeito, não vou forçar você a fazer nada que não queira.

– Por acaso eu quero ficar deitada ao lado de um homem que se deitou com outra?

– Você pode se levantar, tô cansadão.

– Que nojo! Nem um banho.

– Não queria ficar muito tempo longe de você, meu amor.

– Amor? Deus me livre! Tenho horror a você. E para de tentar me agarrar. Saia já dessa cama! Desse quarto! Dessa casa! Dessa vida!

– Tá bom, tá bom. Só tava sendo sincero com você. Você sabe como eu detesto mentiras.

– Nesse caso, eu preferia que você mentisse.

– Você ia acabar descobrindo, sou péssimo nisso. Não tem nada a ver, pô. Sexo é uma coisa, amor é outra, será que você não consegue entender?

– Nem eu, nem meu advogado.

– Advogado? Deixa que eu explico pra ele. Só tomar um banho, primeiro…

– Gervásio, não tô acreditando que ainda tô ouvindo sua voz! Qual é a parte de “se manda daqui agora!” que você não entendeu? Some! Evapora! Tenho asco de você, seu escroto, babaca, promíscuo, doente!

Sentado no meio fio da rua de madrugada, Gervásio protegia a cabeça da chuva de roupas e livros que a janela do terceiro andar vomitava sobre ele. Jurava inocência e achou exagerada a reação da namorada. “Vai entender essa mulher… Só pode estar na TPM…”- pensava enquanto recolhia os pertences.

 

 

 

 

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PROIBIDO PARA MENORES

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O casal andava meio entediado. A rotina estava instalada e não havia meio de sair. Ele não chegava a se incomodar tanto. Afinal, o mais importante era a estabilidade. E a rotina servia muito bem para esse fim. Sem invencionices, não passavam pela sua cabeça ideias que pudessem pôr o relacionamento a perder. Claro que, como a maioria dos homens, tinha suas fantasias, sonhava em pegar uma funkeira popozuda e esculachar geral. Mas achava arriscado. Não confiava que tudo pudesse dar certo, que não houvesse efeitos colaterais.

Ela, porém, não estava satisfeita com o rumo que as coisas haviam tomado. A acomodação se traduzia em pasmaceira, em falta de imaginação. Era um cineminha aqui e ali – se bem que ele preferia netflix. Restaurante uma vez por mês, quando saía o salário – no último ano nem variou mais de restaurante; nos últimos quatro meses, até o prato dele era o mesmo.

Na cama, ele só se deitava sem meias quando tinha certeza de que ia rolar. Ou seja, às sextas-feiras. Sábado era dia de pôquer com uns casais amigos, ele enchia a cara e voltava inutilizado. Perda total.

Algo precisava ser feito. As crianças já estavam crescidas, nem serviam mais de desculpa para o atraso do casal. Ele tinha sido promovido na firma, agora era gerente administrativo, ganhava razoavelmente bem, não tinha motivo para estresse.

Um dia, ao sair do cinema, resolveram voltar a pé para casa. Sem pressa, apreciavam as vitrines das lojas. Roupas, calçados, celulares, armarinhos…até que… Uma porta discreta, com uma placa “Proibido para Menores”. Ávida por novidades, ela ficou curiosa. Ele estava temeroso, podia ser um lugar barra-pesada. Ela perguntou se ele se considerava de menor. Não se tratava disso, mas não queria arriscar levá-la a um lugar perigoso.

– O que pode acontecer, se a gente entrar? – perguntou ela – Vão nos sedar e roubar um rim?

– Deus me livre! Tá louca?

– Que é que tem? Mesmo que nos roube um rim, tenho dois. Pode ser divertido.

– Não fale uma coisa dessas! Agora mesmo é que não entro.

– Deixa de ser bobo!

Ela tomou a iniciativa, segurou a mão dele e empurrou a porta preta. A iluminação de boate, a música eletrônica criavam uma atmosfera libidinosa. Atravessaram um corredor e, no fundo, o óbvio se revelou: tratava-se de uma loja de objetos eróticos.

Ela nunca tinha entrado numa. Ele, sim, com colegas de trabalho numa viagem da empresa. Não comprou nada e nada falou em casa, temia dar a entender que a tinha traído. Ele não sabe mentir e, em certas circunstâncias, não sabe nem dizer a verdade, soa como mentira mal contada.

Ela estava curiosa e foi se animando ao ver os produtos expostos. Ele relaxou. Risinhos nervosos de cumplicidade. O uso de alguns objetos era evidente, de outros, nem tanto.

– Como funciona isso? – perguntou ela.

– Menor ideia.

– Vamos perguntar ao vendedor.

– Tá maluca! Não quero que a gente passe por um casal careta que não entende nada disso.

– Mas a gente é um casal careta que não entende nada disso.

– E os outros precisam saber?

– Que diferença? Ninguém conhece a gente. E está tão escuro que nem conseguem ver nossa cara direito.

Foram olhando, pegando em algemas, máscaras, se divertindo com as fantasias de colegial, bombeiro, enfermeira, dançarina do ventre, policial…

– Calcinha comestível! – ela se espantou, ingênua.

– É aperitivo. – ele brincou. – O parceiro já vai fazendo uma boquinha.

– Tem vários sabores: morango, caramelo, limão.

– Bacalhau…

– Sério?

– Brincadeira. Mas não duvido que exista.

Depois de examinarem algumas peças, passaram à outra seção de objetos, que de fato chamaram a atenção dela. O enigmático colar tailandês foi o que mais a intrigou.

– Quem daria um colar desses de presente pra namorada?

– Se tá aí é porque deve vender.

– E será que a mulher usa?

– Pelo menos uma vez, pra agradar o amante.

– Mas que coisa de mau gosto, sair por aí com uma bijuteria de plástico dessas no pescoço.

– Querida, isso não é bijuteria. E nem se usa no pescoço.

– Não.?

– É de enfiar lá.

– Lá onde?

– Onde o sol não bate.

– Sério? Todo ele?

– Pois é…depois puxa.

– Nossa! Então é tipo motor de lancha, daquelas que ligam puxando a cordinha?

– Mais ou menos.

– Não, não. Preferia algo mais convencional.

– Você tá pensando em comprar ? – ela o surpreendeu.

– Por que não?

– Já vi que tá animada!

– Nem estava, mas fiquei.

Foram se dirigindo ao balcão onde estavam diversos modelos de vibradores. Ela ficou excitada. Ele gostou.

– A gente podia levar um desses.

– Você quer mesmo, querida?

– Não me chame de querida, me chame de cachorra.

– Quer um desses, cachorra?

– Au, au!

Ele sentiu uma leve ereção.

– Olha só este! – ela pegou um que parecia a réplica de um pênis.

– Parece real.

– Prefiro um menos real, mais fantástico. Este aqui!

– Uau! Tá mal intencionada!

– Pensei que fosse me achar bem intencionada. Se é pra gente experimentar, por que ficar de miserinha? Olha este! Será que existe na vida real?

– Desse tamanho, acho que nem no xvideos…

– O que é isso?

– Em casa eu te mostro. – respondeu como quem fosse revelar a senha da conta numerada na Suíça.

– Vamos levar?

Ele sempre teve vontade de propor isso, mas nunca soube como ela poderia reagir. Agora que ela embarcou, não podia dar chance de desistir.

– Claro!

O vendedor percebeu o interesse do casal e logo se aproximou.

– Pois não?

– Queremos levar. – disse ela, mostrando, um tanto acanhada, um modelo de dildo de proporções nada acanhadas.

– Vou pegar um no estoque.

– São dois. – ela corrigiu.

– Oi? – ele se assustou.

– Um pra mim, outro pra você.

– Um só dá. A gente vai brincar juntos, não é?

– Sim, claro. Mas cada um com o seu.

– Como assim?

– Ué. Você usa em mim, eu uso em você.

– Não… – risinho nervoso – Esse modelo é feminino.

– Desculpe, senhor. É unissex.

– Não lhe perguntei nada. – rebateu ele, ríspido.

– Bom, se você não quer, eu também desisto.

Ele ficou sem saber o que dizer. Não estava pensando em ser atravessado por aquilo. Por outro lado, não queria apagar o fogo dela. Olhava para o objeto estático. Num silêncio reflexivo.

– Então, o que vocês decidiram? – perguntou o vendedor.

– Querida, ou melhor, cachorra, o meu pode ser aquele menorzinho?

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O VÍCIO

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Quando Mariana se casou com Gervásio todo mundo avisou. Gervásio tinha fama de galinha e não sossegava em poleiro nenhum. Dava em cima de tudo que é mulher que passava na sua frente, prometia amor eterno a três namoradas ao mesmo tempo, uma ao vivo, outra pelo celular e outra via mensagem no orkut. Mas jurava que no dia que encontrasse a parceira da sua vida ia pendurar a camisinha.

Mariana é uma mulher de personalidade. Olhou para Gervásio e se encantou. As amigas se desesperaram.

– Deixa de bobagem. – ela rebatia. – Vocês implicam com o Gervásio só por causa daquele bigode. Na minha gestão ele vai ter que raspar e vai perder aquela cara de cafajeste.

– Sei não, Mariana. Você não tem medo de ele começar a pegar as suas amigas?

– Qual delas?

– Eu, por exemplo. Quer dizer não é que vá dar mole pra ele, é só uma maneira de falar sem ficar citando nomes…

– Ainda confio mais nele do que em você, Valeska. Afinal, é mais fácil ele raspar o bigode do que você trocar esse seu nome que é quase uma condenação.

Mariana enfrentou a opinião pública e se casou com Gervásio. Antes, liberou o futuro marido para armar a despedida de solteiro como quisesse, com direito a baile funk com jogadores de futebol e cachorras à vontade. Ainda deixou no bolso dele o telefone da Valeska.

O casamento se consumou e Gervásio mudou mesmo. Raspou o bigode, leiloou entre os amigos o celular, cuja agenda de contatos era mais cobiçada que ações do Google. E sossegou.

O maior problema para Gervásio não era deixar de pular a cerca e sim perder a fama de garanhão da qual sempre se orgulhou. Até que um dia teve uma ideia. Conversou com Mariana e ela topou. À noite se arrumaram e foram a um restaurante. Mariana entrou sozinha e pediu uma mesa. Gersávio deu um tempo, quinze minutos depois  chegou e se dirigiu ao bar. Chamou o garçom e pediu-lhe que entregasse um bilhete à moça solitária, junto com um drink. O garçom trocou um olhar cúmplice ao se dirigir à mesa.

– O senhor do balcão está lhe oferecendo um proseccozinho, madame.

Mariana agradeceu e abriu o bilhete. Ele tentou se afastar, mas foi puxado pela manga do paletó. No mesmo papel, Mariana escreveu o número do seu celular e devolveu ao garçom.

Gervásio mudou-se para a mesa de Mariana. Os dois jantaram, depois saíram juntos. Discretamente, ele escorregou uma gorjeta para o garçom e quase pediu “Espalha!”.

Passaram a repetir a trama com frequência. Gervásio foi readquirindo a autoestima que andava em baixa. Aos poucos foi elaborando a brincadeira. Chegava, contava vantagens ao barman, fazia apostas de que pegaria aquela dona e, ao invés de bilhetes carinhosos e galantes, passou a escrever algo tipo: “Quero te comer todinha, sua cachorra”.

Mariana deu um fim na brincadeira quando Gervásio foi fundo no personagem do marido que trai a mulher com a amante. Como de hábito, foram a um restaurante e ele passou-lhe uma cantada. Mais tarde levou-a para um motel, encheu a cara e caiu broxa na cama, depois de passar horas falando mal da própria esposa.

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CAFÉ DA MANHÃ

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–       Passa a manteiga, cachorra.

–       Oi?

–       O queijo, vagabunda.

–       Hellooo! Carlos, tá falando com quem?

–       É contigo mesmo, sua vaca!

–       Carlos! Para com isso. Não tô achando a menor graça.

–       Ué, como não? Ontem mesmo você tava me pedindo: “me chama de piranha, me chama de cachorra!”

–       Isso foi de noite, na cama.

–       Mas eu continuo com tesão!

–        Imagina se as crianças ouvem.

–       E se eu falar isso baixinho no seu ouvido, sua piranha?

–       Não dá, não adianta forçar a barra, Carlos. Esse vocabulário não funciona com a gente vestido pra sair pro trabalho.

–       Quer que eu tire a calça, sua safada?

–       Quero que você cale a boca.

–       Palmadinha na bunda?

–       Experimenta! Te derramo a água do chá.

–       Opa! Tá entrando no clima. Também vou te deixar toda molhadinha.

–       Você não tem reunião daqui a pouco?

–       Quer brincar de secretária, danadinha?

–       Chega! Tô indo.

–       Quer que chame um táxi?

–       O quê??

–       O dinheiro tá na mesinha de cabeceira.

–       Carlos, mais uma dessas e ligo pro meu advogado!

–       Que isso! Vai me processar??

–       Quem falou em processo? É só pra animar a brincadeira.

–       Aí não, aí parou!

–       Não para, não para…

 

 

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O SILICONE

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O casal se preparava para ir dormir. Otávio ajeitava a garrafa d’água na mesinha de cabeceira quando comentou:

– A Rosana botou silicone nos peitos?

– Por que você ta perguntando?

– Dá pra notar. Mas não queria dar furo. Vai que eles tão só inchados.

– Botou, sim.

O casal voltou a ficar em silêncio. Otávio pegou um livro e fingiu estar lendo. Não conseguia se concentrar.

– Você se incomodaria se eu pegasse no peito dela?

– O quê? Será que eu ouvi direito?

– Vou repetir: posso pegar nos peitos da Rosana?

– Que ideia mais idiota!

– Idiota nada, eu queria saber como é. Só uma apalpadinha, sem compromisso.

– Me dê um motivo pra eu permitir uma sem-vergonhice dessas.

– Muito simples. Uma vez eu sugeri e você disse que nunca botaria silicone nos peitos. Eu concordei. Mas pô, eu tenho essa curiosidade. Como é que faço?

– Ah, Otávio, que besteira! Vai no google e pesquisa. Tem tudo lá.

– O google não é de carne, nem em 3D.

– Silicone também não é de carne.

– Marcela, gente tá casado há vinte anos e eu não quero ter que me divorciar só pra poder pegar num peito com silicone. Ao mesmo tempo não acho justo passar toda minha existência sem meter a mão num peitinho turbinado.

– Peitinho turbinado? E ainda quer me convencer que é mera curiosidade científica…Isso é tara! Você é um tarado, Otávio.

– Você é que é paranóica, Marcela.

– Ah, é? E se eu quiser saber se o Paulão tem pau grande? Posso dar uma apalpada?

– É completamente diferente! Nada a ver! O Paulão não pôs enchimento no pau.

– Como você sabe? Já apalpou?

– Engraçadinha. Tô falando que ali é tudo dele. E eu tô querendo sentir como fica um seio feminino recheado com matéria artificial

– Não me venha falar de “seio feminino” só pra fingir isenção. Eu sei muito bem qual a sua intenção, é dar uma mamadinha.

– Mas aí depende de ela deixar, e não você.

– Se ela deixasse, mesmo sem o meu consentimento você…

– Hum hum…

– Então só precisa de autorização minha pra apalpar?

– São só hipóteses, Marcela. Não precisa ficar assim.

– Tudo bem. Boa noite.

Marcela virou-se de costas e puxou a coberta.

– Boa noite.

Otávio apagou a luminária e se ajeitou, enquanto Marcela perguntava:

– Ah, e qual o telefone do Paulão?

 

 

 

 

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A CONSULTORIA

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Alex é um fotógrafo de vinte e poucos anos. Foi trabalhar num jornal e conheceu Ataíde, um repórter cinquentão. Alex é solteiro, nas horas vagas, vai pras baladas da Lapa pra tentar arrumar uma mulher que dê condição e outras coisitas mais. Ataíde é um sujeito casado e fiel à sua patroa. Defende ardorosamente sua monogamia, não tanto por convicção mas, segundo ele, por falta de circunstâncias perfeitas em que não corresse o menor risco de esmerdalhar sua vidinha tão acertada.

Alex não entende Ataíde. Não entra na cabeça dele o sujeito ficar amarrado a uma única mulher quando a vida oferece uma grande variedade de opções.

– É sério isso mesmo? – pergunta Alex, intrigado.

– Já te disse que sim, mas acho que você não acreditou. – respondeu Ataíde.

– Não acreditei mesmo. Por que isso? É promessa?

– É amor, rapaz. Sabe o que é isso?

– Menor ideia.

– Amor à vida tranquila, só nós dois, sem amantes ou advogados pra tumultuar a relação.

– Há quanto tempo você só transa com a sua mulher?

– Desde que a gente casou, há 28 anos.

– Toda a minha existência mais três anos de franquia! É muito tempo! Já lhe ocorreu uma coisa?

– O quê?

– E se vocês estiverem fazendo errado?

– Como assim?

– Se vocês estiverem transando de forma errada?

– Que isso, rapaz? Não tem como errar, tá no instinto.

– Sei, mas vocês estão isolados, não trocam experiências, vivem como os cubanos no bloqueio comercial, sem saber o que se passa no resto do planeta.

– Também não é assim. Tem internet lá em casa, posso acompanhar tudinho.

– E você acha que alguém faz daquele jeito deles? Alguém aguenta tanto tempo naquele ritmo frenético? Aquilo é pura ficção, Ataíde. E eles usam dublês contorcionistas pra certas posições.

– Olha, Alex, tá funcionando muito bem, tamos muito bem entrosados. Em time que tá ganhando não se mexe.

– Mas vocês não tão ganhando, tão, no máximo, empatando.

– Afinal, Alex, o que você quer propor?

– Minha ideia é uma consultoria. Você faz um video e me mostra. Aí eu dou umas dicas pra incrementar a parada, passo as novidades do mercado, novas táticas e coisa e tal…Tudo no maior sigilo, tua mulher nem precisa saber, fica entre nós.

– Consultoria? Bom, lá em casa nós não temos segredos. Vou conversar com a Gracinha, depois te falo. Mas ó, nada desse papo de fio-terra, entendeu?

– Fechado.

*    *   *

Em casa, Ataíde apresentou a proposta.

– Então, Gracinha, o que você acha?

– Tá maluco, Ataíde? Não vê que esse sujeito quer se aproveitar da gente?

– Como assim? O que um sujeito que cada dia tem uma mulher diferente na cama ia sair ganhando assistindo dois velhos fazendo sexo?

– Por isso não, que tem tarado pra tudo. Mas eu acho que o caso não é esse.

– É o quê, então?

– O seu amigo vive trocando de parceira. Nunca repete mulher, sabe por quê? Ele é ruim de jogo, Ataíde! Por isso as mulheres não voltam, aí ele tem que arrumar outra. Esse cara tá querendo saber qual é o nosso segredo. O que a gente faz que dá tão certo. E eu não vou dar esse gostinho pra ele.

– Sabe que não tinha pensado nisso?

– Pois é, mas eu pensei. Agora vamos lá pra dentro que amanhã eu tenho que acordar cedo.

– Tô indo, Gracinha, tô indo.

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10 COISAS QUE VOCÊ NÃO SABE SOBRE HOMENS CASADOS

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1 – Homem casado não empresta o controle remoto

Não adianta pedir, implorar, fazer beicinho. O controle é dele. Afinal, é a única coisa que ele controla na casa, o resto é todo seu: a decoração, o cardápio das refeições, as empregadas, os filhos, o telefone e o marido. Portanto, não insista. Se quiser um controle remoto, compre outro pra você, mas nem pense em colocar pilhas!

2 –  Homem casado não lembra a data do aniversário de casamento

É inútil anotar na agenda dele, escrever no espelho do banheiro, pichar a parede do quarto. Ele vai esquecer mesmo assim. Ele lembra a escalação do Botafogo de 1967, lembra o dia em que tomou um porre com os amigos e entrou em coma alcoólica, lembra o dia de trocar os amortecedores do carro. Mas, devido a um defeito de fabricação, ele veio sem o neurônio que armazena a data mais importante da sua vida. E não adianta levar na autorizada, eles também não darão jeito.

3 – Homem casado só quer casar com você, não com sua mãe

Você é a cara da sua mãe, que por sinal é simpática, prestativa e ótima companhia. Ela tem 50 anos de casada e muitas dicas pra passar a um casal que está começando agora. Nesse caso, mande ela passar um e-mail. Nunca, em hipótese alguma, convide sua mãe para ficar uns dias debaixo do mesmo teto que vocês. Em poucas horas ela estará mandando nos dois. E ele estará louco pra se mandar.

4- Homem casado não sabe que toalha molhada molha

Assim como não sabe que a tampa do vaso não abaixa sozinha e que o prato sujo não sabe ir para a pia após o jantar, ele não imagina que toalha encharcada sobre a cama faz uma poça no colchão. E também não entende para que arrumar uma cama que vai ser desfeita logo mais à noite.

5- Homem casado prefere ficar em casa vendo futebol

Não existe programa melhor. Antigamente ele saía com você para ir ao teatro, te convidava para jantar fora, depois te levava para dançar. Mas tudo isso era só pra pegar você! Agora que casaram, você é que dançou. E não adianta marcar o programa para depois do futebol. Tem ainda os melhores momentos, os gols da rodada e todas as mesas redondas que ele perdeu quando vocês estavam namorando.

6- Homem casado adora ficar doente

Esse é o verdadeiro sexo frágil. Basta uma unha encravada e o sujeito cai de cama, fica gemendo, exigindo que a patroa fique ali do seu lado paparicando-o. Mas é só chamar o negão da farmácia para aplicar-lhe uma injeção que o sujeito logo fica sarado.

7- Homem casado já foi solteiro e teve namoradas

Não sei se devia estar te falando isso agora, mas esse cara que você está levando para o altar não nasceu quando vocês se conheceram. Ele teve outras namoradas e, o que é pior, talvez ainda se lembre do nome e de outros detalhes que podem escapar durante o sono após uma porranca.

8- Homem casado não é telepata

Por mais que você fique muda do seu lado, explodindo de raiva por dentro, poucos maridos têm o poder mediúnico de descobrir o que a mulher está sentindo. E o mais grave: quando ele lhe perguntar o que é que você tem e sua resposta for “nada”, ele vai acreditar.

9- Homem casado também olha pra bunda de mulher na rua

Ele não está fazendo uma comparação com o que tem em casa, também não necessariamente está avaliando se vale a investida. É uma reação natural e instintiva, ele não saberá explicar por que olhou. Mas se ele parar de olhar as bundas das mulheres na rua, verifique se ele parou de olhar também em casa. E passou a alugar filmes do tipo “Brokeback Mountain”.

10- Homem casado morre de medo de advogado

Marido que é marido não tem medo de barata, de rato, nem de filme de terror. Mas se o bicho pegar e ele começar a te encher a paciência, ameace chamar um advogado. O cara amansa na hora. Mesmo sendo péssimo em matemática, todo marido sabe fazer uma conta de dividir por dois.

1.5mil
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VIDA DE CASADO

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Gabriel e Lourenço não se viam há anos. Estudaram juntos na época do vestibular. Estudar é modo de dizer. Lourenço estudou, passou para medicina e se formou. É ginecologista. Gabriel tentou comunicação, arquitetura, desenho industrial e passou. Passou o rodo geral. Não chegou a ter nada muito sério com nenhuma delas, fora um corte na cabeça – sete pontos.  Clarinha mandou-lhe o celular nas ideias quando o flagrou embarcando com a Janine para Porto Seguro com as passagens que ela, a Clarinha, comprou com ele, o cafajeste (Clarinha nunca mais pronunciou o seu nome. ).  Isso foi nos anos 90, na época em que os celulares eram tijolaços pesados.

Lourenço se casou com Carla, a única da galera que Gabriel não pegou. É  monógamo assumido, mesmo quando sua mulher não está por perto. Gabriel é solteiro convicto. E não acredita muito nesse papo do Lourenço.

– Duvido! – grita Gabriel na mesa do bar. – Isso não existe! Imagina um homem que só come uma mulher a vida inteira!

– Tô te falando, rapaz. Pra que eu ia mentir? Pra você ficar me zoando a noite toda?

– Porque você tem medo de eu sair espalhando por aí e a Carla acabar sabendo.

– Não é isso. Sinceramente acho que não vale a pena. Prefiro dormir tranquilo depois do vuco-vuvo a ter que ficar arrumando desculpa ao chegar em casa.

– Você é um cara inteligente, não ia ter dificuldade pra inventar uma cascata convincente.

– Gabriel, eu já te falei: eu amo minha mulher!

– O que é que amor tem a ver com nosso papo? Amor é coisa do coração, eu tô falando de xoxota, que é outro órgão. E você é ginecologista, sabe disso. Vai dizer que nunca se encantou por nenhuma paciente que já tá ali à sua disposição?

– Você é insano mesmo. Além de poder dar uma merda federal, tem que considerar que quando a mulher procura um ginecologista, algum problema ela tem – e não é no coração.

– Não adianta. Nesse assunto eu fecho com Mr. Catra. Ele diz que o homem que só come uma mulher é viado. Uma questão de estatítica: o cara pega uma e dispensa todas as outras do planeta. Tá muito mais perto de um gay, que não come nenhuma, do que de um macho de fato, que comeria quantas pudesse.

–  Gabriel, na boa, quando foi a última vez que você comeu alguém?

– Não tem nem uma semana. Ou duas. Ou três…por aí.

–  Tô te falando, rapaz. Vale mais a pena ser casado. O tempo que você gasta na noite pra convencer uma mulher a te dar, eu tô no meu sofá assistindo meu futebol e depois ainda vejo quantos episódios de Two and a Half Men eu quiser. Vida de solteiro é boa depois de editada. Você só conta pros amigos o compacto com os melhores momentos.

– Você não cansa não? Sempre a mesma coisa?

– E quem disse que é sempre a mesma coisa? O importante é os dois terem o mesmo nível de animação. O cardápio lá em casa é variado. A gente pesquisa novidades na internet e vai testando.

– Novidades, é? O quê? Menage, suingue, fio terra?

– Aí você já tá querendo saber demais. Só digo que pra ter uma vida sexual saudável, sendo casado é preciso ter imaginação. E também é muito mais barato.

– Claro. Não gasta com noitadas, bebidas, restaurantes caríssimos, camisinhas…

– Eu tô falando de pensão e advogados.

– Ah sei lá… Tenho arrepios só de me imaginar uma D.R. com a patroa.

– D.R. é com namorada, rapaz. Com a patroa é só ficar calado, tomando esporro. Depois passa. agora o importante é a mulher se cuidar.

– E se ela começa a embarangar, como faz?

– Você começa a fazer dieta e a correr na Lagoa. Ela vai ter certeza de que você tá de olho em outra. No dia seguinte tá na academia. O problema do casamento é o desleixo. Uma calcinha desbeiçada, uma cueca freada acabam com qualquer relacionamento estável.

– Chega, Lourenço. Você já me convenceu. Vou mudar de vida.

– Tá ligando pra quem?

– Pra tua mulher. Se ela topar, eu faço um test drive na vida de casado.

590
ao todo.