BUSSUNDA: UM NOME A LAZER

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O ano era 1978. Estava na praia de Ipanema com Beto Silva, Marcelo Madureira e Claudio Manoel, quando fui apresentado ao Bussunda. Imagino uma cigana passando ali naquele momento, prevendo que no futuro aquele gordo dentuço, com pinta de quem não visitava um chuveiro há dias, seria um dos meus melhores amigos e até padrinho de um dos meus filhos. Chamaria a polícia na hora e mandaria prender a charlatã.

Eu, Beto e Madureira tínhamos criado o jornalzinho Casseta Popular, que vendíamos na faculdade de Engenharia. Dois anos depois, resolvemos ampliar a proposta editorial pra vender o jornal na praia, nos bares, no Baixo Leblon e no Baixo Gávea. Convidamos o Claudio Manoel e outros amigos. A galera dava força pra gente incorporar o Bussunda na nossa equipe: “Chama o cara, ele é engraçado”. Foi um tiro certíssimo. A Casseta Popular mais tarde se tornaria revista e daria origem, junto com o jornal Planeta Diário, ao grupo Casseta & Planeta.

Bussunda surpreendia o tempo todo. O visual de bad boy barba, cabeleira sebosa e desgrenhada, maltrapilho camuflava uma figura doce e cativante. O ar de vagabundo escondia o leitor voraz, que tanto podia ter na mochila surrada um clássico do século XIX como uma revista em quadrinhos. Desligado, desleixado, era um pai presente e atento. Sacana, irreverente, Bussunda era o fiel da balança no grupo numa discussão acirrada, o que era comum nas nossas reuniões de pauta.

No futebol, o contraste chocava ainda mais. A barriga pronunciada, as pernas arqueadas, o andar cambaleante o tornavam um improvável jogador. Mas em campo conseguia mostrar habilidade e visão de jogo. Sabia se colocar, lançava com precisão, chutava bem e nem no gol fazia feio. Desafiava as leis da física, zombava da gravidade. Com a ajuda de uma bombinha de asma na lateral do campo, encarava os dois tempos e a prorrogação, se houvesse.

Viciado em listas, colecionava estatísticas dos jogadores mais desconhecidos num caderninho que consultava constantemente para embasar seus argumentos numa discussão. O futebol era uma grande paixão, logo depois do Flamengo. Largava qualquer coisa para se largar na geral do Maraca, para onde ia, independente do adversário do seu rubro-negro. Quando ganhava um título, era insuportável de aturar. Até porque eu era botafoguense, uma das vítimas prediletas do seu ídolo maior, Zico. Mas em 1989 fui à forra. No dia 21 de junho, uma quarta-feira, fazíamos juntos uma festa de aniversário sou do dia 18 e ele, do dia 25. Nesse dia, o Botafogo decidia com o Flamengo o campeonato carioca. Pra surpresa geral, o Fogão derrotou Zico e cia e quebrou um jejum de 21 anos sem título. Meu presente foi poder zoar o maior torcedor rubro-negro que conheci. Prazer inenarrável.

No início da nossa trajetória, trabalhei como engenheiro numa empresa séria, que tinha a austeridade como lema, a Promon Engenharia. Dependia do emprego para continuar a fazer nossa revista. Certa vez, disse que tinha um nome a zelar. A resposta do Bussunda veio como um chute de trivela no ângulo: “Problema seu, eu tenho um nome a lazer”.
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Publicado na Folha de São Paulo em 17/6/2016

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E.T. DE VARGINHA – 20 ANOS

Este ano completam 20 anos que o famoso extraterrestre fez sua visita ao planeta Terra. Figura humilde, avessa a badalações, poderia ter aterrissado em Hollywood, onde tem amigos influentes, como o cineasta Spielberg. Mas preferiu buscar refúgio na pacata cidade de Varginha, no interior de Minas Gerais.

Muita gente não acreditou na sua existência, outros não tinham dúvidas de que era real. Varginha surfou na onda, tornou-se conhecida no Brasil inteiro e em vários países do mundo. Recebeu um volume de turistas nunca antes visto.

Casseta & Planeta foi conferir o fenômeno. Fomos à cidade, onde fomos recebidos com muito carinho pela população. Entrevistamos muitos moradores e fomos levados aos locais frequentados pelo E.T. . O prefeito organizou uma festa para a despedida do E.T., com presença da Miss Varginha e da banda municipal, que entoou o hino da terra natal do convidado.

O E.T. de Varginha desapareceu e nunca mais entrou em contato. Se tivesse ficado por aqui, hoje certamente teria um blog, um perfil no Facebook, e faria muito sucesso publicando nudes no snapchat.

Acompanhe neste video nossa reportagem exclusiva sobre a histórica visita do E.T. de Varginha.

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NA TERRA DE MANDELA

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Na primeira vez em que estive na África do Sul faltavam dez dias pra eleição do Mandela. Era 1994. Fomos gravar um especial pro Casseta & Planeta, Urgente! O país estava querendo limpar sua barra e aumentar o fluxo de turistas, a gente tava querendo viajar pra fazer piadas. Eu e Hubert fomos escalados pra uma série de matérias, a principal delas, um safári, em que Hubert era o nativo e eu, o homem branco.

Era uma situação complicada. Havia uma tensão no ar. O apartheid tinha acabado no papel, mas na prática as coisas não eram assim tão harmônicas. Já no aeroporto notamos que a miscigenação ia custar a vingar por ali. Já era possível ver etnias diversas no saguão, mas cada uma no seu quadrado. Se num banco sentasse um branco, só brancos sentavam ao lado. O mesmo no caso de negros, indianos, judeus… Johannesburgo aprendendo a ser multicultural. Nossa equipe era a única mesclada, tinha branco, preto, árabe andando juntos. Difícil era escolher um restaurante ou barzinho. Entrávamos num, só víamos africâners, eu não me sentia à vontade. Num outro, só negão, era a vez dos outros ficarem desconfortáveis. O racismo era geral, sem discriminação.

A elite andava assustada com o que podia vir pela frente. Muitos já estavam de mudança para a Holanda ou qualquer outro país da Europa. Não seria surpresa pra ninguém se a África do Sul mergulhasse numa guerra civil. E se a negada resolvesse ir à forra, depois de séculos de opressão?

Quem estava comandando as mudanças era um cara que passou 27 anos preso em condições precárias. O mundo deu sorte, Mandela era superior à unanimidade e preferia batalhar pacificamente a urrar por vingança. E olha que teria muito mais motivo pra reagir com ódio contra seus opressores do que qualquer black bloc que toma seu Toddynho na casa da mamãe antes de sair pra apedrejar bancos e saquear lojas.

Madiba (que deve significar “Pelé”em xhosa, sua língua materna) tinha outros planos. Saiu da prisão de Roben Island pra ser o primeiro presidente negro em um país com o regime mais racista do planeta. Cinco anos antes seria algo tão viável quanto elegerem um palmeirense para a presidência da Gaviões da Fiel.

Mandela aturou 27 anos de maus tratos, trabalhos pesados e humilhações num fétido presídio. Conquistou a liberdade e voltou pra casa. Tomou conhecimento das falcatruas, picaretagens e chifradas da mulher, Winnie Mandela, e não resistiu mais de seis anos àquele casamento. “Aquilo sim era uma tortura!” – declarou o mito sul africano tempos depois.

As evidências da história estavam bastante presentes. Não havia transporte coletivo. Nas rodovias circulavam os carros da minoria branca, enquanto o acostamento era usado pelos negros que cruzavam a pé distâncias de até 50 quilômetros de suas tribos até o trabalho. Os hotéis eram territórios onde só víamos turistas europeus.

Vivi um episódio inesquecível no Mala Mala Game Reserve, um resort de luxo onde nos hospedamos. No intervalo entre as gravações, pus uma sunga e fui dar um mergulho na piscina. Bastou dar as primeiras braçadas pros branquelos gringos saírem de fininho da água. Eu era o único negro que andava pelo hotel sem empunhar uma bandeja ou fantasiado de zulu. Talvez tenham ido reclamar com a gerência. Hoje certamente seria diferente. Mandela pode não ter acabado com o racismo na África do Sul, mas obrigou os racistas a enfiar suas opiniões no… deixa pra lá, vamos manter o espírito conciliador.

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ONDE VOCÊ ESTAVA NO 11 DE SETEMBRO?

11 de setembro é o dia do mundo inteiro parar para escrever a redação “Onde você estava no 11 de setembro?”. O tema superou o batido “Minhas férias adoráveis”. Todos se consideram parte integrante da história e,mesmo não estando em Nova Iorque em 2001, todos são testemunhas oculares do “dia em que mudou o mundo” ou do “dia em que a América nunca mais foi a mesma”. Bastava estar assistindo tv.

Ninguém perguntou, ninguém quer saber, mas vou escrever mesmo assim porque tô de bobeira esperando a torradeira liberar meu pão. Naquela terça-feira estava me preparando pra ir para o Projac quando minha mulher me ligou. No carro ouviu a CBN anunciar que um piloto desastrado errou a rota e bateu numa das torres do WTC. Imediatamente liguei a tv pra ver que milionário idiota e bêbado resolveu passear por Nova Iorque no seu jatinho e causou o acidente.

Não era um jatinho, não era um milionário bêbado e não era um acidente. Enquanto as hipóteses eram chutadas, assistia a tudo, junto com desocupados do planeta que se postaram em frente às tevês da vitrine do Ponto Frio. Foi o primeiro fato histórico que vi acontecer. Já tinha perdido a descoberta do Brasil, o suicídio do Getúlio, o assassinato de John Kennedy, mas agora eu tava ligado.

Fui para o Projac gravar algumas cenas do Casseta & Planeta, Urgente! Àquela altura era impossível entrar com uma atualidade no programa que já estava pronto e editado. Acompanhamos as notícias um tanto atônitos, sem nos darmos conta da dimensão dos fatos.

Na quarta-feira, aquele foi o tema da nossa reunião. Bolamos vários quadros zoando o atentado para exibir na terça seguinte. Alguém mais sensato que nós embarreirou as piadas, argumentando que aquilo ainda teria uma grande repercussão e que o público não reagiria bem à sacanagem com tantos cadáveres ainda desaparecidos sob os escombros. Achamos absurdo na hora, depois vimos que escapamos de um linchamento mundial – ainda não existia a moda de falar mal de qualquer coisa no twitter, aliás, ainda nem existia twitter.

Pouco depois, os noticiários perguntavam: “Onde está você, Osama Bin Laden?”, Criamos nosa hipótese. Osama estava escondido numa favela carioca, amasiado com a mulata Jurema. Incógnito, tinha uma vida pacata no morro, tomando uma cervejinha, jogando seu videogame e revendo imagens do seu grande feito. Quando Obama foi eleito, descobrimos que Jurema era sua prima, com quem tinha um romance secreto. Osama era corno de Obama!

No ano passado, porém, Sacha Baron Cohen, o famoso Borat, revelou em seu novo filme, “O Ditador”, que não foi bem assim.  Na realidade, os americanos mataram um sósia do Osama. O verdadeiro está malocado na mansão de Aladeen, o ditador de Wadija, um pequeno país encravado no Oriente Médio.

Agora eu me pergunto: quanto tempo levará para essa versão sair das telas de cinema e chegar ao noticiário internacional? Talvez este seja o tema da redação do próximo 11 de setembro.

Opa! Minha torrada ficou pronta.

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