UPA, UPA, CAVALINHO!

Tenho um amigo que não entende nada de cavalos. Mas como sua mulher é amazona, vez por outra se vê num evento de hipismo. Não pode deixá-la circular sozinha num meio em que o pessoal é mestre em pular cerca. Recentemente ele esteve no Athina Onassis Horse Show, o maior evento do hipismo no país, que reúne os melhores cavaleiros e os cavalos mais marrentos do mundo.

O hipismo é um esporte difícil. Você tem que saltar vários obstáculos com mais de um metro e meio de altura e ainda acertar a ordem deles – os caras não facilitam, não põem um atrás do outro, tem que achá-los espalhados na pista, sem a ajuda de um GPS. Tudo isso com um sujeito nas suas costas! Sim, estou falando com o cavalo, o verdadeiro atleta dessa historia.

São cavalos alemães, holandeses e belgas que viajam de primeira classe, frequentam cabeleireiros, acupunturistas, manicures, psicólogos e se recusam a ser atendidos por veterinários. No Brasil só aceitam ser medicados pelo doutor Dráuzio Varella. Valem milhões de euros. O proprietário de um bichano desses poderia vendê-lo, aplicar a grana num fundo de investimentos e passar a vida pastando.

O torneio é uma festa da abastada elite da sociedade. A maior parte do PIB nacional está concentrado nas mesas dos camarotes. Os milionários pagam uma fortuna para comer e beber de graça, enquanto assistem às provas. Muita gente sem bala na agulha vai aos bancos fazer um empréstimo para investir num ingresso da área VIP. É a maneira mais fácil de se passar por milionário. Andando devagar, falando baixo, rindo alto,  de camisa polo, óculos Ray Ban de camelô e um Rolex falsificado no pulso, é possível fechar um negócio de milhões de dólares com um outro picareta que está ali pelo mesmo motivo. Porque o rico de verdade não está ali para ganhar dinheiro. Ele também não se impressiona com a champanhe ou o cardápio oferecido, por melhor que seja. Entra na fila do buffet e mistura risoto de pato com bobó de camarão para se sentir povão. Tudo aquilo é folclórico, é como se estivesse na Portela saboreando a feijoada da Tia Surita.

Um outro ponto que não dá pra entender são os trajes dos cavaleiros. Por que usar uma casaca abotoada até o pescoço pra montar um cavalo debaixo do maior sol? E o culote, aquela calça apertadinha de bailarino? Fica muito bem nas moças, moldando o corpo e realçando a marca da calcinha cada vez que a amazona tira o bumbum da sela na hora do salto. Mas fica difícil parecer macho vestindo aquilo. O sujeito tem que entrar na pista, cuspir no picadeiro e enfiar o chicote no cavalo pra não ouvir os risinhos vindo da arquibancada.

Foi-se o tempo em que um concurso internacional de hipismo era para poucos. Hoje em dia o esporte é apreciado por muita gente. Mesmo quem não tem grana para ir ao evento pode acompanhar pela tevê. Os melhores momentos das provas são transmitidos por canais de tevê a cabo. E os piores passam nas videocassetadas do Faustão.