Muriaé, o mais novo bairro do Rio

Foram três semanas intensas de filmagem, mais quatro de pré-produção. A equipe de “Correndo Atrás” invadiu a cidade mineira e mudou a vida da população. Foi como se um enorme disco voador vindo de um planeta desconhecido tivesse pousado na Zona da Mata e deixado que seus alienígenas explorassem a região.

Estivemos por tudo quanto é canto perturbando o sossego do povo. Fechando ruas no centro, ocupando becos e vielas de bairros distantes, enchendo a cara nos bares, trabalhando intensamente de seis da manhã às seis da tarde. Ou vice-versa.

Quando nos propuseram rodar o filme em Muriaé, estranhamos. Como assim? A história se passa no subúrbio do Rio de Janeiro! Mas, ao chegarem as primeiras fotos, começamos a acreditar que seria possível. De fato, Muriaé tem muitos pontos em comum com o Rio. As locações casaram perfeitamente com o roteiro.

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O deslocamento era fácil, as distâncias eram curtas, o trânsito, tranquilo. Mas a maior vantagem foi o povo muriaense. Muitos acompanharam de perto cada cena rodada, sempre colaborando, fazendo silêncio quando a gente pedia, aturando os transtornos na frente das lojas impedidas de funcionar normalmente.

Várias pessoas participaram do filme, seja como figuração, elenco de apoio, equipe técnica, motoristas, fornecedores diversos. Trabalhar no filme dava status. Até o garotão da farmácia, que entregou escova e pasta de dentes para um ator, comeu gente.

– O que você faz?

– No momento, tô trabalhando no “Correndo Atrás”. Sou responsável pelos sorrisos do elenco.

E lá foi ele na moto com uma gatinha, a caminho do motel Panorama.

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Fiquei impressionado quando cheguei pra filmagem de uma sequência na rua Silveira Brum, no centro da cidade. Caminhava pela praça João Pinheiro, a mais antiga de Muriaé, quando me deparei com uma fileira de quatro caminhões lotados de equipamentos e uma intensa movimentação de profissionais pelas calçadas. Lembrei de quando escrevia o livro “Vai na Bola, Glanderson!“, sozinho em casa, nas madrugas. Não podia imaginar que causaria tamanho caos.

Caos e alegria. O pessoal pôde ver como funciona a produção de um filme e ainda teve a chance de tietar os artistas. A cidade inteira tirou fotos com a gente. Chegamos a nos sentir uma espécie de Pokémon raro: todo mundo captando nossas imagens com o celular. O set de filmagem era sempre um cobiçado PokéStop.

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Muriaé é muito acolhedora. E o carioca se sente em casa. Ali tem bairros como Barra, Gávea e Leblon. O principal ponto turístico é um Cristo Redentor. Até os Arcos da Lapa têm uma réplica na cidade. Além disso, os muriaeenses não torcem pelos mineiros Cruzeiro ou Atlético e sim pelo Botafogo, Vasco, Fla e Flu.

Vou levar boas lembranças dessa temporada. E uma coleção de objetos alvinegros. O povo me presenteou com relógio, toalha, boné, caneca, porta-retratos, tudo com a bela estrela solitária. Nem sei como descobriram o meu time…

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Imagino a ressaca da cidade nos dias seguintes a nossa partida. Muitas histórias, muitas fofocas. Quem sabe daqui a nove meses quantos Glandersons e Greices nascerão… Mas, como diz o ditado, “o que acontece em Muriaé, fica em Muriaé.” . Ou ainda, pra usar o jargão cinematográfico, “amor de locação não chega na edição”.

O filme se despede da cidade, mas ainda vamos rodar no Rio e em São Paulo. Depois, efeitos, trilha sonora, montagem… até o lançamento muita água vai rolar.

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Aí voltamos pra fazer uma pré-estreia. A cidade merece.

Valeu, Muriaé!

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LUCY – NÃO LEIA, CONTÉM SPOILER!

Aviso: se não viu o filme, não leia, posso revelar coisas que você não gostaria de saber. Só quero conversar com quem já viu.

Saí de casa pra ver Lucy sem ter lido nada a respeito. Sabia apenas que Scarlett Johansson era a estrela e que Luc Besson, o diretor – motivos suficientes pra me tirar de casa e ir conferir. Valeu a diversão. Não levei a sério, não achei que tentava nos ensinar alguma coisa. Ficção científica é chute baseado alguns dados, pode ter cara de verdade, como pode mostrar a visão humorística do diretor.

A historia começa de forma intrigante. Morgan Freeman dá uma aula em que especula como funcionaria nosso cérebro se utilizássemos além dos 10% da sua capacidade. O ator projeta o que seríamos capazes de fazer com 20%, 50% e até 100%. O raciocínio é um thriller em si, já que é algo que muitos gostam de se perguntar e nenhuma resposta pode ser comprovada.

Pra mostrar de cara que não devemos levar a sério, o filme apresenta uma série de conquistas da humanidade, para o bem e para o mal – a descoberta de vacinas, as viagens espaciais, as guerras, as ditaduras…numa sequência crescente chega a fundamental descoberta do fogo. Mas a prova mais crucial da habilidade do nosso raciocínio é a solução do cubo mágico em segundos! A partir daí, relaxei na poltrona e acompanhei o filme não como se estudasse uma palestra do Ted e sim como se assiste a um 007. Sem essa de “aí já é demais…”.

Lucy é forçada a servir de mula e transporta no corpo uma grande quantidade de uma droga poderosa que parece ter sido produzida por Walter White na próxima temporada de Breaking Bad. O pacote vaza no seu organismo e tem um efeito surpreendente. Scarlett, que já é uma deusa da beleza, se torna mais inteligente que Einstein e Leonardo da Vinci juntos. O cérebro de google lhe proporciona superpoderes com os quais ela vai acabar com os vilões coreanos.

O curioso é que toda a inteligência faz de Lucy uma dublê de filme de ação. Ela sai por Paris dirigindo na contramão, provocando mortes e acidentes, detonando toda a cidade para combater o mal. A mensagem é que os dublês são dos seres mais evoluídos do planeta! E, apesar de ter na cabeça todo o conhecimento da humanidade, ela precisa dos conselhos do Morgan Freeman! É ele quem lhe diz o que fazer com tanta sabedoria. Só ele sabe como funcionaria o cérebro humano com 100% de sua capacidade instalada. Imagina esse cara depois de ingerir a mesma droga que ela!

Depois de muitos tiros, explosões, torturas e vinganças, Lucy-Scarlett deixa registrado no computador tudo que sabe. E, no auge do exagero, toda sabedoria da humanidade é sintetizada e armazenada num Pen Drive! Essa preciosidade está hoje nas mãos do Morgan Freeman. Espero que ele não grave nada por cima, como acontece com a maioria dos pen drives. O ideal seria o ator ter uma entrada USB no cérebro pra poder ter acesso direto a toda aquela informação.

Fiquei sem entender por que o pen drive não podia ter a forma perfeita de Scarlett Johansson. Taí o maior furo no roteiro desse filme. Mas essa é só a minha opinião. Agora queria saber a sua!

JULIO SUMIU!

Tá chegando a hora. O filme Julio Sumiu, do Beto Silva chega aos cinemas dia 17 de abril. Eu também tô nessa! Fui fazer uma visita às filmagens e acabei descolando uma ponta. Me amarrei em ter participado. Legal estar na fita. E ter a chance de contracenar com a Lília Cabral. Como sou amigo, até agora o Beto não falou em cachê. Não tem problema, ele vai ter uma conversinha com meus advogados. Olha aí como ficou minha participação.

Não viu o trailer? Quer ver de novo? Então clique aqui.

TE CUIDA TARANTINO!

Aviso aos Tarantinos, Spielbergs e Camerons da vida. Fiz um curso de 1 semana na New York Film Academy, em que aprendemos noções de direção, roteiro, produção e edição. Depois de algumas aulas, a turma se divide em equipes de três a quatro pessoas e vai à luta. Cada um tem que criar e dirigir seu próprio filme de no máximo 4 minutos, contando com a ajuda da sua equipe. Apesar de abrangente, este curso é mais uma degustação, brincadeira de gente grande, do que propriamente um formador de cineasta. Afinal, ninguém dominaria todas as áreas do cinema em apenas seis dias. Nem o Ben Affleck!

Mas dá pra tirar uma onda. Por estar em Nova Iorque pensei que poderia ousar na produção, contar com atores experientes, cachês milionários, diversas locações, figurino, maquiagem, tudo em nível de primeiro mundo. Mas não é nada disso. O NYFA deixa o equipamento de filmagem à disposição dos estudantes, o resto é por conta e risco do diretor/produtor. O resultado é uma trabalheira danada para se chegar a uma modesta produção tabajara, no estilo “eu dirijo, deus me livre!”

A gente se diverte um bocado e descobre como é difícil fazer um filme merda…