Nem de Uber, nem de Táxi

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A crise tá braba. Num domingo ensolarado, mais de 60 pessoas se reuniram na Praia do Leme para enfrentar um problema. Como voltar para o Posto 6, onde estavam seus pertences, sem gastar dinheiro com táxi? Eles podiam voltar caminhando pela areia. Mas podia ser perigoso. Com o estado falido, a polícia vem fazendo corpo mole para vigiar a orla. A turma resolveu atravessar a distância a nado.

O primeiro obstáculo foi furar as ondas, que não estavam dispostas a colaborar, Quebravam na cabeça dos que tentavam alcançar a arrebentação. Ainda assim, eles insistiram. Deviam estar mesmo sem grana. Superada essa etapa, se deram conta da temperatura da água nada caribenha. É bem verdade que naquela semana eles experimentaram um mar mais gelado. Estavam se preparando para um imprevisto, o que acabou ocorrendo no domingo.

Eles estavam dispostos. Alguns mais afoitos apressaram as braçadas, talvez temessem sofrer uma hipotermia. Outros, mais tranquilos, seguiram atrás, sem pressa, sem pressão. Não é a primeira vez que eles fizeram esse percurso, o que facilitou a marcação do progresso. Alguns prédios servem de referência. O primeiro passo é o hotel que define o início, no caso deles, o fim do Leme: o antigo Méridien, que muda de nome a cada sudoeste. Em seguida, o Copacabana Palace, que se destaca na orla pela baixa estatura, no meio dos espigões (termo quase tão antigo quanto o próprio Copabacana Palace. O marco seguinte foi o hotel Merriott, fácil de se identificar pelo rombo na fachada. Em seguida, o Othon praticamente avisa: “bora, galera, vocês tão quase lá!”. A essa altura, o grupo que começou compacto, já estava totalmente disperso no oceano, mas todos estavam ligados nos seus pertences que talvez ainda estivessem numa tenda armada próxima à colônia dos pescadores. Nunca se sabe, afinal, estamos no Rio. Mais adiante, o Museu da Imagem e do Som, projeto arquitetônico arrojado com dois objetivos: ser um ícone da paisagem e um marco para os nadadores de que falta pouco para o Posto 5. O hotel Emiliano, quase na rua Francisco Sá, é o penúltimo destaque. Dali em diante, olho no Sofitel. A certeza de que finalmente chegaram vem com os plásticos e garrafas pets que os recebe à sombra do Forte Copacabana. Nunca a poluição dos banhistas foi tão bem recebida.

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Completou-se o percurso de quase 3,5 quilômetros. Aparentemente, todos os pertences foram recuperados. Ou ninguém se dispôs a prestar queixa na delegacia do bairro. Estavam felizes por economizar os reais do táxi. E por descobrirem pra que servem os hotéis da orla do Rio.

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Ela não morreu na praia!

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A Olimpíada tem personagens míticos, como os semi deuses Michael Phelps e Usain Bolt. Assistir às medalhas do americano na piscina foi realização de um sonho. Assim como testemunhar o voo do Raio na pista – e olha que, até agora, só consegui vê-lo numa eliminatória.

Nada, porém, me tocou mais que estar presente à conquista da Poliana Okimoto. Não canso de repetir. Receber uma prova olímpica no quintal de casa não tem preço. Essa foi minha sensação ao ver os melhores nadadores de águas abertas do mundo disputando medalhas no Posto 6 de Copacabana, onde minha equipe, os Gladiadores, treinam diariamente. É como se Messi, Neymar e o goleiraço Jeferson marcassem um jogo no campo da sua pelada. O campinho jamais será o mesmo.

Selfie com o bronze, discretamente roubado.

A prova teve todos os elementos de um bom espetáculo. Elenco de primeira e um roteiro hollywoodiano. Contávamos com duas fortíssimas concorrentes – Ana Marcela Cunha e Poliana. Duas nadadoras de características bem diferentes. Uma forte, que gosta de água fria e mar mexido, outra mais técnica que performa melhor em mar tranquilo.

O dia estava deslumbrante, a praia de Copa, um cartão postal. Tudo certo, mas pro Brasil se dar bem, era preciso combinar com as adversárias. E o COB esqueceu desse detalhe. As gringas chegaram dispostas a ganhar. A ponto de derrubarem o alimento da Ana Marcela, que fechou mais de sete dos dez quilômetros sem se reidratar. Isso lhe custou várias posições. Ana não foi feliz nessa Olimpíada.

Já Poliana tinha outra história. Vinha de um drama em Londres 2012. A água fria foi cruel, ela teve que desistir no meio da prova por hipotermia. Aqui foi tranquilo e favorável. O mar estava calmo, com temperatura agradável. Poliana forçou do começo ao fim, se mantendo por várias vezes na segunda posição. Na última volta, a coisa mudou. A italiana Rachelle Bruni se consolidou no segundo lugar e a francesa Aurélie Muller, que se fingia de morta no meio do pelotão, acelerou e desbancou Poliana do pódio. Ela deu tudo de si, mas foi a quarta a cruzar o pórtico de chegada.

A holandesa Sharon Van Rouwendaal foi tão rápida que nenhum brasileiro lembra dela.

Me conformei com o resultado. Era a melhor colocação dos brasileiros nos esportes aquáticos individuais nestes Jogos. Porém, uma reviravolta. Aurélie se precipitou e atrapalhou a italiana de bater na chegada. Desclassificada! Não importa. Poliana subiu ao pódio merecidamente, fruto do seu esforço. Se a francesa vacilou, Poli não teve culpa. É bronze!

Toda a imprensa falada, escrita e televisada a disputava na unha. Aquele bronze foi mais importante que o ouro. Quem levou mesmo? Nem lembro mais, parece que foi uma holandesa…

O abdômen da holandesa mereceu a medalha de ouro!

Um dia depois de Diego Hypólito contar e recontar sua história de superação, chegou a vez dela alegrar o Brasil. Suportou as porradas do MMA de águas abertas por 1 hora 56 minutos e 51 segundos e fechou os 10 quilômetros da maratona aquática. E todo mundo sabe como a praia de Copacabana é perigosa. Afinal, o lugar é cheio de piranhas. Principalmente em tempos de grandes eventos.


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PRA NÃO MORRER NA PRAIA!

No começo éramos uns três ou quatro. Na hora, apareceram 17. Dezessete malucos que resolveram nadar da Praia Vermelha até o Posto 6. Os táxis não estavam em greve, uma linha de ônibus faz esse trajeto. Podiam alugar um barco – e foi o que fizeram. Mas, ao contrário dos turistas habituais, esses dezessete não quiseram passear dentro do barco e sim perto dele, no mar, a nado.

É uma operação que exige cuidados para ser segura. Contratamos uma lancha, um guarda-vidas e ainda contamos com o apoio de um caiaque para atravessar os 6 quilômetros que separam a Urca do Posto 6. Demos sorte, num dia ensolarado, o mar estava calmo, águas em ótima temperatura, pouco movimento de embarcações. A nós cabia a disposição e foi o que levamos, além dos óculos de natação.

A brincadeira começa tranquila e favorável. Nadamos pela garganta entre o morro do Pão de Açúcar e a Pedra do Leme. As águas mornas, a mata virgem que desce o morro até o mar nos lembra Angra do Reis. Porém, contornar a Pedra e chegar à Princesinha do Mar não é tarefa simples. Uma correnteza forte tentava nos arrastar para a Baía de Guanabara. Era meter o braço ou cair sentado num daqueles sofás atolados no fundo da baía. Nosso sentido era outro.

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O Pão de Açúcar ficou pra trás. À medida que avançávamos a pedra descortinava a orla de Copa. O progresso nesse ponto é medido pelos prédios do Leme que conseguimos ver. Em breve deixamos de ver também a pedra do Leme. A parte mais difícil do percurso vai sendo vencida.

É fundamental nadar em alto mar acompanhado por gente que tem o ritmo próximo ao seu ou em pouco tempo você estará sozinho na imensidão azul. Os hotéis são as referências de progresso. Gosto de marcar o antigo Méridien, o Copa Palace, o Marriot – hotel com buraco na fachada, o Othon que nunca vi por dentro e, por fim, o Cassino Atlântico, onde apostamos todas as fichas que vamos chegar.

Uma travessia tão longa é um exercício de controle da ansiedade. A gente demora a pisar na areia e tomar uma água de coco. Em certos momentos você passa a pensar nos seus problemas nas D.R com a mulher, no dever de casa que o filho não fez, nas encrencas do trabalho. Mas logo tem que afastar os pensamentos para se concentrar nas braçadas alongadas e na orientação da navegação ou o ritmo cai e você pode passar todo seu domingo na água salgada.

À medida que vamos chegando ao destino, a ansiedade cresce, Nadar é legal, mas chegar é melhor. É quando lembro das viagens a Salvador de ônibus que fiz nos meus vinte e poucos anos (parece música do Fábio Júnior). Duravam trinta horas e a última hora, já na cidade baiana, parecia a mais longa de todas. Estava quase lá, mas parece que tinha alguém puxando a rodoviária para longe. Essa era a sensação que me dominou quando cheguei na altura do posto 5. Faltava menos de 15% de tudo que nadamos e parecia interminável.

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De repente, a surpresa. Vamos nos aproximando da orla, o fundo arenoso ressurge. E, confesso, nunca me senti tão feliz de nadar no meio de sacos plásticos, copinhos de mate, embalagens de margarina. É a prova mais concreta de que chegamos!

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O DESAFIO DO CÔCO

Allan do Carmo é o maior nadador de maratonas aquáticas do Brasil. Nosso único representante masculino na Olimpíada foi campeão mundial dos 10km em 2014. Este ano, além de se qualificar para os Jogos de 2016, foi medalha de prata por equipe, junto com Ana Marcela Cunha e Diogo Villarinho. No sábado, 22/8, venceu o evento teste. Foram 10 quilômetros em Copa, local da prova olímpica. Nadou contra outros 25 atletas e faturou. Mas ele tem um desafio maior pela frente. O Desafio do Côco. Vai disputar comigo uma pequena prova valendo um côco na próxima segunda, 24/8, também em Copa. Não vou dar moleza, não! Quero tomar o côco da vitória de qualquer maneira.

Façam suas apostas! A prova será gravada e vai passar no Esporte Espetacular, ainda não sei a data. Aqui vai o vídeo em que Allan comenta sobre nosso desafio.

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SERÁ QUE É ELE?

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Num quiosque do Posto 6 em Copacabana, uma turma habitual de velhinhos se reúne para jogar xadrez. As mesas estão lotadas, alguns acompanhados de seus enfermeiros, outros mais saudáveis estão sozinhos, uns poucos ainda tomam um chope no intervalo dos medicamentos. Ninguém vai dirigir, moram por ali mesmo. Até que chega um senhor alto, cabeça branca, aspecto um tanto abatido. Caminha lentamente e se posta ao lado de uma das mesas.

– A de fora é minha. – fala com um estranho sotaque, algo entre o alemão e o italiano.

O pessoal se entreolha e acabam cedendo a vez ao estranho.

– Vai beber alguma coisa, vovô?

– Vinho tinto.

– Se eu fosse você ia no chope. O vinho daqui é de péssima qualidade.

– Não deve ser pior do que o que me serviram a vida toda.

A roupa do sujeito era esquisita, parecia um abadá do carnaval da Bahia, mas ninguém conseguia reconhecer de que bloco. Ele senta-se e a partida começa. Cauteloso, estuda a estratégia do adversário. O jogo está equilibrado. Até que o novato (apesar da idade) dá uma bobeira. Ninguém entende. Erro grave que lhe custa a partida.

– Tá destreinado, hein amigo.

– Não é isso.

– Foi o quê então? Sua jogada foi primária. Por que você não comeu o bispo?

– Não posso. Podiam me acusar de assédio. O bispo é subordinado meu.

– Como assim? – o pessoal balança a cabeça com o papo de maluco do intruso.

– Não estão me reconhecendo? Eu sou o Papa. Ou melhor, era.

– O Papa, aqui?

– O ex-Papa, em carne e osso e alguns probleminhas cardíacos.

– A gente tinha lido que o senhor, quer dizer, sua santidade…

– Pode me chamar de você, não mereço mais essa formalidades. Isso mesmo, renunciei, avisei que ia dar uma sumida e embarquei pro Rio. Dica de um amigo italiano. Ele me disse que era um lugar seguro, onde já viviam vários membros da sua famiglia.

Nesse momento dois coroas se levantam bruscamente e vão embora.

– Como você pode provar que está falando a verdade?

Ele tira do bolso um passaporte Vaticano, diferente de todos que já haviam visto. Conferem a foto. É igualzinho ao velho, só que mais moço.

– Desculpe perguntar, mas que loucura foi essa de jogar a toalha?

– Cansei. Vou te confessar uma coisa…

O pessoal se benzeu. Imagina, o Papa se confessando bem ali no xadrez do Posto 6!

– Ninguém me dava ouvidos lá dentro. Eu tava sem moral. Aliás, eu nunca tive moral nenhuma. Olha só isso! – Ratzinger tira de uma sacola um cartão postal com sua foto no auge do poder. – Vendiam isso na lojinha oficial.

– Sim, e qual  o problema? – aparentemente não havia nada de errado em uma loja do Vaticano vender uma foto do Papa.

– Vira.

O pessoal olha o verso do cartão. Ali está uma foto menor do João de Deus, padroeiro da torcida tricolor.

– Realmente, uma falta de consideração.

– Uma desmoralização! – completou Ratz indignado.

– Olha, o senhor me permite uma observação. O senhor pegou uma tremenda batata quente. Entrar no lugar do João Paulo II foi uma roubada. O cara era muito popular. É que nem fazer uma novela depois de “Avenida Brasil”…

– Como? – o ex-Papa não entendeu.

– Calma, daqui a algumas semanas o senhor vai saber do que ele está falando. Mas não acho que tenha sido isso, não. É que o senhor era…

– Não era, não! Isso é um absurdo! Eu fui obrigado a ser, na minha juventude lá na Alemanha todo mundo era…

– Eu não tô falando disso. Me perdoe, mas o senhor era muito ranzinza! Ninguém nunca viu o senhor dar um sorriso.

– Com esses escândalos todos, ia rir de quê? Era corrupção, pedofilia, fuga de fiéis pra todo lado…

– Com todo respeito, pra mim o problema era  a sua cara. Papa que é Papa tem que ter aquela carinha redonda, simpática.

– Redonda e rosada. Por isso não acredito em Papa preto. – arrematou alguém da rodinha.

– Isso já é preconceito! – reclamou um negão.

– Ah não, não me diga que agora vai querer cota pra Papa também!

O bate-boca começou a mudar de rumo. Até que o ex-Papa voltou ao centro das atenções.

– Por que, ao invés de sair, o senhor não chutou o pau da barraca, liberou a camisinha, o casamento homossexual, o aborto em caso de estupro?

– Peraí, vocês querem ser católicos ou não querem? Com tanta igreja por aí, por que vocês não procuram uma que seja a favor de tudo isso? Eu posso entrar no Flamengo vestindo uma camisa do Vasco? Não. Então, regra é regra!

O pessoal deu uma razão aos argumentos.

– Mas e agora, quais os seus planos para o futuro?

– Ainda não pensei nisso. De repente, abrir uma empresa de consultoria religiosa. Ou talvez mesmo abrir uma nova seita. Aí sim, toda reformulada, com todas essas modernidades que você estão propondo. Vou converter primeiro meus seguidores do twitter. Ainda tenho crédito na praça, não?

Fez-se um silêncio. Em seguida, começaram a cochichar, desconfiados. Será que aquele era mesmo o ex-Papa Bento XVI ou só um impostor muito parecido? A rodinha foi-se desfazendo, cada um voltou para sua mesa e a jogatina continuou. Se o ex-Papa (ou seja quem for) quiser jogar de novo, vai ter que esperar a sua vez.

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O TUBARÃO HUMANO

O brasileiro Luiz Lima e o mexicano Fernando Betanzos, 1º e 2º dos 10K

Esse cara aí do meio é o nadador australiano Trent Grimsey, que conheci no posto 6, através do Luiz Lima. Trent veio disputar – e ganhar – o desafio Rei do Mar, uma prova que consiste em 5 voltas  de 850 metros no mar e 50 metros na areia. Veio defender o tridente que havia faturado no ano passado.

Mas não é só apenas isso. Sua camisa tem impresso 6:55. Não é a hora que ele acorda todo dia para nadar. É seu tempo na travessia do Canal da Mancha. O sujeito nadou 34 quilômetros em impressionantes seis horas e cinquenta e cinco minutos!

Fiquei atônito com os números. O cara manteve uma velocidade média de 4,92 km/h durante quase sete horas. Tenho dúvidas se conseguiria acompanhá-lo num jet ski. Tentei fazer um paralelo com meus números. Pelo resultado da última etapa deste ano do Rei e Rainha do Mar – categoria prego – fiz 3 quilômetros em 1 hora, meu recorde! Ou seja, mantive a média de 3 km/h. O que significariam 11horas e 18 minutos de natação, quase o dobro do tempo do Trent. Só que tem um detalhe: ele fez toda a prova de uma só vez, claro. Eu só manteria minha alta performance se nadasse três quilômetros por dia.

Portanto, precisaria de 11 dias e mais um pouquinho pra sair da Inglaterra e chegar à França. É… no meu caso, melhor economizar uma graninha e pagar uma passagem de avião.. E, olha, considerando o deslocamento, praia-aeroporto-praia mais o tempo de voo, acho que Trent Grimsey chegaria na frente…

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