CRAQUE OU CRACK?

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Um empresário de jogadores de futebol foi preso pela Polícia Federal como suspeito de chefiar o tráfico no porto de Santos. Tive acesso à gravação de uma conversa entre o empresário e um cartola de um grande clube brasileiro.

–       Eu queria comprar um craque.

–       Crack?

–       Isso mesmo. Você tem algum aí?

–       Tenho, claro!

–       É pra botar na linha.

–       Tô sabendo. Bota na linha, mete o canudo e manda pra dentro.

–       É brasileiro?

–       Tem brasileiro, mas eu recomendo o boliviano, é da melhor qualidade.

–       Onde ele tá agora?

–       Tá no porto.

–       No Porto? Então é bom mesmo!

–       É o que eu tô te dizendo. Não vou vender qualquer porcaria, tá ligado?

–       A galera tá cobrando, se eu não tomar uma providência, não vai sobrar pedra sobre pedra.

–       Ah, meu camarada, dos meus produtos nunca sobra uma pedra…Quantos quilos?

–       Ah sei lá, uns 70, 80 quilos, pode ser?

–       Claro que pode! Até uns 120 quilos eu garanto.

–       Peraí, 120 quilos é demais! É gordinho, tipo Walter?  Tudo bem, o importante é ser bom.

–       É do bom, sim. Já te falei que só trabalho com mercadoria de primeira.

–       Então tá fechado.

–       Só vai querer crack? E da purinha? E do preto?

–       Nossa torcida não é racista não. Se for goleador, pode ser preto, não tem problema.

–       Goleador? Como assim?

–       Goleador, artilheiro…tamos precisando de um centroavante!

–       Centroavante? Ih, rapaz, só agora é que eu entendi…

–       Afinal, tem ou não tem craque?

–       Disso aí que tu tá querendo, só tenho uns perna de pau aqui. Vai?

SIIIII-DOOOORRR-FEEEE OBA! OBA!

Dia 30 de junho de 2012 caiu num sábado. Estava em casa quando recebi um telefonema do Marcelo Guimarães, então diretor de marketing do Bota. Me confidenciava em primeira mão: Seedorf acabara de assinar com a gente. Maurício Assumpção estava com o craque na Itália, era o fim das especulações. Como vivia enchendo o saco do Marcelo, me deu a notícia pra deixá-lo em paz.

O tiro saiu pela culatra. Meus dedos nervosos não se seguraram e abriram o bico. Mandei no twitter: “Um passarinho me contou que Seedorf é nosso!” A imprensa, seca por novidades, espalhou: “De La Peña confirma: Seedorf é do Botafogo”. Foi o suficiente pra me transformarem em herói. Fui saudado nas ruas como se tivesse assinado o cheque que trouxe o holandês. Antes, porém, atendi um outro telefonema do Marcelo.

–       Helio, que porra que tu falou no twitter?
–       Eu? Eu…eu… é que…
–       O Maurício tá puto dentro das calças! Queria fazer um anúncio oficial amanhã e você furou a gente!
–       Cara, foi mal, tava só falando pros meus amigos…
–       Você tem mais de um milhão de amigos no twitter! E nem é o Roberto Carlos…
–       Relaxa, Marcelo, faz o anúncio! Ninguém acredita em notícia de internet. – tentei ainda minimizar o dano, mas era tarde demais.

O diálogo não foi exatamente assim, Marcelo é mais elegante, mas o espírito foi esse. Depois as coisas se acertaram entre todos nós. A partir de então, só alegria.

Vivemos uma lua de mel maravilhosa. Clarence Seedorf, um craque importado da Europa para nossos campos, fazendo a mão inversa do habitual, quando nossos jogadores seguem em contêiners para o velho continente. Virou manchete nos jornais daqui e de lá. O Botafogo e sua história foram lembrados pela imprensa esportiva mundial, a torcida teve um sopro de autoestima que há muito não se via. As exibições do negão atraíram olhares de admiradores do bom futebol, independente da camisa de coração. Em 2013 faturamos o Estadual sem deixar uma sombra de dúvidas sobre quem foi o melhor. Durante o primeiro turno do Brasileirão éramos o time a ser batido, um forte candidato ao título. Passamos quase todo o campeonato no G-4. Até que…

A coisa começou a desandar. Fizemos um segundo turno pífio, digno de Z-4, mas o saldo era alto o bastante pra nos levar à Libertadores mesmo com uma sequência inacreditável de fiascos. Saímos da Copa do Brasil depois de uma goleada humilhante do urubu. Culpa do Seedorf? Não acho. O elenco foi se desfazendo, as peças sendo espalhadas por times de tudo que é canto do mundo, Rússia, Arábia, China, lugares que nem sabia que tinha futebol. E Seedorf viveu a solidão do gramado. Os que ficaram não conseguiam manter o nível de atuação de alguns meses atrás. Oswaldo se atrapalhava na escalação, nas táticas, nas substituições e o time afundava na tabela.

A emoção foi mantida até depois do fim dos jogos. Não por questões jurídicas, caso de uns e outros. Mas por conta de dependermos de resultados da Sul Americana. Os botafoguenses tiveram que provar seu amor ao clube, dessa vez sendo obrigados a torcer por argentinos contra os brasileiros e igualmente alvinegros da Ponte Preta. O Lanús ficou com a taça e a gente com a quarta vaga da Liberta.

Foi o maior legado do Seedorf? Dentro de campo, sim. Mas fora, a herança foi maior. Os garotos da divisão de base, os jovens que chegaram ao time de cima, os profissionais acomodados, todos viam um campeão vitorioso suando a camisa nos treinos. Era o primeiro a chegar, o último a voltar pro vestiário. Dieta rigorosa mantendo o corpo de garoto. As palavras de quem viveu a glória nas equipes mais ricas e brilhantes da Europa. Um cara que deixou o Suriname ainda moleque e conquistou o mundo. “Se ele treina até hoje assim, quem sou eu pra fazer corpo mole?” – imagino que pelo menos por um instante o pensamento passava pela cabeça dos menos talentosos. Um exemplo que precisa seguido.

Agora pendurou as chuteiras. O único jogador que vi levar a própria esposa pra um camarote do Sambódromo! Parou de jogar. Não trocou o Botafogo por outro time, mudou de profissão, o que é bem diferente. Vai ser técnico e tem muito a ensinar. E com certeza vai cobrar disciplina, dedicação, empenho. Isso não faltou. Jogou praticamente todos os jogos durante os 90 minutos. Nem sempre foi brilhante, ninguém o é o tempo todo. Mas deu trabalho aos adversários e muita alegria pra gente.

Alguém aí queria que ele se fosse? Nem eu. Perder um jogador desse quilate é uma bosta. Ainda mais quando não se fala em reposição. O que vai ser do Botafogo este ano não depende mais dele. E sim dos que ficaram e dos que chegarão. Estarei torcendo. Às vezes mais, às vezes menos entusiasmado. Ciente de que uma andorinha só não dá campeonato a ninguém. Ela se foi, agora nos campos, vemos apenas os quero-queros. Quero um atacante, quero um meia, quero uma boa zaga, quero menos volantes. E quero ver se a gente arruma alguma coisa boa nesse ano.

Uma coisa eu lamento: não ter convencido o Seedorf a se juntar com meus amigos botafoguenses num churrasco e numa peladinha. Quem sabe, mais pra frente, não rola um bife à milanesa em Milão?

QUER DO BRANCO OU DO PRETO?

Um empresário ucraniano chegou ao Brasil e foi logo levado por seus assessores a uma boca de craques. Lá negociou a mercadoria com um traficante.

– E aí, dotô, o que é que vai levar?
– Eu querer jogador brasileira.
– É pro senhor mesmo ou é pra presente?
– É pra minha clube, o KSC – Konnsoant Sport Club.
– Deixa eu ver se ainda tem no estoque.
O traficante sai do barraco, deixa o empresário sob a mira de seus capangas e volta alguns minutos depois.
– Tem do branco e tem do preto. De qual o senhor vai querer?
– Mas qual ser a diferença?
– Bom, é tudo craque. O branco vem do sul, é filho de agricultor, é fortão, dá um bom zagueiro, mas nunca jogou em time nenhum. O bisavô é alemão, quer dizer, de repente, descola um passaporte europeu.
– E o preto?
– Esse é criado aqui mesmo na favela. Neguinho esperto, tem ginga, controle de bola, nunca estudou e não sabe quem é o pai, ou seja, é mais fácil desenrolar a negociação.
– Acha que vou levar esse.
-Ó, só tem um pobreminha. Esse moleque andou aprontando por aí, os comerciante da área tão atrás dele. Pra liberar ele tem que pagar umas bronca também.
– Então eu fica com branco.
– Tá certo. Mas ó, ele tem quinze irmãs e é arrimo de família. Aí o senhor tem que levar elas também. Mas é tudo lourinha, de repente uma delas é uma Giselle Bundchen e o senhor vende ela pro estilismo italiano.
– Meu negócia é só futebol. Moda tô fora.
– Bom, aí tá ficando compricado negociar. O senhor quer levar agora mesmo?
– Sim, agorra.
– Olha sinceramente, eu não acho uma boa, não. O senhor não prefere encomendar um craque?
– Como assim?
– Deixa um sinal, um qualquer, um faz-me-rir, e eu mando fazer um jogador sob medida pro senhor. Nós temos uns ex-jogadores que servem de garanhões. Eu escolho o melhor deles pra emprenhar uma Maria-Chuteira da minha confiança. Daqui a nove meses, quando o moleque nascer, a gente entrega lá em domicílio e o senhor paga o resto.

O empresário topou a parada. Deixou uma mala cheia de dólares com o trafica e voltou pro seu país. Nove meses depois nasceu Brazukilson, pesando 3 quilos e fazendo dez embaixadinhas. O traficante armou a operação de exportação do futuro craque. Para passar na fronteira sem chamar atenção da polícia federal, Brazukilson foi malocado no fundo falso de uma mala com cem quilos de cocaína.

A mercadoria chegou intacta ao destino. Na Ucrânia, Brazukilson foi colocado numa incubadora de craques, uma espécie de creche onde ele treinava doze horas por dia e comia a bola nas três refeições.
Hoje, aos treze anos, é o principal jogador do Konnsoant da Ucrânia. Tem recebido propostas milionárias de diversos clubes europeus, mas está desiludido com a sua profissão. Reclama do frio da cidade, da carga excessiva de treinamentos e da total falta de privacidade. Sempre cercado por jornalistas, empresários e cartolas, Brazukilson sequer teve a oportunidade de tocar uma punhetinha.