DEFESA DO CONSUMIDOR

05-02 homem

Um cidadão procurou o TRE com o título de eleitor e a “cola” do seu voto na última eleição.

– Por favor, eu queria fazer uma devolução.

– Devolução? O senhor está enganado. Aqui não é uma loja.

– Eu sei. Aqui é o TRE, eu queria devolver um deputado.

– Como assim, meu senhor?

– É que o deputado em que votei se elegeu. Mas não estou satisfeito.

– O senhor votou, seu candidato foi eleito, devia estar satisfeito.

-É, mas ele não é nada daquilo que dizia ser na campanha. Só fala besteira e apoia o contrário do que prometia.

– Não tem nada que eu possa fazer.

– A eleição foi há 3 meses, ainda está na garantia! Onde fica o direito do consumidor? O deputado está praticamente na embalagem, quase não foi a Brasília.

– Por que o senhor não procura o deputado e conversa com ele? De repente, vocês se entendem.

– Não quero me entender com aquele sujeito. Quero trocar por outro. Se não tiver na prateleira, você me dá um vale-deputado.

– Me desculpe, amigo, não é assim que funciona a democracia. Se não gostou, o senhor corrige na outra eleição

– Mas ainda falta muito! Esse sujeito vai ficar quatro anos fazendo besteira no Congresso.

– Não vai ser o único.

– Não estou preocupado com os outros. Quero saber do meu.

– Ele também só quer saber do dele.

– Pois é, esse é o problema.

– O máximo que eu posso fazer pelo senhor é lhe dar esses óculos de leitura.

– Pra que isso?

– Na próxima eleição, o senhor vai poder ler as letrinhas miúdas que passam no pé da tela durante o horário eleitoral. De repente assim, o senhor não se engana mais.

O sujeito parecia conformado. Saiu examinando os óculos. Na porta, parou.

– Se eu não gostar, posso trocar?

 

 

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MUDANDO PRA MELHOR

pedra

A prisão dos mensaleiros está mudando o país. Os políticos perceberam que vão ter que mudar seus hábitos. Ou param de roubar ou aprimoram seus métodos. Essa forma primária de atuar não vai mais colar. Negociar por telefone, receber propina em salas cheias de câmeras escondidas, esconder grana na cueca são procedimentos que fazem parte do nosso passado recente e, ao mesmo tempo, remoto.

Mas o legado do mensalão não para por aí. Os políticos encarcerados podem ser responsáveis por uma série de transformações da nossa sociedade.

Os primeiros a sentir as mudanças serão os outros presos. A comida do bandejão pode sofrer uma grande melhora, desde que sejam proibidas mordomias como as quentinhas vindas de restaurantes de luxo. Os novos hóspedes não iam aturar a gororoba e iam mexer seus pauzinhos pra mudar o cardápio.

Se algum corrupto passar mal, nem pensar em clínica particular! O nobre meliante deverá entrar na fila do SUS e aguardar sua vez, quando finalmente será atendido por um médico cubano. Em pouco tempo estarão lutando por melhores hospitais e por profissionais mais capacitados.

Na hora da transferência para outros presídios, nada de camburão exclusivo. Terão que ir para o ponto de ônibus em frente à penitenciária (acompanhados de um guardinha, claro) e pegar um coletivo, depois outro, depois outro, até chegar ao seu destino. Não é pelos vinte centavos! O Pizzaiolo que tá na Itália também deverá pegar um avião comum e sentar na última fileira da classe econômica, aquela em que o assento não recosta.

Se o sujeito está atrás das grades porque embolsou o seu, o meu, o nosso, além de pagar uma etapa, deveria devolver a grana. Portanto, nada de advogados de grife. Defensoria pública neles! Em pouco tempo as faculdades de Direito dariam um salto de qualidade.

E aqueles que apelam para a prisão domiciliar? Se a Suprema Corte considera justa a reivindicação, não há o que discutir. Porém, vamos rever o conceito de domicílio. Não pode ser o palacete nababesco bancado por nós. O excelentíssimo enclausurado terá que chamar de lar um casebre numa favela não pacificada e sem saneamento básico, como faz a grande massa dos seus ex-patrões. Nesse caso, nem uma tevê tela plana, já que o nome do condenado deverá ir direto pro Serasa. Tenho certeza de que iriam batalhar por moradias mais decentes pra todo mundo.

Enfim, o país pode avançar muito, basta saber usar o potencial desses distintos condenados.

 (ilustração: obra do artista plástico Raul Mourão)

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O SONHO DO DEPUTADO

picaretaCerta noite no presídio da Papuda, o deputado Natan Donladron trocou o terno pelo pijaminha xadrez e logo pegou no sono. Em pouco tempo, estava sonhando. Sonhou que tinha morrido – pelo menos em sonho ele pode nos dar uma alegria – e ficou cara a cara com o Todo Poderoso que, no caso, não era o Renan Calheiros.

 –       O Senhor me chamou?

–       Chamei.

–       Puxa. Obrigado. Eu não aguentava mais aquela vida. A Papuda é um inferno – me desculpe a palavra. Bom, mas isso são águas passadas. Graças a Deus, quer dizer, graças ao Senhor, eu fui perdoado.

–       Quem disse que tu foi perdoado?

–       Ninguém, mas como tô aqui, deduzi que…

–       Nada disso. Eu te chamei aqui pra te dar uma chamada.

–       Por quê, Senhor?

–       Depois daquele episódio lamentável, você se ajoelhou, levantou suas mãos algemadas, olhou pra mim aqui em cima e disse: “Obrigado, meu Deus!”

–       Eu tinha quer ser grato. Foi um milagre!

–       Grato a mim? Eu não votei em você não! Eu jamais ia dar força pra um escândalo daqueles. Agora, você se dirigindo a mim num momento como aquele é uma tentativa de queimar o meu filme. Foi demais! Aliás, já não suporto esse pessoal que põe adesivo nesses carros merdas “Foi Deus que me deu!” Eu não dei coisa nenhuma. Primeiro: por que daria um carro tão chinfrim a um filho meu? E segundo: por que daria pra um e não pra outro? Trato todo mundo igual, comigo não tem essa de favorecimento. Mesma coisa esses jogadores que apontam pra mim depois de um gol. Sou imparcial, nem tenho tempo pra acompanhar futebol. Me dá vontade de mandar um raio cada vez que alguém diz que Deus é Fiel. Não torço pra ninguém. Se fosse pra dar força pra algum time, seria pro São Cristóvão, São Caetano… e vê a situação deles. O próprio Santos, se mexesse meus pauzinhos segurava o Neymar até a Copa, pelo menos…Nem sei por que tô dando tanta conversa pra você. Chega, pode ir.

–       Pra onde? Ainda não me disseram qual a minha nuvem.

–       Que mané nuvem! Você tá dispensado. Pode voltar lá pra baixo.

–       Mas peraí, eu não morri?

–       Acaba de desmorrer.

–       Milagre! Milagre!

Sobressaltado, Donladron acorda.

–       Que susto! Acabei de ter um pesadelo que eu tinha morrido. Obrigado, Senhor, eu tô vivo! E com meu mandato intacto!

Seu companheiro de cela, o Coisa Ruim lhe dá uma situada.

–       Se eu fosse você, não me animava tanto assim. Acabei de ver no meu celular. Parece que vão anular aquela sessão.

–       Tá sonhando, rapá? Isso aqui é Brasil! É Brasil!

Enquanto isso, o povo, ressabiado, acompanha o noticiário ainda em dúvidas se um dia vai se livrar desse pesadelo.

 

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DE PAI PRA FILHO

pai-e-filho

–       Preciso ter uma conversa com você.

–       Que foi, pai?

–       Primeiro: não me chama mais de pai.

–       Como assim? Você não é meu pai?

–       Sou, quer dizer era, não sou mais.

–       O que houve, pai, quer dizer, senador? Descobriu alguma coisa? Algum exame de DNA revelou um segredo?

–       Não teve exame nenhum, Ladrovaldo Jr. É que, pela nova lei, eu não posso ser senador e seu pai ao mesmo tempo. Quer dizer, posso sim. Mas aí você não vai poder ser meu suplente.

–       Isso nunca! Prefiro não ser seu filho do que perder essa boca!

–       Esse é o meu garoto! Quer dizer, era… Ah, outra coisa. As viagens de avião. Não podemos mais usar o avião da FAB.

–       O quê? Vamos ter que pagar pra andar de avião?

–       Também não chega a tanto. Nós recebemos uma verba pra isso.

–       Mas a minha verba já tá comprometida, pai…digo, nobre colega. Aquela casa em Angra dá muita despesa, não tenho como bancar aquilo sem a ajuda do povo brasileiro.

–       Vai ter que dar um jeito. Fala com os empreiteiros pra aumentar o apoio cultural.

–       Sabia que essas manifestações iam dar em alguma merda…

–       Calma, nobre suplente. Pode ser só uma fase. A Copa das Confederações já passou.

–       Mas o povo continua nas ruas!

–       Já são bem menos. E isso porque estamos em julho, os estudantes estão de férias. Esses protestos são uma forma de eles se encontrarem. Aliás, você é jovem, devia ir pras ruas também.

–       Eu?

–       Claro! Temos que lutar pelos nossos direitos! Não podemos perder tudo que conquistamos. As mordomias, as maracutaias, as comissões por baixo e por cima do pano, tudo por causa de um bando de vândalos e baderneiros. Você sabia que querem tornar a corrupção um crime hediondo?

–       Eles não podem estar falando sério!

–       Daqui a pouco vão querer que a gente passe a semana inteira em Brasília.

–       E o que é pior, trabalhando! Onde é que isso vai parar?

–       Toma, leva essa lata de azeite. Dizem que alivia o incômodo do gás de pimenta.

–       É vinagre que eles usam.

–       Realmente, nós temos muito o que aprender com as ruas…

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O PERSONAL DOS DEPUTADOS

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Quem faz ginástica ou pratica algum esporte sabe o quanto é duro sair da cama pra ralar. Não estou falando dos fanáticos que trocam qualquer meia hora de bobeira por uma corridinha ou pedalada. Falo daqueles que se matriculam numa academia por causa de uma receita médica.

Pode ter aquela empolgação inicial, motivada pelo desejo de perder uns quilinhos e fazer bonito frente à namorada nova. Ou pra matar de raiva a ex que acabou de trocá-lo por um saradão vinte e poucos anos. Depois volta ao marasmo. A primeira falta por um motivo sério é seguida de outra porque acordou com uma dorzinha aqui, no dia seguinte porque virou a madrugada assistindo a última temporada de Breaking Bad. O atleta desaparece, em seu lugar surge aquele sujeito modorrento e flácido que, ao completar quinze minutos de esteira, se dá por satisfeito, se sente um verdadeiro atleta olímpico.

Só há uma saída pra entrar nos eixos: a contratação de um personal trainer. O profissional bate na sua porta cheio de animação e, para não decepcioná-lo, você vai treinar. Disfarça a preguiça, chega até dizer que adora aquilo, e como se sente saudável depois de uma sessão de abdominais.

Assim são nossos deputados. Na época das eleições mostram toda sua disposição e preparo físico, percorrem quilômetros a pé, sempre sorridentes e otimistas. Uma vez com o cargo garantido, voltam à rotina de pasmaceira. Passam os dias jogando conversa fora nos corredores, jogando paciência no celular, enquanto um outro discursa sobre assuntos como a tomada de três pinos, que ninguém se acusa ser o autor da proposta.

Os manifestantes são o personal dos congressistas. Os caras  tiveram que acordar e deixar a apatia de lado. Numa só noite votaram contra o PEC 37 e aprovaram a destinação dos royalties do petróleo para saúde e educação. São tão preguiçosos que um personal só não basta, são necessários, milhares, milhões deles! Se os protestos continuarem, vão entrar em forma e passarão a discutir outros temas relevantes. Está instituído o regime da Passeatocracia! As passeatas mudaram a vida do Legislativo. O povo nas ruas está funcionando como um “pula-pirata”, uma dedada que tá botando aquela cambada pra trabalhar.

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