ADORO NORiNHA, digo, NORoNHA!

Mar agitado, cheio de arraias e tubarões. Esse é o cenário de Fernando de Noronha no verão. Tem certeza de que é um bom lugar pra se levar a família?

Imaginava aquele paraíso de águas calmas e transparentes cheias de peixinhos coloridos. Realmente as águas são transparentes e cheias de peixinhos. Mas de calmas não têm nada. De dezembro a março, ondas enormes se formam lá longe e estouram  bem na cabeça do incauto banhista. Com tudo isso, ninguém se arrepende. Nem o incauto banhista.

Que peitinho!

Que peitinho!

Não é difícil chegar a Noronha. Um voo até Recife ou Natal e outro até a ilha. O problema é pagar a fatura do cartão. Apesar de ficar a 500 quilômetros da capital de Pernambuco, a soma dos voos equivale a uma viagem internacional. É quase um Caribe, com a vantagem de ninguém ficar tocando xilofone nos teus ouvidos e de todo mundo falar português fluentemente.

A ilha tem um pedágio obrigatório – a taxa de proteção ambiental, dá direito a permanecer por 10 dias. O número de visitantes é limitado, portanto, o entra-e-sai é controlado. Mas só no porto e no aeroporto. Nas praias desertas e nas pousadas, o entra-e-sai tá liberado, mas recomenda-se camisinha. A taxa, porém, não garante acesso a qualquer lugar. Para passear no Parque Nacional e frequentar certas praias, paga-se o ingresso. Em algumas outras, como a praia do Atalaia, o processo é mais complexo. Apenas 100 privilegiados por dia podem se banhar naquelas piscinas naturais, mesmo assim acompanhados por monitor, durante a maré baixa e por três horas, no máximo. É preciso fazer reserva, como num restaurante de luxo. Com tantos pré-requisitos acabei pulando esta.

Aliás, basta dizer que não foi a tal praia que logo aparece alguém pra falar: “O quê? Não foi à praia do Atalaia? Então você não conheceu Noronha…”. Como assim? Fui a várias outras, passeei pelo parque nacional, mergulhei, comi camarão a dar com pau, furei o pé numas cracas pra um sujeito me dizer que não vi nada? Quem ele acha que eu sou, o César, de Amor à Vida?

O transporte oficial da ilha é o buggy. É a melhor maneira de percorrer as estradas esburacadas. O uso do cinto de segurança é obrigatório para o motorista e o carona ao seu lado. O curioso é que você pode transportar mais três pessoas atrás sentadas na carroceria e se segurando no santo antônio. Por isso, antes de embarcar escolha as pessoas mais queridas da família pra viajar em segurança. A sogra, o cunhado encostado e o filho malcriado devem ir atrás. Se der azar, acabarão chegando vivas ao destino.

IMG_7685

Essa praia não se depila, não?

Noronha se divide em mar de dentro, voltado para o continente e mar de fora, com vista para a África. Normalmente quando um está calmo, o outro está agitado. O mar de dentro é onde estão a maioria das praias. Em geral, são águas mais tranquilas fora do verão. Ali está, por exemplo, a Baía dos Golfinhos, onde ninguém pode mergulhar. Do alto das falésias podemos ver o cardume (será esse o coletivo?) de golfinhos nadando, brincando, namorando e rindo da cara dos turistas. No mar de dentro também fica a praia do Sancho, considerada uma das mais belas do mundo. As praias de fora, como a do Leão, são mais tranquilas de dezembro a março. Mas este ano o Leão não tava tão manso assim. Não tive coragem de encarar Leão nem em Noronha nem na África.

Mergulhar naquele mar é um sonho pra quem gosta de vida submarina. A visibilidade é absurda, pra mais de vinte metros. A temperatura da água é perfeita, ali água e ar se confundem. Você só tem certeza de que está no oceano por causa do silêncio, das tartarugas que passam, das moreias que se escondem e quando você lembra que não sabe flutuar. Mas a confusão é justa, principalmente se, quando seco, você encher a cara de caipirinhas e cervejas e ficar na maior água. A sensação é de paz total, desde que não tenha esquecido nenhum dos zilhões de equipamentos – nadadeira, máscara, cilindro, regulador, respirador, lastro… e desde que fique ligado pra não se distrair com os peixinhos coloridos e se desgarrar do resto dos mergulhadores. Aí a paranoia bate forte e o passeio fica bem emocionante.

Você não precisa de nada disso se quiser ver vida debaixo d’água, basta um bom snorkel. Peixes, tartarugas, arraias, caranguejos passam pertinho de você, mesmo nas partes mais rasas do mar. Chegamos a ver tubarão pegando jacaré no Sancho! Não eram presa e predador, e sim um bichano furando onda. No Sueste, antes de molhar os pés foi possível avistar um tubarão lixa brincando na beira. Estava tão tranquilo  que quase o convidamos pra cavar um túnel na areia com a gente. Os bichinhos do arquipélago são amiguinhos, nada a ver com os tubarões esquisitões que vão pra Recife comer surfistas.

    praia do sancho: pra muitos, a mais bonita do mundo. alguém é macho de discordar?

praia do sancho: pra muitos, a mais bonita do mundo. alguém é macho de discordar?

Enfim, férias adoráveis. Norinha, quer dizer, Noronha tá muito gostosa. Por mais que uns malas sem alça insistam em dizer que Noronha acabou. Bom mesmo era quando eles iam lá e não tinha pousada, restaurante, buggy ou estrada. Em compensação, podia topar com um pentelho desses puxando papo. Agora tá bem melhor.