Acabou. E agora?

O carioca acordou com gosto de cabo de guarda-chuva na boca. Tudo girava ao seu redor. A casa estava depenada: a voluntária norueguesa escultural que ele pegou na Orla Conde, na verdade, era um travesti 171 que depenou o apê e partiu. Sim, à meia noite, a carruagem virou abóbora. A partir de segunda-feira, o Rio volta a ser o Rio.

Alguns não se conformam. Continuam pelas ruas gritando “Ê-êêê-êêê-êêê-êêê Brasil!” e cantando a musiquinha que sacaneia os argentinos, mesmo sem encontrar com nenhum deles. Não querem acreditar que o sonho acabou.

E agora, o que vamos fazer com todo o conhecimento esportivo acumulado? Quando vamos voltar a utilizar termos como “duplo mortal carpado”, “reverso”, “shoot out”, “tiro de 7 metros”, quando vamos dizer que o jogador “deu um croc sobre o bloqueio”, ou que “o cavalo refugou duas vezes e o conjunto foi desclassificado”?

Aprendi que Keirin não é o nome de um atleta da Irlanda, e sim uma prova de ciclismo. Me contaram que a peteca do badminton é feita com as penas da asa esquerda do ganso porque ele dorme sobre a asa direita e amassa. Descobri que o jogo do polo aquático é dividido em 4 tempos de oito minutos e que por baixo d’água rola um verdadeiro MMA. E agora, onde posso tirar onda com esse conhecimento? Ninguém mais quer ouvir falar em olimpíadas!

Como vai ser daqui pra frente? O que vão fazer com todas as grades que cercaram as ruas da cidade para as provas? Presídios? E os especialistas em saltos ornamentais, luta olímpica, rúgbi, canoagem slalom? Será que ficarão mais quatro anos desempregados? Ouvi dizer que vários refugiados tentaram ficar na Vila Olímpica. Aceitariam até ficar no prédio usado pela delegação australiana.

Ao menos um legado agradaria a toda população: os feriados. Outra providência simpática seria manter as vias exclusivas para a Família Olímpica e distribuir credenciais para que toda população pudesse utilizá-las na ida ao trabalho.

Então não veremos mais entrevistas com aquele atleta que é um exemplo de superação? Nem saberemos que filme passou na sua cabeça quando ganhou a medalha?

E o que faremos com as lições que aprendemos com esses Jogos, já que não vamos sediá-los de novo?

Tá difícil acreditar que acabou. Mas logo logo cairemos na real. Deixa chegar a conta do cartão de crédito. Vai doer muito no bolso aquele papo de “compra logo esse ingresso, é uma oportunidade única!”.

Primeiro foi o Pan, depois a Copa do Mundo, agora a Olimpíada. Queimamos todos os cartuchos. Até a Jornada Mundial da Juventude já passou por aqui. Ou seja, nem o Papa volta mais por aqui…

Agora, só temos uma saída. Em matéria de grandes eventos, vamos ter que nos apegar com unhas e dentes ao Rock in Rio! Yeaahhh!!!

(ilustração: Adão Iturrusgarai)

A maratona olímpica

Acordei disposto a acompanhar tudo nos jogos de hoje. Impossível. Os dezesseis canais me deixam tonto. São zilhões de esportes simultâneos. Fico mudando de um canal para outro sem saber qual é a boa. A impressão que tenho é que sempre tem alguma coisa muito mais maneira acontecendo num canal que não estou vendo.

Escolho a canoagem slalom e o rúgbi feminino está emocionante. Mudo para os saltos ornamentais, quando deveria estar acompanhando o hóquei sobre grama. Mudo para o futebol feminino entre Azerbaijão x Honduras, quando o vôlei de praia entre Ilhas Fíji x Trinidad e Tobago está imperdível.

Tento fazer uma tabela com as melhores disputas, mas fico ansioso, tonto, perdido. Esporte pode ser saudável pra quem pratica, mas pra quem assiste é altamente prejudicial à saúde.

* * *

No primeiro dia oficial das competições, resolvi acompanhar algum esporte ao vivo. Fui ao Parque Olímpico assistir à natação. Muito mais tranquilo que pela tevê. Primeiro, você não tem escolha. Ou assiste ao esporte que tem ingresso ou fica na praça de alimentação tentando conseguir um hambúrguer, um verdadeiro esporte radical.

Ao contrário do que esperava, o transporte foi bem tranquilo. O metrô e o BRT estão civilizadíssimos. Apesar da multidão, conseguimos um lugar sentado, e a viagem foi bem rápida.

A torcida deu um show. Assisti a várias provas em que não tinha nenhum brasileiro na água. Ainda assim, a galera vibrava com os nadadores e torcia por cada quebra de recordes como se fosse seu time na final do Brasileirão.

No final, saí satisfeito ao contabilizar dois recordes mundiais. Depois descobri que houve um outro recorde quebrado, enquanto comemorava a passagem de um brasileiro – João Gomes ou Felipe França, para as semifinais no dia seguinte. Ou seja, estava lá, vi e não vi…

* * *

Pra quem tá sem ingressos, a boa é ver os esportes que acontecem nas ruas. O ciclismo de estrada foi um espetáculo. São das provas que melhor vendem os cartões postais do Rio de Janeiro para o mundo, mostrando paisagens de tirar o fôlego. Copacabana, Grumari, Floresta da Tijuca… Pena que os atletas não veem nada das nossas belezas, já que estão sempre em altíssima velocidade. Soube que descem as íngremes ladeiras da Vista Chinesa a 70 quilômetros por hora. Se os pardais da CET-Rio estiverem ligados, vão pagar uma grana de multas e ainda correm o risco de perder a carteira de habilitação.

* * *

Acabo de ver um jornal jogado num cesto da sala e fiquei chocado como tem coisa acontecendo. O Brasileirão continua. A Lava Jato tá comendo solta, ou melhor, presa. A campanha eleitoral americana pega fogo. Gente, assim não dá! Vamos dar um tempo no mundo.

A Olimpíada já é assunto demais. Não podemos acompanhar tudo ao mesmo tempo agora.

Aquele abraço!

Numa obra surpreendentemente bem-sucedida, o Rio transferiu a Apoteose do Sambódromo para o Maracanã. Impossível, nesse momento, descobrir algum elogio que não tenha sido usado nas trocentas de crônicas feitas sobre a Cerimônia de Abertura dos XXXI Jogos Olímpicos. Os cri-críticos tiveram que deletar seus artigos escritos de véspera catimbando a festa. Não tiveram do que falar mal. Não teve zika, não teve bomba. Teve Paulinho da Viola cantando o Hino Nacional. Podia parar por aí. Mas não. Zeca Pagodinho, Marcelo D2, Benjor, Gisele Bündchen… Efeitos incríveis, coreografias contando nossa história para o mundo, mostrando nossa música, nossos artistas famosos e anônimos, a alegria e o orgulho das arquibancadas.

O Rio, que vem sendo bombardeado de más notícias, deu uma respirada. Os problemas acabaram? A abertura da Olimpíada melhorou a saúde pública? Elevou o nível da educação? Tornou a cidade – e o país, diga-se de passagem – mais segura? Nenhum carioca que comemorou o êxito do evento acha que “seus problemas acabaram”. Mas é muito bom valorizarmos as ações positivas. Em meio a toda essa crise, temos algo do que nos orgulhar. Ainda mais quando o fiasco era esperado. É uma vitória do Rio, é uma vitória do Brasil. Três bilhões de pessoas acompanharam ao vivo a festa e viram um espetáculo maravilhoso, que teve de tudo, até as vaias para o Temer.

O desfile dos atletas é indispensável, mas é meio chatinho. Eles não têm culpa de serem tantos. Pelo menos, aprendemos algumas curiosidades. Tonga existe e é independente de Mironga e de Kaburetê. Lá o povo anda besuntado de óleo. Existe também um país chamado Kiribati, uma ilha do Pacífico onde a linha do fuso-horário é desviada – deve estar em obras.

Nesse sábado, a Olimpíada já acordou com força total. E a primeira medalha dos jogos foi no tiro. A primeira brasileira também foi no tiro. Nossa especialidade, a bala perdida, marcou presença e faturou a prata. Na porta da minha casa os ciclistas de estrada passaram voando. Os caras pedalaram 250 quilômetros! Ficaria cansado de fazer o percurso de carro. Passei a tarde na frente da tevê, praticando o revezamento de canais, passando por remo, vôlei de praia, tiro com arco, hóquei na grama, handebol, rúgbi…

Agora, tô partindo pro Parque Aquático pra ver ao vivo a natação.

Caraca! Esse negócio de olimpíada tá só começando e já tô mortão. Deviam exigir índice olímpico também pra quem quer assistir aos Jogos.

E pra quem não curte nada disso, aquele abraço!