VIDA DE CASADO

Gabriel e Lourenço não se viam há anos. Estudaram juntos na época do vestibular. Estudar é modo de dizer. Lourenço estudou, passou para medicina e se formou. É ginecologista. Gabriel tentou comunicação, arquitetura, desenho industrial e passou. Passou o rodo geral. Não chegou a ter nada muito sério com nenhuma delas, fora um corte na cabeça – sete pontos.  Clarinha mandou-lhe o celular nas ideias quando o flagrou embarcando com a Janine para Porto Seguro com as passagens que ela, a Clarinha, comprou com ele, o cafajeste (Clarinha nunca mais pronunciou o seu nome. ).  Isso foi nos anos 90, na época em que os celulares eram tijolaços pesados.

Lourenço se casou com Carla, a única da galera que Gabriel não pegou. É  monógamo assumido, mesmo quando sua mulher não está por perto. Gabriel é solteiro convicto. E não acredita muito nesse papo do Lourenço.

– Duvido! – grita Gabriel na mesa do bar. – Isso não existe! Imagina um homem que só come uma mulher a vida inteira!

– Tô te falando, rapaz. Pra que eu ia mentir? Pra você ficar me zoando a noite toda?

– Porque você tem medo de eu sair espalhando por aí e a Carla acabar sabendo.

– Não é isso. Sinceramente acho que não vale a pena. Prefiro dormir tranquilo depois do vuco-vuvo a ter que ficar arrumando desculpa ao chegar em casa.

– Você é um cara inteligente, não ia ter dificuldade pra inventar uma cascata convincente.

– Gabriel, eu já te falei: eu amo minha mulher!

– O que é que amor tem a ver com nosso papo? Amor é coisa do coração, eu tô falando de xoxota, que é outro órgão. E você é ginecologista, sabe disso. Vai dizer que nunca se encantou por nenhuma paciente que já tá ali à sua disposição?

– Você é insano mesmo. Além de poder dar uma merda federal, tem que considerar que quando a mulher procura um ginecologista, algum problema ela tem – e não é no coração.

– Não adianta. Nesse assunto eu fecho com Mr. Catra. Ele diz que o homem que só come uma mulher é viado. Uma questão de estatítica: o cara pega uma e dispensa todas as outras do planeta. Tá muito mais perto de um gay, que não come nenhuma, do que de um macho de fato, que comeria quantas pudesse.

–  Gabriel, na boa, quando foi a última vez que você comeu alguém?

– Não tem nem uma semana. Ou duas. Ou três…por aí.

–  Tô te falando, rapaz. Vale mais a pena ser casado. O tempo que você gasta na noite pra convencer uma mulher a te dar, eu tô no meu sofá assistindo meu futebol e depois ainda vejo quantos episódios de Two and a Half Men eu quiser. Vida de solteiro é boa depois de editada. Você só conta pros amigos o compacto com os melhores momentos.

– Você não cansa não? Sempre a mesma coisa?

– E quem disse que é sempre a mesma coisa? O importante é os dois terem o mesmo nível de animação. O cardápio lá em casa é variado. A gente pesquisa novidades na internet e vai testando.

– Novidades, é? O quê? Menage, suingue, fio terra?

– Aí você já tá querendo saber demais. Só digo que pra ter uma vida sexual saudável, sendo casado é preciso ter imaginação. E também é muito mais barato.

– Claro. Não gasta com noitadas, bebidas, restaurantes caríssimos, camisinhas…

– Eu tô falando de pensão e advogados.

– Ah sei lá… Tenho arrepios só de me imaginar uma D.R. com a patroa.

– D.R. é com namorada, rapaz. Com a patroa é só ficar calado, tomando esporro. Depois passa. agora o importante é a mulher se cuidar.

– E se ela começa a embarangar, como faz?

– Você começa a fazer dieta e a correr na Lagoa. Ela vai ter certeza de que você tá de olho em outra. No dia seguinte tá na academia. O problema do casamento é o desleixo. Uma calcinha desbeiçada, uma cueca freada acabam com qualquer relacionamento estável.

– Chega, Lourenço. Você já me convenceu. Vou mudar de vida.

– Tá ligando pra quem?

– Pra tua mulher. Se ela topar, eu faço um test drive na vida de casado.