QUER DO BRANCO OU DO PRETO?

Um empresário ucraniano chegou ao Brasil e foi logo levado por seus assessores a uma boca de craques. Lá negociou a mercadoria com um traficante.

– E aí, dotô, o que é que vai levar?
– Eu querer jogador brasileira.
– É pro senhor mesmo ou é pra presente?
– É pra minha clube, o KSC – Konnsoant Sport Club.
– Deixa eu ver se ainda tem no estoque.
O traficante sai do barraco, deixa o empresário sob a mira de seus capangas e volta alguns minutos depois.
– Tem do branco e tem do preto. De qual o senhor vai querer?
– Mas qual ser a diferença?
– Bom, é tudo craque. O branco vem do sul, é filho de agricultor, é fortão, dá um bom zagueiro, mas nunca jogou em time nenhum. O bisavô é alemão, quer dizer, de repente, descola um passaporte europeu.
– E o preto?
– Esse é criado aqui mesmo na favela. Neguinho esperto, tem ginga, controle de bola, nunca estudou e não sabe quem é o pai, ou seja, é mais fácil desenrolar a negociação.
– Acha que vou levar esse.
-Ó, só tem um pobreminha. Esse moleque andou aprontando por aí, os comerciante da área tão atrás dele. Pra liberar ele tem que pagar umas bronca também.
– Então eu fica com branco.
– Tá certo. Mas ó, ele tem quinze irmãs e é arrimo de família. Aí o senhor tem que levar elas também. Mas é tudo lourinha, de repente uma delas é uma Giselle Bundchen e o senhor vende ela pro estilismo italiano.
– Meu negócia é só futebol. Moda tô fora.
– Bom, aí tá ficando compricado negociar. O senhor quer levar agora mesmo?
– Sim, agorra.
– Olha sinceramente, eu não acho uma boa, não. O senhor não prefere encomendar um craque?
– Como assim?
– Deixa um sinal, um qualquer, um faz-me-rir, e eu mando fazer um jogador sob medida pro senhor. Nós temos uns ex-jogadores que servem de garanhões. Eu escolho o melhor deles pra emprenhar uma Maria-Chuteira da minha confiança. Daqui a nove meses, quando o moleque nascer, a gente entrega lá em domicílio e o senhor paga o resto.

O empresário topou a parada. Deixou uma mala cheia de dólares com o trafica e voltou pro seu país. Nove meses depois nasceu Brazukilson, pesando 3 quilos e fazendo dez embaixadinhas. O traficante armou a operação de exportação do futuro craque. Para passar na fronteira sem chamar atenção da polícia federal, Brazukilson foi malocado no fundo falso de uma mala com cem quilos de cocaína.

A mercadoria chegou intacta ao destino. Na Ucrânia, Brazukilson foi colocado numa incubadora de craques, uma espécie de creche onde ele treinava doze horas por dia e comia a bola nas três refeições.
Hoje, aos treze anos, é o principal jogador do Konnsoant da Ucrânia. Tem recebido propostas milionárias de diversos clubes europeus, mas está desiludido com a sua profissão. Reclama do frio da cidade, da carga excessiva de treinamentos e da total falta de privacidade. Sempre cercado por jornalistas, empresários e cartolas, Brazukilson sequer teve a oportunidade de tocar uma punhetinha.