O vendido… e mal pago

o vendido

Fui convidado pela revista literária QUATRO CINCO UM pra fazer uma resenha sobre o ousado livro O VENDIDO, do escritor americano Paul Beatty. Confere aí.

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“É um negro de primeira linha.”– diria um certo ministro do nosso STF se fosse convidado a depor como testemunha no julgamento “Eu x O Povo dos Estados Unidos”. A declaração não chamaria a atenção do leitor de O Vendido. Também não ficaria claro se a declaração é a favor ou contra o réu. É preciso ler e reler para tentar captar a intenção do autor. Talvez nem assim se consiga. Paul Beatty escreve em camadas e deixa que se desfrute seu texto como quiser. Você pode ficar irritado e arremessar longe o exemplar por não querer acompanhar nem mais uma linha desse raciocínio reacionário. Pode rolar de rir com as tiradas de humor negro (ou seria humor afro-americano?). Pode refletir sobre a descrição crua e desaforada do racismo. Faça o que quiser, ele não está nem aí. Não se preocupa se o leitor é branco, negro, mexicano ou asiático. Beatty causa repulsa porque te faz rir de algo muito grave. Eu estou rindo disso? Então quer dizer que sou mais racista do que eu mesmo imaginava? Mas eu sou preto. Quer dizer, nem tão preto assim, tenho cabelo bom!

O Vendido tem o espírito de um show de stand-up em que qualquer piada é permitida, por mais escrota que seja. Desde que você seja negro. Ou preto. Ou crioulo. Nossas gradações para definir um afrodescendente param por aí. Não temos uma palavra equivalente ao “nigger”, que ele usa e abusa sem pedir licença. Não se importa se o leitor enrubesce frente a ela. Se for branco, claro. Se for preto, não vamos perceber na pele o incômodo. Por dentro, pode ser que se irrite. Talvez se acalme, ao saber que o autor é um crioulo, como ele. Aí vem a dúvida. Ele está mesmo fazendo troça de um drama por que passam os milhões de negros nos EUA, aqui ou em qualquer lugar? É indiferente ao preconceito, à discriminação? Qualé a desse negão?

Em tempos politicamente corretos, Beatty tem a audácia de inventar uma história em que o protagonista, um negro, filho de um militante da causa negra, aceita escravizar um octogenário também negro. Por isso é preso e vai a julgamento. Ali apresenta os atenuantes. Não houve tráfico. Hominy, um artista de tevê aposentado, não foi negociado, é escravo por livre e espontânea vontade. Também não é obrigado a trabalhar, chega e deixa o serviço a hora que bem entende. Faz questão de ser submisso, a ponto de ficar de quatro para se fazer de banquinho, de modo que o “Vendido” alcance a sela do seu cavalo. Às vezes, leva umas chibatadas. Sem dramas, ele admite merecer por ser indolente e preguiçoso. “A verdadeira liberdade é o direito de ser escravo”– comenta o ex-Batutinha, Hominy.

Se não há problemas em possuir um escravo em pleno século XXI, o narrador vai mais fundo. Demarca Dickens, um gueto pobre nos arredores de Los Angeles, onde possui uma fazenda precária e produtiva, e ali passa a praticar todo tipo de racismo inverso. Ressegrega restaurantes, hospitais, lojas, proibindo brancos de entrarem ali. A Escola de Ensino Fundamental Chaff é uma instituição educacional para negros. Ou para não brancos, já que nativos, asiáticos e latinos povoam a região e ocupam uma zona cinzenta nessa discussão. É como o caso brasileiro do porteiro nordestino (leia-se paraíba) que discrimina o entregador de pizza negro (crioulo). O entregador poderia revidar: “Pra ser racista, meu chapa, precisa ser mais branco que isso daí.”.

Os brancos também terão sua escola exclusiva, a Academia Wheaton. A área está demarcada e os tapumes são ilustrados com o projeto de instalações confortáveis e de alto nível. Detalhe: não há brancos na região. Ainda assim, a ressegregação surte efeito. Os índices de criminalidade baixam e as notas dos alunos da Escola Chaff sobem a ponto de alunas brancas desejarem ingressar na instituição. Barradas, são escoltadas como no triste episódio de 1957 ocorrido com estudantes negros que recorreram à Justiça para assistir às aulas no Little Rock Central High School, em Arkansas. Naquela vez, os alunos brancos xingaram os negros e cuspiram neles. Aqui, a população implora por autógrafos das branquinhas. Os clientes das lojas se sentem privilegiados ao verem a placa de “Proibida a Entrada de Brancos” nas vitrines. O narrador é bem-sucedido na intenção de elevar a autoestima dos moradores.

O autor corta as amarras supostamente impostas por movimentos de emancipação do negro. Beatty não hesitaria em pôr um turbante numa personagem branca, assim como deixaria uma banda tocar a marchinha Nega do Cabelo Duro no carnaval. Passa ao largo da discussão sobre apropriação cultural. Logo no início da história, o narrador relata o que ganhou no seu afro mitzvá, uma cerimônia afrorreligiosa equivalente ao judaico bar mitzvá. Indiferença? As aparências não têm importância, os problemas são mais profundos e tão arraigados que os personagens não se detêm aos detalhes. O pai do “Vendido” era um conselheiro da comunidade, um mediador de conflitos. Para o narrador, era um “encantador de crioulos”. Estão mergulhados no ceticismo. Não se comemora a eleição de um presidente negro. Nada mudou na vida dos pretos. Obama não acabou com o racismo, sequer o aliviou. A certa altura, “Vendido” chega a afirmar que o único lugar da América onde não havia racismo era nas fotos do afropresidente de mãos dadas com a família no gramado da Casa Branca.

Talvez Monteiro Lobato fosse lido livremente. Talvez sua obra passasse por uma revisão, como o clássico O Grande Gatsby, que ganha uma paródia com o título O Grande Blacksby. Nunca sabemos que rumo a conversa com o protagonista pode tomar. Sua franqueza e sinceridade desconsertam o leitor. A menina é miss, apesar de não ser tão bonita, “mas é negra”. Inverte ironicamente situações típicas, como sua desculpa para ter sempre maconha boa: “Eu conheço uns branquelos”. Trata com naturalidade generalizações que a boa educação manda evitar, como o gosto dos afros por melancia e a promiscuidade sexual em famílias pobres. Os mexicanos também não escapam. E o mexicano aqui pode ser oriundo de qualquer região da América Central ou do Sul. Quantas vezes esse equívoco acontece na vida real? A questão que se coloca é: o que se ganha escamoteando o fato? Muito (ou pouco) se fala da discriminação dos negros. E dos nativos, das mulheres, dos latinos, dos japas? Estão liberados para o bullying?

A discriminação está entranhada na sociedade e hipocritamente negada. Não percebemos a sua presença, chegamos a acusar desconforto em certas situações, enquanto outras passam despercebidas. É o caso do neurocientista Carl Hart, que veio ao Brasil em 2015 para ministrar uma palestra e foi barrado na portaria de um hotel paulistano. A notícia causou indignação e furor nas redes sociais. Hart, porém, rebateu de forma contundente. Diminuiu o peso do incidente e centrou fogo em algo visto com naturalidade: era o único negro no auditório. “Vocês deviam ter vergonha disso”– disse à plateia.

Nem sabemos do que nos envergonhar. Canso de ser chamado de moreno, de forma respeitosa. Aliviam minha negritude, como forma de elogio. Cheguei a ouvir de um guardinha as desculpas por tratamento desrespeitoso: “O senhor não é negro”. Não? Como assim? “O senhor é da Globo…”. Não sou mais. Será que agora virei (ou voltei a ser) negro? Pertenço a uma raça nova catalogada pelo narrador: as celebridades. A ausência de negros nas propagandas de artigos de luxo não é problema. Diz ele: “A única coisa que jamais vi em comerciais de carro não são judeus homossexuais ou negros: são engarrafamentos”.

E Beatty brinca nessa corda bamba sem uma tela de proteção. Certas passagens não podem ser tiradas do contexto sem prejuízo ao julgamento do autor e do leitor. Não é um livro que se leia tranquilamente num metrô; é preciso manter as páginas quase fechadas para que os vizinhos não acompanhem, como uma revista pornográfica. Não se sabe qual seria a reação do companheiro de vagão se, num relance, pescar o trecho em que o narrador descreve com orgulho uma brincadeira que criou para as crianças negras – o túnel da brancura. Num lava-jato desativado, a molecada podia escolher o tipo de lavagem racial que gostaria de ter: brancura regular, que resultava em maior expectativa de vida; brancura luxo, em que recebia uma advertência em vez de ser levada para a cadeia pela polícia; e brancura superluxo, que dava direito às regalias acima, mais “um barco que você nunca usa e um terapeuta que ouve”. A sensação de ser branco por alguns minutos era uma alegria pros neguinhos.

Não cabe a mim me aprofundar nas considerações sobre o livro. Posso acabar tirando o prazer da leitura e atrapalhando a sua própria avaliação. Também não revelarei se o “Vendido” será ou não condenado. Digo apenas que Beatty rasga as etiquetas do bom comportamento literário.

Existem várias formas de discutir o racismo. O humor abusado, audacioso e malcriado é uma delas. Mas exige sofisticada interpretação. Ainda me pergunto quantos negros brasileiros lerão esse livro. Estará à venda para brancos ou exigirão atestado de afrodescendência?

40
ao todo.