A TEIA DO ARANHA

Me lembro de ter escrito este esquete em 1988, primeiro ano do Tv Pirata. Por acaso o encontrei recentemente no youtube e acho que tem a ver com o recente episódio que envolveu o Aranha, goleiro do Santos.

No quadro, os pais do garoto ficam agoniados quando o filho anuncia que vai assumir que é negro. Não é assim que se deve comportar! Eles tentam ensiná-lo que deve esconder sua condição pra ser aceito. Como se isso fosse possível. Durante anos estudei em turmas onde era o único negro. Quando pequeno, neguinho no meio dos brancos, morria de vergonha quando o professor anunciava que íamos estudar a escravidão no Brasil. Pronto, pensava eu, agora meus colegas vão perceber que sou preto.

Era um tempo em que não tinha vantagem se declarar negro. Não dava direito à cotas. Não era como hoje em que uma festa, pra ser considerada moderna, tem que ter ao menos um convidado negro e um casal gay. Ter orgulho da cor da pele faz parte de um processo que, quando estiver completo deverá ser esquecido. Quando não tiver diferença entre ser preto, branco, amarelo ou índio, não vai ter por que se orgulhar da cor, como ninguém sai por aí se orgulhando de ser mamífero.

Reafirmar “sou negro sim, e daí?” é a contraposição a anos de depreciação racial. Por séculos se incutiu a ideia de que ser negro é ser inferior. E cada vez que se repete a afirmação, tenta-se por negro no seu lugar, baixando a autoestima deste. Quando o negro reage à pecha, logo é chamado de neguinho marrento. Curiosamente, não vemos ninguém falar em branquinho marrento.

Xingar um negro de macaco não tem esse peso todo – para quem xinga. É tão comum que a pessoa nem mais percebe a intenção que é botar a pessoa ofendida pra baixo, lembrar-lhe que é inferior e assim, quem sabe, afetar seu desempenho em campo.

Por isso Aranha fez bem em parar o jogo e procurar o juiz quando foi ofendido. Chamou atenção para o ato e provocou uma punição inédita. Injusta? Exagerada? É uma discussão, já que não era um caso isolado no futebol. Mas o fato é que é preciso frear esse tipo de atitude e teria de começar em algum momento, em algum lugar.

Talvez um dia nem seja mais preciso discutir esse assunto. Talvez demore a chegar esse dia. Por enquanto, o castigo vai servindo de lição.

ELES JOGAM POR NÓS!

Onde está a lógica do futebol? O Cruzeiro, líder inquestionável do Brasileirão com apenas duas derrotas em 12 jogos vem ao Rio enfrentar o Botafogo que somava 3 vitórias no campeonato. O clube carioca chafurda hoje na maior crise de sua história.O que o torcedor alvinegro podia esperar? Uma reedição de um Alemanha 7 x 1 Brasil, sendo o Cruzeiro uma Alemanha sabor pão de queijo. Pra surpresa geral, temos um empate que, nessas circunstâncias, deveria valer 3 pontos pra nós.

Se dermos uma googada na palavra “Botafogo”, recebemos de volta uma série de artigos e colunas sobre salários atrasados, escândalos de má conduta da diretoria, jogadores reclamando da forma como têm sido tratados. Nenhuma boa notícia. As dívidas se multiplicam, as receitas são retidas, a perspectiva não melhora. O botafoguense está habituado a sofrer pelo seu clube, mas dessa vez estamos indo longe demais. Os jogadores não jogaram a toalha. Estão lutando em campo com suas próprias forças, contra todas as adversidades. Quem continuaria trabalhando se o patrão deixasse de pagar seus salários por 3 meses? E os caras estão! Obrigado, time!

Tenho acompanhado a movimentação de grupos de oposição à atual diretoria. Boas propostas têm sido apresentadas. Fala-se em profissionalização da gestão, mudanças de regras e estatutos, contratação de jogadores e executivos, reestruturação das bases e outros bichos – os bichos, aliás, seriam pagos em dia!

Como fazer tudo isso sem dinheiro? Como acabar com a gestão amadora sem ter dinheiro pra remunerar os profissionais? Como vão sobreviver os membros de uma diretoria se não forem milionários dispostos a torrar a fortuna da família? Não faço a menor ideia. Espero ouvir respostas pra essas questões antes das próximas eleições.

Sempre dei força para o clube, independente de quem estava no poder. Mas fico profundamente decepcionado quando leio as denúncias que envolvem o presidente Maurício Assumpção. Comemorei a chegada do Seedorf, mas o projeto não se sustentou e ele saiu sem ter nos dado um grande título. Agora estamos vivendo um sufoco sem tamanho.

Torcedor é um bicho maluco e irracional. Continua torcendo, mesmo com as mais ínfimas chances de vitória. E sonhando com um dia em que tudo vai ser divino e maravilhoso. Ainda que ninguém consiga mostrar como.

Só podemos dizer uma coisa: tamos juntos, jogadores!

(Crédito da imagem: Uol Esportes)

ACABOU

– Pronto. Paramos de tomar gols. Paramos de perder. Paramos de dar vexame nessa Copa.

 

– Levamos azar. Se aquela bola na trave do Chile entrasse, não teríamos passado por tudo isso.

 

– Quando viajávamos pro exterior, só tirávamos onda quando o assunto era futebol. Agora nem isso.

 

– A pergunta que não cala: quantos anos duram os tais seis minutos de apagão?

 

– É verdade que o Felipão vai ser substituído pela dona Lúcia?

 

– Agora só falta os argentinos que estão acampados no Sambódromo aprenderem a sambar melhor que nós.

 

#foraCBF! #foraFelipão! #foratodomundo!

COM MUITO ENGULHO, COM MUITO HORROR

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Somos todos Neymar. Levamos sete joelhadas nas costas e vai demorar muito tempo pra gente se recuperar. Aliás, Neymar deve agradecer ao Zuñiga por livrá-lo de estar em campo. Foi poupado desse vexame histórico.

Estávamos preocupados com aeroportos e estádios inacabados, mas o que não ficou pronto para a Copa foi o futebol brasileiro.

Só Minas pode tirar proveito desta tragédia. Basta transformar o viaduto que caiu no monumento ao Dia da Vergonha e criar um centro de visitação no Mineirão com tour guiado em alemão. Muitos turistas germânicos vão querer mostrar pra seus filhos e netos o estádio onde sua seleção esculachou o Brasil.

Essa foi mais uma bela historia de superação. Superamos todos os micos vividos até aqui. Não vamos mais nos nos envergonhar dos 3 a 0 pra França na Copa de 98. Enfim superamos o trauma do Maracanazzo. Agora nós temos o Mineironsfunden. Elevamos o mico a um patamar inimaginável, com muito engulho, com muito horror!

Fé, garra e amor na chuteira 1 x 7 tática, técnica e treinamento.

Uma coisa agora nós temos certeza: essa Copa não foi comprada pelo Brasil.

PRA CIMA DOS ALEMÃO!

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Vamos esquecer os pobrema e focar no jogo. Nada de chororô, nada de reclamar de arbitragem, nada de se vingar do colombiano. O Brasil tem que entrar ligado e não pode cochilar um minuto sequer! Essa noite teremos 200 milhões de brasileiros preparando seus despachos pra despachar os alemão. Por sorte a partida não é em Brasília, onde não tem esquina pra fazer macumba. Até os analistas mais frios deixaram suas pranchetas de lado e agora escrevem suas colunas de joelhos. Todos justificam seus palpites com fé, mas sem deixar de lado a lógica: é lógico que a gente vai ganhar! Quem mora no Rio conhece o complexo do alemão. Ele se borra de medo do Brasil. Podem estar mais preparados, mais treinados, não importa. Quando virem a camisa amarela em campo, vão amarelar! Acabou o estoque de velas do país. Nas lojas de umbanda não se acha mais charuto, farofa ou alguidá. Na falta de galinha preta, tem gente fazendo suas oferendas com galinhas mulatas, morenas e criloras. Nosso time tá unido e turbinado pela adversidade. Além disso, os germanos foram tão simpáticos até aqui, não vão manchar essa boa impressão por um mero título mundial. Tem que dar certo! Vamos com tudo! Vamos atropelar os alemão!

OLHA O MENINO, UI!

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Olha o menino, ui, ui , ui.

Nem tinha terminado o chope da vitoria quando veio a notícia que abalou o mundo da bola. O cafeteiro Zúñiga conseguiu enfim seus quinze minutos de glória. Ele parou Neymar. Uma entrada criminosa, um joelhaço nas costas, muito mais grave que uma mordida no ombro. Espero que a Fifa concorde comigo.

O carniceiro colombiano declara que não teve a intenção. Não me convenceu. Sua intenção, além de quebrar nosso craque, era se vingar. Não se conformava em deixar a Copa. Desde 94 a Colômbia vinha prometendo sem cumprir. Esse ano tinham até o artilheiro, James Rodriguez, que me presenteou com um golaço contra o Uruguai em pleno Maraca bem na minha frente. Obrigado, James. Agora que chegou em casa, pode contar pros netinhos que vocês quase tiraram o Brasil da Copa. Conseguiram tirar o Neymar, mas a gente segue em frente.

Neymar chamou pra si a responsa, botou sua cara à tapa, não fugiu da violência das zagas, nem da acidez dos jornalistas. Respondia com leveza, ginga e alegria as perguntas e as agressões. E ainda irritava os pernas-de-pau quando esses lembravam que ainda por cima, o cara pega a Bruna Marquezine.

Neymar é tudo que um garoto sonha ser. Bom de bola, gente boa, adorado pelas gatinhas, o cara e a cara do Brasil. Vai sair dessa. Não a tempo de nos ajudar a conquistar esse caneco – que virá. Mas nas próximas estará inteiro e mais alerta. Um craque como ele tem que ter câmeras de segurança apontada para todos os lados. Sempre pode aparecer um vilão querendo apagar-lhe o brilho.

Passamos dias falando sobre psicologia. Agora, entendemos tudo sobre traumatologia. Chega de medicina, gente! Vamos falar de futebol! Vamos falar de vitória! Vamos falar de atropelar os alemão e chegar à tão esperada final no Maraca!

Força, Neymar!

 

O GRAMADO DO ADVERSÁRIO É MAIS VERDE

O Brasil é uma nação bipolar. Num momento tem certeza de que vai ser hexa. Quinze minutos depois não tem dúvidas de que não passa do próximo jogo. Coloca uma lente de aumento nos problemas de forma que os torna intransponíveis. Depois de superados, considera tudo uma bobagem. Sem falar no complexo de viralatas que não nos larga.

Olhamos os possíveis adversários com reverência e complexo de inferioridade. São invencíveis, infalíveis, não choram, têm meio campo consistente, craques inquestionáveis. Eles também têm seus pobremas.

Cinco dos oito sobreviventes garantiram suas vagas na prorrogação. A Holanda derrotou o México, mas até os 40 do segundo tempo estava a caminho do balcão da KLM. A França custou pra tirar a Nigéria da Copa. Só a Colômbia venceu tranquila o Uruguai. Todas as favoritas tropeçaram em algum momento e ouviram resmungos de suas torcidas. O torcedor tem um time ideal na cabeça, um escrete do passado que pode não ter ganhado nada, mas está guardado na memória afetiva. O que entra em campo nunca chega aos pés do que está na lembrança. E essa fantasia não é um privilégio nosso. Torcedores da França, Alemanha, Argentina e Holanda também pensam assim.

Estamos todos na briga pelo título, todo mundo quer ser campeão. Não vamos levar o título porque precisamos mais, porque as crianças das enchentes precisam ter uma alegria ou porque não temos estrutura emocional para uma derrota. Vamos levar se jogarmos mais. E se tivermos sorte – ela também conta.

Dá pra ganhar. Mas como diria Milton Nascimento, “é preciso ter garra, é preciso força, é preciso ter gana”. Quer dizer, Gana não, que essa já dançou.

Vamos parar de achar que só os outros podem levantar a taça. Tá tudo igual. A Argentina depende do Messi, a Holanda depende do Robben, a França depende do Benzema. Por que não podemos depender do Neymar? O problema é depender da psicóloga!