É NOSSA!!!

Tem coisas que só acontecem com o Botafogo. Estamos acostumados a ouvir e repetir essa frase para justificar uma fatalidade. Aquele gol aos 47 do segundo tempo que nos arranca a vitória, que nos faz voltar cabisbaixos do Engenhão.

Pois nesse começo de ano vimos o lado positivo dessa expressão. A improbabilidade sorriu pra nós. Na semifinal encerramos um incômodo jejum. Até o dia 2 de março ainda não tínhamos ganhado do Flamengo no Engenhão. Entretanto, ao vencer nosso arquirrival, revemos as estatísticas. Foram dez jogos sem vitória. Porém, apenas três derrotas. E sete empates! Com a vitória de domingo retrasado, notamos que a margem não é lá tão grande: são 3 deles contra 1 nossa, apenas duas vitórias nos separam.

Na final, o Vasco tinha a vantagem do empate, assim como o Flamengo na semana passada. Bastava segurar o zero a zero que a taça seguiria pra São Januário. E foi o que eles tentaram fazer. Embromaram, fizeram cera, cercaram e assistiram ao Botafogo jogar. Acordaram em alguns poucos momentos, levaram perigo duas vezes. Mas a estatística não levou desaforo pra casa. De tantas bolas chutadas na meta deles, uma acabou entrando.

Pronto, menos uma escrita: os donos da casa conquistam o primeiro título no Engenhão. Seedorf levanta sua primeira taça em solo brasileiro. Jeferson, Lucas, Lodeiro, Vitinho e toda equipe correram atrás e mereceram.

A tradição também esteve presente. O Vasco, que tem o dobro de vitórias, é tradicionalmente freguês do Botafogo nas finais. E tradicionalmente sai do estádio com o título de vice.

Claro, aqueles que não estavam lá vão dizer que essa Taça Guanabara não vale nada. Só que nenhum time abriu mão de disputá-la. Não conquistaram porque perderam e não porque a desprezaram. É por isso que merecem ser zoados. Sabemos que ela representa apenas um dos turnos do campeonato carioca. Mas nos coloca na final do estadual, o que já é um belo começo de temporada.

Falem o que quiserem, mas no seu íntimo, todos sabem que ganhar é muito, mas muito melhor do que perder.

Dá-lhe Fogão!

 

PRIVILÉGIO

Sou um caso raro. Enquanto botafoguense, tenho algo a comemorar neste fim de ano. Tive o privilégio de conhecer nosso craque Seedorf num jantar para pouquíssimos torcedores na casa de um amigo. Ele deve estar pegando a telefonista do clube e assim conseguiu o contato do negão. Quando anunciou que faria o encontro, viu uma multidão se aglomerar na portaria do seu prédio. Eram fanáticos que o ameaçavam de morte, caso não fossem convidados. Para preservar a vida meu amigo teve que trocar de identidade, fez uma cirurgia plástica e pediu asilo político numa cracolândia, onde aguarda passar a raiva dos que ficaram de fora dessa.

A impressão que tivemos ao vivo correspondeu plenamente às expectativas. Seedorf não é um jogador como os outros. Discreto, inteligente, casado e caseiro, é um dos raros atuando no futebol carioca que não montou escritório no Barra Music. O cara sabe que faz a diferença, que é uma referência para a garotada que está começando. Mas não é por isso que é o primeiro a chegar e o último a sair dos treinos, e sim porque é profissional e considera ser pago para isso. Estranho, já que a maioria acha que é paga pra poder bancar as despesas de um camarote lotado de bebidas e popozudas. Nada contra, desde que não seja do meu time…

É curioso como Seedorf vê o futebol brasileiro. A falta de seriedade e o amadorismo o incomoda muito. A pouca dedicação aos treinamentos, a falta de estrutura comercial dos clubes, a falta de planos de médio e longo prazos são alguns dos problemas que aponta. Mas sua crítica mais apimentada recai sobre um detalhe curioso: os lanchinhos da concentração em véspera de jogo. São bolinhos, salgadinhos, docinhos, tudo pouco nutritivo e muito engordativo. É por isso que nenhum jogador brasileiro chega na Europa com a musculatura definida, todos, mesmo os magros, com algum nível de flacidez, pneuzinho e até uma certa barriguinha. Tentamos argumentar que o jogador brazuca (ou será fuleco?) está tirando a barriga da miséria. O papo não cola. Lembra que nasceu numa família pobre e isso é mais um motivo para se empenhar em manter a forma e ter preparo físico pra enfrentar os 90 minutos de cada jogo.

E a pergunta que todos queriam fazer: por que o Botafogo? Seedorf nos disse que recebeu propostas de diversos clubes do mundo, mas  foi seduzido pelos planos do Fogão, pela forma como nossa diretoria o via contribuindo para trazer experiência e uma nova metalidade. Considera o presidente Maurício Assumpção uma pessoa séria. Nosso craque  vê um horizonte bastante positivo para nosso clube. Não crê numa transformação do dia para a noite, mas no resultado de uma evolução contínua. Sinto alívio ao ouvir isso. Quem não queria chegar ao Engenhão e ver o Barcelona com a camisa alvinegra? Na vida real, o buraco é mais embaixo…

Alguns torcedores presentes pedem que Clarence faça uma comparação com o ambiente europeu. Como são os jogadores de lá? Eles se cuidam? São educados, cultos, frequentam concertos de ópera nas folgas? Nada disso. Jogador, de uma maneira geral, é tudo a mesma coisa. Uma diferença: os daqui bebem mais. Em compensação, os de lá fumam muito mais. O negócio é que, se for mal em campo, a fila anda, e o cara sabe disso.

Ficamos curiosos por saber como a família Seedorf se comunica em casa. Nascido no Suriname, casado com uma brasileira, com filhos criados na Europa, ele fala fluentemente holandês, inglês, italiano, espanhol e francês, além do português. Os esporros na molecada são dados na nossa língua, o que a torna o idioma oficial da casa. Ele conta que tem primos e um irmão que também são jogadores. Quem sabe não vale a pena abrirmos um CT na sua terra natal?

Lá fora atuou ao lado de Roberto Carlos, Ronaldo, Dida e Ronaldinho Gaúcho,  entre outros. De todos, destaca o Fenômeno. Sem firulas, objetivo, raciocínio rápido. Na sua opinião é, disparado, o melhor com quem já jogou.

Pra finalizar, fala pra gente: qual de seus gols você considera o mais bonito? Seedorf responde de primeira, nem deixa a bola quicar. Foi no Real Madrid contra o Atlético de Madrid, em 1997. Dê uma olhada nisso:

 

Quem sabe não repete um desses com a nossa camisa em 2013?

 

Só faltam 37!

A tarde de domingo começou desanimada. Liguei a tevê atrasado e o placar já registrava 1 x 0 para os Bambis. O pessimismo se abateu sobre uma torcida que viveu péssimos momentos nos últimos dias. A apatia do time apontava para mais um pesadelo.

Mas a coisa não ficou nisso. No segundo tempo a equipe reagiu. Herrera injetou adrenalina na partida, empatando logo de cara. Luís Fabiano em seguida repôs os caras na frente, mas a tarde era nossa. Ou melhor, era do Herrera, que meteu mais dois – um de pênalti e outro depois de uma tremenda bobeira da defesa deles. Entre um e outro o garoto Vitor Junior mostrou que é responsa: mesmo novato no elenco, pediu pra bater a falta e não se intimidou. Resultado: 4 a 2 pra nós.

Matamos um Leão. Está tudo resolvido? Claro que não. Mas não podemos desprezar um bom começo. O estádio estava vazio e muita gente em casa se arrependeu de não estar lá. Eu fui um deles. Sabemos o que significa assumir a liderança na primeira rodada: nada. Mas perder é pior. Bem pior.

Pra quem passou 22 jogos sem perder e em três partidas viu o primeiro semestre escorrer pelo ralo, resta a esperança de que nosso time jogue bem o campeonato inteiro. E não apenas as primeiras 37 rodadas.

E ninguém cala…