NADA, NADA…E NADA!

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Muita gente vai a Brasília pra nadar em rios de dinheiro ou pra boiar no mar de lama, cujas ondas ora batem no Palácio do Planalto, ora no Congresso Nacional. Meu caso foi diferente. Fui nadar no Lago Paranoá.

Até agora me pergunto o que leva uma pessoa a sair do Rio de Janeiro para disputar uma maratona aquática num lago do Planalto Central. Não faz o menor sentido, até porque não se pode praticar natação em águas abertas num lago, onde águas estão fechadas… Ainda não encontrei uma resposta, principalmente pra minha mulher que finge acreditar nessa historia enquanto contrata um detetive particular pra descobrir quem é a vagabunda que eu tô pegando naquela cidade. Uma coisa é certa: não é ninguém da política, já que o evento foi num domingo e esse pessoal chega na terça e some na quinta.

Tratava-se de uma etapa da Copa Brasil de Maratonas Aquáticas. Cinco quilômetros na água doce, em que a flutuação é sempre mais penosa. Por ser competição oficial, estava proibido o uso de roupa de neoprene, que daria uma roubadinha esperta – o esforço para sustentar o corpo na linha d’água seria menor. Estar em Brasília e não poder roubar é como ir numa churrascaria rodízio e ficar só na saladinha: não tem a menor graça.

Nunca tinha enfrentado um desafio desse quilate. Muitos me perguntaram pelas condições da água. Naquele trecho do lago me pareceu razoável, ainda mais pra quem está habituado a treinar no mar de Copacabana. A cor é escura, sem garrafas ou objetos boiando. O problema era justamente esse. Como é difícil boiar na água sem sal! O esforço para se manter minimamente na superfície é muito maior. O corpo vai afundando, por mais que vcê se debata. E a impressão é que as braçadas ajudavam pouco no deslocamento. Você nada, nada…e nada!

Uma prova longa esgota o atleta fisica e psicologicamente. Quer dizer, um atleta, não sei como fica, mas um reles mortal, meu caso, fica acabado! No início procurei me poupar, já que, vencidos os primeiros 200 metros, faltavam ainda 4800 pela frente! Só não desanimei porque não teria como explicar o mico pros meus filhos. Teria que inventar uma cãimbra ou contusão, mas mentir em Brasília é não é para amadores. Melhor ir em frente.

Estava completando meus 2500 metros, quando vi um nadador deixando a água. Pensei, ih, alguém passou mal! Nada disso, era o Luiz Lima fechando seus 5000 metros. O cara passou por mim fazendo ondinha feito um jet ski, já mirando o pórtico de chegada. Eu era um retardatário, me sentia o próprio Rubinho Barrichello.

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Apesar do sufoco, estava orgulhoso por ter completado a prova. O tempo de 2:02’35” seria recorde mundial da maratona…terrestre!

Dias depois me arrastava num engarrafamento carioca. Levei uma hora e cinco minutos pra ir da minha casa até a entrada do túnel Rebouças, exatos cinco quilômetros. Luiz Lima, vencedor da etapa do Lago Paranoá, percorreu a mesma distância em 1:04’38”. Teria chegado antes e sem gastar uma gota de gasolina!

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EL HUMORISTA DE ÁGUAS ABIERTAS!

Circulando por Cancun, vemos centenas de hotéis fincados na areia fina, debruçados sobre o mais azul dos mares azuis. A temperatura da água é tão agradável que há quem diga que lembra o útero materno. Não tenho uma memória tão boa assim, mas posso garantir que é incrível. A maioria dos hóspedes, porém, prefere ficar nas piscinas lotadas, deitados sobre colchões de plástico enquanto um adolescente obeso dá uma bomba que provoca um tsunami na água clorada. Fazer o quê? Mau gosto também é gosto.

 Alguns amigos e eu escolhemos viajar para esta cidade mexicana por um motivo diferente. Viemos participar de uma prova de natação de águas abertas. “Por La Libre Cancun” é uma festa do esporte aquático mais simples e democrático do mundo. Entrar em uma competição internacional já tem seu charme, mesmo que as chances de ganhar sejam nulas. Não importa, a gente sempre sai ganhando.

Todos que vieram já estiveram em travessias no Brasil, alguns até no exterior, meu caso, por exemplo. Portanto, ninguém precisaria de boia de braço pra se lançar no mar do Caribe. Fazemos parte de um grupo de amadores que curtem nadar no mar e temos o privilegio de ter o olímpico Luiz Lima no comando da equipe.

Chegamos animados ao México. Mas tivemos que segurar nossa onda. Não dava para cair de boca nas tequilas e piñas coladas pra depois marear e estragar a límpida e bela paisagem caribenha. No mesmo dia fizemos um treino de reconhecimento do terreno. Sabe aquelas fotos de um mar plácido e liso que vemos nas revistas? Pois não foi nada disso que encontramos. O mar estava revoltado e estava disposto a zoar com os brazucas. Ficou claro que teríamos que ralar pra completar o percurso e tirar onda ao chegar no Rio. Ninguém amarelou por causa disso.

A noite que antecede a prova é de apreensão e ansiedade. Afinal, foram dois aviões e uma grana de hotel, comida e presentes pros filhos. Nada podia dar errado. Conferi o despertador de meia em meia hora, pensei até em dormir de touca e óculos para não me atrasar.

O evento consistia em duas provas distintas. Na principal o percurso era de 10 quilômetros, saindo de Cancun até Isla Mujeres. A outra, a que tive cujones de encarar, era de 3 km. Nesta partíamos de um barco que nos levava até o meio do mar e dali, qual espermatozóides em busca do óvulo, nadávamos para alcançar a meta.

Parte da equipe brasileira em Cancun: LL Gladiadores.

No momento que antecede a largada, as interrogações saltavam na cabeça. Onde deixar meus pertences? Eles chegarão do outro lado? E se o barco com meus documentos afundar ou for desviado por piratas do Caribe? Será que o barco para ou terei que mergulhar dele navegando? As dúvidas não param de lotar a caixa postal do meu cérebro.

Tento visualizar o percurso. As boias de sinalização são mínimas, dispersas, pouco visíveis. Entre os nadadores, ninguém sabia ao certo em que ponto da ilha deveríamos chegar. Segundo as instruções, na verdade chiados e ruídos que saíam de uma caixa acústica, deveríamos mirar a construção mais alta da ilha até atingir um barco, dali seguiríamos em direção norte. Aí então veríamos o pórtico de chegada. Então tá.

Ao cair na água, a sensação é ótima. A temperatura é ideal, mais parecia uma piscina aquecida. Estávamos em alto mar e a visibilidade do fundo era total. Estávamos sobre um grande coral. O mar agitado, porém, tornava a empreitada um tanto complicada. Até porque não se viam as boias nem o navio. O prédio de referência parecia tão alto quanto o Nelson Ned amarrando o sapato.

Noto que a paradisíaca água transparente era um fator de distração. Ainda bem que minha mulher me proibiu de levar a câmera fotográfica, poderia estar por lá até agora. À medida que a prova avança vai batendo aquela solidão. Cadê aquele pessoal que estava no barco comigo? Desistiu ou já chegou? Ali perto um peixinho comprido. Não sei se é um peixinho que está perto ou um tubarão que vem chegando? Pelo sim, pelo não, melhor acelerar. Sigo nadando na esperança de encontrar um posto de informação ao turista.

Barco à vista! Segundo os organizadores ali perto está situado o MUSA, Museu Subaquático. Para atrair os turistas, um conjunto de esculturas foi plantado naquele ponto do mar. Não vejo nada ali e acho que não é o caso de ficar procurando.

Acelero o ritmo. Não quero passar o vexame de ser ultrapassado pelos caras que partiram na mesma hora que eu e estão nadando os 10 km! No fundo do mar, os corais dão lugar à uma areia branca. Normalmente numa travessia, sabemos que estamos alcançando o destino quando vemos o fundo do oceano. Mas aqui ele é visível o tempo todo. Sigo dando braçadas até que vejo uma boia pela primeira vez. Me deu vontade de parar e rabiscar meu nome. Mas minha mulher também não me deixou levar caneta.

Os óculos embaçam, tenho que parar pra limpá-los. Péssima ideia, a água ultra salgada quase me cega. Vou adiante assim mesmo, torcendo pra não errar o caminho e rumar para a África.

De repente, surpresa! Vejo o pórtico de chegada. Estou vivo…ou quase. Confiro o tempo: 1 hora e 3 minutos. Nada mal pra quem até os trinta anos não atravessaria uma poça na praça da Bandeira.

Logo depois surge o Luiz Lima, que vence os 10 km em apenas 2 horas e 8 minutos. Faço as contas: o cara nadou aquilo tudo mantendo uma média de 1 minuto e 17 segundos por 100 metros! Noto que, se conseguisse manter esse ritmo, teria completado o percurso em apenas 38 minutos. Por outro lado, teria aproveitado muito menos esse marzão.

Quando se nada em dólar, o melhor é ir devagar e curtir o momento.

TE AGARRA NAS CAGARRAS

Tinha quinze pra dezesseis anos quando soube o nome daquelas ilhas. Cheguei ali da Vila da Penha, os pés ainda sujos de barro, acompanhado de um amigo de colégio que morava na Tijuca. Isso mesmo, pra ir à praia em Ipanema pernoitava na casa desse meu amigo tijucano, pra ficar mais perto do mar. Nadava mal pacas, passei a infância fugindo das aulas de natação, das quais tinha um verdadeiro horror. A gente se sentava na areia e eu só entrava na água quando estava quase desidratando. Foi esse meu amigo quem me disse o nome daquelas ilhas, que eu pensava ser só uma. Ele sempre brincava, dizendo  “quando uma onda surgir atrás das Cagarras, pra onde você vai correr?” Ficava apavorado com essa hipótese e me imaginava correndo toda a avenida Brasil de volta pra casa.

Por conta dessa história, fazer uma travessia daquelas ilhas até a praia de Ipanema sempre teve contornos míticos. Não acreditava que alguém pudesse ter fôlego pra isso, muito menos que esse alguém pudesse ser eu. E não é que esse dia chegou?

Um bote nos leva até as ilhas, onde começará a aventura. À medida que o barco avançava mar adentro, eu me perguntava pra quê? Por quê? Eu tava bem na minha caminha, tava tranquilo  naquelas areias, o que ia fazer lá longe? Se estivesse num transatlântico afundando, tudo bem, faria todo sentido arriscar e sair nadando pra alcançar a praia. Mas e se você já está na areia? A resposta é a tal da superação. O ser humano, esse idiota que precisa se por à prova pra se convencer de que é capaz de desafiar sua força, seus limites, para alcançar seus objetivos.

Entendo, a travessia é uma metáfora da vida. Você sabe onde tudo começa e onde tudo vai dar, o que acontece entre um ponto e outro é um mistério, surpresas te aguardam e elas podem ser boas ou ruins. No final, acaba valendo a pena. Mas será isso mesmo? Pô, se é pra vivenciar essa filosofia barata, não seria mais fácil ler um livro de auto-ajuda? Não precisaria treinar nem acordar cedo.

O barco chega às Cagarras. A praia está bem longe, não se vê a areia. Impossível saber qual daquelas caixinhas de cimento é o Hotel Caesar Park, ponto da chegada. Os organizadores nos orientam. “Nadem mirando o Cristo!” Fico na dúvida se aquilo é uma dica de navegação ou um toque religioso. Mas logo vejo que o Corcovado fica alinhado com o ponto final da prova. É difícil acreditar que vou nadar tentando chegar ao Cristo Redentor! Mas é exatamente isso que começo a fazer. Oito boias demarcam o trajeto. É o que dizem, pois uma vez no mar, não vejo uma delas sequer. A sorte é que tenho um salva-vidas particular, um sujeito que nunca vi na vida em quem tenho que confiar cegamente.

A correnteza naquele trecho do oceano é bastante forte, de leste para oeste. Se nadar despreocupadamente posso atingir o litoral no Recreio dos Bandeirantes. Sou orientado pelo salva-vidas a mirar o Arpoador e acreditar nas aulas de Física: a resultante será uma linha reta. Então tá. Agora a questão é o ritmo. Nadar calmamente e chegar em terra três dias depois ou dar braçadas vigorosas e morrer em quinze minutos? Como estou de férias, opto pro chegar em três dias.

No decorrer da travessia vou adquirindo confiança e forçando a barra. Pra vencer a correnteza e não chegar na Barra. Em pouco tempo todas aquelas pessoas que começaram a prova ao meu lado desaparecem. Fico em dúvida se houve um afogamento coletivo ou se todo mundo já chegou em Ipanema e estão me esperando. Pelo menos o salva-vidas não me abandonou. Sem trocar uma palavra estamos cada vez mais íntimos. Sem nenhum contato físico, claro.

Quando menos espero, começo a ver os prédios. Dali a pouco, a areia da praia. Fico animado. Intensifico as braçadas. Me aproximo da chegada, ouço ao longe a música do evento. Imagino quantos moradores são acordados com aquela zoeira toda. Gente que paga uma fortuna de IPTU pra ser perturbada no domingo por um locutor animadão e uma música em altos decibéis. O desespero desse pessoal é o nosso alívio. Sonho com a hora em que vou tomar um caldo de uma onda que vai me jogar no pórtico de chegada. Não é preciso sonhar muito, a onda logo chega, me encaixota  e me despacha para a areia. Enfim, de volta ao ponto de onde nunca devia ter saído.

Com a respiração ofegante faço uma profunda reflexão. Que lição posso tirar dessa experiência? A resposta é só uma: agora estou pronto pra seguir a vida me achando, tirando com a cara de geral. Você já nadou das Cagarras até Ipanema? Não? Eu já!