O vendido… e mal pago

o vendido

Fui convidado pela revista literária QUATRO CINCO UM pra fazer uma resenha sobre o ousado livro O VENDIDO, do escritor americano Paul Beatty. Confere aí.

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“É um negro de primeira linha.”– diria um certo ministro do nosso STF se fosse convidado a depor como testemunha no julgamento “Eu x O Povo dos Estados Unidos”. A declaração não chamaria a atenção do leitor de O Vendido. Também não ficaria claro se a declaração é a favor ou contra o réu. É preciso ler e reler para tentar captar a intenção do autor. Talvez nem assim se consiga. Paul Beatty escreve em camadas e deixa que se desfrute seu texto como quiser. Você pode ficar irritado e arremessar longe o exemplar por não querer acompanhar nem mais uma linha desse raciocínio reacionário. Pode rolar de rir com as tiradas de humor negro (ou seria humor afro-americano?). Pode refletir sobre a descrição crua e desaforada do racismo. Faça o que quiser, ele não está nem aí. Não se preocupa se o leitor é branco, negro, mexicano ou asiático. Beatty causa repulsa porque te faz rir de algo muito grave. Eu estou rindo disso? Então quer dizer que sou mais racista do que eu mesmo imaginava? Mas eu sou preto. Quer dizer, nem tão preto assim, tenho cabelo bom!

O Vendido tem o espírito de um show de stand-up em que qualquer piada é permitida, por mais escrota que seja. Desde que você seja negro. Ou preto. Ou crioulo. Nossas gradações para definir um afrodescendente param por aí. Não temos uma palavra equivalente ao “nigger”, que ele usa e abusa sem pedir licença. Não se importa se o leitor enrubesce frente a ela. Se for branco, claro. Se for preto, não vamos perceber na pele o incômodo. Por dentro, pode ser que se irrite. Talvez se acalme, ao saber que o autor é um crioulo, como ele. Aí vem a dúvida. Ele está mesmo fazendo troça de um drama por que passam os milhões de negros nos EUA, aqui ou em qualquer lugar? É indiferente ao preconceito, à discriminação? Qualé a desse negão?

Em tempos politicamente corretos, Beatty tem a audácia de inventar uma história em que o protagonista, um negro, filho de um militante da causa negra, aceita escravizar um octogenário também negro. Por isso é preso e vai a julgamento. Ali apresenta os atenuantes. Não houve tráfico. Hominy, um artista de tevê aposentado, não foi negociado, é escravo por livre e espontânea vontade. Também não é obrigado a trabalhar, chega e deixa o serviço a hora que bem entende. Faz questão de ser submisso, a ponto de ficar de quatro para se fazer de banquinho, de modo que o “Vendido” alcance a sela do seu cavalo. Às vezes, leva umas chibatadas. Sem dramas, ele admite merecer por ser indolente e preguiçoso. “A verdadeira liberdade é o direito de ser escravo”– comenta o ex-Batutinha, Hominy.

Se não há problemas em possuir um escravo em pleno século XXI, o narrador vai mais fundo. Demarca Dickens, um gueto pobre nos arredores de Los Angeles, onde possui uma fazenda precária e produtiva, e ali passa a praticar todo tipo de racismo inverso. Ressegrega restaurantes, hospitais, lojas, proibindo brancos de entrarem ali. A Escola de Ensino Fundamental Chaff é uma instituição educacional para negros. Ou para não brancos, já que nativos, asiáticos e latinos povoam a região e ocupam uma zona cinzenta nessa discussão. É como o caso brasileiro do porteiro nordestino (leia-se paraíba) que discrimina o entregador de pizza negro (crioulo). O entregador poderia revidar: “Pra ser racista, meu chapa, precisa ser mais branco que isso daí.”.

Os brancos também terão sua escola exclusiva, a Academia Wheaton. A área está demarcada e os tapumes são ilustrados com o projeto de instalações confortáveis e de alto nível. Detalhe: não há brancos na região. Ainda assim, a ressegregação surte efeito. Os índices de criminalidade baixam e as notas dos alunos da Escola Chaff sobem a ponto de alunas brancas desejarem ingressar na instituição. Barradas, são escoltadas como no triste episódio de 1957 ocorrido com estudantes negros que recorreram à Justiça para assistir às aulas no Little Rock Central High School, em Arkansas. Naquela vez, os alunos brancos xingaram os negros e cuspiram neles. Aqui, a população implora por autógrafos das branquinhas. Os clientes das lojas se sentem privilegiados ao verem a placa de “Proibida a Entrada de Brancos” nas vitrines. O narrador é bem-sucedido na intenção de elevar a autoestima dos moradores.

O autor corta as amarras supostamente impostas por movimentos de emancipação do negro. Beatty não hesitaria em pôr um turbante numa personagem branca, assim como deixaria uma banda tocar a marchinha Nega do Cabelo Duro no carnaval. Passa ao largo da discussão sobre apropriação cultural. Logo no início da história, o narrador relata o que ganhou no seu afro mitzvá, uma cerimônia afrorreligiosa equivalente ao judaico bar mitzvá. Indiferença? As aparências não têm importância, os problemas são mais profundos e tão arraigados que os personagens não se detêm aos detalhes. O pai do “Vendido” era um conselheiro da comunidade, um mediador de conflitos. Para o narrador, era um “encantador de crioulos”. Estão mergulhados no ceticismo. Não se comemora a eleição de um presidente negro. Nada mudou na vida dos pretos. Obama não acabou com o racismo, sequer o aliviou. A certa altura, “Vendido” chega a afirmar que o único lugar da América onde não havia racismo era nas fotos do afropresidente de mãos dadas com a família no gramado da Casa Branca.

Talvez Monteiro Lobato fosse lido livremente. Talvez sua obra passasse por uma revisão, como o clássico O Grande Gatsby, que ganha uma paródia com o título O Grande Blacksby. Nunca sabemos que rumo a conversa com o protagonista pode tomar. Sua franqueza e sinceridade desconsertam o leitor. A menina é miss, apesar de não ser tão bonita, “mas é negra”. Inverte ironicamente situações típicas, como sua desculpa para ter sempre maconha boa: “Eu conheço uns branquelos”. Trata com naturalidade generalizações que a boa educação manda evitar, como o gosto dos afros por melancia e a promiscuidade sexual em famílias pobres. Os mexicanos também não escapam. E o mexicano aqui pode ser oriundo de qualquer região da América Central ou do Sul. Quantas vezes esse equívoco acontece na vida real? A questão que se coloca é: o que se ganha escamoteando o fato? Muito (ou pouco) se fala da discriminação dos negros. E dos nativos, das mulheres, dos latinos, dos japas? Estão liberados para o bullying?

A discriminação está entranhada na sociedade e hipocritamente negada. Não percebemos a sua presença, chegamos a acusar desconforto em certas situações, enquanto outras passam despercebidas. É o caso do neurocientista Carl Hart, que veio ao Brasil em 2015 para ministrar uma palestra e foi barrado na portaria de um hotel paulistano. A notícia causou indignação e furor nas redes sociais. Hart, porém, rebateu de forma contundente. Diminuiu o peso do incidente e centrou fogo em algo visto com naturalidade: era o único negro no auditório. “Vocês deviam ter vergonha disso”– disse à plateia.

Nem sabemos do que nos envergonhar. Canso de ser chamado de moreno, de forma respeitosa. Aliviam minha negritude, como forma de elogio. Cheguei a ouvir de um guardinha as desculpas por tratamento desrespeitoso: “O senhor não é negro”. Não? Como assim? “O senhor é da Globo…”. Não sou mais. Será que agora virei (ou voltei a ser) negro? Pertenço a uma raça nova catalogada pelo narrador: as celebridades. A ausência de negros nas propagandas de artigos de luxo não é problema. Diz ele: “A única coisa que jamais vi em comerciais de carro não são judeus homossexuais ou negros: são engarrafamentos”.

E Beatty brinca nessa corda bamba sem uma tela de proteção. Certas passagens não podem ser tiradas do contexto sem prejuízo ao julgamento do autor e do leitor. Não é um livro que se leia tranquilamente num metrô; é preciso manter as páginas quase fechadas para que os vizinhos não acompanhem, como uma revista pornográfica. Não se sabe qual seria a reação do companheiro de vagão se, num relance, pescar o trecho em que o narrador descreve com orgulho uma brincadeira que criou para as crianças negras – o túnel da brancura. Num lava-jato desativado, a molecada podia escolher o tipo de lavagem racial que gostaria de ter: brancura regular, que resultava em maior expectativa de vida; brancura luxo, em que recebia uma advertência em vez de ser levada para a cadeia pela polícia; e brancura superluxo, que dava direito às regalias acima, mais “um barco que você nunca usa e um terapeuta que ouve”. A sensação de ser branco por alguns minutos era uma alegria pros neguinhos.

Não cabe a mim me aprofundar nas considerações sobre o livro. Posso acabar tirando o prazer da leitura e atrapalhando a sua própria avaliação. Também não revelarei se o “Vendido” será ou não condenado. Digo apenas que Beatty rasga as etiquetas do bom comportamento literário.

Existem várias formas de discutir o racismo. O humor abusado, audacioso e malcriado é uma delas. Mas exige sofisticada interpretação. Ainda me pergunto quantos negros brasileiros lerão esse livro. Estará à venda para brancos ou exigirão atestado de afrodescendência?

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BUSSUNDA: UM NOME A LAZER

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O ano era 1978. Estava na praia de Ipanema com Beto Silva, Marcelo Madureira e Claudio Manoel, quando fui apresentado ao Bussunda. Imagino uma cigana passando ali naquele momento, prevendo que no futuro aquele gordo dentuço, com pinta de quem não visitava um chuveiro há dias, seria um dos meus melhores amigos e até padrinho de um dos meus filhos. Chamaria a polícia na hora e mandaria prender a charlatã.

Eu, Beto e Madureira tínhamos criado o jornalzinho Casseta Popular, que vendíamos na faculdade de Engenharia. Dois anos depois, resolvemos ampliar a proposta editorial pra vender o jornal na praia, nos bares, no Baixo Leblon e no Baixo Gávea. Convidamos o Claudio Manoel e outros amigos. A galera dava força pra gente incorporar o Bussunda na nossa equipe: “Chama o cara, ele é engraçado”. Foi um tiro certíssimo. A Casseta Popular mais tarde se tornaria revista e daria origem, junto com o jornal Planeta Diário, ao grupo Casseta & Planeta.

Bussunda surpreendia o tempo todo. O visual de bad boy barba, cabeleira sebosa e desgrenhada, maltrapilho camuflava uma figura doce e cativante. O ar de vagabundo escondia o leitor voraz, que tanto podia ter na mochila surrada um clássico do século XIX como uma revista em quadrinhos. Desligado, desleixado, era um pai presente e atento. Sacana, irreverente, Bussunda era o fiel da balança no grupo numa discussão acirrada, o que era comum nas nossas reuniões de pauta.

No futebol, o contraste chocava ainda mais. A barriga pronunciada, as pernas arqueadas, o andar cambaleante o tornavam um improvável jogador. Mas em campo conseguia mostrar habilidade e visão de jogo. Sabia se colocar, lançava com precisão, chutava bem e nem no gol fazia feio. Desafiava as leis da física, zombava da gravidade. Com a ajuda de uma bombinha de asma na lateral do campo, encarava os dois tempos e a prorrogação, se houvesse.

Viciado em listas, colecionava estatísticas dos jogadores mais desconhecidos num caderninho que consultava constantemente para embasar seus argumentos numa discussão. O futebol era uma grande paixão, logo depois do Flamengo. Largava qualquer coisa para se largar na geral do Maraca, para onde ia, independente do adversário do seu rubro-negro. Quando ganhava um título, era insuportável de aturar. Até porque eu era botafoguense, uma das vítimas prediletas do seu ídolo maior, Zico. Mas em 1989 fui à forra. No dia 21 de junho, uma quarta-feira, fazíamos juntos uma festa de aniversário sou do dia 18 e ele, do dia 25. Nesse dia, o Botafogo decidia com o Flamengo o campeonato carioca. Pra surpresa geral, o Fogão derrotou Zico e cia e quebrou um jejum de 21 anos sem título. Meu presente foi poder zoar o maior torcedor rubro-negro que conheci. Prazer inenarrável.

No início da nossa trajetória, trabalhei como engenheiro numa empresa séria, que tinha a austeridade como lema, a Promon Engenharia. Dependia do emprego para continuar a fazer nossa revista. Certa vez, disse que tinha um nome a zelar. A resposta do Bussunda veio como um chute de trivela no ângulo: “Problema seu, eu tenho um nome a lazer”.
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Publicado na Folha de São Paulo em 17/6/2016

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ENEM QUE A VACA TUSSA!

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Antigamente o terror era o vestibular. Hoje em dia é o Enem. É quase a mesma coisa. A diferença é que antes, quando o candidato não passava, a culpa era só dele. Agora, se o sujeito vai mal na prova, divide a responsabilidade com o ministro da Educação, que sempre faz uma cagada. Outra novidade é que o colégio acaba se ferrando também. Muita gente deixa de matricular seus filhos num colégio cuja média no Enem é baixa. Sinceramente acho que os professores também deviam fazer uma prova. No mínimo pra tirar o corpo fora. E a gente ouviria o seguinte diálogo nos corredores:

Aluno: – Pô, me ferrei no vestibular! Não aprendi nada… também estudando nessa espelunca… Olha só a média do colégio no Enem.

Professor: – Não vem com esse papo brabo, não! Eu me dei bem na minha prova. Isso significa que ensinei tudo direitinho. Você é que não aprendeu porque é burro…

Às vésperas dos exames é comum matérias na tevê falando sobre a tensão dos candidatos. E o conselho é invariavelmente o mesmo: parar de estudar pra não ficar estressado na hora da prova. Alguns alunos, não querendo correr esse risco, acabam não estudando o ano inteiro…

A verdade é que hoje em dia o pessoal anda estudando cada vez menos. E muitas vezes a culpa é dos pais. Quando o cara começa a tirar notas baixas, em vez de contratar um professor particular, eles levam o coitadinho num psicólogo, que logo dá uma explicação:

– O garoto sofre de DDA, distúrbio de déficit de atenção.

Claro que em alguns casos é uma doença, mas muitas vezes é só um caso de vadiagem. Ora, se o moleque não quer nada com o estudo e não presta a menor atenção na aula, é claro que ele vai ter déficit de atenção! Resultado: o garoto não tem nem trabalho pra arrumar uma desculpa pra sua preguiça, seus pais pagam um profissional pra isso!

Os pais atualmente fazem um esforço danado pra se convencer de que o problema é outro. Alguns não entendem como o filho se dá tão mal nos exames se ele passa o dia inteiro trancado no quarto na frente do computador. Como se o cara virasse a noite consultando a Biblioteca do Congresso Americano.  E todo mundo sabe que o vagabundo passa o tempo todo no zap-zap, no twitter e no facebook!

Outro motivo muito alegado é o bullying. Especialistas garantem que o aluno não estuda porque não quer ser discriminado na escola. Se for bom aluno, vai ser zoado pela turma e pode comprometer sua sociabilização. Deixa ver se eu entendi: o sujeito é inteligente, mas não estuda pra não ficar com fama de nerd. Depois não passa no Enem, não se forma e fica com fama de desempregado…. Essa solução não me parece muito inteligente. Ninguém quer parecer um nerd, de óculos fundo de garrafa e cabelo certinho, como se fosse uma versão 2.0 do Bill Gates. Não consigo imaginar uma gata na balada comentando com a amiga:

– Tá vendo aquele carinha ali, com a maior cara de bilionário americano do ramo da informática? Não vou dar pra ele, não…

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TEU CENÁRIO É UMA BELEZA!

1

Rusevel estava ansioso para chegar ao Rio. Estava há cinco anos fora, jogando no futebol do Catar. Desde que se transferiu para o futebol árabe ainda não tinha voltado ao Brasil. Sonhava em dar um mergulho no mar, passear pelas areias da Barra da Tijuca. Não por saudade de areia, que isso não faltava no Oriente Médio. E sim pelas criaturas que circulam por ela, aquelas coisinhas formosas, bronzeadas, de corpinho sarado trabalhado nas academias e, o melhor, sem um resquício de burka, véu ou qualquer tecido cobrindo as partes. Apenas um micro biquíni que muitas vezes era preciso um grande esforço para conseguir enxergar. De olhos fechados, recostado na poltrona executiva,  imaginou-se passando entre as bundas dispostas nas cangas, voltadas para Meca. Morenas, negras, branquinhas, umas rechonchudas, outras sequinhas, algumas perfeitas, todas recebendo generosamente o sol escaldante. Rusevel armou sua barraca.

– Deseja comer alguma coisa, senhor? – perguntou a aeromoça.

– Sim… – quando percebeu que ela falava de refeição, decepcionou-se. Ajustou o assento, cobriu a ereção com o guardanapo e beliscou o peito de frango.

Rusevel não era bem um craque. Cabeça de área esforçado e vigoroso, não chegou a se destacar nos clubes brasileiros. Na realidade, não chegou a jogar profissionalmente por aqui. Peladeiro, frequentava os campos do Aterro do Flamengo, onde imaginava que um dia poderia surgir um olheiro que reconheceria seu talento. Durante quase dois anos sua rotina era essa: descia o morro do Juramento, andava até a estação do metrô de Vicente de Carvalho, viajava até o Catete, dali seguia a pé para os jardins projetados por Burle Marx. Na volta, passava no Árabe do Largo do Machado para forrar o estômago com uma esfiha e dois quibes antes de fazer o caminho de volta. O olheiro não apareceu, mas ganhou a simpatia do dono da lojinha  de quitutes árabes que acabou fazendo contato com um parente distante. Distante mesmo, seu primo morava na Síria e estava montando um clube de futebol, mesmo sem conhecer muito do assunto. Acabou se interessando em importar Rusevel, que topou a parada e assinou contrato pelo equivalente a algumas centenas de quibes por mês.

Em terra de cego, quem tem um olho é oftalmologista. Rusevel se criou. Mais tarde foi transferido para um outro clube, dessa vez ganhando um pouco mais de quibes, até que foi artilheiro do campeonato local. Um milionário do Catar arrebatou-lhe o passe e sua vida enfim se aprumou. Rusevel mantinha uma página no Orkut por onde se comunicava com amigos no Brasil. Seus antigos vizinhos  invejavam sua sorte. Quando não estava jogando ou treinando, passava as noites no hotel em que vivia hospedado. Para evitar que se metesse em confusão, o milionário o proibia de sair sozinho. Para ir a um shopping era acompanhado por um segurança, um árabe que tinha o hábito de andar de mãos dadas com ele. Rusevel nunca contou isso no Orkut.

Aos poucos foi rareando suas visitas ao shopping. Distraía-se na boate do hotel, um templo da sacanagem onde o islamismo não tinha vez. Ali encontrava os outros jogadores, entre eles dois brasileiros casados que apreciavam os costumes da região.

– Isso aqui é um paraíso, rapá! Onde já se viu um lugar que você passa a noite cercado de piranhas e a tua mulher não pode fazer nada?

– A patroa fica injuriada, mas não tem como dar uma incerta na gente. Eu ainda falo pra ela: “Pô, querida, como é que você vai desconfiar de mim? Tu acha que eu vou te trair com um trubufu desses? Por que você acha que elas andam todas cobertas ?”

– Outro dia, a Gislaine teve uma crise. Quebrou a casa toda porque eu estava cheirando a perfume e uísque. Inventei que esses árabes são esquisitos, além de se encharcarem de loção, gostam de abraçar a gente toda hora e ainda e obrigam os jogadores a beber contra a vontade, pra fazer companhia pra eles. E eu não posso perder esse contrato, né? – contava e ria ao mesmo tempo.

O tempo foi passando, a solidão aumentando. Rusevel que era solteiro, sentia falta de ter uma mulher que quebrasse tudo quando voltasse pra casa bêbado da putaria. Estava decidido a arrumar uma esposa quando viesse de férias ao Brasil.

2

A vontade de casar de Rusevel passou assim que se aprumou na cadeira de alumínio que o barraqueiro armou para ele sob o guarda-sol na praia da Barra.

– Vai um coquinho, doutor? Tá geladinho. – ofereceu o solícito barraqueiro.

– Vai catar coquinho, bróder! Me traz um suco de cevada no casco escuro. Meu médico me proibiu de beber esses bagulhos saudáveis durante as minhas férias.

Enquanto tirava a tampa de isopor e enchia o copinho de plástico, seus olhos acompanhavam o balé da mulata sem defeitos à sua frente. Tirou sua canga do corpo exibindo o par de silicones zerinho. Em seguida estendeu a peça na areia – a canga, não o silicone. Mergulhou de bruços no tecido colorido, deixando-o com uma vista panorâmica das costas, de uma abençoada escoliose que realçava magnificamente a bunda exuberante. Movimentos perfeitos e cadenciados, superior a qualquer dança do ventre dos países árabes.

“Peraí, essa mulata tá nua!” – pensou boquiaberto. “Nuinha!”- repetiu pra si mesmo. “Ah não…” – reparou melhor. De fato, a bunda estava toda ali exposta para ele e quem mais quisesse apreciar. Mas não de todo despida. Havia um estreito fio dental passando onde ele desejava estar. O fio ressurgia das profundezas e seguia até um minúsculo triângulo de lycra que cobria uns três dedos de pele acima das nádegas. Rusevel ficou intrigado. Caraca, a mulher deixa as coxas e a bunda toda de fora e se preocupa em esconder aquele trechinho do corpo ! O que será que tem ali embaixo? Será ali o tal do ponto G ? A essa altura, seu pau já estava em ponto de bala. Resolveu dar um mergulho pra esfriar as cabeças.

À noite, Rusevel reapareceu na quadra da Mocidade Unida da Vila Cosmos, uma pequena agremiação que lutava pela permanência no Grupo C das Escolas de Samba do Rio, uma espécie de quarta divisão do campeonato momesco. Uma escola humilde, celeiro de ritmistas, com pouca grana e pouca história no carnaval carioca. Mas era perto de Vicente de Carvalho, seu bairro de origem. Ali era certo encontrar amigos de infância, gente que não via há cinco anos, até mais. Alguns estavam irreconhecíveis. Castigados pelo tempo, pelos hectolitros de cerveja e Velho Barreiro, apresentavam avançada calvície e barrigas pornográficas. Mas era tudo gente boa, boa conversa, principalmente quando era ele quem bancava o malte da rapaziada.

– Você voltou na hora certa, Rusê – falou Serginho Capivara. – Parece que tu tava advinhando. Hoje é o dia D da escola.

– Dia D? Pensei que ela tava só grupo C…caiu de novo, é? – o jogador emendou a piadinha e meteu no ângulo. A galera riu e mandou descer mais uma.

Marquinho Cocô, que sempre foi meio lesado, não acompanhou a brincadeira e esclareceu:

– Não é isso não. É que hoje é que decide tudo aqui na escola. O samba-enredo, a rainha da bateria, o casal de mestre-sala e porta-bandeira…

– Tá, tá, Cocô. Rusevel já entendeu. Ele não é burro, é só cabeça de área… – sacaneou Tiquinho.

– E aí, tem samba bom na disputa? – fez-se um silêncio. Todo mundo olhou para Magriça, um coroa ossudo e cachaceiro, um dos compositores da escola.

– Meu craque, vou abrir o jogo com você. O melhor samba é o meu. – O pessoal murmurou, como quem concorda.  – Mas a política aqui dentro é braba. Eu precisava de um padrinho.

– Ih, Magriça, se o negócio é dinheiro, tô fora. Deixei minha carteira lá nas Arábias…

– Não é nada disso! Só precisava de uma força. Você é uma grife, sabe disso. – Rusevel se aprumou na cadeira. – Vou te fazer uma proposta.

– Pode propunhetar, meu caro.

– A parada é a seguinte. Quero que tu assine esse samba comigo. Comigo só não, tem mais quatro parceiros na jogada. sou eu, o Caneta, o Jairo Bode, o Bom Cabelo e o seu Antonio da padaria. Foi ele quem bancou a impressão dos prospectos pro pessoal cantar junto. E aí, topa?

– Peraí, Magriça. Eu nem ouvi esse samba. Tu acha que esse papo vai colar? Se me perguntarem o que eu fiz, o que eu vou dizer?

– Diz que tu fez o seguinte verso, olha aqui… – Magriça apontou no prospecto a pérola : “Ê ô ê ô alá lá ô”.

– Ê ô ê ô alá lá ô? – repetiu.

– Esse é facinho. Até um cabeça de área podia ter bolado. – falou Tiquinho.

– Tu cala a boca, moleque, ou eu te encho de porrada!

– Ô Tiquinho, não bota vinagre no meu azeite! – gritou Magriça irritado. – E então, Rusevel? Pensa bem, o enredo é “As Mil e Uma Noites”, você mora nas Arábias.

– No Catar.

– Tudo a mesma merda. Teu nome nos créditos vai dar moral pro meu samba. quer dizer, pro nosso samba.

– Tá legal, onde eu assino?

Magriça deu-lhe um abração, beijou-lhe a bochecha e saiu excitado pelo meio do salão.

Excitado mesmo ficou Rusevel quando viu subir as escadas para o camarote um par de pernas que lhe pareceu familiar. Firmou a vista e confirmou. Era a mulata da praia. Reconheceu pela tatuagem na batata da perna (só os jogadores possuem panturrilhas).  Estava escrito: “Gaia”, com uma letra um tanto garranchuda. Ainda assim, as pernas eram maravilhosas.

– Quem é aquela deusa ali?

– Vai dizer que não sabe! – respondeu Serginho Capivara – É a Janaína, filha da dona Dirce, a mãe de santo.

– Que princesa! – babou ele.

– Princesa não, rainha. Rainha da bateria. Quer dizer, pelo menos, até hoje.

– Ah, é ruim esse monumento perder o cargo. Só se for contratada por uma escola da primeira divisão.

– Ela já disse que não vai. – disse Capivara. – Só quer defender a escola do bairro. Não quer fazer carreira nisso. Estuda Administração na Estácio.

– Que desperdício…

3

O clima de alegria e descontração se desfez na quadra. No palco, um sujeito alto, calvo e barrigudo tomou o microfone.

– Quem é a figura? – perguntou Rusevel.

– Shhh! Cala a boca que tu chegou a pouco de fora! Esse aí é o seu Alberto, presidente da escola. Ele é o miliciano que acabou com o tráfico aqui no bairro.

– Senhoras e senhores, antes de dar início à escolha do  samba enredo que nossa escola vai defender este ano na avenida, eu quero apresentar a todos a Rainha de Bateria da Escola de Samba Mocidade Unida da Vila Cosmos para o carnaval de 2011.

A mulata ficou de pé no camarote superior. Vários homens desviaram seus olhos do palco para o parapeito, onde se destacava o peito de Janaína.

– É com muita honra que eu chamo ao palco… Luciene Peixoto! Uma salva de palmas para ela!

A plateia atônita viu surgir das cortinas surradas uma gordinha muito parecida com o seu Alberto. O aplique de cabelos afro mal disfarçava os traços pouco atraentes. Não fosse ela filha de um poderoso miliciano, diria que é uma tremenda mocreia. Silêncio. Dos cantos do salão, alguns sujeitos com pinta de policial puxaram aplausos. O público timidamente obedeceu. Luciene sorriu e agradeceu. Janaína desmaiou.

– Puta que o pariu! – exclamou Rusevel. – O cara acabou com o tráfico, agora quer acabar com o samba também!

O jogador correu para acudir a ex-rainha.

– Como você tá?

– Ahn? Qu-quem é você?

– Um amigo. Aceita uma água?

– Sim… mas quem é você?

– Um amigo de infância, você não me conhece.

– E como é que é meu amigo? Me dá licença, eu tô muito confusa…

– Calma, você precisa de um pouco de ar fresco. Vamos lá fora.

Ainda que desorientada, se apoiou nele e caminharam para a rua. Rusevel não ficou para ver seu primeiro samba ser classificado para o desfile.

– Que sacanagem aprontaram pra você!

– Esse Alberto é um filho da pu… Peraí, por que eu tô aqui na rua desabafando com um desconhecido? Quem é você, afinal de contas?

– Desculpe não ter me apresentado. É que eu já te conhecia. Te carreguei no colo quando você era pequenininha, Janaína. Eu sou o Rusevel. – disse, querendo carregá-la no colo, deitá-la no solo, fazê-la mulher num motelzinho barato, ouvindo o Wando.

– Rusevel, o jogador?

– Ele mesmo. Quer dizer, eu mesmo… Morava pertinho de você quando você…

– Rusevel, me desculpa mas eu não tô pra ficar de conversinha. Eu vou pra casa, minha cabeça tá estourando.

– As minhas também… – Ato falho.

– O quê?

– Nada. Entra no carro que eu te dou uma carona.

– Olha, eu vou aceitar porque não tô em condições de ir a pé. Mas não pense que eu sou dessas que não pode ver carro de jogador de futebol…

– Isso aqui nem é carro de jogador. É um quebra-galho alugado. Meu carro tá na garagem do hotel em Doha.

– Onde fica isso?

– Depois te explico. Agora é você quem tem que me explicar como chego na sua casa. As coisas mudaram um pouco aqui no bairro, tô meio perdido.

– Perdida tô eu! Como aquele cachorro foi fazer uma safadeza dessas comigo? Botar a baranga da filha no meu lugar! Ele sabia que esse era o meu último ano na escola, custava me deixar desfilar?

– E justo no meu samba…

– Teu samba?

– É, eu o Magriça tamos concorrendo e…

– Como assim? Você também compõe?

– É…eu mandava uma dicas pelo MSN, ele pegava na lan house, a gente fez uma parceria digital…

– Nossa, o Magriça! Não sabia que ele era tão moderno.

– Pois é.

Eles chegaram em frente ao pequeno prédio onde Janaína morava com a mãe.

-É aqui. Obrigada.

– Peraí. – ele segurou sua mão. – Só queria saber uma coisinha. O que é Gaia?

– Gaia é uma divindade grega, a mãe terra.  Você viu minha tatuagem?

– Sim, mas caraca, por que você tatuou esse bagulho na perna?

– É uma longa história. Um dia quando tiver tempo, te conto. Hoje não.

– Por favor…não vou dormir de curiosidade.

– Tá bom rapidinho. Na verdade, eu tinha tatuado Caio, meu ex-namorado. Mas aí a gente se separou.

– E você fez um remendo…

– Não fui eu. Foi o…o… – vamos deixar isso pra lá.

– Fala!

– Foi o Alberto. É, isso mesmo. A gente começou a ter um caso, ele mandou um tatuador da confiança dele lá em casa fazer esse serviço. Eu me apaixonei por ele, faria qualquer coisa que ele pedisse. Até que eu vi que ele não ia largar a mulher dele. Aí a gente abriu.

– Faz muito tempo isso?

– Foi ontem.

– Então tá explicado, né? Ele quis se vingar de você. Esse cara não merece, você é muita areia pro carrinho de mão daquele…

Rusevel não completou a frase. Puxou Janaína e tascou-lhe um beijo. Ela se assustou, resistiu um pouco, mas pensou que poderia ser uma boa vingança pra aquele babaca. Permitiu o beijo, a mão nos peitos siliconados e apalpou o volume que se formava na calça dele. Não era um pacote de Halls. A coisa tava esquentando quando ouviram uma batida vigorosa na janela.

– Que porra é essa? – vociferou o sujeito enorme.

– Caralho! – desesperou-se Rusevel.

– Eu sei, tô vendo.

Janaína soltou um grito.

– Calma! É um assalto. Vamos deixar ele levar tudo.

– Assalto nada. Esse é o Marreta, capanga do Alberto.

-Pe-peraí, não é nada disso que você tá pensando, meu chapa.

– Primeiro: eu não penso. Segundo: não sou teu chapa. E terceiro: o patrão não vai gostar nada de saber disso.

– E o que que o Alberto tem a ver com a minha vida? A gente não tá mais junto. – Janaína peitou.

– Isso a senhora desenrola com ele. Mas esse daí a gente mesmo resolve. Vamos capar esse escroto.

– O meu escroto? Tá doido!

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Rusevel conseguiu escapar da faca. Negociou a sobrevivência do pissulim por vinte mil dólares e o embarque no dia seguinte para o Catar.

Nunca mais viu Janaína, que reatou com o miliciano e recuperou o posto de rainha da bateria.

E a gordinha Luciene? Deprimida, se trancou no quarto por seis meses, onde só fazia chorar e se encher de Cheesitos. Vinte e cinco quilos mais tarde, casou-se com Marreta.

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conto publicado na Playboy em fev/2011)

foto: ana quintella

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ao todo.