EL HUMORISTA DE ÁGUAS ABIERTAS!

Circulando por Cancun, vemos centenas de hotéis fincados na areia fina, debruçados sobre o mais azul dos mares azuis. A temperatura da água é tão agradável que há quem diga que lembra o útero materno. Não tenho uma memória tão boa assim, mas posso garantir que é incrível. A maioria dos hóspedes, porém, prefere ficar nas piscinas lotadas, deitados sobre colchões de plástico enquanto um adolescente obeso dá uma bomba que provoca um tsunami na água clorada. Fazer o quê? Mau gosto também é gosto.

 Alguns amigos e eu escolhemos viajar para esta cidade mexicana por um motivo diferente. Viemos participar de uma prova de natação de águas abertas. “Por La Libre Cancun” é uma festa do esporte aquático mais simples e democrático do mundo. Entrar em uma competição internacional já tem seu charme, mesmo que as chances de ganhar sejam nulas. Não importa, a gente sempre sai ganhando.

Todos que vieram já estiveram em travessias no Brasil, alguns até no exterior, meu caso, por exemplo. Portanto, ninguém precisaria de boia de braço pra se lançar no mar do Caribe. Fazemos parte de um grupo de amadores que curtem nadar no mar e temos o privilegio de ter o olímpico Luiz Lima no comando da equipe.

Chegamos animados ao México. Mas tivemos que segurar nossa onda. Não dava para cair de boca nas tequilas e piñas coladas pra depois marear e estragar a límpida e bela paisagem caribenha. No mesmo dia fizemos um treino de reconhecimento do terreno. Sabe aquelas fotos de um mar plácido e liso que vemos nas revistas? Pois não foi nada disso que encontramos. O mar estava revoltado e estava disposto a zoar com os brazucas. Ficou claro que teríamos que ralar pra completar o percurso e tirar onda ao chegar no Rio. Ninguém amarelou por causa disso.

A noite que antecede a prova é de apreensão e ansiedade. Afinal, foram dois aviões e uma grana de hotel, comida e presentes pros filhos. Nada podia dar errado. Conferi o despertador de meia em meia hora, pensei até em dormir de touca e óculos para não me atrasar.

O evento consistia em duas provas distintas. Na principal o percurso era de 10 quilômetros, saindo de Cancun até Isla Mujeres. A outra, a que tive cujones de encarar, era de 3 km. Nesta partíamos de um barco que nos levava até o meio do mar e dali, qual espermatozóides em busca do óvulo, nadávamos para alcançar a meta.

Parte da equipe brasileira em Cancun: LL Gladiadores.

No momento que antecede a largada, as interrogações saltavam na cabeça. Onde deixar meus pertences? Eles chegarão do outro lado? E se o barco com meus documentos afundar ou for desviado por piratas do Caribe? Será que o barco para ou terei que mergulhar dele navegando? As dúvidas não param de lotar a caixa postal do meu cérebro.

Tento visualizar o percurso. As boias de sinalização são mínimas, dispersas, pouco visíveis. Entre os nadadores, ninguém sabia ao certo em que ponto da ilha deveríamos chegar. Segundo as instruções, na verdade chiados e ruídos que saíam de uma caixa acústica, deveríamos mirar a construção mais alta da ilha até atingir um barco, dali seguiríamos em direção norte. Aí então veríamos o pórtico de chegada. Então tá.

Ao cair na água, a sensação é ótima. A temperatura é ideal, mais parecia uma piscina aquecida. Estávamos em alto mar e a visibilidade do fundo era total. Estávamos sobre um grande coral. O mar agitado, porém, tornava a empreitada um tanto complicada. Até porque não se viam as boias nem o navio. O prédio de referência parecia tão alto quanto o Nelson Ned amarrando o sapato.

Noto que a paradisíaca água transparente era um fator de distração. Ainda bem que minha mulher me proibiu de levar a câmera fotográfica, poderia estar por lá até agora. À medida que a prova avança vai batendo aquela solidão. Cadê aquele pessoal que estava no barco comigo? Desistiu ou já chegou? Ali perto um peixinho comprido. Não sei se é um peixinho que está perto ou um tubarão que vem chegando? Pelo sim, pelo não, melhor acelerar. Sigo nadando na esperança de encontrar um posto de informação ao turista.

Barco à vista! Segundo os organizadores ali perto está situado o MUSA, Museu Subaquático. Para atrair os turistas, um conjunto de esculturas foi plantado naquele ponto do mar. Não vejo nada ali e acho que não é o caso de ficar procurando.

Acelero o ritmo. Não quero passar o vexame de ser ultrapassado pelos caras que partiram na mesma hora que eu e estão nadando os 10 km! No fundo do mar, os corais dão lugar à uma areia branca. Normalmente numa travessia, sabemos que estamos alcançando o destino quando vemos o fundo do oceano. Mas aqui ele é visível o tempo todo. Sigo dando braçadas até que vejo uma boia pela primeira vez. Me deu vontade de parar e rabiscar meu nome. Mas minha mulher também não me deixou levar caneta.

Os óculos embaçam, tenho que parar pra limpá-los. Péssima ideia, a água ultra salgada quase me cega. Vou adiante assim mesmo, torcendo pra não errar o caminho e rumar para a África.

De repente, surpresa! Vejo o pórtico de chegada. Estou vivo…ou quase. Confiro o tempo: 1 hora e 3 minutos. Nada mal pra quem até os trinta anos não atravessaria uma poça na praça da Bandeira.

Logo depois surge o Luiz Lima, que vence os 10 km em apenas 2 horas e 8 minutos. Faço as contas: o cara nadou aquilo tudo mantendo uma média de 1 minuto e 17 segundos por 100 metros! Noto que, se conseguisse manter esse ritmo, teria completado o percurso em apenas 38 minutos. Por outro lado, teria aproveitado muito menos esse marzão.

Quando se nada em dólar, o melhor é ir devagar e curtir o momento.