DE LA PEÑA X ALLAN DO CARMO: O DESAFIO DO SÉCULO

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Não tem Pan, Mundial ou Olimpíada… a competição de natação mais importante deste século já aconteceu. Pelo menos pra mim! Desafiei o Allan do Carmo, Campeão Mundial de Maratonas Aquáticas. A prova aconteceu no Posto 6 de Copacabana. O Desafio do Coco.

Claro que pra uma disputa equilibrada com um campeão mundial algumas condições tinham que ser observadas. Assistam ao vídeo e vejam tudo que aconteceu.

Além da matéria, que foi ao ar no Esporte Espetacular, aqui você tem um vídeo bônus, que a TV não mostrou.

Clique na foto pra abrir a matéria do Esporte Espetacular

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E o vídeo bonus…

unnamedAllan é ouro. E eu fui prata!

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Ao saber do Desafio do Coco, Aurélie Muller fez questão de acompanhar de perto.
Aurélie foi campeã mundial da maratona aquática no Mundial de Kazan, em julho de 2015.

limaMeu treinador, Luiz Lima, comentou a prova e me incentivou muito. Se fosse há uns 40 anos, ele estaria certamente me preparando para a olimpíada!

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O DESAFIO DO CÔCO

Allan do Carmo é o maior nadador de maratonas aquáticas do Brasil. Nosso único representante masculino na Olimpíada foi campeão mundial dos 10km em 2014. Este ano, além de se qualificar para os Jogos de 2016, foi medalha de prata por equipe, junto com Ana Marcela Cunha e Diogo Villarinho. No sábado, 22/8, venceu o evento teste. Foram 10 quilômetros em Copa, local da prova olímpica. Nadou contra outros 25 atletas e faturou. Mas ele tem um desafio maior pela frente. O Desafio do Côco. Vai disputar comigo uma pequena prova valendo um côco na próxima segunda, 24/8, também em Copa. Não vou dar moleza, não! Quero tomar o côco da vitória de qualquer maneira.

Façam suas apostas! A prova será gravada e vai passar no Esporte Espetacular, ainda não sei a data. Aqui vai o vídeo em que Allan comenta sobre nosso desafio.

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PRA NÃO MORRER NA PRAIA

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Concordo com vocês: essas histórias de superação são um saco, ninguém suporta… Mas foda-se, vou contar a minha.

Tudo começou dia 18 de abril deste ano. Fui a São Bernardo do Campo participar da segunda etapa da Copa Brasil de Maratonas Aquáticas. Ciente de que não sou nenhum Allan do Carmo, dava como certo um desempenho satisfatório, somando alguns pontinhos pra minha equipe. Era uma prova de 5000 metros na represa Billings, portanto, em água doce, o que torna tudo mais difícil. De qualquer forma estava tranquilo. Tão tranquilo que passeei pelo percurso, surpreso por estar num trecho limpo e bonito da represa, cercado de matas. Quase parei para uns selfies. O resultado não podia ser outro. A desconcentração foi sinônimo de desclassificação. Fiquei puto e não tinha a quem culpar, a não ser a mim mesmo.

Voltei disposto a dar a volta por cima. Me dediquei aos treinos para me livrar, na etapa seguinte, das três letrinhas que choram – OTL – Out of Time Limit. A data da competição foi se aproximando, a ansiedade foi crescendo. Uma semana antes do dia D, um tropeço: resolvi ajudar nas tarefas domésticas e, ao me abaixar pra passar o rodo – não na patroa, mas no chão da cozinha mesmo, minha lombar trincou e não consegui me levantar. Passei a semana no gelo, no Dorflex e na fisioterapia, já antevendo o cancelamento da participação. Nunca me lamentei tanto. Por que não mantive a fama de imprestável em casa, construída com tanta falta de esforço?

Não joguei a toalha. Notei que a postura da natação não agrava a dor. De qualquer forma, estava cabreiro. Com uma pulga gorda atrás da orelha, parti pra Angra dos Reis, para a terceira etapa da Copa Brasil. Eram duas voltas de 2500 metros num mar tranquilo. Não se pode usar relógio para monitorar a performance durante a prova. O fator psicológico, nessas horas, pesa bastante. Senti que podia forçar o ritmo. Como saber se estava indo bem ou mal? Não tem jeito, só acaba quando termina.

Tentei manter os neurônios ligados na missão – comandar braçadas, pernadas e orientação visual boia a boia. Quando vi o pórtico onde se lia a palavra “CHEGADA”, acelerei pra afastar o fantasma do fracasso. Deu certo! Cruzei a reta final com um ótimo tempo pra mim, 1:47′, e joguei o trauma pro espaço.

Aliviado, volto agora à fisioterapia. Espero que, com esse esforço, não tenha havido perda total.

Caraca! Não sei por quê, mas quando reli a crônica, ouvi a trilha de “Carruagens de Fogo”…

A equipe do EC LL Gladiadores, líder da Copa Brasil de Maratonas Aquáticas.

A equipe do EC LL Gladiadores, líder da Copa Brasil de Maratonas Aquáticas.

 

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O Rei do Mar e o Bobo da Corte

No esporte, existem os que nasceram pra ser campeões e aqueles que querem apenas ter uma vida saudável. Faço parte do segundo grupo, sou dos que cuidam bem do corpo nos treinos pra poder maltratá-lo mais tarde com as coisas boas e nocivas da vida. Comecei a nadar tarde, de olho no calendário, cujas folhinhas não param de cair. Queria puxar o freio das marcas do tempo e não tinha o menor saco pra academia. Achei que um esporte poderia ser mais divertido. Acertei.

Nadar no mar é um prazer. Estar num meio natural, sujeito a correntezas, marés, temperatura da água variando de 25 a 15 graus faz com que os dias de treino nunca sejam iguais. Assim como o mar, a disposição também varia. Tem dias em que reluto pra sair da cama, me arrasto até o posto 6 e me jogo contra as ondas sem muita convicção. Com o tempo, vou me acostumando e saio renovado. Ainda bem que insisti. Descobri que esporte tem que ser praticado regularmente, com ou sem disposição. Se forçar um pouquinho, ela, a disposição, aparece, ainda que sonolenta. Depois desperta e transforma nosso humor.

Mesmo sem a pretensão de disputar uma olimpíada, participar de competições dá um gostinho especial. É o momento de comparar se melhorou sua performance em relação aos colegas e, principalmente, em relação a você mesmo. Por menos que queira, pinta aquela adrenalina, a expectativa na hora da largada, a dúvida se deve ir ao limite das suas forças ou se deve poupar energia pra chegar ao fim.

É claro que esse é um dilema dos mortais, aqueles que acabam chegando lá atrás. O sujeito que vai pra disputar lugar no pódium não tem dúvida: vai nadar com todo o gás até morrer. E torcer pra só morrer depois da faixa de chegada.

Gosto de ouvir os relatos dos caras que nadam lá na frente. Falam da pancadaria que rola sem que a gente note, dos puxões de perna, atropelamentos, socos, arranhões. Não passo por isso no pelotão “paz e amor”. Há contato, sim, mas na ampla maioria das vezes, é involuntário, quase paramos pra pedir desculpas.

E é curioso quando a tropa da elite nos ultrapassa, os retardatários. Formam ondas feito jet skis! Tento olhar por baixo d’água pra entender seus movimentos e chego a achar que estou fazendo o mesmo que eles, só que não. Consigo nadar bem por um curto tempo, depois a coisa desanda. É como estar conversando em inglês, entendendo tudo. Vem aquele devaneio: “Caraca! Tô entendendo tudo que esse gringo tá falando!” Essa distração é suficiente pra perder o fio da conversa e voltar ao obscuro analfabetismo idiomático.

O mesmo ocorre com a natação. Teoricamente, sei o que deve ser feito, bater perna constantemente, alongar as braçadas, manter o vigor. O problema é que os movimentos não são instintivos, como o do pessoal que nada desde criança. Ao contrário deles, tenho que enviar um comando para cada um dos músculos do corpo o tempo todo, tenho que pensar nos braços, pensar nas pernas, pensar no abdômen… a concentração acaba cansando mais do que o esforço físico e você se pega pensando no que vai fazer depois que sair dali.

Quando vislumbro a chegada, vejo que não tem mais risco de não completar. Acelero até o pórtico, diminuo meu tempo. Mas sempre noto que poderia ter começado a forçar um pouco antes. Quem sabe logo depois da largada?

Tenho certeza de que isso não passa pelas cabeças do Allan do Carmo e da Ana Marcela Cunha. Não é à toa que ganharam tudo este ano – são campeões brasileiros e campeões mundiais. São o Rei e a Rainha do Mar. Mas tô feliz em ser um saudável Bobo da Corte…

Gravei esse video depois de uma etapa do campeonato brasileiro de maratonas aquáticas que eles ganharam. Recentemente Allan do Carmo e Ana Marcela venceram também o Desafio Elite Rei e Rainha do Mar, no posto 6 em Copa. Os caras não sabem perder!

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O PRIMEIRO CAMPEONATO A GENTE NÃO ESQUECE

Vamos deixar o futebol de lado e tratar de outro esporte. Enquanto sofro nas arquibancadas ao ver meu time sucumbir no Brasileirão, sou compensado por uma grande alegria. E para alcançá-la não fiquei sentado, torcendo para que tudo desse certo.

Pelo contrário, tive que entrar em campo, digo, na água, e suar a camisa – quer dizer, molhar a sunga. O clube E.C.L.L. Gladiadores, fundado oficialmente em 2013, sagrou-se campeão por equipe da I Copa Brasil de Maratonas Aquáticas.

Como um cara que era um prego no mar conseguiu isso? Quem foi subornado? Este título foi obtido no esquema do Alberto Youssef? Dilma e Lula sabiam disso? O que o Paulo Roberto Costa tem a dizer a respeito? Posso garantir que foi tudo dentro das regras. Trata-se de uma conquista absolutamente republicana, podem investigar à vontade.

A Copa Brasil é composta de cinco provas de 5 quilômetros. Duas delas em água doce – São Bernardo do Campo e Brasília; outras três no mar. A última etapa foi na praia de Inema, em Salvador. Participei de três delas – Brasília, Angra dos Reis e Inema.

Não posso dizer que foi mole. Porém, garanto, foi emocionante! O último desafio foi o baiano. A prova ocorreu na Base Naval de Aratu, aquela onde, desde FHC, nossos presidentes da República gostam de passar as férias. A presidente Dilma esteve lá após as eleições. Desfilava nas areias de fio dental e ainda fez um selfie, que mandou para o Aécio com o singelo título de “Garota de Inema”. Felizmente ela não estava ali quando fui nadar. Poderia me desconcentrar com a assustadora visão e certamente não estaria aqui comemorando essa vitória.

Vamos esclarecer. Não cheguei a ganhar a prova, mas contribuí com meus pontos, por ter conseguido completar o percurso abaixo do limite previsto – 60 minutos após a chegada do primeiro colocado. Luiz Lima, comandante-chefe da nossa equipe, chegou com 01:00’51”. Marquei 01:59’10”. Para mim, um recorde mundial!

A prova constava de duas voltas de 2,5 km. Confesso que, ao terminar a primeira, e ver o pórtico de chegada, me deu um certo desespero imaginar que tinha que fazer tudo de novo antes de passar ali. Encarei. É difícil manter a concentração, se empenhar ao máximo quando se pensa nas milhares de braçadas que estão por vir. Os mestres ensinam que você deve pensar apenas na próxima “remada”, mas vai convencer o seu cérebro disso…

Tenho o privilégio de fazer parte de uma equipe forte e competitiva. Somos mais de 80 atletas que treinam assiduamente no Posto 6, onde estará a raia olímpica de maratonas aquáticas. Sob sol ou chuva, estamos lá cedinho pra encarar a água muitas vezes gelada, nem sempre limpa ou tranquila. Nosso esforço – na verdade, um grande prazer – foi premiado. Parabéns a todos. E agradeço aos meus colegas por terem me ajudado a conquistar um título nacional em 2014, ano em que o Botafogo…ah, deixa isso pra lá!

E.C.L.L. Gladiadores, posto 6 - Copa, Rio.

E.C.L.L. Gladiadores, posto 6 – Copa, Rio.

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EL HUMORISTA DE ÁGUAS ABIERTAS!

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Circulando por Cancun, vemos centenas de hotéis fincados na areia fina, debruçados sobre o mais azul dos mares azuis. A temperatura da água é tão agradável que há quem diga que lembra o útero materno. Não tenho uma memória tão boa assim, mas posso garantir que é incrível. A maioria dos hóspedes, porém, prefere ficar nas piscinas lotadas, deitados sobre colchões de plástico enquanto um adolescente obeso dá uma bomba que provoca um tsunami na água clorada. Fazer o quê? Mau gosto também é gosto.

 Alguns amigos e eu escolhemos viajar para esta cidade mexicana por um motivo diferente. Viemos participar de uma prova de natação de águas abertas. “Por La Libre Cancun” é uma festa do esporte aquático mais simples e democrático do mundo. Entrar em uma competição internacional já tem seu charme, mesmo que as chances de ganhar sejam nulas. Não importa, a gente sempre sai ganhando.

Todos que vieram já estiveram em travessias no Brasil, alguns até no exterior, meu caso, por exemplo. Portanto, ninguém precisaria de boia de braço pra se lançar no mar do Caribe. Fazemos parte de um grupo de amadores que curtem nadar no mar e temos o privilegio de ter o olímpico Luiz Lima no comando da equipe.

Chegamos animados ao México. Mas tivemos que segurar nossa onda. Não dava para cair de boca nas tequilas e piñas coladas pra depois marear e estragar a límpida e bela paisagem caribenha. No mesmo dia fizemos um treino de reconhecimento do terreno. Sabe aquelas fotos de um mar plácido e liso que vemos nas revistas? Pois não foi nada disso que encontramos. O mar estava revoltado e estava disposto a zoar com os brazucas. Ficou claro que teríamos que ralar pra completar o percurso e tirar onda ao chegar no Rio. Ninguém amarelou por causa disso.

A noite que antecede a prova é de apreensão e ansiedade. Afinal, foram dois aviões e uma grana de hotel, comida e presentes pros filhos. Nada podia dar errado. Conferi o despertador de meia em meia hora, pensei até em dormir de touca e óculos para não me atrasar.

O evento consistia em duas provas distintas. Na principal o percurso era de 10 quilômetros, saindo de Cancun até Isla Mujeres. A outra, a que tive cujones de encarar, era de 3 km. Nesta partíamos de um barco que nos levava até o meio do mar e dali, qual espermatozóides em busca do óvulo, nadávamos para alcançar a meta.

Parte da equipe brasileira em Cancun: LL Gladiadores.

No momento que antecede a largada, as interrogações saltavam na cabeça. Onde deixar meus pertences? Eles chegarão do outro lado? E se o barco com meus documentos afundar ou for desviado por piratas do Caribe? Será que o barco para ou terei que mergulhar dele navegando? As dúvidas não param de lotar a caixa postal do meu cérebro.

Tento visualizar o percurso. As boias de sinalização são mínimas, dispersas, pouco visíveis. Entre os nadadores, ninguém sabia ao certo em que ponto da ilha deveríamos chegar. Segundo as instruções, na verdade chiados e ruídos que saíam de uma caixa acústica, deveríamos mirar a construção mais alta da ilha até atingir um barco, dali seguiríamos em direção norte. Aí então veríamos o pórtico de chegada. Então tá.

Ao cair na água, a sensação é ótima. A temperatura é ideal, mais parecia uma piscina aquecida. Estávamos em alto mar e a visibilidade do fundo era total. Estávamos sobre um grande coral. O mar agitado, porém, tornava a empreitada um tanto complicada. Até porque não se viam as boias nem o navio. O prédio de referência parecia tão alto quanto o Nelson Ned amarrando o sapato.

Noto que a paradisíaca água transparente era um fator de distração. Ainda bem que minha mulher me proibiu de levar a câmera fotográfica, poderia estar por lá até agora. À medida que a prova avança vai batendo aquela solidão. Cadê aquele pessoal que estava no barco comigo? Desistiu ou já chegou? Ali perto um peixinho comprido. Não sei se é um peixinho que está perto ou um tubarão que vem chegando? Pelo sim, pelo não, melhor acelerar. Sigo nadando na esperança de encontrar um posto de informação ao turista.

Barco à vista! Segundo os organizadores ali perto está situado o MUSA, Museu Subaquático. Para atrair os turistas, um conjunto de esculturas foi plantado naquele ponto do mar. Não vejo nada ali e acho que não é o caso de ficar procurando.

Acelero o ritmo. Não quero passar o vexame de ser ultrapassado pelos caras que partiram na mesma hora que eu e estão nadando os 10 km! No fundo do mar, os corais dão lugar à uma areia branca. Normalmente numa travessia, sabemos que estamos alcançando o destino quando vemos o fundo do oceano. Mas aqui ele é visível o tempo todo. Sigo dando braçadas até que vejo uma boia pela primeira vez. Me deu vontade de parar e rabiscar meu nome. Mas minha mulher também não me deixou levar caneta.

Os óculos embaçam, tenho que parar pra limpá-los. Péssima ideia, a água ultra salgada quase me cega. Vou adiante assim mesmo, torcendo pra não errar o caminho e rumar para a África.

De repente, surpresa! Vejo o pórtico de chegada. Estou vivo…ou quase. Confiro o tempo: 1 hora e 3 minutos. Nada mal pra quem até os trinta anos não atravessaria uma poça na praça da Bandeira.

Logo depois surge o Luiz Lima, que vence os 10 km em apenas 2 horas e 8 minutos. Faço as contas: o cara nadou aquilo tudo mantendo uma média de 1 minuto e 17 segundos por 100 metros! Noto que, se conseguisse manter esse ritmo, teria completado o percurso em apenas 38 minutos. Por outro lado, teria aproveitado muito menos esse marzão.

Quando se nada em dólar, o melhor é ir devagar e curtir o momento.

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TE AGARRA NAS CAGARRAS

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Tinha quinze pra dezesseis anos quando soube o nome daquelas ilhas. Cheguei ali da Vila da Penha, os pés ainda sujos de barro, acompanhado de um amigo de colégio que morava na Tijuca. Isso mesmo, pra ir à praia em Ipanema pernoitava na casa desse meu amigo tijucano, pra ficar mais perto do mar. Nadava mal pacas, passei a infância fugindo das aulas de natação, das quais tinha um verdadeiro horror. A gente se sentava na areia e eu só entrava na água quando estava quase desidratando. Foi esse meu amigo quem me disse o nome daquelas ilhas, que eu pensava ser só uma. Ele sempre brincava, dizendo  “quando uma onda surgir atrás das Cagarras, pra onde você vai correr?” Ficava apavorado com essa hipótese e me imaginava correndo toda a avenida Brasil de volta pra casa.

Por conta dessa história, fazer uma travessia daquelas ilhas até a praia de Ipanema sempre teve contornos míticos. Não acreditava que alguém pudesse ter fôlego pra isso, muito menos que esse alguém pudesse ser eu. E não é que esse dia chegou?

Um bote nos leva até as ilhas, onde começará a aventura. À medida que o barco avançava mar adentro, eu me perguntava pra quê? Por quê? Eu tava bem na minha caminha, tava tranquilo  naquelas areias, o que ia fazer lá longe? Se estivesse num transatlântico afundando, tudo bem, faria todo sentido arriscar e sair nadando pra alcançar a praia. Mas e se você já está na areia? A resposta é a tal da superação. O ser humano, esse idiota que precisa se por à prova pra se convencer de que é capaz de desafiar sua força, seus limites, para alcançar seus objetivos.

Entendo, a travessia é uma metáfora da vida. Você sabe onde tudo começa e onde tudo vai dar, o que acontece entre um ponto e outro é um mistério, surpresas te aguardam e elas podem ser boas ou ruins. No final, acaba valendo a pena. Mas será isso mesmo? Pô, se é pra vivenciar essa filosofia barata, não seria mais fácil ler um livro de auto-ajuda? Não precisaria treinar nem acordar cedo.

O barco chega às Cagarras. A praia está bem longe, não se vê a areia. Impossível saber qual daquelas caixinhas de cimento é o Hotel Caesar Park, ponto da chegada. Os organizadores nos orientam. “Nadem mirando o Cristo!” Fico na dúvida se aquilo é uma dica de navegação ou um toque religioso. Mas logo vejo que o Corcovado fica alinhado com o ponto final da prova. É difícil acreditar que vou nadar tentando chegar ao Cristo Redentor! Mas é exatamente isso que começo a fazer. Oito boias demarcam o trajeto. É o que dizem, pois uma vez no mar, não vejo uma delas sequer. A sorte é que tenho um salva-vidas particular, um sujeito que nunca vi na vida em quem tenho que confiar cegamente.

A correnteza naquele trecho do oceano é bastante forte, de leste para oeste. Se nadar despreocupadamente posso atingir o litoral no Recreio dos Bandeirantes. Sou orientado pelo salva-vidas a mirar o Arpoador e acreditar nas aulas de Física: a resultante será uma linha reta. Então tá. Agora a questão é o ritmo. Nadar calmamente e chegar em terra três dias depois ou dar braçadas vigorosas e morrer em quinze minutos? Como estou de férias, opto pro chegar em três dias.

No decorrer da travessia vou adquirindo confiança e forçando a barra. Pra vencer a correnteza e não chegar na Barra. Em pouco tempo todas aquelas pessoas que começaram a prova ao meu lado desaparecem. Fico em dúvida se houve um afogamento coletivo ou se todo mundo já chegou em Ipanema e estão me esperando. Pelo menos o salva-vidas não me abandonou. Sem trocar uma palavra estamos cada vez mais íntimos. Sem nenhum contato físico, claro.

Quando menos espero, começo a ver os prédios. Dali a pouco, a areia da praia. Fico animado. Intensifico as braçadas. Me aproximo da chegada, ouço ao longe a música do evento. Imagino quantos moradores são acordados com aquela zoeira toda. Gente que paga uma fortuna de IPTU pra ser perturbada no domingo por um locutor animadão e uma música em altos decibéis. O desespero desse pessoal é o nosso alívio. Sonho com a hora em que vou tomar um caldo de uma onda que vai me jogar no pórtico de chegada. Não é preciso sonhar muito, a onda logo chega, me encaixota  e me despacha para a areia. Enfim, de volta ao ponto de onde nunca devia ter saído.

Com a respiração ofegante faço uma profunda reflexão. Que lição posso tirar dessa experiência? A resposta é só uma: agora estou pronto pra seguir a vida me achando, tirando com a cara de geral. Você já nadou das Cagarras até Ipanema? Não? Eu já!

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