CONVERSA NUM APÊ DO LEBLON

O Governador Sérgio Cabreiro ouve a zoeira que vem da rua. Seu assessor espia o movimento pela janela da sala, escondido atrás da cortina

– Eles ainda estão lá fora?

– Estão.

– Mas será possível! Esse pessoal não vai embora?

– Vai, mas só depois que o senhor for embora.

– Como é que eu vou sair daqui?

– O senhor tem que fazer alguma coisa.

– Fazer o quê? Não posso nem ir na esquina comer um cheese-salada.

– Carne e queijo é complicado, mas o tomate é fácil arrumar. Basta o senhor por a cara na janela.

– Tá entrando água no meu governo.

– Mais uma tubulação da Cedae que estourou.

– Já devolvi o estádio Célio de Barros, o parque aquático Julio Delamare, tô revendo a privatização do Maraca… O que mais eles querem?

– Oferece aqueles guardanapos que o senhor e seus amigos usaram na cabeça em Paris…

– Não entendo o que aconteceu. A maioria ali votou em mim. Aliás, quase todo mundo votou em mim!

– Pois é. Agora tão querendo desvotar.

– É muita tensão! Preciso dar uma volta pra espairecer. Chama um helicóptero.

– Não tem nenhum disponível.

– Como não tem? Eram sete, só devolvi três. Cadê os outros quatro?

– A babá pegou um pra levar o Júnior na pracinha. O cachorro Juquinha foi ao veterinário e ele só aceita se consultar naquele de Angra. E outro está sem combustível.

– Sim, mas ainda falta um.

– Tá aqui em cima, olha lá ele.

– Como assim? Meu helicóptero tá me filmando!

– O piloto é da Mídia Ninja. O senhor tá ao vivo agora na web.

– Que maré, meu deus…E o Pezão, coitado, desse jeito não vai ter a menor chance na eleição do ano que vem.

– Tem sim. Mas ele tá fazendo um pedido.

– O que ele quer?

– Que o senhor declare apoio ao Garotinho.

– Me dá um capuz preto. Também vou lá embaixo quebrar tudo.

 

O PROTESTO FASHION DO LEBLON

Os protestos estão por toda parte. E o bairro do Leblon mostrou que acompanha as tendências da moda, sendo palco de uma das manifestações mais elegantes desta temporada. Nada como uma passeata de frente pro mar! Quando a multidão começou a se aglomerar numa esquina próximo à casa do governador Sérgio Cabral, Manoel Carlos desceu de seu apartamento com um bloquinho para anotar o que estava acontecendo e botar na sua próxima novela, “Esculachos de Polícia”.

Como sempre, o protesto começou pacificamente, com as pessoas gritando palavras de ordem e queimando um boneco que representava o governador. Também como sempre, um grupo de arruaceiros se infiltrou na galera e passou a tocar o terror. Os barderneiros eram facilmente identificáveis. Uma parte deles estava vestida de preto e com o rosto coberto. Outros estavam uniformizados com capacetes, escudos e fortemente armados.

Os moradores não estavam entendendo nada. Dentro de um restaurante luxuoso, um consumidor reclamou que seu prato estava muito condimentado. O chef explicou que aquilo não era o tempero e sim o spray de pimenta que invadia o salão.

Enquanto muitos manifestantes pediam o impeachment do governador que 67% deles colocaram no poder, a bandidagem aproveitava pra quebrar vitrines e fazer um ganho. Flagrado saqueando a loja da Toulon, um sujeito disse que não era ladrão e só fez aquilo porque não tinha roupa para frequentar uma manifestação num bairro tão chique.

Desesperado, o governador acionou o esquema de segurança do estado. Todos os helicópteros que ele não estava usando vararam a madrugada sobrevoando a área mais valorizada da cidade. Segundo especialistas, as aeronaves gastaram na madrugada o equivalente a mais de 150 deslocamentos Rio-Angra. Combustível suficiente para transportar o cachorro Juquinha, as babás, a prancha de surf e uma peça de roupa dos membros da família do governador de cada vez, pra não amassar na viagem.

No dia seguinte, em meio às lojas e bancos depredados, alguns investidores circulavam pelo Leblon fazendo ofertas aos proprietários dos imóveis, que desvalorizaram em uma noite mais do que as ações do grupo Eike Batista. Sentado num café, o novelista Maneco parecia preocupado. Estava com dificuldade para escalar a atriz que fará sua próxima Helena. Nenhuma das que ele convidou topou gravar cenas tomando porrada da polícia. Elas argumentam que as marcas de hematoma ficam muito feias em HD.

 

 

CHEGA DE CAÔ !

Não se fala em outra coisa, não se escreve sobre outra coisa. Nunca tantos falaram tanto sem saber o que estão dizendo. Quem afirma algo com convicção hoje é obrigado a desdizer tudo amanhã.

Temos que tomar cuidado com as certezas absolutas. É preciso entender a mensagem das ruas e ninguém sabe onde fica a tecla SAP.
Se tivesse que arriscar uma síntese para o que está rolando, diria “chega de caô!”. Estamos vivendo o resultado de uma série de paradoxos.

A coisa é tão complexa que temos que agradecer aos prefeitos por não terem baixado as tarifas de ônibus logo de cara e à truculência da
polícia nos protestos.

Sem essa ajuda, talvez não tivéssemos chegado a esse ponto em que tudo está sendo posto em xeque. Por R$ 0,20, muitos bilhões desviados estão sendo denunciados. Escândalos estão sendo desmascarados pela máscara inspirada em Guy Fawkes, um inglês do século XVII.

Fazia tempo que os estudantes não saíam às ruas. A primeira vez que participei de um movimento desse tipo foi em 1977, quando foi ressuscitado o movimento estudantil.

Queríamos reviver a Passeata dos Cem Mil de 1968. A atmosfera foi parecida, respirávamos democracia no fim da ditadura. Depois voltei às ruas pela anistia, pelas Diretas Já, pelo impeachment do Collor, entre outras vezes menos marcantes.

Participei ativamente do movimento estudantil. Embarquei nesse ambiente político universitário cheio de esperança. Mas testemunhei muita sujeira.

Os estudantes sendo iludidos por raposas velhas de partidos de esquerda que faziam uma mímica de democracia, enquanto decidiam tudo em conchavos na calada da noite.

Era do Partidão e vi bem como era isso. As lideranças se orgulhavam de conduzir a massa pra onde ela não sabia que queria ir, era o que se dizia. Lembro do caso de uma mãe procurando pelo filho na PUC do Rio. Ao encontrar um grupo de estudantes, perguntou: “Vocês conhecem o fulano? Ele é o líder de vocês…”.

Até então acreditávamos no estereótipo do bem e do mal. O bem era a esquerda, o mal, a direita. A esquerda podia fazer cagadas, manipular opiniões, até desviar verbas pela causa. “Os fins justificam os meios”, diziam as lideranças progressistas.

Conseguimos, enfim, derrubar a direita e colocar a esquerda no poder. E o que se viu? A maior sequência de escândalos e corrupção da nossa história.

Mentiras se repetindo, inimigos chegando a acordos, direita e esquerda fazendo de tudo para se perpetuarem no poder. Lula, Collor, Sarney, Dilma, Maluf, todos na mesma mesa de jantar.

Os absurdos são anteriores à era PT, mas foram se acumulando e continuam. Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos, Renan na presidência do Senado, Genoino, condenado, eleito e legislando sobre a ação do Judiciário, estádios bilionários construídos em cidades sem time na primeira divisão, estatísticas maquiando nossa realidade… Até que, por R$ 0,20, tudo vem à tona.

Ninguém sabe onde isso vai dar. Não se sabe como fazer pra mudar a situação. Este “foda-se” que sempre deram pra nós agora estamos devolvendo pra eles.

Vandalismo não é solução, nem violência policial. Qual o próximo passo? A vontade é tirar todos de todos os cargos. Mas, em algum momento, alguém terá que representar essa nova mentalidade.

O voto é nossa arma mais poderosa. Não vamos conseguir botar 170 milhões de pessoas no Palácio do Planalto. E aí vamos ter que confiar que a sinceridade é possível, que as intenções serão de fato as melhores.

Talvez não seja agora. Não sabemos como nem quando. Queremos acreditar que um dia vai ser. Por ora, resgatemos a utopia. Já é um grande passo.

(publicado na Folha de São Paulo em 22/6/2013)