NADA NADA NADA NADA…

Recebi via facebook uma foto que faz parte da minha pré-historia de nadador. Nos anos 90 o jornal O Globo queria fazer uma matéria com cariocas que tinham medo de mar. Fui um dos escolhidos. Não tive o menor constrangimento em pagar o maior micão posando sobre uma boia infantil na Praia do Diabo. Só ia à praia pra jogar conversa fora na areia. Se uma cartomante me aparecesse na época dizendo que um dia faria travessias em águas abertas, que nadaria das Cagarras à Ipanema, que natação no mar seria o meu esporte, jogaria a impostora como oferenda à Iemanjá. Não me via naquele momento nem por alguns anos a frente entrando no mar e indo nadar atrás da linha onde se encontram os surfistas.

Mas a vida dá voltas. Outro dia mesmo, dei a volta numa ilha em Angra dos Reis, nadando. Era uma ilha pequena, a Caieiras. O percurso tinha uns 3 quilômetros aproximadamente e o passeio, junto com um casal amigo, foi bem bacana. Saímos do deck da casa onde estávamos hospedados e contornamos o litoral da ilha nas águas calmas e quase mornas da Baía da Ribeira.

“Qual a graça de nadar, nadar e chegar no mesmo lugar?”- perguntaria alguém pouco familiarizado com o esporte. Nadar 3 quilômetros e não precisar pegar um táxi de volta é uma das vantagens.

Natação no mar pode ser um esporte extremamente competitivo, mas também pode ser um hobby. Quando praticado relaxadamente, é quase uma ioga. Não tenho pretensão de bater recordes, quero apenas conseguir nadar melhor que ontem. Tento prestar atenção no estilo e lembrar de bater pernas, o que nem sempre rola.

Num trajeto longo, procuro me concentrar, alongar as braçadas, deslizar na água. Noto porém como é fácil se desligar. Começo a pensar nos problemas, no trabalho, nas contas pra pagar e os movimentos logo se descoordenam. Braçadas curtas, pernas se arrastando adormecidas, o ritmo cada vez mais lento. Hora de se tocar no que estou fazendo e retomar a cadência. Minha dúvida é quanto tempo dura cada ciclo. Não sei se nado corretamente por cinco minutos ou apenas dez, quinze segundos. É como o sonho, que nunca sabemos quanto tempo de fato durou.

Em torno da ilha, nadamos de um lado a favor  da correnteza, de outro, contra. Pude ver a mudanças das paisagens, as paias pouco acessíveis por terra, as casas bacanas debruçadas no mar enquanto que, no litoral a mata atlântica descia em direção ao mar, trazendo rios que deixavam a água do mar menos salgada naquele ponto.

Jamais teria essas sensações se ainda estivesse agarrado à boia de dragão lá de cima…

*foto – Paula Johas

**no áudio, Evandro Mesquita relembra o lado B do compacto de VOCÊ NÃO SOUBE ME AMAR, dos tempos dos LP’s.

ADORO NORiNHA, digo, NORoNHA!

Mar agitado, cheio de arraias e tubarões. Esse é o cenário de Fernando de Noronha no verão. Tem certeza de que é um bom lugar pra se levar a família?

Imaginava aquele paraíso de águas calmas e transparentes cheias de peixinhos coloridos. Realmente as águas são transparentes e cheias de peixinhos. Mas de calmas não têm nada. De dezembro a março, ondas enormes se formam lá longe e estouram  bem na cabeça do incauto banhista. Com tudo isso, ninguém se arrepende. Nem o incauto banhista.

Que peitinho!

Que peitinho!

Não é difícil chegar a Noronha. Um voo até Recife ou Natal e outro até a ilha. O problema é pagar a fatura do cartão. Apesar de ficar a 500 quilômetros da capital de Pernambuco, a soma dos voos equivale a uma viagem internacional. É quase um Caribe, com a vantagem de ninguém ficar tocando xilofone nos teus ouvidos e de todo mundo falar português fluentemente.

A ilha tem um pedágio obrigatório – a taxa de proteção ambiental, dá direito a permanecer por 10 dias. O número de visitantes é limitado, portanto, o entra-e-sai é controlado. Mas só no porto e no aeroporto. Nas praias desertas e nas pousadas, o entra-e-sai tá liberado, mas recomenda-se camisinha. A taxa, porém, não garante acesso a qualquer lugar. Para passear no Parque Nacional e frequentar certas praias, paga-se o ingresso. Em algumas outras, como a praia do Atalaia, o processo é mais complexo. Apenas 100 privilegiados por dia podem se banhar naquelas piscinas naturais, mesmo assim acompanhados por monitor, durante a maré baixa e por três horas, no máximo. É preciso fazer reserva, como num restaurante de luxo. Com tantos pré-requisitos acabei pulando esta.

Aliás, basta dizer que não foi a tal praia que logo aparece alguém pra falar: “O quê? Não foi à praia do Atalaia? Então você não conheceu Noronha…”. Como assim? Fui a várias outras, passeei pelo parque nacional, mergulhei, comi camarão a dar com pau, furei o pé numas cracas pra um sujeito me dizer que não vi nada? Quem ele acha que eu sou, o César, de Amor à Vida?

O transporte oficial da ilha é o buggy. É a melhor maneira de percorrer as estradas esburacadas. O uso do cinto de segurança é obrigatório para o motorista e o carona ao seu lado. O curioso é que você pode transportar mais três pessoas atrás sentadas na carroceria e se segurando no santo antônio. Por isso, antes de embarcar escolha as pessoas mais queridas da família pra viajar em segurança. A sogra, o cunhado encostado e o filho malcriado devem ir atrás. Se der azar, acabarão chegando vivas ao destino.

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Essa praia não se depila, não?

Noronha se divide em mar de dentro, voltado para o continente e mar de fora, com vista para a África. Normalmente quando um está calmo, o outro está agitado. O mar de dentro é onde estão a maioria das praias. Em geral, são águas mais tranquilas fora do verão. Ali está, por exemplo, a Baía dos Golfinhos, onde ninguém pode mergulhar. Do alto das falésias podemos ver o cardume (será esse o coletivo?) de golfinhos nadando, brincando, namorando e rindo da cara dos turistas. No mar de dentro também fica a praia do Sancho, considerada uma das mais belas do mundo. As praias de fora, como a do Leão, são mais tranquilas de dezembro a março. Mas este ano o Leão não tava tão manso assim. Não tive coragem de encarar Leão nem em Noronha nem na África.

Mergulhar naquele mar é um sonho pra quem gosta de vida submarina. A visibilidade é absurda, pra mais de vinte metros. A temperatura da água é perfeita, ali água e ar se confundem. Você só tem certeza de que está no oceano por causa do silêncio, das tartarugas que passam, das moreias que se escondem e quando você lembra que não sabe flutuar. Mas a confusão é justa, principalmente se, quando seco, você encher a cara de caipirinhas e cervejas e ficar na maior água. A sensação é de paz total, desde que não tenha esquecido nenhum dos zilhões de equipamentos – nadadeira, máscara, cilindro, regulador, respirador, lastro… e desde que fique ligado pra não se distrair com os peixinhos coloridos e se desgarrar do resto dos mergulhadores. Aí a paranoia bate forte e o passeio fica bem emocionante.

Você não precisa de nada disso se quiser ver vida debaixo d’água, basta um bom snorkel. Peixes, tartarugas, arraias, caranguejos passam pertinho de você, mesmo nas partes mais rasas do mar. Chegamos a ver tubarão pegando jacaré no Sancho! Não eram presa e predador, e sim um bichano furando onda. No Sueste, antes de molhar os pés foi possível avistar um tubarão lixa brincando na beira. Estava tão tranquilo  que quase o convidamos pra cavar um túnel na areia com a gente. Os bichinhos do arquipélago são amiguinhos, nada a ver com os tubarões esquisitões que vão pra Recife comer surfistas.

    praia do sancho: pra muitos, a mais bonita do mundo. alguém é macho de discordar?

praia do sancho: pra muitos, a mais bonita do mundo. alguém é macho de discordar?

Enfim, férias adoráveis. Norinha, quer dizer, Noronha tá muito gostosa. Por mais que uns malas sem alça insistam em dizer que Noronha acabou. Bom mesmo era quando eles iam lá e não tinha pousada, restaurante, buggy ou estrada. Em compensação, podia topar com um pentelho desses puxando papo. Agora tá bem melhor.

EL HUMORISTA DE ÁGUAS ABIERTAS!

Circulando por Cancun, vemos centenas de hotéis fincados na areia fina, debruçados sobre o mais azul dos mares azuis. A temperatura da água é tão agradável que há quem diga que lembra o útero materno. Não tenho uma memória tão boa assim, mas posso garantir que é incrível. A maioria dos hóspedes, porém, prefere ficar nas piscinas lotadas, deitados sobre colchões de plástico enquanto um adolescente obeso dá uma bomba que provoca um tsunami na água clorada. Fazer o quê? Mau gosto também é gosto.

 Alguns amigos e eu escolhemos viajar para esta cidade mexicana por um motivo diferente. Viemos participar de uma prova de natação de águas abertas. “Por La Libre Cancun” é uma festa do esporte aquático mais simples e democrático do mundo. Entrar em uma competição internacional já tem seu charme, mesmo que as chances de ganhar sejam nulas. Não importa, a gente sempre sai ganhando.

Todos que vieram já estiveram em travessias no Brasil, alguns até no exterior, meu caso, por exemplo. Portanto, ninguém precisaria de boia de braço pra se lançar no mar do Caribe. Fazemos parte de um grupo de amadores que curtem nadar no mar e temos o privilegio de ter o olímpico Luiz Lima no comando da equipe.

Chegamos animados ao México. Mas tivemos que segurar nossa onda. Não dava para cair de boca nas tequilas e piñas coladas pra depois marear e estragar a límpida e bela paisagem caribenha. No mesmo dia fizemos um treino de reconhecimento do terreno. Sabe aquelas fotos de um mar plácido e liso que vemos nas revistas? Pois não foi nada disso que encontramos. O mar estava revoltado e estava disposto a zoar com os brazucas. Ficou claro que teríamos que ralar pra completar o percurso e tirar onda ao chegar no Rio. Ninguém amarelou por causa disso.

A noite que antecede a prova é de apreensão e ansiedade. Afinal, foram dois aviões e uma grana de hotel, comida e presentes pros filhos. Nada podia dar errado. Conferi o despertador de meia em meia hora, pensei até em dormir de touca e óculos para não me atrasar.

O evento consistia em duas provas distintas. Na principal o percurso era de 10 quilômetros, saindo de Cancun até Isla Mujeres. A outra, a que tive cujones de encarar, era de 3 km. Nesta partíamos de um barco que nos levava até o meio do mar e dali, qual espermatozóides em busca do óvulo, nadávamos para alcançar a meta.

Parte da equipe brasileira em Cancun: LL Gladiadores.

No momento que antecede a largada, as interrogações saltavam na cabeça. Onde deixar meus pertences? Eles chegarão do outro lado? E se o barco com meus documentos afundar ou for desviado por piratas do Caribe? Será que o barco para ou terei que mergulhar dele navegando? As dúvidas não param de lotar a caixa postal do meu cérebro.

Tento visualizar o percurso. As boias de sinalização são mínimas, dispersas, pouco visíveis. Entre os nadadores, ninguém sabia ao certo em que ponto da ilha deveríamos chegar. Segundo as instruções, na verdade chiados e ruídos que saíam de uma caixa acústica, deveríamos mirar a construção mais alta da ilha até atingir um barco, dali seguiríamos em direção norte. Aí então veríamos o pórtico de chegada. Então tá.

Ao cair na água, a sensação é ótima. A temperatura é ideal, mais parecia uma piscina aquecida. Estávamos em alto mar e a visibilidade do fundo era total. Estávamos sobre um grande coral. O mar agitado, porém, tornava a empreitada um tanto complicada. Até porque não se viam as boias nem o navio. O prédio de referência parecia tão alto quanto o Nelson Ned amarrando o sapato.

Noto que a paradisíaca água transparente era um fator de distração. Ainda bem que minha mulher me proibiu de levar a câmera fotográfica, poderia estar por lá até agora. À medida que a prova avança vai batendo aquela solidão. Cadê aquele pessoal que estava no barco comigo? Desistiu ou já chegou? Ali perto um peixinho comprido. Não sei se é um peixinho que está perto ou um tubarão que vem chegando? Pelo sim, pelo não, melhor acelerar. Sigo nadando na esperança de encontrar um posto de informação ao turista.

Barco à vista! Segundo os organizadores ali perto está situado o MUSA, Museu Subaquático. Para atrair os turistas, um conjunto de esculturas foi plantado naquele ponto do mar. Não vejo nada ali e acho que não é o caso de ficar procurando.

Acelero o ritmo. Não quero passar o vexame de ser ultrapassado pelos caras que partiram na mesma hora que eu e estão nadando os 10 km! No fundo do mar, os corais dão lugar à uma areia branca. Normalmente numa travessia, sabemos que estamos alcançando o destino quando vemos o fundo do oceano. Mas aqui ele é visível o tempo todo. Sigo dando braçadas até que vejo uma boia pela primeira vez. Me deu vontade de parar e rabiscar meu nome. Mas minha mulher também não me deixou levar caneta.

Os óculos embaçam, tenho que parar pra limpá-los. Péssima ideia, a água ultra salgada quase me cega. Vou adiante assim mesmo, torcendo pra não errar o caminho e rumar para a África.

De repente, surpresa! Vejo o pórtico de chegada. Estou vivo…ou quase. Confiro o tempo: 1 hora e 3 minutos. Nada mal pra quem até os trinta anos não atravessaria uma poça na praça da Bandeira.

Logo depois surge o Luiz Lima, que vence os 10 km em apenas 2 horas e 8 minutos. Faço as contas: o cara nadou aquilo tudo mantendo uma média de 1 minuto e 17 segundos por 100 metros! Noto que, se conseguisse manter esse ritmo, teria completado o percurso em apenas 38 minutos. Por outro lado, teria aproveitado muito menos esse marzão.

Quando se nada em dólar, o melhor é ir devagar e curtir o momento.

O TUBARÃO HUMANO

Esse cara aí do meio é o nadador australiano Trent Grimsey, que conheci no posto 6, através do Luiz Lima. Trent veio disputar – e ganhar – o desafio Rei do Mar, uma prova que consiste em 5 voltas  de 850 metros no mar e 50 metros na areia. Veio defender o tridente que havia faturado no ano passado.

Mas não é só apenas isso. Sua camisa tem impresso 6:55. Não é a hora que ele acorda todo dia para nadar. É seu tempo na travessia do Canal da Mancha. O sujeito nadou 34 quilômetros em impressionantes seis horas e cinquenta e cinco minutos!

Fiquei atônito com os números. O cara manteve uma velocidade média de 4,92 km/h durante quase sete horas. Tenho dúvidas se conseguiria acompanhá-lo num jet ski. Tentei fazer um paralelo com meus números. Pelo resultado da última etapa deste ano do Rei e Rainha do Mar – categoria prego – fiz 3 quilômetros em 1 hora, meu recorde! Ou seja, mantive a média de 3 km/h. O que significariam 11horas e 18 minutos de natação, quase o dobro do tempo do Trent. Só que tem um detalhe: ele fez toda a prova de uma só vez, claro. Eu só manteria minha alta performance se nadasse três quilômetros por dia.

Portanto, precisaria de 11 dias e mais um pouquinho pra sair da Inglaterra e chegar à França. É… no meu caso, melhor economizar uma graninha e pagar uma passagem de avião.. E, olha, considerando o deslocamento, praia-aeroporto-praia mais o tempo de voo, acho que Trent Grimsey chegaria na frente…

O MAR da BARRA é BARRA!

 Sempre achei perigoso nadar na Barra. Quando pequeno, até a areia era uma ameaça. O  carro do meu pai invariavelmente atolava na areia fininha quando estacionávamos na avenida Sernambetiba. Ficava apreensivo – não tinha certeza se conseguiríamos desenterrar as quatro rodas, e não dava para voltar a pé pra Vila da Penha.

Toda vez que olhava as ilhas lá fora, pra mim eram como territórios avançados da costa africana. Nunca pensei em conhecê-las de perto, só em caso de um naufrágio ou acidente aéreo. E não é que acabei indo lá por livre e espontânea vontade?

Era um domingo ensolarado, o mar estava tranquilo,  a  temperatura da água agradável, condições perfeitas para encarar os dois quilômetros que separam as Tijuquinhas da costa brasileira. Talvez a África não fosse tão longe assim…

O grande barato da natação em águas abertas é que você se torna seu próprio meio de transporte. A corrida também tem essa característica, a diferença é que quando se tem um oceano pela frente, só correndo sobre as águas, coisa que até hoje apenas um cara conseguiu – mesmo assim, há controvérsias.

A organização da prova foi um tanto caótica. Ninguém sabia direito qual o percurso, ainda por cima tínhamos que passar por um cânion que não víamos da praia, era preciso se aproximar das ilhas para descobrir que não são duas e sim várias! Dois mil metros não é uma distância assustadora para quem está habituado a treinar no mar. Porém, uma coisa é nadar paralelo à costa, outra é se enfiar mar afora, qual um descobridor ibérico, sem caravela. Você tem certeza disso quando vê os barcos passarem e, pelo estado de conservação de alguns deles, dá pra imaginar um marinheiro com o leme numa das mãos e uma garrafa de pinga na outra.

Esses devaneios me distraíram e quando já não esperava, cheguei ao tão falado cânion, entre a ilha Alfavaca e as Tijucas. Fiquei aliviado. Até lembrar que tinha que voltar. Contornei a pequena ilha e fiquei de frente para a costa. E agora, pra onde nadar? O tempo estava mudando, uma vento forte soprava, nuvens esconderam o sol, o mar agora estava mexido. O edifício que tinha marcado como referência parecia um tatuí enterrado na areia. Procurei por um apoio, algum salva-vidas e nada. Eles tinham motivo pra não ficar por ali, era muito perigoso!

Nadava sem saber se ia parar no Recreio dos Bandeirantes ou na praia de Ipanema. Não vi mais nenhum nadador, tinha a impressão de que todos os outros resolveram ia ficar nas ilhas.

Teoricamente a travessia, ida e volta, tinha uns quatro mil metros, na prática, quase 5 quilômetros! Estava a ponto de desistir e deixar a vida me levar. Até que lembrei que não podia faltar às gravações do Casseta nem morto! Foi o que me deu forças pra beber mais água e enfim ser empurrado pelas ondas até a areia.

Ufa! Missão comprida (*)!

(*) Alô, revisor, é comprida mesmo! Vai lá conferir!