NÃO GANHAMOS NADA, MAS NOS DIVERTIMOS

Nem sempre um jogo de futebol é só um jogo de futebol. Neste sábado, Botafogo 0 x 1 Fluminense foi muito mais. Em termos de campeonato, tinha sua importância: foi o primeiro jogo das semifinais. O Botafogo, ao vencer a Taça Guanabara, conquistou o direito a dois empates para chegar à vaga nas finais. Estranho ganhar um turno e não estar na final. Por outro lado, também é estranho um campeonato que não é de turno único, mas não tem segundo turno. A regra é clara, Arnaldo? Sei lá, acho meio confusa. Mas, não é sobre isso que quero falar.

Durante a semana, uma campanha ganhou força. Maitê afirmou no programa ExtraOrdinários que ficaria nua, caso o Botafogo voltasse à série A no Brasileiro. A frase virou notícia em tudo que é canto. A torcida alvinegra ficou em polvorosas. Maitê se surpreendeu com a repercussão da brincadeira. E muita gente achou que a promessa tinha a ver com o campeonato estadual. Não tinha, mesmo assim, resolvemos esquentar a rodada.

Reunimos amigos que costumam ir juntos ao Maraca e convidamos Maitê pra ir com a gente. Nossa van ficou pequena para tanta gente que queria a companhia da musa. Acho que teve quem pensasse que ela fosse antecipar a promessa e ficaria pelada dentro da nossa van, a caminho do Maraca. O blogueiro Zé Fogareiro foi um dos agraciados com uma vaga junto à Maitê.

Brincamos, cantamos, bebemos, nos divertimos, como , aliás, deve ser o programa “uma tarde no Maraca”. Estávamos confiantes no Bota, apesar de recohecermos as limitações. A alegria era maior por conta de juntarmos os amigos que têm algo em comum – torcer pelo Fogão – e termos Maitê entre nós.

Ao chegarmos ao templo do futebol, todos se renderam ao charme da nossa musa. Os tricolores, que não tinham ninguém à altura para contrabalançar, correram para tirar fotos com ela. Tentamos blindá-la, dizendo que era exclusiva dos botafoguenses, mas não teve jeito. Todo mundo tirou uma selfie com a atriz – vestida!

Em campo, nossa euforia não foi correspondida. Não jogamos mal, mas um driblinho irresponsável do Jobson, um cochilo da defesa e o Flu saiu na frente. No segundo tempo, um pênalti bisonho do Gilberto, que lembrou o Giba do vôlei, e a vantagem foi ampliada. Na pressão, William Arão diminuiu pra nós com um belo gol. Mas ficou nisso. Perdemos o jogo e a vantagem. Agora, semana que vem, teremos que correr muito atrás dessa vaga na final.

Nessas condições, não há como voltar pra casa animado. Ainda temos chances. Pelo menos, o time lutou, e a guerra ainda não está perdida. Por outro lado, foi uma tarde divertida. Perdemos o jogo, mas não perdemos o bom humor. É sempre bom notar que, mesmo quando seu time não colabora, juntar amigos pra ver um jogo no Maraca é um programaço.

ANTES…

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DEPOIS…

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A COPA DAS COÇAS

Demoramos pra entrar no clima. Mas quando os gringos chegaram, a gente viu que ia ter Copa. Pintamos as ruas, fizemos festa, nos confraternizamos com os turistas…só esquecemos de jogar bola. Veja os momentos inesquecíveis dessa Copa.

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A Holanda não foi à final mas tirou onda. Contrários a esquemas penitenciários, eles jogaram futevôlei e frequentaram a noite carioca. Golearam a Espanha na chegada e a gente na saída . Ainda por cima, Van Peixe fez o gol mais bonito da Copa. O craque treinou o belo mergulho pegando jacaré na praia de Ipanema.

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Se você é português mas não é azeite, pouco adianta ser o melhor do mundo. CR7 sabe disso. Trocou de penteado três vezes mas fez apenas um golzinho. Só ganhou quando não adiantava mais nada. O atacante se recusou a voltar na mesma caravela que seus companheiros. Cristiano Ronaldo assinou contrato com o GNT e vai ser a próxima apresentadora do Super Bonita, no GNT.

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Uma das cenas mais bizarras aconteceu durante o jogo de Gana contra Portugal. O zagueiro Ayew foi puxado e mostrou ao mundo a pujança da sua ferramenta. Mais tarde, a imagem de uma supercâmera mostrou que não era bem isso. Aconselhado por um deputado brasileiro, o jogador entrou em campo carregando seu dinheiro na cueca.

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O mais perigoso atacante da Copa foi, sem dúvida, o uruguaio Luis Suárez. Raivoso, avançou na área adversária várias vezes e no ombro do italiano como se fosse uma pizza. Tomou o maior gancho da história das Copas e passará o resto de sua carreira preso num canil de segurança máxima. A Polícia Militar já negocia seu passe e vai usá-lo como centro avante no combate à criminalidade.

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A maior passeata ocorreu em frente ao hotel da Fifa. Não foi promovida por sem tetos, metroviários ou black blocs. O sindicato dos Apostadores de Bolão reuniu milhares de manifestantes para protestar contra a entidade. O clima era de revolta. Por causa das diversas zebras da Copa, ninguém conseguiu acertar os palpites. Os prêmos das apostas ficará acumulado para o  Mundial da Rússia.

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Não sei se teremos algum legado, mas temos o delegado da Copa. Foi o que desbaratou a quadrilha internacional de cambistas. Um turista desavisado pagou 45 mil reais por um ingresso na final. O cambista argelino Lamine Afana justificou o preço dizendo que seu ingresso dava direito a ver o Brasil jogando no Maraca com Neymar e tudo.

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A choradeira foi a única jogada ensaiada da seleção brasileira. Choravam em bloco, na defesa e no ataque, orientados pela psicóloga. Havia treinos de choro tático pela manhã e choro físico pela tarde. Entre um e outro, os jogadores aproveitavam o tempo no salão de beleza, alisando e descolorindo os cabelos.

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O Brasil foi invadido por turistas do mundo inteiro. Europeus, asiáticos, africanos e sul americanos. Todos muito bem vindos, se divertiram, interagiram numa boa e movimentaram a economia. Os argentinos foram um caso à parte. No Rio, ocuparam a praia de Copacabana, se alimentaram de alfajores e queriam pagar as cervejas com artesanato de durepoxi e macramê. A prefeitura liberou pra eles o Sambódromo, onde fizeram o maior carnaval. Até os alemães acabarem com a festa.

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Inesquecível. Batemos todos os recordes negativos. Entramos para Guiness Book como o país sede que pagou o maior mico em Copas do Mundo. Segundo a comissão técnica, formada por Felipão, Parreira, Murtosa e dona Lúcia, tudo deu certo, tirando o resultado. A conclusão é que não precisamos só de um técnico estrangeiro. Temos que importar com urgência desculpas melhores pra serem usadas nas coletivas. E contratar uma empreiteira pra demolir a CBF.

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O complexo do alemão chegou ao fim. Eles agora são tetra e são os primeiros europeus a ganhar uma Copa na América. Os argentinos foram calados e vão aguardar mais 24 anos pra chegar à outra final. Enquanto isso, os alemães estão mais brasileiros do que nunca. Agora dançam como os índios pataxós, lambem a tampinha do iogurte e botam farofa até na sobremesa.

GRINGO NA PRÓPRIA CASA

Nessa Copa estou me sentindo como se fosse um turista na minha própria cidade. Ando pelas ruas, vejo americanos, suecos, italianos, argentinos, chilenos… Coisa mais rara hoje em dia no Rio é encontrar um carioca.  Outra dificuldade é ser atendido na língua nativa. O garçom de um restaurante que costumo frequentar se dirigiu a mim em inglês.

— Speak portuguese? — perguntei.

— Yes, of course!

Para viver na íntegra a experiência de ser estrangeiro, fui ao Maraca assistir a França x Equador. Peguei o metrô lotado de gringos do mundo inteiro. Tinha gente até do Acre!

A primeira coisa que notei é que todos vestiam as cores da sua terra. Enrolado em bandeiras, com a camisa da sua seleção, caracterizado por personagem típico, o torcedor assume o papel de representante do seu país. Em Copa do Mundo, cada cidadão é sede da embaixada do seu país.

Reparei também que o povo brasileiro é o que mais gosta de reclamar da organização. Os outros povos não estão nem aí, não esperavam encontrar tudo certinho e se surpreendem ao ver as coisas funcionarem. Sabe quando você vai na casa de uma pessoa humilde e ela fica se desculpando: “não repara a bagunça…” ? Assim somos nós. Melhor relaxar e curtir.

O Maracanã é minha casa. Vou ali desde garoto. Costumava penetrar pelos bastidores, entrar pelo setor de Hidráulica (portão 19, porta D, não esqueço), passar por baixo de uma roleta e chegar nas arquibancadas. Neste jogo, o estádio estava irreconhecível, vestido com roupa de domingo, todo decorado, sinalizado e com guichês de informação a cada 20 metros. Nem sempre os voluntários sabiam informar, mas estavam sempre sorrindo pra gente. O suficiente pra conquistar a paciência dos turistas.

No balcão, o vendedor tenta se comunicar com um indiano, falando em português pausadamente:

— O fo-lhe-a-do de quei-jo e pre-sun-to a-ca-bou. Quer co-xi-nha?

— What?

— Co-xi-nha! — repete. — Acho que esse cara é surdo…

As torcidas assistiam ao jogo misturadas, interagindo na maior paz. Assim como a nossa, também não tinham gritos de guerra muito criativos.

— Allez les Bleus! [alê le blê] — gritavam repetidamente os franceses. De vez em quando cantavam seu hino.

Os equatorianos eram minoria, mas contavam com o apoio dos brasileiros, cansados de serem fregueses da França.

— Si se puede! — tentavam empurrar seu time.

Comentei com um deles que esse grito de guerra era muito conformado pra quem precisava da vitória contra a invicta campeã mundial. Era quase como: “De repente dá!”

Torci por eles, mas não deu. Zero a zero. A França carimbou o passaporte pras oitavas e o Equador voltou pra Quito. Saí do estádio gritando: “Si, se fuede!”

Foi uma pelada digna de série B do Brasileirão. Mas não importa. O jogo era um mero e insignificante detalhe.

MINHA ESTREIA NO MARACA

Desde garoto olhava o gramado do Maracanã de fora, fosse da arquibancada, das cadeiras, da geral ou mesmo pela tevê, e sonhava sair da boca do túnel, entrar em campo, casa lotada, jogo decisivo, marcar um golaço e ouvir a torcida irada gritando meu nome. Finalmente aconteceu.

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A casa não tava lotada, o jogo era um amistoso, não marquei nenhum golaço, mas nada disso fez a menor diferença. A emoção de estar naquele palco, cercado de craques que vi jogar, muitos deles contra o meu Fogão, como Adílio e Athirson ou a favor, como Gonçalves, não tem preço.

O Maraca está mudado. Mas o endereço é o mesmo. Foi ali o gol de placa do Pelé, foi ali a cavadinha do Loco Abreu que nos deu o título de 2010. Qualquer um no mundo que curte futebol pagaria uma boa grana pra estar ali. E um evento da Fundação Gol de Letra me deu esse presente.

Uma situação tão inusitada que não tinha como me sentir um turista em campo. Cogitei jogar com o celular na mão, tirando fotos e postando no instagram! Ficava impressionado com a categoria dos profissas. Estava no meio de campo admirando um lançamento que partiu da zaga. Que potência de chute! Quando a bola foi se aproximando, me toquei que era pra mim. Matei assustado, a bola escapuliu do meu parco controle. Felizmente o Junior, que me apadrinhou o jogo todo, salvou a lavoura.

Mal tocava na pelota, uma chuva pesada irrigava a cancha, fui verificar o estado da chuteira e notei que a sola já tinha ficado pelo caminho. Ainda assim não perdi a pose. Joguei até o técnico Raí me substituir. Antes, porém, o lance memorável que contarei para os bisnetos. Pego a bola na intermediária, levanto a cabeça e de efeito enfio a redonda por uma brecha da zaga adversária. Mário Tilico recebe, avança e… pênalti! Bola na marca e… gooool!!! Até hoje me pergunto por que não fui escolhido pra bater. Tudo bem, entrei pra história do estádio. Ou melhor, o estádio entrou pra minha historia!

Aguardo ansioso o próximo ano, buzinando na orelha do Raí e do Leonardo pra me convocar de novo. E aí não vai ter conversa: se tiver pênalti, quem vai bater vai ser o papai aqui!

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A BUROCRACIA DE CHUTEIRAS

Empolgado com a campanha do Fogão, decidi entrar em campo. Convoquei a família e os amigos para irmos ao Maraca apoiar nosso time. Mas a tarefa não é assim tão fácil.

Inicialmente a coisa soa tranquila: basta entrar no site futebolcard.com e adquirir seu ingresso. A partir daí, você passa a enfrentar uma zaga fechada. Depois de se cadastrar no site e realizar a compra, resolvo imprimir seu ingresso. Engano meu! Tudo que posso imprimir é um comprovante de compra que, junto com minha identidade e o cartão de crédito utilizado, devo me apresentar ao guichê do estádio para receber o ingresso. Ou seja, fiz a compra online e tenho que enfrentar uma fila no local, cheio de documentos na mão. Mas tudo por amor ao clube!

Vejo , em seguida, que não posso retirar o ingresso na hora do jogo! Tenho que ir ao estádio na véspera entre 10 e 17 horas ou no dia da peleja entre 10 horas e meio dia! Incrível! Um ingresso comprado pela internet me obriga a ir ao Maracanã exclusivamente para pegar o ticket e voltar no dia seguinte ou mais tarde pra ver o jogo. E quem tem que trabalhar, como faz? Pede uma licença ao chefe para enfrentar essa via crúcis? E se o seu chefe não torcer pelo mesmo time que você, permitiria matar o batente?

Bom, tenho uma saída: pedir a um amigo desocupado para retirar o tal ingresso. Nesse caso, preciso lhe dar uma procuração (não há necessidade de autenticá-la em cartório, ufa!). Meu amigo, munido da própria identidade, deve levar a minha identidade original, meu cartão de crédito e o tal comprovante impresso em casa. Como vou com meus filhos e mulher,  multiplique a papelada: somos cinco e um cartão só dá direito a comprar no máximo 3 ingressos, portanto, dois cartões de crédito; dos menores, identidade ou certidão e carteira de estudante. Meu amigo chegará ao guichê com uma documentação equivalente a um inventário encrencado. Talvez seja o caso de contratar um segurança para acompanhá-lo!

Para descobrir tudo isso tive que ler com atenção todas as regras no site, mais complicadas que a lei do impedimento.

Conclusão: ir ao Maraca com a família não é programa para amadores. O curioso é que este imbróglio se justificaria para impedir a ação de cambistas. Mas eles agem com liberdade e simpatia, oferecendo seus serviços em frente às bilheterias. Durante o jogo, você ouve o locutor anunciar o número de “gratuidades”, que foram vendidas por um precinho camarada.

Só vejo uma explicação: o futebol é um esporte recente no país. Uma repentina paixão tomou conta dos brasileiros e as autoridades ainda não aprenderam como comercializar os bilhetes de forma decente e racional. E olha que nem falei dos preços praticados!  Mas acho que até a Copa do Mundo todos esses problemas estarão solucionados. Ou será que estou enganado?

 

TOURADA NO MARACA

Você não aguenta mais ler sobre isso, está cansado de ouvir a respeito. Não importa, vou escrever assim mesmo.

Tive o privilégio de estar entre os 73 mil presentes ao Maraca. Eu  e meu caçula Tonico, 9 anos. Foi a maior contribuição que pude dar à sua formação de brasileiro e amante do futebol. Ver o moleque gritando “O campeão voltou!” ficou marcado como um dos momentos credicard da vida – não teve preço. Segundo meu guri, “foi épico!”.  Levei um susto quando ele definiu o jogo dessa forma. “Quem te ensinou a falar assim , garoto?” – reagi surpreso, enquanto o encorajava a gritar: “Ei juiz, vai t#$%omar no c%&@u!”

Vitória irretocável. Nas previsões e apostas, o Brasil poderia ganhar por um placar apertado, num jogo duro. Ninguém imaginava que a Espanha fosse parecer um Taiti. A torcida brazuca mostrou que o Maraca é nosso e zoou com o espanhóis: “Timinho, timinho!”.

A seleção inteira apresentou um futebol irretocável. Felipão deu um baile no seu irmão gêmeo, o relojoeiro Vicente del Bosque que não conseguiu acertar o tic-tac espanhol. Julio César fez algumas pontes tão bonitas quanto a arquitetura do novo estádio. David Luiz marcou um golaço tirando aquela bola em cima da linha. Fred mostrou a diferença que faz um centroavante especialista no assunto. E Neymar calou a boca dos que dizem que ele só faz cair. Ele sabe fazer gol, dar corta-luz, sair do impedimento e namorar a Bruna Marquezine. Mesmo o Hulk não deu motivos pra críticas. E olha que eu prefiro o bundão da Valeska Popozuda!

Agora vamos aguardar o ano que vem e mostrar que quem ganha a Copa das Confederações no Maraca pode muito bem faturar o Copa do Mundo no mesmo estádio. Essa é a superstição que tá valendo!