Ela não morreu na praia!

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A Olimpíada tem personagens míticos, como os semi deuses Michael Phelps e Usain Bolt. Assistir às medalhas do americano na piscina foi realização de um sonho. Assim como testemunhar o voo do Raio na pista – e olha que, até agora, só consegui vê-lo numa eliminatória.

Nada, porém, me tocou mais que estar presente à conquista da Poliana Okimoto. Não canso de repetir. Receber uma prova olímpica no quintal de casa não tem preço. Essa foi minha sensação ao ver os melhores nadadores de águas abertas do mundo disputando medalhas no Posto 6 de Copacabana, onde minha equipe, os Gladiadores, treinam diariamente. É como se Messi, Neymar e o goleiraço Jeferson marcassem um jogo no campo da sua pelada. O campinho jamais será o mesmo.

Selfie com o bronze, discretamente roubado.

A prova teve todos os elementos de um bom espetáculo. Elenco de primeira e um roteiro hollywoodiano. Contávamos com duas fortíssimas concorrentes – Ana Marcela Cunha e Poliana. Duas nadadoras de características bem diferentes. Uma forte, que gosta de água fria e mar mexido, outra mais técnica que performa melhor em mar tranquilo.

O dia estava deslumbrante, a praia de Copa, um cartão postal. Tudo certo, mas pro Brasil se dar bem, era preciso combinar com as adversárias. E o COB esqueceu desse detalhe. As gringas chegaram dispostas a ganhar. A ponto de derrubarem o alimento da Ana Marcela, que fechou mais de sete dos dez quilômetros sem se reidratar. Isso lhe custou várias posições. Ana não foi feliz nessa Olimpíada.

Já Poliana tinha outra história. Vinha de um drama em Londres 2012. A água fria foi cruel, ela teve que desistir no meio da prova por hipotermia. Aqui foi tranquilo e favorável. O mar estava calmo, com temperatura agradável. Poliana forçou do começo ao fim, se mantendo por várias vezes na segunda posição. Na última volta, a coisa mudou. A italiana Rachelle Bruni se consolidou no segundo lugar e a francesa Aurélie Muller, que se fingia de morta no meio do pelotão, acelerou e desbancou Poliana do pódio. Ela deu tudo de si, mas foi a quarta a cruzar o pórtico de chegada.

A holandesa Sharon Van Rouwendaal foi tão rápida que nenhum brasileiro lembra dela.

Me conformei com o resultado. Era a melhor colocação dos brasileiros nos esportes aquáticos individuais nestes Jogos. Porém, uma reviravolta. Aurélie se precipitou e atrapalhou a italiana de bater na chegada. Desclassificada! Não importa. Poliana subiu ao pódio merecidamente, fruto do seu esforço. Se a francesa vacilou, Poli não teve culpa. É bronze!

Toda a imprensa falada, escrita e televisada a disputava na unha. Aquele bronze foi mais importante que o ouro. Quem levou mesmo? Nem lembro mais, parece que foi uma holandesa…

O abdômen da holandesa mereceu a medalha de ouro!

Um dia depois de Diego Hypólito contar e recontar sua história de superação, chegou a vez dela alegrar o Brasil. Suportou as porradas do MMA de águas abertas por 1 hora 56 minutos e 51 segundos e fechou os 10 quilômetros da maratona aquática. E todo mundo sabe como a praia de Copacabana é perigosa. Afinal, o lugar é cheio de piranhas. Principalmente em tempos de grandes eventos.


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Somos todos olímpicos!

Eram seis e meia da manhã. Tinha chegado do Parque Olímpico há cinco horas. Ainda assim, não tive dúvidas. Peguei minha bike e parti pro Posto 6. O treino tinha um sabor especial: íamos conhecer o Circuito Olímpico da Maratona Aquática.

Poucos mortais têm o privilégio de praticar numa Raia Olímpica sem ter índice pra passar na porta da Vila dos Atletas. Fazemos parte deste seleto grupo. A chuva apertou, o tempo esfriou. Era como se os Deuses do Olimpo nos perguntassem se estávamos dispostos a qualquer sacrifício para passar por aquela experiência. Éramos dez e ninguém desistiu.

Nadamos até a balsa de onde os atletas laragriam e até simulamos uma tosca largada. Pisar onde pisam os campeões, nadar nas mesmas águas onde as medalhas vão ser disputadas. Era muita adrenalina! No dia seguinte, a ressaca destruiu a balsa e a largada da competição teve de ser mof=dificada. Não importa. Nós usamos a balsa que eles usariam, foi o suficiente.

O mar estava mexido, o que seria bom pro Allan do Carmo e pra Ana Marcela Cunha. A temperatura da água era agradável, o que seria bom pra Poliana Okimoto.

Aprovamos tudo. O mar fez suas ressalvas. Mas não liguem. Podem vir, atletas! Vamos deixar vocês usar nosso quintal. Mas não acostumem, não. E lembrem-se: o Posto 6 é nosso!


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DE LA PEÑA X ALLAN DO CARMO: O DESAFIO DO SÉCULO

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Não tem Pan, Mundial ou Olimpíada… a competição de natação mais importante deste século já aconteceu. Pelo menos pra mim! Desafiei o Allan do Carmo, Campeão Mundial de Maratonas Aquáticas. A prova aconteceu no Posto 6 de Copacabana. O Desafio do Coco.

Claro que pra uma disputa equilibrada com um campeão mundial algumas condições tinham que ser observadas. Assistam ao vídeo e vejam tudo que aconteceu.

Além da matéria, que foi ao ar no Esporte Espetacular, aqui você tem um vídeo bônus, que a TV não mostrou.

Clique na foto pra abrir a matéria do Esporte Espetacular

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E o vídeo bonus…

unnamedAllan é ouro. E eu fui prata!

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Ao saber do Desafio do Coco, Aurélie Muller fez questão de acompanhar de perto.
Aurélie foi campeã mundial da maratona aquática no Mundial de Kazan, em julho de 2015.

limaMeu treinador, Luiz Lima, comentou a prova e me incentivou muito. Se fosse há uns 40 anos, ele estaria certamente me preparando para a olimpíada!

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O DESAFIO DO CÔCO

Allan do Carmo é o maior nadador de maratonas aquáticas do Brasil. Nosso único representante masculino na Olimpíada foi campeão mundial dos 10km em 2014. Este ano, além de se qualificar para os Jogos de 2016, foi medalha de prata por equipe, junto com Ana Marcela Cunha e Diogo Villarinho. No sábado, 22/8, venceu o evento teste. Foram 10 quilômetros em Copa, local da prova olímpica. Nadou contra outros 25 atletas e faturou. Mas ele tem um desafio maior pela frente. O Desafio do Côco. Vai disputar comigo uma pequena prova valendo um côco na próxima segunda, 24/8, também em Copa. Não vou dar moleza, não! Quero tomar o côco da vitória de qualquer maneira.

Façam suas apostas! A prova será gravada e vai passar no Esporte Espetacular, ainda não sei a data. Aqui vai o vídeo em que Allan comenta sobre nosso desafio.

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O Rei do Mar e o Bobo da Corte

No esporte, existem os que nasceram pra ser campeões e aqueles que querem apenas ter uma vida saudável. Faço parte do segundo grupo, sou dos que cuidam bem do corpo nos treinos pra poder maltratá-lo mais tarde com as coisas boas e nocivas da vida. Comecei a nadar tarde, de olho no calendário, cujas folhinhas não param de cair. Queria puxar o freio das marcas do tempo e não tinha o menor saco pra academia. Achei que um esporte poderia ser mais divertido. Acertei.

Nadar no mar é um prazer. Estar num meio natural, sujeito a correntezas, marés, temperatura da água variando de 25 a 15 graus faz com que os dias de treino nunca sejam iguais. Assim como o mar, a disposição também varia. Tem dias em que reluto pra sair da cama, me arrasto até o posto 6 e me jogo contra as ondas sem muita convicção. Com o tempo, vou me acostumando e saio renovado. Ainda bem que insisti. Descobri que esporte tem que ser praticado regularmente, com ou sem disposição. Se forçar um pouquinho, ela, a disposição, aparece, ainda que sonolenta. Depois desperta e transforma nosso humor.

Mesmo sem a pretensão de disputar uma olimpíada, participar de competições dá um gostinho especial. É o momento de comparar se melhorou sua performance em relação aos colegas e, principalmente, em relação a você mesmo. Por menos que queira, pinta aquela adrenalina, a expectativa na hora da largada, a dúvida se deve ir ao limite das suas forças ou se deve poupar energia pra chegar ao fim.

É claro que esse é um dilema dos mortais, aqueles que acabam chegando lá atrás. O sujeito que vai pra disputar lugar no pódium não tem dúvida: vai nadar com todo o gás até morrer. E torcer pra só morrer depois da faixa de chegada.

Gosto de ouvir os relatos dos caras que nadam lá na frente. Falam da pancadaria que rola sem que a gente note, dos puxões de perna, atropelamentos, socos, arranhões. Não passo por isso no pelotão “paz e amor”. Há contato, sim, mas na ampla maioria das vezes, é involuntário, quase paramos pra pedir desculpas.

E é curioso quando a tropa da elite nos ultrapassa, os retardatários. Formam ondas feito jet skis! Tento olhar por baixo d’água pra entender seus movimentos e chego a achar que estou fazendo o mesmo que eles, só que não. Consigo nadar bem por um curto tempo, depois a coisa desanda. É como estar conversando em inglês, entendendo tudo. Vem aquele devaneio: “Caraca! Tô entendendo tudo que esse gringo tá falando!” Essa distração é suficiente pra perder o fio da conversa e voltar ao obscuro analfabetismo idiomático.

O mesmo ocorre com a natação. Teoricamente, sei o que deve ser feito, bater perna constantemente, alongar as braçadas, manter o vigor. O problema é que os movimentos não são instintivos, como o do pessoal que nada desde criança. Ao contrário deles, tenho que enviar um comando para cada um dos músculos do corpo o tempo todo, tenho que pensar nos braços, pensar nas pernas, pensar no abdômen… a concentração acaba cansando mais do que o esforço físico e você se pega pensando no que vai fazer depois que sair dali.

Quando vislumbro a chegada, vejo que não tem mais risco de não completar. Acelero até o pórtico, diminuo meu tempo. Mas sempre noto que poderia ter começado a forçar um pouco antes. Quem sabe logo depois da largada?

Tenho certeza de que isso não passa pelas cabeças do Allan do Carmo e da Ana Marcela Cunha. Não é à toa que ganharam tudo este ano – são campeões brasileiros e campeões mundiais. São o Rei e a Rainha do Mar. Mas tô feliz em ser um saudável Bobo da Corte…

Gravei esse video depois de uma etapa do campeonato brasileiro de maratonas aquáticas que eles ganharam. Recentemente Allan do Carmo e Ana Marcela venceram também o Desafio Elite Rei e Rainha do Mar, no posto 6 em Copa. Os caras não sabem perder!

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O PRIMEIRO CAMPEONATO A GENTE NÃO ESQUECE

Vamos deixar o futebol de lado e tratar de outro esporte. Enquanto sofro nas arquibancadas ao ver meu time sucumbir no Brasileirão, sou compensado por uma grande alegria. E para alcançá-la não fiquei sentado, torcendo para que tudo desse certo.

Pelo contrário, tive que entrar em campo, digo, na água, e suar a camisa – quer dizer, molhar a sunga. O clube E.C.L.L. Gladiadores, fundado oficialmente em 2013, sagrou-se campeão por equipe da I Copa Brasil de Maratonas Aquáticas.

Como um cara que era um prego no mar conseguiu isso? Quem foi subornado? Este título foi obtido no esquema do Alberto Youssef? Dilma e Lula sabiam disso? O que o Paulo Roberto Costa tem a dizer a respeito? Posso garantir que foi tudo dentro das regras. Trata-se de uma conquista absolutamente republicana, podem investigar à vontade.

A Copa Brasil é composta de cinco provas de 5 quilômetros. Duas delas em água doce – São Bernardo do Campo e Brasília; outras três no mar. A última etapa foi na praia de Inema, em Salvador. Participei de três delas – Brasília, Angra dos Reis e Inema.

Não posso dizer que foi mole. Porém, garanto, foi emocionante! O último desafio foi o baiano. A prova ocorreu na Base Naval de Aratu, aquela onde, desde FHC, nossos presidentes da República gostam de passar as férias. A presidente Dilma esteve lá após as eleições. Desfilava nas areias de fio dental e ainda fez um selfie, que mandou para o Aécio com o singelo título de “Garota de Inema”. Felizmente ela não estava ali quando fui nadar. Poderia me desconcentrar com a assustadora visão e certamente não estaria aqui comemorando essa vitória.

Vamos esclarecer. Não cheguei a ganhar a prova, mas contribuí com meus pontos, por ter conseguido completar o percurso abaixo do limite previsto – 60 minutos após a chegada do primeiro colocado. Luiz Lima, comandante-chefe da nossa equipe, chegou com 01:00’51”. Marquei 01:59’10”. Para mim, um recorde mundial!

A prova constava de duas voltas de 2,5 km. Confesso que, ao terminar a primeira, e ver o pórtico de chegada, me deu um certo desespero imaginar que tinha que fazer tudo de novo antes de passar ali. Encarei. É difícil manter a concentração, se empenhar ao máximo quando se pensa nas milhares de braçadas que estão por vir. Os mestres ensinam que você deve pensar apenas na próxima “remada”, mas vai convencer o seu cérebro disso…

Tenho o privilégio de fazer parte de uma equipe forte e competitiva. Somos mais de 80 atletas que treinam assiduamente no Posto 6, onde estará a raia olímpica de maratonas aquáticas. Sob sol ou chuva, estamos lá cedinho pra encarar a água muitas vezes gelada, nem sempre limpa ou tranquila. Nosso esforço – na verdade, um grande prazer – foi premiado. Parabéns a todos. E agradeço aos meus colegas por terem me ajudado a conquistar um título nacional em 2014, ano em que o Botafogo…ah, deixa isso pra lá!

E.C.L.L. Gladiadores, posto 6 - Copa, Rio.

E.C.L.L. Gladiadores, posto 6 – Copa, Rio.

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NADA, NADA…E NADA!

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Muita gente vai a Brasília pra nadar em rios de dinheiro ou pra boiar no mar de lama, cujas ondas ora batem no Palácio do Planalto, ora no Congresso Nacional. Meu caso foi diferente. Fui nadar no Lago Paranoá.

Até agora me pergunto o que leva uma pessoa a sair do Rio de Janeiro para disputar uma maratona aquática num lago do Planalto Central. Não faz o menor sentido, até porque não se pode praticar natação em águas abertas num lago, onde águas estão fechadas… Ainda não encontrei uma resposta, principalmente pra minha mulher que finge acreditar nessa historia enquanto contrata um detetive particular pra descobrir quem é a vagabunda que eu tô pegando naquela cidade. Uma coisa é certa: não é ninguém da política, já que o evento foi num domingo e esse pessoal chega na terça e some na quinta.

Tratava-se de uma etapa da Copa Brasil de Maratonas Aquáticas. Cinco quilômetros na água doce, em que a flutuação é sempre mais penosa. Por ser competição oficial, estava proibido o uso de roupa de neoprene, que daria uma roubadinha esperta – o esforço para sustentar o corpo na linha d’água seria menor. Estar em Brasília e não poder roubar é como ir numa churrascaria rodízio e ficar só na saladinha: não tem a menor graça.

Nunca tinha enfrentado um desafio desse quilate. Muitos me perguntaram pelas condições da água. Naquele trecho do lago me pareceu razoável, ainda mais pra quem está habituado a treinar no mar de Copacabana. A cor é escura, sem garrafas ou objetos boiando. O problema era justamente esse. Como é difícil boiar na água sem sal! O esforço para se manter minimamente na superfície é muito maior. O corpo vai afundando, por mais que vcê se debata. E a impressão é que as braçadas ajudavam pouco no deslocamento. Você nada, nada…e nada!

Uma prova longa esgota o atleta fisica e psicologicamente. Quer dizer, um atleta, não sei como fica, mas um reles mortal, meu caso, fica acabado! No início procurei me poupar, já que, vencidos os primeiros 200 metros, faltavam ainda 4800 pela frente! Só não desanimei porque não teria como explicar o mico pros meus filhos. Teria que inventar uma cãimbra ou contusão, mas mentir em Brasília é não é para amadores. Melhor ir em frente.

Estava completando meus 2500 metros, quando vi um nadador deixando a água. Pensei, ih, alguém passou mal! Nada disso, era o Luiz Lima fechando seus 5000 metros. O cara passou por mim fazendo ondinha feito um jet ski, já mirando o pórtico de chegada. Eu era um retardatário, me sentia o próprio Rubinho Barrichello.

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Apesar do sufoco, estava orgulhoso por ter completado a prova. O tempo de 2:02’35” seria recorde mundial da maratona…terrestre!

Dias depois me arrastava num engarrafamento carioca. Levei uma hora e cinco minutos pra ir da minha casa até a entrada do túnel Rebouças, exatos cinco quilômetros. Luiz Lima, vencedor da etapa do Lago Paranoá, percorreu a mesma distância em 1:04’38”. Teria chegado antes e sem gastar uma gota de gasolina!

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