PRAÇA MAUÁ: VIAGEM NO TEMPO

Frequentei muito a praça Mauá dos onze aos dezessete anos, quando estudava ali ao lado, no Colégio de São Bento. O lugar era sujo, mal cuidado, o paraíso dos marinheiros que chegavam à cidade. Estava a poucos passos dos inferninhos Playboy, Chaparral, entre outros, onde as garotas de programa os recebiam de pernas abertas.

Também estava curioso pra ver como ficou aquela região sem o viaduto da Perimetral atrapalhando a visão.

Desembarcava ali de um Caxias-Pça Mauá que pegava na Avenida Brasil. Um garoto bobo, vindo do subúrbio, de uniforme de colégio, caindo no antro da malandragem. A violência talvez fosse uma questão de fuso-horário. A praça fervia à noite, e eu passava ali de manhã cedinho, indo pro colégio. Esticava a vista pra dentro das boates tentando flagrar alguma cena da noite anterior, o máximo que via era um bebum desacordado na sarjeta.

Naquele tempo também não era possível admirar o primeiro arranha-céu da cidade. O mítico edifício A Noite, onde funcionou o jornal “A Noite”, que nunca li, depois, a Rádio Nacional, que nunca ouvi. Não tinha como perceber, na minha época, o prédio que foi o mais alto da América Latina até 1930. Estava plantado no meio de uma caótica vizinhança, lotada de pontos finais de ônibus, táxis, mendigos, prostitutas e ambulantes e uma interminável obra: a construção do elevado da Perimetral.

Passei meus recreios debruçado sobre a praça Mauá. Dali vi pela primeira vez um navio. E outro e outro e outro…cansei de vê-los atracados. A construção do elevado durou muitos anos. Não acreditava que um dia ficasse pronta. Assim como não acreditava que um dia fossem derrubá-lo. Um alívio para a cidade. O trânsito, se complicar, depois a gente vê como resolve.

A nova praça Mauá olha com liberdade para a Baía de Guanabara, valorizada por prédios modernos e antigos, como o Museu de Arte do Rio – MAR, o Museu do Futuro e A Noite. Nem posso dizer que a praça foi devolvida à população, já que desse jeito, nunca ninguém a tinha visto.

Aproveitei que estava na área pra rever o mosteiro de São Bento. Desde que me formei, voltei ali poucas vezes. Subi a ladeira lembrando meu primeiro contato. Fui levado por meus pais para fazer um exame de admissão. Naquele dia entramos no elevador de um edifício da rua Dom Gerardo. Saímos no quarto andar e não entendi nada quando vi árvores centenárias e um mosteiro gigantesco. Fiquei intrigado. Que edifício era aquele onde cabiam árvores e uma igreja no quarto andar?

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Entrei na igreja barroca e me dei conta de que fui criado numa redoma de ouro. Não tem como não se impressionar. O sujeito que passa sete anos rezando naquela luxuosa mansão divina e não fica religioso, pode desistir. Foi o meu caso.

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@whillyan

O ambiente seleto e elevado – não estou me referindo à Perimetral, do colégio e do mosteiro era cercado pela decadência da Praça Mauá e seus arredores. Prédios quase abandonados, com a pintura descascada e janelas quebradas exerciam um fascínio sobre os alunos. De alguns pontos conseguíamos dar uma espiadinha nos apertados cômodos, onde as moças não tinham pudor em se trocar. Talvez até tivessem a intenção de provocar a cabeça daqueles garotos que lotavam a biblioteca, sempre buscando as mesas mais próximas às janelas, com a desculpa de que ali era mais iluminado. Nem notavam que o livro de poesias do Drummond estava de cabeça pra baixo.

Se você está preocupado com o que as crianças estão vendo, relaxa. Aqueles prédios foram reformados, as moças tiveram que se mudar. E o Centro Empresarial RB1 tirou toda a visão das possíveis cabeças de porco que ainda resistem.

A praça Mauá não é mais a mesma.