LOJA DE DISCOS

A notícia da morte de B.B.King me levou a procurar na prateleira de casa um dos seus cd’s. Queria especificamente “Live at the County Jail”. Não sei se é o melhor, mas é dos que mais gosto. Não ouvia há tempos. Revirei tudo e não achei. Lembrei então que não tinha o cd. Tinha comprado o LP quando era bem novo. Ouvi até quase furar o vinil. Avisei ao meu filho que ia sair pra comprar o cd.

– Pra quê, se você pode baixar de graça? – perguntou ele, espantado.

Me toquei da mudança de hábitos. A vontade de ter o álbum do B.B.King comprovou nossa distância. Há anos meu filho não paga pra ouvir uma música. Ou põe numa rádio online ou baixa de um site. É bastante prático, sem dúvida. Ouço algo que me agrada, identifico no Shazam e procuro no itube, no dubmash ou em algum site que ainda não foi proibido. A música fica salva numa pasta. Acabo esquecendo seu nome e nunca mais a encontro. Eventualmente, quando ponho a biblioteca no random, ela reaparece. E, como veio, volta a submergir entre milhares de outras.

Lembrei de como eram as coisas, décadas atrás. Quando ia ao centro da cidade, entrava numa loja de discos sem saber ao certo o que estava procurando. Flanava pelos corredores, sem ter em vista nada especificamente. Apreciava as capas, até que era seduzido por uma delas. O artista gráfico podia ajudar muito o músico ou a banda a vender seu trabalho. Também podia derrubar. Afinal, uma capa mal feita levava o consumidor a rejeitar um possível bom disco.

Em casa, botava o LP na vitrola, como um ritual. Não tinha grana pra comprar vários ao mesmo tempo. Saboreava cada faixa como a última colherada de uma mousse de chocolate. A gente era obrigado a ouvir todo o disco e na ordem pensada pelo artista. Há os que veem isso como uma imposição autoritária, mas também pode ser a chance de conhecer a proposta do artista. Se não gostasse de determinada música, tinha que levantar a agulha e pousá-la na próxima. Mais fácil deixar rolar.

Hoje o julgamento é automático. Ao comprar música num loja eletrônica, temos a opção de só levar as que gostar. Para isso, cada faixa tem alguns segundos pra nos convencer. Senão, já era, nunca mais.

Quantas músicas no passado foram resgatadas do limbo, depois de terem sido odiadas pela primeira vez? Me lembro disso ter acontecido com um disco inteiro: Imagine, de John Lennon. Tinha onze anos quando entrei numa loja pra comprar um LP com a grana que havia economizado deixando de comer os lanches do recreio por quase um mês. Tinha ouvido falar naquele cara que era dos Beatles: É esse mesmo que vou levar, moço. Achei a capa meio estranha, aquela fumaceira mal dava pra ver o sujeito. Ao botar na vitrola, uma decepção, um sonzinho esquisito. Como não tinha dinheiro pra comprar outro, insisti. Aos poucos, fui entrando na onda. Tempos mais tarde, aquele era um dos meus preferidos. Se fosse hoje, teria deletado tudo.

Bom, agora chega. Vou ouvir meu cd do B.B.King. Fui!

BBKING

 

 

 

SAMBA E POESIA NA VEIA

cavaco

Outro dia, batendo papo com amigos num bar, perguntei: conhecem algum poeta brasileiro? O pessoal logo lembrou das aulas de português e citou vários. Drummond, João Cabral de Melo Neto, Mário Quintana, Oswald de Andrade…

– E poeta negro? – perguntei. Silêncio na mesa. No segundo chope, alguém lembrou:- Mário de Andrade!

Em seguida, um outro falou: “Vem cá, o Machado de Assis era negro, né?” Verdade. Machado era cronista, romancista, poeta…e negro. As fotos em preto e branco, o cabelo liso, o terno alinhado com que sempre o vemos confunde nossa imagem do escritor imortal.

Achei curioso como as pessoas foram longe pra lembrar de nossos poetas.

Foi quando eu falei: “E esse aí?” O pessoal não entendeu nada. Insisti: “Esse que nós tamos ouvindo agora?” Um desavisado se espantou: “Ué, tem alguém recitando poesia?”

Respondi: Não. Tem alguém cantando poesia.

O rádio tocava “As Rosas Não Falam”, do Cartola, o poeta imortal da Estação Primeira.

Um carinha ficou bolado: “Pô, peraí! Tu falou poeta, agora tá valendo compositor?”

Era justamente onde eu queria chegar. Por que essa distância entre poesia falada e a cantada?

Nossos maiores poetas não estão na Academia tomando chá. Estão nos bares tomando cerveja, às vezes cachaça. Estão chegando tarde em casa, pedindo perdão pra sua amada. Estão lamentando um amor perdido, estão chorando por um amor traído. Estão reunidos num estúdio da MPB FM fazendo o programa Música na Veia!

Chega a ser engraçado ver alguém dizer que detesta poesia, pra logo depois cantarolar uma música. O negro trouxe da África a tradição da palavra falada e cantada para aliviar as dores, para exaltar os amores, para orar pra seus deuses, santos e orixás. Até pra botar a boca no trombone e reclamar da situação.

Cartola, Pixinguinha, Lupicínio, Nelson Cavaquinho, Nei Lopes, Martinho, Luiz Melodia, Criolo, Mano Brown, Emicida, Luiz Carlos da Vila. Paulinho da Viola, Jorge Aragão, Arlindo Cruz… Mas a poesia brasileira também vem da Europa, da América, do Japão, do mundo inteiro.

Poesia não tem cor, tem sentimento, tem beleza, tem lirismo. E a música popular brasileira é poesia na veia!

(Texto do programa Música na Veia, com Arlindo Cruz e Rogê, na MPB FM – 15/3/2015)

PAVÕES MISTERIOSOS

Existiu vida inteligente depois da Tropicália e antes do BRock? ANDRÉ BARCINSKI resolveu cair de cabeça sobre um período obscuro da música pop brasileira. Depois que Caetano e Gil desbundaram e antes de Lobão, Titãs e Paralamas mostrarem que era possível fazer rock em português.

Mas o que se fazia, o que se consumia na Idade Média musical que vai de 1974 a 1983? Muita coisa boa, muita coisa ruim. Tim Maia, Benjor, Gil, Chico e cia estavam em plena fertilidade. Os Novos Baianos, os Secos e Molhados, Zé Ramalho, Fagner, Frenéticas, Blitz explodiam nos palcos e nas rádios.

Além disso, a profusão de covers de sucessos estrangeiros e – pasmém! – brasileiros. Lavoisier nunca foi tão cultuado – na música pop pouco se criava, muito se copiava. Brasileiro se fingindo americano, inglês, alemão… a clomnagem não tinha limites. A ponto de gente como Wando chegar ao cúmulo de gravar um cover de si mesmo!

Artistas de um sucesso só – Nuvens Passageiras, bandas transgênicas criadas nos laboratórios das gravadoras, compositores municiando tudo que é pop star com suas músicas. O poder dos executivos, a profusão MPC – Música Pra Cheirar, a força do jabá que ergue e destroi coisas velhas… tá tudo lá.

O livro fica ainda mais delicioso com o YouTube aberto ao lado pra você conferir as pérolas que entraram pra historia e as baboseiras que deram muito dinheiro e graças a Deus foram esquecidas.

Pavões Misteriosos – corra numa livraria e compre um original, antes que outras editoras lancem diversos covers desse livro!