O maior remador do mundo. Do mundo, não! Da Bahia!

Isaquias tirou onda nessa Olimpíada e fez História sem pedir licença: é o primeiro atleta brasileiro a ganhar três medalhas numa única edição dos Jogos!

Ganhou tanto em curta quanto em longa distância, fato inédito. É como se o Bolt, além dos 100 metros, ganhasse também a prova dos 1500 metros.

Na canoa dupla, 1000 metros, ele contou com seu parceiro Erlon de Souza.  Isaquias vem de Ubaitaba (em tupi-guarani: cidade das canoas), Erlon é de Ubatã. São cidades vizinhas, separadas pelo Rio das Contas, onde eles se conheceram remando. Transportavam passageiros de um lado para o outro. Agora estão no mesmo barco, juntos e misturados. E só carregam medalhas!

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Isaquias é campeão.

 

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Erlon de Souza também conquistou a prata.

 

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Lagoa Rodrigo de Freitas poderia se chamar Lagoa Isaquias.

Ela não morreu na praia!

A Olimpíada tem personagens míticos, como os semi deuses Michael Phelps e Usain Bolt. Assistir às medalhas do americano na piscina foi realização de um sonho. Assim como testemunhar o voo do Raio na pista – e olha que, até agora, só consegui vê-lo numa eliminatória.

Nada, porém, me tocou mais que estar presente à conquista da Poliana Okimoto. Não canso de repetir. Receber uma prova olímpica no quintal de casa não tem preço. Essa foi minha sensação ao ver os melhores nadadores de águas abertas do mundo disputando medalhas no Posto 6 de Copacabana, onde minha equipe, os Gladiadores, treinam diariamente. É como se Messi, Neymar e o goleiraço Jeferson marcassem um jogo no campo da sua pelada. O campinho jamais será o mesmo.

Selfie com o bronze, discretamente roubado.

A prova teve todos os elementos de um bom espetáculo. Elenco de primeira e um roteiro hollywoodiano. Contávamos com duas fortíssimas concorrentes – Ana Marcela Cunha e Poliana. Duas nadadoras de características bem diferentes. Uma forte, que gosta de água fria e mar mexido, outra mais técnica que performa melhor em mar tranquilo.

O dia estava deslumbrante, a praia de Copa, um cartão postal. Tudo certo, mas pro Brasil se dar bem, era preciso combinar com as adversárias. E o COB esqueceu desse detalhe. As gringas chegaram dispostas a ganhar. A ponto de derrubarem o alimento da Ana Marcela, que fechou mais de sete dos dez quilômetros sem se reidratar. Isso lhe custou várias posições. Ana não foi feliz nessa Olimpíada.

Já Poliana tinha outra história. Vinha de um drama em Londres 2012. A água fria foi cruel, ela teve que desistir no meio da prova por hipotermia. Aqui foi tranquilo e favorável. O mar estava calmo, com temperatura agradável. Poliana forçou do começo ao fim, se mantendo por várias vezes na segunda posição. Na última volta, a coisa mudou. A italiana Rachelle Bruni se consolidou no segundo lugar e a francesa Aurélie Muller, que se fingia de morta no meio do pelotão, acelerou e desbancou Poliana do pódio. Ela deu tudo de si, mas foi a quarta a cruzar o pórtico de chegada.

A holandesa Sharon Van Rouwendaal foi tão rápida que nenhum brasileiro lembra dela.

Me conformei com o resultado. Era a melhor colocação dos brasileiros nos esportes aquáticos individuais nestes Jogos. Porém, uma reviravolta. Aurélie se precipitou e atrapalhou a italiana de bater na chegada. Desclassificada! Não importa. Poliana subiu ao pódio merecidamente, fruto do seu esforço. Se a francesa vacilou, Poli não teve culpa. É bronze!

Toda a imprensa falada, escrita e televisada a disputava na unha. Aquele bronze foi mais importante que o ouro. Quem levou mesmo? Nem lembro mais, parece que foi uma holandesa…

O abdômen da holandesa mereceu a medalha de ouro!

Um dia depois de Diego Hypólito contar e recontar sua história de superação, chegou a vez dela alegrar o Brasil. Suportou as porradas do MMA de águas abertas por 1 hora 56 minutos e 51 segundos e fechou os 10 quilômetros da maratona aquática. E todo mundo sabe como a praia de Copacabana é perigosa. Afinal, o lugar é cheio de piranhas. Principalmente em tempos de grandes eventos.


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Somos todos olímpicos!

Eram seis e meia da manhã. Tinha chegado do Parque Olímpico há cinco horas. Ainda assim, não tive dúvidas. Peguei minha bike e parti pro Posto 6. O treino tinha um sabor especial: íamos conhecer o Circuito Olímpico da Maratona Aquática.

Poucos mortais têm o privilégio de praticar numa Raia Olímpica sem ter índice pra passar na porta da Vila dos Atletas. Fazemos parte deste seleto grupo. A chuva apertou, o tempo esfriou. Era como se os Deuses do Olimpo nos perguntassem se estávamos dispostos a qualquer sacrifício para passar por aquela experiência. Éramos dez e ninguém desistiu.

Nadamos até a balsa de onde os atletas laragriam e até simulamos uma tosca largada. Pisar onde pisam os campeões, nadar nas mesmas águas onde as medalhas vão ser disputadas. Era muita adrenalina! No dia seguinte, a ressaca destruiu a balsa e a largada da competição teve de ser mof=dificada. Não importa. Nós usamos a balsa que eles usariam, foi o suficiente.

O mar estava mexido, o que seria bom pro Allan do Carmo e pra Ana Marcela Cunha. A temperatura da água era agradável, o que seria bom pra Poliana Okimoto.

Aprovamos tudo. O mar fez suas ressalvas. Mas não liguem. Podem vir, atletas! Vamos deixar vocês usar nosso quintal. Mas não acostumem, não. E lembrem-se: o Posto 6 é nosso!


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NAS SUAS MARCAS… PREPARA…VAI!

Não tem mais conversa. A Olimpíada começou. A cidade está toda marcada, parte dela gradeada, as pistas exclusivas já cobram um pesado pedágio pra quem resolver utilizá-las sem autorização, a cerimônia de abertura foi ensaiada, tudo pronto. Quer dizer… ah, vocês entenderam.

Aos poucos, as derrapadas do comitê organizador vão deixando as manchetes e abrem espaço para os atletas. Até alguns problemas são minimizados pelos competidores. Os remadores aprovaram a raia da Lagoa, o iatista campeão olímpico Robert Scheidt declara que a poluição da Baía de Guanabara não deve interferir nas provas de velas. “Os sofás poderão ser utilizados pelo povo que quer acompanhar as provas de dentro d’água” – me disse ele, otimista.

Já sabemos que o Rio não será Londres, mas não importa, a Olimpíada vai acontecer. Agora queremos saber da preparação dos atletas, queremos ver aquelas fotos maravilhosas dos fotógrafos esportivos, queremos discutir as chances de medalhas do Brasil – que sempre são enormes antes dos jogos e vão diminuindo com as competições.

Chega de falar do prédio da Austrália. Da Vila Olímpica, a partir de hoje, queremos saber mesmo é das festinhas, das surubas  olímpicas em que participam atletas, treinadores e voluntários bicões. Estimam-se que 350 mil camisinhas sejam distribuídas, ainda assim é grande o risco de termos um baby olympic boom daqui a nove meses.

Tenho ingresso para algumas provas. A maratona aquática é uma delas.  Sei que quase não vou ver nada da areia, mas estarei lá. Dá orgulho saber que eles disputam medalhas no nosso quintal, onde nós, os Gladiadores, nadamos quase todos os dias. Verei também o vôlei feminino, o hipismo e um dia da natação em piscina. Minha mulher e dois dos meus filhos verão o Bolt ao vivo, não sei por que fui idiota a ponto de não comprar pra mim. Ao menos, alimento a esperança de carregar a tocha por alguns metros. Tomara que não estejam me enrolando.

Nessas próximas três semanas farei, junto com os Cassetas, a cobertura da Rio 2016. Todos os dias nos revezaremos no estúdio dos ExtraOrdinários, no canal SporTV 4, às 22h30. Eventualmente participaremos de outros programas também. Fiquem ligados!

Enquanto a cerimônia de abertura não chega, assista quantas vezes quiser ao vídeo em homenagem à nossa Olimpíada, realizado pelo diretor Estêvão Ciavatta, do qual tive a honra de participar representando os esportes aquáticos como Poseidon.

Nas suas marcas. Prepara…vai!

Esse recorde até eu batia!

A olimpíada é a alegria do sedentário. Você não precisa praticar nenhum esporte pra se tornar um especialista. Aliás, nem precisa ter assistido a uma competição num estádio. Basta sentar-se em frente à tevê, atrás de um pote de salgadinhos e um engradado de cerveja e acompanhar os atletas se esfalfando nas quadras, pistas e piscinas. A cada erro do esportista, você se irrita e come mais um torresminho.

–  Como é que esse idiota do Kobe Bryant me perde uma cesta de três pontos assim? Esse Michael Phelps não é mais o mesmo, só quer saber de fumar maconha, tinha que nadar pela Jamaica…

Esparramado no sofá, reclamamos da falta de empenho, da pouca dedicação aos treinos, do corpo mole, das amareladas. Falamos como se acompanhássemos a rotina desse pessoal, cujos nomes a gente só aprende durante os jogos e para meter o malho. Mais engraçado é compararmos nossa peladinha de fim de semana com uma competição cascuda. “Eu sei como é isso, às vezes no futebol do condomínio eu também sinto a pressão da torcida no alambrado. Mas aí eu reajo, não tenho sangue de barata!”

Fico espantado com o nível de detalhe em que uma prova é decidida. É o sujeito que salta dois centímetros acima da marca anterior, o outro que bate na borda da piscina 3 décimos de segundos à frente do adversário. Tento imaginar o que consigo fazer em 3 décimos de segundos. Piscar os olhos? Olhar pro lado? Se for tirar uma meleca, levo em média 64 centésimos de segundo pra que meu dedo chegue ao nariz, tempo suficiente pra perder duas posições num ranking qualquer. E ainda chamam uma transa que dura três minutos de rapidinha…

Nas provas de natação, fico nervoso com aquela linha imaginária do recorde. Algumas vezes vemos o nadador que consegue ficar à frente da marca, tendo que nadar  perseguido por aquela linha. Minha impressão é que ele vai ser eletrocutado ao ser atingido por ela. Na maioria dos casos, ela caga na cabeça do esforço que o cara tá fazendo e simplesmente o atropela.  É possível escutá-la zoando: “Perdeu, playboy!”.

“Citius, Altius, Fortius” é o lema dos jogos olímpícos. Os mais rápidos, mais altos, mais fortes. Então quer dizer que os baixinhos estão fora? O tênis de mesa está cheio deles. O badmington também.  E os mais magros, os etíopes que sempre faturam as corridas de longa distância?  No hipismo, os mais ricos se dão bem por possuir os melhores cavalos, que nem sempre são os mais altos ou mais fortes. No tiro ao alvo também não é preciso ser forte e sim ter boa mira. No nado sincronizado as gêmeas mais simpáticas e sorridentes sempre levam as melhores notas.

Se o atleta bater um recorde, deixa seu nome gravado na história dos esportes. Mas ele pode bater um recorde e ser superado na mesma prova por outro ainda mais rápido. Seu feito cai no esquecimento. Agora, também pode ser destaque na tevê e na internet se for mais marrento ou mais gostosa ou se pagar o maior mico. “Micus, Bundus, Marrentus” é o lema das olimpíadas em tempos midiáticos.