UM PAPO SOBRE O PAPA NO RIO

 O Rio de Janeiro parou por uma semana pra ver o Papa passar rezando coisas de amor. O carioca aproveitou o mega feriadão para curtir os engarrafamentos que contagiaram a cidade. Todo mundo queria ver de perto o Papa Chico, que operou seu primeiro milagre: fazer o brasileiro gostar de um argentino. E arrebatou a galera com sua simpatia e simplicidade. Passeou de carro 1.0, se misturou ao povão, tomou café na laje e lamentou a falta de tempo pra feijoada da tia Surica e gravação do “Esquenta!”. Depois de um papa rabugento como o alemão Ratzinger, a Igreja Católica estava precisando de um líder carismático e popular para conquistar multidões.

 A imprensa, em ritmo de “imagina na Copa”, criticou as falhas de infraestrutura da cidade para receber um evento deste porte. Prova de que os jornalistas não entendem nada de Jornada Mundial da Juventude. Os peregrinos, ao contrário dos turistas comuns, não vieram em busca de conforto. Milhares deles se dispuseram a ficar acampados na praia, abrindo mão das mordomias do Copacabana Palace, ocupado por convidados do casamento da dona Baratinha que ainda morriam de medo de manifestantes.

 Desta vez os problemas da cidade tiveram um papel importante. A JMJ é um evento de provação e sacrifício, daí o Rio ter sido eleito como sede. Aqui os fiéis tiveram que enfrentar a falta de ônibus, a falta de metrô, a falta de banheiros e a falta de vergonha na cara dos nossos governantes.

 O palco da cerimônia não pôde ser montado no pântano de Guaratiba, o que seria  mais um tortuoso obstáculo a ser superado. Em compensação, na praia de Copacabana, os peregrinos tiveram que evitar as tentações para conservar o voto de castidade. Mostraram força espiritual não cedendo aos encantos das gostosas seminuas que se espalhavam pelas areias da praia. E à noite resistiram ao impulso de ir queimar nas pistas dos inferninhos do bairro, onde mensageiras do Demo ofereciam seus corpos propondo descontos para grupos.

 Papa Chico desceu do pedestal e mostrou que é gente como a gente. Por isso também se submeteu a provações como o beija mão de políticos corruptos, os discursos da Dilma e o show do Luan Santana. Apesar de seu discurso a favor do diálogo e do estado laico, muita gente foi às ruas protestar. Militantes da Marcha das Mocréias arrastaram seus peitos pelas areias de Copa, clamando pelo direito ao aborto e  pela descriminalização da camisinha. Manifestantes suplicaram pela extrema unção dos mandatos de Dilma e Cabral. Como de praxe, tiveram que oferecer a outra face ao Batalhão de Choque, que lançava spray de pimenta e jatos de água benta nos jovens pagãos.

 Os milhões de católicos que vieram à cidade tiveram todas as condições para provar a sua fé. Definitivamente quem enfrentou tanto perrengue para ver o Papa já garantiu o seu lugar no Paraíso.

SERÁ QUE É ELE?

Num quiosque do Posto 6 em Copacabana, uma turma habitual de velhinhos se reúne para jogar xadrez. As mesas estão lotadas, alguns acompanhados de seus enfermeiros, outros mais saudáveis estão sozinhos, uns poucos ainda tomam um chope no intervalo dos medicamentos. Ninguém vai dirigir, moram por ali mesmo. Até que chega um senhor alto, cabeça branca, aspecto um tanto abatido. Caminha lentamente e se posta ao lado de uma das mesas.

– A de fora é minha. – fala com um estranho sotaque, algo entre o alemão e o italiano.

O pessoal se entreolha e acabam cedendo a vez ao estranho.

– Vai beber alguma coisa, vovô?

– Vinho tinto.

– Se eu fosse você ia no chope. O vinho daqui é de péssima qualidade.

– Não deve ser pior do que o que me serviram a vida toda.

A roupa do sujeito era esquisita, parecia um abadá do carnaval da Bahia, mas ninguém conseguia reconhecer de que bloco. Ele senta-se e a partida começa. Cauteloso, estuda a estratégia do adversário. O jogo está equilibrado. Até que o novato (apesar da idade) dá uma bobeira. Ninguém entende. Erro grave que lhe custa a partida.

– Tá destreinado, hein amigo.

– Não é isso.

– Foi o quê então? Sua jogada foi primária. Por que você não comeu o bispo?

– Não posso. Podiam me acusar de assédio. O bispo é subordinado meu.

– Como assim? – o pessoal balança a cabeça com o papo de maluco do intruso.

– Não estão me reconhecendo? Eu sou o Papa. Ou melhor, era.

– O Papa, aqui?

– O ex-Papa, em carne e osso e alguns probleminhas cardíacos.

– A gente tinha lido que o senhor, quer dizer, sua santidade…

– Pode me chamar de você, não mereço mais essa formalidades. Isso mesmo, renunciei, avisei que ia dar uma sumida e embarquei pro Rio. Dica de um amigo italiano. Ele me disse que era um lugar seguro, onde já viviam vários membros da sua famiglia.

Nesse momento dois coroas se levantam bruscamente e vão embora.

– Como você pode provar que está falando a verdade?

Ele tira do bolso um passaporte Vaticano, diferente de todos que já haviam visto. Conferem a foto. É igualzinho ao velho, só que mais moço.

– Desculpe perguntar, mas que loucura foi essa de jogar a toalha?

– Cansei. Vou te confessar uma coisa…

O pessoal se benzeu. Imagina, o Papa se confessando bem ali no xadrez do Posto 6!

– Ninguém me dava ouvidos lá dentro. Eu tava sem moral. Aliás, eu nunca tive moral nenhuma. Olha só isso! – Ratzinger tira de uma sacola um cartão postal com sua foto no auge do poder. – Vendiam isso na lojinha oficial.

– Sim, e qual  o problema? – aparentemente não havia nada de errado em uma loja do Vaticano vender uma foto do Papa.

– Vira.

O pessoal olha o verso do cartão. Ali está uma foto menor do João de Deus, padroeiro da torcida tricolor.

– Realmente, uma falta de consideração.

– Uma desmoralização! – completou Ratz indignado.

– Olha, o senhor me permite uma observação. O senhor pegou uma tremenda batata quente. Entrar no lugar do João Paulo II foi uma roubada. O cara era muito popular. É que nem fazer uma novela depois de “Avenida Brasil”…

– Como? – o ex-Papa não entendeu.

– Calma, daqui a algumas semanas o senhor vai saber do que ele está falando. Mas não acho que tenha sido isso, não. É que o senhor era…

– Não era, não! Isso é um absurdo! Eu fui obrigado a ser, na minha juventude lá na Alemanha todo mundo era…

– Eu não tô falando disso. Me perdoe, mas o senhor era muito ranzinza! Ninguém nunca viu o senhor dar um sorriso.

– Com esses escândalos todos, ia rir de quê? Era corrupção, pedofilia, fuga de fiéis pra todo lado…

– Com todo respeito, pra mim o problema era  a sua cara. Papa que é Papa tem que ter aquela carinha redonda, simpática.

– Redonda e rosada. Por isso não acredito em Papa preto. – arrematou alguém da rodinha.

– Isso já é preconceito! – reclamou um negão.

– Ah não, não me diga que agora vai querer cota pra Papa também!

O bate-boca começou a mudar de rumo. Até que o ex-Papa voltou ao centro das atenções.

– Por que, ao invés de sair, o senhor não chutou o pau da barraca, liberou a camisinha, o casamento homossexual, o aborto em caso de estupro?

– Peraí, vocês querem ser católicos ou não querem? Com tanta igreja por aí, por que vocês não procuram uma que seja a favor de tudo isso? Eu posso entrar no Flamengo vestindo uma camisa do Vasco? Não. Então, regra é regra!

O pessoal deu uma razão aos argumentos.

– Mas e agora, quais os seus planos para o futuro?

– Ainda não pensei nisso. De repente, abrir uma empresa de consultoria religiosa. Ou talvez mesmo abrir uma nova seita. Aí sim, toda reformulada, com todas essas modernidades que você estão propondo. Vou converter primeiro meus seguidores do twitter. Ainda tenho crédito na praça, não?

Fez-se um silêncio. Em seguida, começaram a cochichar, desconfiados. Será que aquele era mesmo o ex-Papa Bento XVI ou só um impostor muito parecido? A rodinha foi-se desfazendo, cada um voltou para sua mesa e a jogatina continuou. Se o ex-Papa (ou seja quem for) quiser jogar de novo, vai ter que esperar a sua vez.