SE FOR ROUBAR, NÃO SE SEPARE!

–       Precisamos conversar.

–       Agora não posso.

–       É urgente.

–       Eu sei.

–       Você sabe que é urgente e não quer conversar?

–       Não questão de querer, é questão de não poder. Eu sei muito bem o que você quer. Você quer se separar.

–       Isso mesmo. Eu já até falei com meu advogado e…

–       Sem chances.

–       Como assim, “sem chances”? A gente não se entende mais, não rola sexo há três meses. A gente nem se fala mais.

–       Eu não falo. Você continua falando pelos cotovelos. Mas além de não falar, eu também não escuto.

–       Você acha isso normal? Manter um casamento nessa base? Eu não aguento mais isso! Quero ser feliz, quero ser livre.

–       Eu também quero ser livre, aliás, quero continuar livre.

–       Mas esse casamento é uma prisão.

–       Você não sabe o que tá falando. Prisão é Papuda, é Bangu 1… não vou acabar num lugar desses.

–       Não quero te botar na cadeia, só quero o divórcio.

–       Sei. Depois vai pedir uma fortuna de pensão. Aí nós vamos discutir, vamos brigar. E você vai me dizer que gravou todas as minhas conversas telefônicas, que sabe de todas as negociatas que eu me meti. Vai botar na imprensa todas as concorrências fraudulentas que eu facilitei pros empreiteiros, vai dar o número da minha conta na Suíça pro primeiro jornalista que aparecer…

–       Eu?

–       É, você mesma! Não se faça de sonsa, eu sei muito bem quais são suas intenções! Vai ficar numa boa, enquanto eu não vou poder me reeleger, nem vou poder andar na rua, vão apontar pra mim: “Olha lá o ladrão! Fala, corrupto! Devolve o meu dinheiro seu filho da pu…”

–       Mas Roubôncio Afanásio, como vou te denunciar se não sei de nada disso?

–       Não sabe?

–       Não.

–       Não gravou minhas conversas?

–       De que jeito?

–       Não instalou câmeras no meu escritório?

–       Tá maluco? Claro que não!

–       Ah…então…nesse caso, nem precisamos conversar. Vou te dar o telefone do meu advogado e você liga direto pra ele. Me empresta sua caneta?

–       Que caneta?

–       A que tá no bolso da sua blusa, com a luzinha vermelha piscando.

–       Toma a Bic. Essa aqui tá…tá sem carga…

 

O SONHO DO DEPUTADO

picaretaCerta noite no presídio da Papuda, o deputado Natan Donladron trocou o terno pelo pijaminha xadrez e logo pegou no sono. Em pouco tempo, estava sonhando. Sonhou que tinha morrido – pelo menos em sonho ele pode nos dar uma alegria – e ficou cara a cara com o Todo Poderoso que, no caso, não era o Renan Calheiros.

 –       O Senhor me chamou?

–       Chamei.

–       Puxa. Obrigado. Eu não aguentava mais aquela vida. A Papuda é um inferno – me desculpe a palavra. Bom, mas isso são águas passadas. Graças a Deus, quer dizer, graças ao Senhor, eu fui perdoado.

–       Quem disse que tu foi perdoado?

–       Ninguém, mas como tô aqui, deduzi que…

–       Nada disso. Eu te chamei aqui pra te dar uma chamada.

–       Por quê, Senhor?

–       Depois daquele episódio lamentável, você se ajoelhou, levantou suas mãos algemadas, olhou pra mim aqui em cima e disse: “Obrigado, meu Deus!”

–       Eu tinha quer ser grato. Foi um milagre!

–       Grato a mim? Eu não votei em você não! Eu jamais ia dar força pra um escândalo daqueles. Agora, você se dirigindo a mim num momento como aquele é uma tentativa de queimar o meu filme. Foi demais! Aliás, já não suporto esse pessoal que põe adesivo nesses carros merdas “Foi Deus que me deu!” Eu não dei coisa nenhuma. Primeiro: por que daria um carro tão chinfrim a um filho meu? E segundo: por que daria pra um e não pra outro? Trato todo mundo igual, comigo não tem essa de favorecimento. Mesma coisa esses jogadores que apontam pra mim depois de um gol. Sou imparcial, nem tenho tempo pra acompanhar futebol. Me dá vontade de mandar um raio cada vez que alguém diz que Deus é Fiel. Não torço pra ninguém. Se fosse pra dar força pra algum time, seria pro São Cristóvão, São Caetano… e vê a situação deles. O próprio Santos, se mexesse meus pauzinhos segurava o Neymar até a Copa, pelo menos…Nem sei por que tô dando tanta conversa pra você. Chega, pode ir.

–       Pra onde? Ainda não me disseram qual a minha nuvem.

–       Que mané nuvem! Você tá dispensado. Pode voltar lá pra baixo.

–       Mas peraí, eu não morri?

–       Acaba de desmorrer.

–       Milagre! Milagre!

Sobressaltado, Donladron acorda.

–       Que susto! Acabei de ter um pesadelo que eu tinha morrido. Obrigado, Senhor, eu tô vivo! E com meu mandato intacto!

Seu companheiro de cela, o Coisa Ruim lhe dá uma situada.

–       Se eu fosse você, não me animava tanto assim. Acabei de ver no meu celular. Parece que vão anular aquela sessão.

–       Tá sonhando, rapá? Isso aqui é Brasil! É Brasil!

Enquanto isso, o povo, ressabiado, acompanha o noticiário ainda em dúvidas se um dia vai se livrar desse pesadelo.