O BRASIL E OS NÚMEROS

Captura de Tela 2015-04-12 às 19.56.10

Brasileiro é mesmo ruim de número. Pra todo lado que olhamos, só tem problemas. As contas públicas são um desastre. É uma questão de receita menos gastos, mas o governo não sabe fazer conta de subtrair. Sabe subtrair, mas não sabe fazer conta.

O povo também não domina a matemática. A mostra disso é a quantidade de negativados no país. A maioria não acredita que sua dívida seja a soma das suas despesas. E fazê-las caber no orçamento doméstico é como comprar um sapato 36 para um pé número 45.

Mas a coisa pega quando se trata de manifestações. Ao contrário da polícia, os números nunca batem. (Tá, tá! Eu sei que os protestos foram pacíficos, sem violência, só não consegui evitar o jogo de palavras).

O protesto de 12 de abril na Av. Paulista reuniu 250 mil pessoas, segundo a PM. De acordo com o Datafolha, foram 100 mil pessoas. Já os organizadores afirmam que 800 mil manifestantes estiveram presentes. Independente de quem tenha razão, foi muita gente. Mas as diferenças de avaliação são gritantes. Acredito que só vamos saber o número exato de pessoas numa passeata no dia em que botarem uma roleta na entrada da avenida. Ou quem sabe uma lista de presença. Talvez, passeata com caderneta, que deve ser entregue na chegada e será distribuída no final do encontro.

Outra solução: os organizadores contratam um estagiário e lhe dão uma caneta Pilot. O sujeito percorre a passeata contando as pessoas e marcando um “x” na mão do manifestante para evitar erros.

Enfim, existem meios de evitar esse disse-me-disse pós-protestos. Assim, ao invés de passarmos a semana discutindo quantas pessoas efetivamente foram às ruas, teremos tempo para debater as propostas e reivindicações apresentadas. Fica a dica.

MORRER DE RIR

O atentado me pegou de férias na Europa. Vim com minha mulher apresentar o velho mundo a nossos filhos João e Antonio, 13 e 11 anos, e começamos na terça-feira, por Paris. Conversávamos sobre a Idade Média e um dos assuntos que lhes chamava a atenção era justamente a Inquisição e a perseguição sofrida por artistas e cientistas por conta de suas ideias.

De repente, saímos do Louvre e nos deparamos com a notícia. Em pleno século XXI, humoristas fuzilados por trabalharem numa publicação que preza a liberdade e faz piada com qualquer assunto. Como explicar aos garotos por que uma piada, ainda que audaciosa provocação, é respondida com brutais assassinatos? Ficaram obviamente assustados, sobretudo pelo fato de o pai deles ser também um humorista.

Peguei o metrô e fui direto para a Place de la République. Saltei uma estação antes, já que aquela estava interditada. Pessoas na rua portando cartazes improvisados, exemplares do Charlie Hebdo e velas. Era uma manifestação convocada por redes sociais, reunindo milhares de pessoas indignadas com o atentado. Não havia palanque nem lideranças. Dezenas de manifestantes se amontoaram no pedestal da estátua de Marianne e puxavam palavras de ordem, respondidas pela multidão: “On s’apelle Charlie!” (Nos chamamos Charlie), “On a pas peur!” (Não temos medo), “Liberté d’expression!” (Liberdade de expressão), “Liberté de crayon!” (Liberdade para o lápis).

A noite da quarta-feira foi marcada por muitas sirenes de polícia. No dia seguinte, a rotina foi retomada, mas as vítimas eram lembradas por cartazes espalhados pela cidade: “Nous sommes tous Charlie”. Um minuto de silêncio foi pedido na estação do metrô. Muita gente, eu inclusive, correu às bancas, mas o jornal Charlie Hebdo estava esgotado.

Aos humoristas do mundo inteiro fica a dúvida: até quando vamos literalmente morrer de rir.

—-

publicado na Folha de São Paulo 9/1/15

OS VÂNDALOS, ESSES INJUSTIÇADOS!

Um jovem é assassinado por um policial. A população protesta. Em solidariedade, um bando resolve tocar o terror. Ou seja, para combater a violência policial, promove-se mais violência. É uma lógica difícil de acompanhar. Os moradores de Jaçanã, além de sofrerem os abusos de criminosos uniformizados, sofrem com o apoio de criminosos “revolucionários”.

A defesa desses atos é sempre na linha do “não atingimos pessoas e sim bens materiais”. É um ato anticapitalista, por isso invadem e saqueiam lojas numa periferia de São Paulo. Provavelmente os donos daqueles estabelecimentos  morem bem longe dali, numa mansão dos Jardins. Os carrões queimados, Gol 1000, Fuscas e Unos Mille, certamente pertencem a diretores da Fiesp…

Não acho que, se as vítimas fossem ricas, o quebra-quebra seria justo. Mas quando os atingidos são aqueles que acabaram de ser violentados por uma polícia escrota, a coisa fica ainda mais sem sentido.

–       Vocês são maltratados pelas forças da lei? Então, pra chamar atenção à sua causa, vamos queimar uns ônibus pra vocês ficarem mais três horas nos pontos. Vamos quebrar casas, lojas, bares pra ver quanto tempo o estado e a prefeitura vão levar pra dar jeito nisso tudo. Quer saber? Ainda bem que Adoniram Barbosa perdeu o trem pra Jaçanã…

Enquanto isso, um povo acaba levando a culpa de tudo. São os vândalos. Cansado de ouvir difamarem seu povo, um descendente dos vândalos me enviou um e-mail indignado.

“É um absurdo o que estão fazendo com a imagem do nosso povo! Tá certo que nós saqueamos Roma, ocupamos a península Ibérica e o norte da África. Mas isso foi no século V! Depois disso, fomos dominados e incorporados ao Império Romano do Oriente e desaparecemos do mapa. E agora qualquer cagada que fazem botam na nossa conta! Nunca queimamos um ônibus, nunca apedrejamos uma agência bancária, até porque nada disso existia naquele tempo. Por que não falam dos hunos, dos visigodos, dos vikings? Só falam em vândalos, vândalos… Nunca andamos encapuzados, nunca fomos black blocs. Essa confusão, esse mal entendido, só pode ser fruto dessas biografias não autorizadas que vêm sendo escritas há mais de 1500 anos. Mas isso é uma outra história. Procurem saber!”