GENTE INGRATA!

manifestacaoAo contrário do que muitos pensam, as manifestações de domingo foram a prova do indiscutível êxito do governo Dilma e da administração PT nos últimos 13 anos. Multidões de coxinhas foram às ruas em diversas cidades do país. Só em São Paulo, mais de um milhão de pessoas abriram mão de ir para os clubes jogar golfe para se acotovelarem na avenida Paulista.

Elite branca de todas as cores, ricos de todas as classes sociais protestando contra o governo. Nunca antes na história esse país teve uma classe dominante tão numerosa, fruto das ações sociais do governo, ainda que isso tenha custado o crescimento da dívida pública.

Afinal, o que querem todos esses privilegiados? O subsídio ao diesel permitiu que fossem aos protestos em seus carrõs SUV. Aqueles que quiseram dar uma de povão, tiveram transporte público eficiente. Provavelmente boa parte desses milionários estão envolvidos em algum esquema de corrupção da Petrobras. Na certa foram às passeatas para disfarçar a condição de burgueses.

Mas rico é assim mesmo, nunca está satisfeito com o que tem.

NEM MAIS UM PIO!

Sabiá canta na varanda

No alpiste pus vidro moído…

Os versos são da música “Caldo Verde”, do disco “Para Comer Alguém”, de Casseta & Planeta. Na época, a ideia era fazer barulho com uma canção ecologicamente incorreta. Ninguém podia imaginar que fosse levada a sério. Pois levaram.

Esta semana fui acordado com a gritaria estridente de um numeroso grupo de paulistas contra o canto de um passarinho. Pensei ter me enganado ao ler a notícia, achei que reclamavam por nunca terem ouvido um chilreio. Mas era o contrário. Com a primavera se aproximando, as aves ficam fogosas. Vestidos com as penas mais da hora, o macho vai à luta pra conquistar uma gatinha, digo, uma passarinha. Mas eles não se garantem só na beca, alguns precisam mostrar que sabem dizer no pé – é o caso dos tangarás, que se exibem em sofisticadas coreografias como se estivessem disputando a final da Dança dos Famosos. A jurada é uma só, a fêmea que vai eleger o par da temporada. Outros têm que provar que têm o gogó afiado, já que a parceira não tem I-pod mas gosta de curtir um som.

É o que acontece com o sabiá-laranjeira, ave símbolo do Brasil. Durante o período de acasalamento, o sabiá-laranjeira abre o bico. Como a concorrência é grande, pois trata-se de uma ave muito comum no país, o bichinho não para de cantar de setembro até dezembro. E não só durante o dia, também faz serenatas antes do sol nascer. Vai que a fêmea está disposta a ficar com o primeiro que passar uma cantada…ele não pode vacilar.

Como o governo não investe em escolas para pássaros, o sabiá é quem se encarrega da educação dos filhotes e aproveita a madrugada para dar lições de canto. E isso tem irritado os paulistas.

Habituados com o som de buzinas, sirenes, bate-estacas das obras, o ouvido paulistano desenvolveu uma repulsa aos sons da natureza. Não consegue dormir se, no meio do burburinho dos engarrafamentos o gorjeio de um sabiá-laranjeira se destacar. Manifestações estão sendo convocadas pelo facebook. Alguns condomínios já estão contratando milicianos que saem na calada da noite munidos de atiradeiras, bodoques e estilingues de uso exclusivo das Forças Armadas para exterminar o bicho que anda tirando o sono dos mais sensíveis.

O curioso é que a população nunca se mobilizou para calar as britadeiras, os vendedores de pamonha, os carros de som que anunciam rodízio de pizza ou o pessoal que grita as promoções relâmpago da rua 25 de março.

O problema, dizem, é que o sabiá insiste em cantar por volta das 3 da matina. A essa hora nem o show do Metallica seria capaz de me tirar das profundezas do meu sono. Mas nem todo mundo é assim. Se qualquer pio é capaz de te despertar, talvez seja o caso de consultar um médico. Ou um vidraceiro – sua janela pode estar quebrada.

Aqui vão algumas dicas para quem mora em São Paulo e sofre com a insônia aviária.

–       Ao ouvir o famigerado trinado, ligue o rádio em alto volume no sucesso de Anitta. A melô cola na sua cabeça e você não vai escutar mais nada.

–       Se você tá solteiro, não devia estar dormindo. Vista sua melhor plumagem e vai dar uma volta pela cidade. Quem sabe não encontra uma moça que também não conseguiu dormir? Leve-a para um local sossegado onde vão poder passar o resto da madrugada falando mal do sabiá.

–       Se for casado, acorde a patroa e, já que estamos na primavera, imite os pássaros e dê uma acasalada! Pode mandar ver e gritar sem medo. Os vizinhos não vão ouvir nada, só o canto do sabiá.

Se você não mora em São Paulo e, portanto, ainda não conhece o canto do sabiá-laranjeira, clique aqui.

(*) ilustração roubartilhada do blog do Orlando.

O PROTESTO FASHION DO LEBLON

Os protestos estão por toda parte. E o bairro do Leblon mostrou que acompanha as tendências da moda, sendo palco de uma das manifestações mais elegantes desta temporada. Nada como uma passeata de frente pro mar! Quando a multidão começou a se aglomerar numa esquina próximo à casa do governador Sérgio Cabral, Manoel Carlos desceu de seu apartamento com um bloquinho para anotar o que estava acontecendo e botar na sua próxima novela, “Esculachos de Polícia”.

Como sempre, o protesto começou pacificamente, com as pessoas gritando palavras de ordem e queimando um boneco que representava o governador. Também como sempre, um grupo de arruaceiros se infiltrou na galera e passou a tocar o terror. Os barderneiros eram facilmente identificáveis. Uma parte deles estava vestida de preto e com o rosto coberto. Outros estavam uniformizados com capacetes, escudos e fortemente armados.

Os moradores não estavam entendendo nada. Dentro de um restaurante luxuoso, um consumidor reclamou que seu prato estava muito condimentado. O chef explicou que aquilo não era o tempero e sim o spray de pimenta que invadia o salão.

Enquanto muitos manifestantes pediam o impeachment do governador que 67% deles colocaram no poder, a bandidagem aproveitava pra quebrar vitrines e fazer um ganho. Flagrado saqueando a loja da Toulon, um sujeito disse que não era ladrão e só fez aquilo porque não tinha roupa para frequentar uma manifestação num bairro tão chique.

Desesperado, o governador acionou o esquema de segurança do estado. Todos os helicópteros que ele não estava usando vararam a madrugada sobrevoando a área mais valorizada da cidade. Segundo especialistas, as aeronaves gastaram na madrugada o equivalente a mais de 150 deslocamentos Rio-Angra. Combustível suficiente para transportar o cachorro Juquinha, as babás, a prancha de surf e uma peça de roupa dos membros da família do governador de cada vez, pra não amassar na viagem.

No dia seguinte, em meio às lojas e bancos depredados, alguns investidores circulavam pelo Leblon fazendo ofertas aos proprietários dos imóveis, que desvalorizaram em uma noite mais do que as ações do grupo Eike Batista. Sentado num café, o novelista Maneco parecia preocupado. Estava com dificuldade para escalar a atriz que fará sua próxima Helena. Nenhuma das que ele convidou topou gravar cenas tomando porrada da polícia. Elas argumentam que as marcas de hematoma ficam muito feias em HD.

 

 

REPAGINA, BRASIL!

Depois da tumultuada sequência de protestos e manifestações por todo o país, a presidente Dilma resolveu correr atrás do prejuízo. Segundo o DataTrolha, os índices de popularidade da presidente vem caindo mais do que ações das empresas do Eike. Para evitar que Lula entre em campo e a coloque no banco, Dilmandona convocou uma ampla reunião hoje em Brasília com publicitários, mágicos e ilusionistas para dar um jeito na situação o quanto antes.

A Globo suspendeu a gravação de novelas e seriados para ceder seus melhores maquiadores em regime de urgência ao Poder Executivo. Eles vão trabalhar para dar um tapa na imagem do país, que ficou muito desfigurada depois de tanto levar porrada da polícia nos últimos dias.

Técnicos em efeitos especiais estão vindo de Hollywood, assim como cenógrafos que criarão as bases do programa “Minha Fachada, Minha Vida”. Para discutir o transporte gratuito, Dilma se reuniu com Pelé, que foi o primeiro a propor a lei do Passe Livre, que beneficiou os jogadores de futebol e melhorou a vida de milhões de Marias-Chuteiras.

Quanto à ideia de importar médicos cubanos, por enquanto apenas os cirurgiões plásticos embarcaram. Em breve estarão aplicando botox nos rincões mais distantes e murchos do nosso país. O programa “Muda de Cara, Brasil” prevê também  o preenchimento na lábia da bancada governista.

CHEGA DE CAÔ !

Não se fala em outra coisa, não se escreve sobre outra coisa. Nunca tantos falaram tanto sem saber o que estão dizendo. Quem afirma algo com convicção hoje é obrigado a desdizer tudo amanhã.

Temos que tomar cuidado com as certezas absolutas. É preciso entender a mensagem das ruas e ninguém sabe onde fica a tecla SAP.
Se tivesse que arriscar uma síntese para o que está rolando, diria “chega de caô!”. Estamos vivendo o resultado de uma série de paradoxos.

A coisa é tão complexa que temos que agradecer aos prefeitos por não terem baixado as tarifas de ônibus logo de cara e à truculência da
polícia nos protestos.

Sem essa ajuda, talvez não tivéssemos chegado a esse ponto em que tudo está sendo posto em xeque. Por R$ 0,20, muitos bilhões desviados estão sendo denunciados. Escândalos estão sendo desmascarados pela máscara inspirada em Guy Fawkes, um inglês do século XVII.

Fazia tempo que os estudantes não saíam às ruas. A primeira vez que participei de um movimento desse tipo foi em 1977, quando foi ressuscitado o movimento estudantil.

Queríamos reviver a Passeata dos Cem Mil de 1968. A atmosfera foi parecida, respirávamos democracia no fim da ditadura. Depois voltei às ruas pela anistia, pelas Diretas Já, pelo impeachment do Collor, entre outras vezes menos marcantes.

Participei ativamente do movimento estudantil. Embarquei nesse ambiente político universitário cheio de esperança. Mas testemunhei muita sujeira.

Os estudantes sendo iludidos por raposas velhas de partidos de esquerda que faziam uma mímica de democracia, enquanto decidiam tudo em conchavos na calada da noite.

Era do Partidão e vi bem como era isso. As lideranças se orgulhavam de conduzir a massa pra onde ela não sabia que queria ir, era o que se dizia. Lembro do caso de uma mãe procurando pelo filho na PUC do Rio. Ao encontrar um grupo de estudantes, perguntou: “Vocês conhecem o fulano? Ele é o líder de vocês…”.

Até então acreditávamos no estereótipo do bem e do mal. O bem era a esquerda, o mal, a direita. A esquerda podia fazer cagadas, manipular opiniões, até desviar verbas pela causa. “Os fins justificam os meios”, diziam as lideranças progressistas.

Conseguimos, enfim, derrubar a direita e colocar a esquerda no poder. E o que se viu? A maior sequência de escândalos e corrupção da nossa história.

Mentiras se repetindo, inimigos chegando a acordos, direita e esquerda fazendo de tudo para se perpetuarem no poder. Lula, Collor, Sarney, Dilma, Maluf, todos na mesma mesa de jantar.

Os absurdos são anteriores à era PT, mas foram se acumulando e continuam. Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos, Renan na presidência do Senado, Genoino, condenado, eleito e legislando sobre a ação do Judiciário, estádios bilionários construídos em cidades sem time na primeira divisão, estatísticas maquiando nossa realidade… Até que, por R$ 0,20, tudo vem à tona.

Ninguém sabe onde isso vai dar. Não se sabe como fazer pra mudar a situação. Este “foda-se” que sempre deram pra nós agora estamos devolvendo pra eles.

Vandalismo não é solução, nem violência policial. Qual o próximo passo? A vontade é tirar todos de todos os cargos. Mas, em algum momento, alguém terá que representar essa nova mentalidade.

O voto é nossa arma mais poderosa. Não vamos conseguir botar 170 milhões de pessoas no Palácio do Planalto. E aí vamos ter que confiar que a sinceridade é possível, que as intenções serão de fato as melhores.

Talvez não seja agora. Não sabemos como nem quando. Queremos acreditar que um dia vai ser. Por ora, resgatemos a utopia. Já é um grande passo.

(publicado na Folha de São Paulo em 22/6/2013)