O TUBARÃO HUMANO

Esse cara aí do meio é o nadador australiano Trent Grimsey, que conheci no posto 6, através do Luiz Lima. Trent veio disputar – e ganhar – o desafio Rei do Mar, uma prova que consiste em 5 voltas  de 850 metros no mar e 50 metros na areia. Veio defender o tridente que havia faturado no ano passado.

Mas não é só apenas isso. Sua camisa tem impresso 6:55. Não é a hora que ele acorda todo dia para nadar. É seu tempo na travessia do Canal da Mancha. O sujeito nadou 34 quilômetros em impressionantes seis horas e cinquenta e cinco minutos!

Fiquei atônito com os números. O cara manteve uma velocidade média de 4,92 km/h durante quase sete horas. Tenho dúvidas se conseguiria acompanhá-lo num jet ski. Tentei fazer um paralelo com meus números. Pelo resultado da última etapa deste ano do Rei e Rainha do Mar – categoria prego – fiz 3 quilômetros em 1 hora, meu recorde! Ou seja, mantive a média de 3 km/h. O que significariam 11horas e 18 minutos de natação, quase o dobro do tempo do Trent. Só que tem um detalhe: ele fez toda a prova de uma só vez, claro. Eu só manteria minha alta performance se nadasse três quilômetros por dia.

Portanto, precisaria de 11 dias e mais um pouquinho pra sair da Inglaterra e chegar à França. É… no meu caso, melhor economizar uma graninha e pagar uma passagem de avião.. E, olha, considerando o deslocamento, praia-aeroporto-praia mais o tempo de voo, acho que Trent Grimsey chegaria na frente…

Esse recorde até eu batia!

A olimpíada é a alegria do sedentário. Você não precisa praticar nenhum esporte pra se tornar um especialista. Aliás, nem precisa ter assistido a uma competição num estádio. Basta sentar-se em frente à tevê, atrás de um pote de salgadinhos e um engradado de cerveja e acompanhar os atletas se esfalfando nas quadras, pistas e piscinas. A cada erro do esportista, você se irrita e come mais um torresminho.

–  Como é que esse idiota do Kobe Bryant me perde uma cesta de três pontos assim? Esse Michael Phelps não é mais o mesmo, só quer saber de fumar maconha, tinha que nadar pela Jamaica…

Esparramado no sofá, reclamamos da falta de empenho, da pouca dedicação aos treinos, do corpo mole, das amareladas. Falamos como se acompanhássemos a rotina desse pessoal, cujos nomes a gente só aprende durante os jogos e para meter o malho. Mais engraçado é compararmos nossa peladinha de fim de semana com uma competição cascuda. “Eu sei como é isso, às vezes no futebol do condomínio eu também sinto a pressão da torcida no alambrado. Mas aí eu reajo, não tenho sangue de barata!”

Fico espantado com o nível de detalhe em que uma prova é decidida. É o sujeito que salta dois centímetros acima da marca anterior, o outro que bate na borda da piscina 3 décimos de segundos à frente do adversário. Tento imaginar o que consigo fazer em 3 décimos de segundos. Piscar os olhos? Olhar pro lado? Se for tirar uma meleca, levo em média 64 centésimos de segundo pra que meu dedo chegue ao nariz, tempo suficiente pra perder duas posições num ranking qualquer. E ainda chamam uma transa que dura três minutos de rapidinha…

Nas provas de natação, fico nervoso com aquela linha imaginária do recorde. Algumas vezes vemos o nadador que consegue ficar à frente da marca, tendo que nadar  perseguido por aquela linha. Minha impressão é que ele vai ser eletrocutado ao ser atingido por ela. Na maioria dos casos, ela caga na cabeça do esforço que o cara tá fazendo e simplesmente o atropela.  É possível escutá-la zoando: “Perdeu, playboy!”.

“Citius, Altius, Fortius” é o lema dos jogos olímpícos. Os mais rápidos, mais altos, mais fortes. Então quer dizer que os baixinhos estão fora? O tênis de mesa está cheio deles. O badmington também.  E os mais magros, os etíopes que sempre faturam as corridas de longa distância?  No hipismo, os mais ricos se dão bem por possuir os melhores cavalos, que nem sempre são os mais altos ou mais fortes. No tiro ao alvo também não é preciso ser forte e sim ter boa mira. No nado sincronizado as gêmeas mais simpáticas e sorridentes sempre levam as melhores notas.

Se o atleta bater um recorde, deixa seu nome gravado na história dos esportes. Mas ele pode bater um recorde e ser superado na mesma prova por outro ainda mais rápido. Seu feito cai no esquecimento. Agora, também pode ser destaque na tevê e na internet se for mais marrento ou mais gostosa ou se pagar o maior mico. “Micus, Bundus, Marrentus” é o lema das olimpíadas em tempos midiáticos.