Valeu, Capita!

Quando recebi a notícia, veio a lembrança do quarto gol sobre a Itália. Aliás, essa imagem foi mais acessada na memória das pessoas que em qualquer google. Todo brasileiro que era vivo naquela tarde de junho hoje lembrou do momento em que Pelé recebeu a bola na entrada da área e displicentemente tocou para direita, onde Carlos Alberto soltou a bomba precisa, ponto culminante da epopéia do tri. Depois veio o tetra, o penta… mas nunca fizeram sombra à finada e derretida taça Jules Rimet.

Carlos Alberto Torres é o maior lateral direito que vi jogar no Santos, no Flu, no Cosmos e no meu Botafogo, onde também foi o treinador que nos deu a taça Conmebol, o equivalente à Sul Americana. Recentemente tive a honra de ser seu “colega de trabalho” – ele, comentarista e eu, palpiteiro nas bancadas do SporTV.

Gente boa, conversa divertida nos bastidores, além de muito conhecimento e inside information sobre os bastidores do futebol.

O Capita marcou minha infância e a de todos os moleques com 10, 11 anos em 1970. Todos no subúrbio corriam da tevê para a rua pra jogar uma, assim que acabava um jogo do Brasil na Copa. Depois daquela final, sempre tinha um cabeça de bagre entrando pela direita e isolando a bola, ao tentar samplear o golaço do lateral brasileiro.

Quem é da Vila da Penha tem algo mais de que se orgulhar. O capitão Carlos Alberto cresceu na área. Foi morador do Largo do Bicão e jogava bola num daqueles dez campos de futebol que existiam onde hoje é o conjunto habitacional do Ipase. Eu era muito pequeno pra isso.

Mas, como alguns amigos da minha rua, a Paula Aquiles, comprei muito botão, palheta e bolinha na lojinha do Capita, na praça Vicente de Carvalho. Era uma pequena loja de artigos esportivos, no pé do morro do Juramento, que ele abriu depois do tri. Cansei de passar por ali de bicicleta, na esperança de encontrá-lo, o que nunca aconteceu.

Só muito tempo mais tarde é que fui entender por que aqueles botões jogavam bem melhor que os outros.

Valeu, Capita!

A TEIA DO ARANHA

Me lembro de ter escrito este esquete em 1988, primeiro ano do Tv Pirata. Por acaso o encontrei recentemente no youtube e acho que tem a ver com o recente episódio que envolveu o Aranha, goleiro do Santos.

No quadro, os pais do garoto ficam agoniados quando o filho anuncia que vai assumir que é negro. Não é assim que se deve comportar! Eles tentam ensiná-lo que deve esconder sua condição pra ser aceito. Como se isso fosse possível. Durante anos estudei em turmas onde era o único negro. Quando pequeno, neguinho no meio dos brancos, morria de vergonha quando o professor anunciava que íamos estudar a escravidão no Brasil. Pronto, pensava eu, agora meus colegas vão perceber que sou preto.

Era um tempo em que não tinha vantagem se declarar negro. Não dava direito à cotas. Não era como hoje em que uma festa, pra ser considerada moderna, tem que ter ao menos um convidado negro e um casal gay. Ter orgulho da cor da pele faz parte de um processo que, quando estiver completo deverá ser esquecido. Quando não tiver diferença entre ser preto, branco, amarelo ou índio, não vai ter por que se orgulhar da cor, como ninguém sai por aí se orgulhando de ser mamífero.

Reafirmar “sou negro sim, e daí?” é a contraposição a anos de depreciação racial. Por séculos se incutiu a ideia de que ser negro é ser inferior. E cada vez que se repete a afirmação, tenta-se por negro no seu lugar, baixando a autoestima deste. Quando o negro reage à pecha, logo é chamado de neguinho marrento. Curiosamente, não vemos ninguém falar em branquinho marrento.

Xingar um negro de macaco não tem esse peso todo – para quem xinga. É tão comum que a pessoa nem mais percebe a intenção que é botar a pessoa ofendida pra baixo, lembrar-lhe que é inferior e assim, quem sabe, afetar seu desempenho em campo.

Por isso Aranha fez bem em parar o jogo e procurar o juiz quando foi ofendido. Chamou atenção para o ato e provocou uma punição inédita. Injusta? Exagerada? É uma discussão, já que não era um caso isolado no futebol. Mas o fato é que é preciso frear esse tipo de atitude e teria de começar em algum momento, em algum lugar.

Talvez um dia nem seja mais preciso discutir esse assunto. Talvez demore a chegar esse dia. Por enquanto, o castigo vai servindo de lição.