SEM SURPRESA

Ninguém se espantou. Poucos ainda se iludiam, sonhando com uma reviravolta miraculosa. Mas o roteiro permaneceu inalterado. Como em outras rodadas, os resultados dos adversários nos favoreceram. E mais uma vez tropeçamos na própria incompetência.

Pode-se dizer que o Botafogo lutou pra cair. Foram 22 derrotas em 37 jogos, apresentando um futebol compatível com os resultados, que frequentemente não foi humilhante graças a um único jogador lúcido em campo: o goleiro Jefferson, o melhor do Brasil. Tenho certeza de que a atual diretoria vai tentar segurá-lo para o ano que vem. Não será surpresa se a boa notícia não vier. Temos que compreender se ele aceitar uma proposta interessante que deverá surgir – se é que já não surgiu.

Um ano que termina como imaginamos lá no início. E olha que torcemos. Empurramos o time ladeira acima na Libertadores até onde deu – já sem os craques e os remediados do ano passado, com um treinador que não comandaria meu time de peladas.

No Brasileirão, o Botafogo parecia aquele jogo “Resta Um”. A cada rodada, uma dificuldade era acrescida: E se atrasarmos os salários dos jogadores, como fica? E se rompermos o Ato Trabalhista? E se tivermos as receitas bloqueadas? E se demitirmos quatro titulares? E se perdermos todos os jogos que faltam? E se…

Não tem mais “se”, agora é.

O Botafogo caiu de maneira tão patética que os vt’s podem passar nas Videocassetadas do Faustão. Aos botafoguenses, cabe o tapinha nas costas dos amigos: “É, não deu…”- falam solidários, pra em seguida cair na gargalhada. O ex-presidentista Maurício Decepção nem dá as caras pra ser sacaneado, como prometeu, ao se responsabilizar pela queda para a série B.

Como consolo, ficam livres as noites de quarta e nas tardes de domingo. Teremos tempo para botar o cinema em dia, para ler bons livros, assistir a bons shows, dar atenção à família, arrumar as gavetas do escritório, cortar as unhas do pé. Já montou a árvore de Natal? Já organizou a caixinha dos funcionários? Existem diversas maneiras de ocupar o tempo livre e esquecer o futebol. Entrei de cabeça na natação (olha este post). Vai se distraindo, torcedor. E reunindo forças pra 2015. Nosso time do coração vai precisar da gente de cabeça fresca. E muito!

Estaremos lá. Como diz aquela música, não escolhemos, fomos escolhidos. E não fugiremos da raia.

Pode contar com a gente, Fogão!

(Des)prezado Presidente

Há seis anos você chegou ao Botafogo sem que soubéssemos direito quem era. Sua imagem, a de alguém que não vinha dos meios futebolísticos, era um bom sinal. Um dentista que poderia dar um trato no sorriso alvinegro.

Sua primeira gestão foi elogiada por torcedores e pela imprensa esportiva. O Botafogo começou a despontar como um clube sério. E você, um dirigente que estava pondo a casa em ordem.

Veio o segundo mandato. Eleito unanimemente, teve a chance de escrever seu nome nas páginas mais gloriosas. Contratou Seedorf, uma estrela internacional, e elevou assim a auto estima da torcida. Voltávamos a ter um ídolo e a dar inveja aos rivais. Sabíamos que sozinho ele não poderia resolver a parada. Mas tínhamos um bom elenco ao seu redor e os resultados começaram a aparecer. Infelizmente, o sonho durou pouco.

Perdemos o Engenhão, perdemos receita, a coisa desandou. Aos poucos o time começou a ser desmontado. Vitinho foi o caso exemplar. No final do Brasileirão 2013, víamos Jefferson no gol, Seedorf lá na frente e mais nada. De favoritos, passamos a rezar por uma vaga na Libertadores.

Começamos este ano disputando o mais importante torneio da América do Sul, o que não acontecia havia 17 anos. De que maneira? Com um técnico que nunca comandara a equipe principal e um elenco bem abaixo do que tínhamos seis meses antes – Seedorf voltou para a Europa. O resultado não podia ser outro.

Aliás, 2014 é um ano para se esquecer. O pior desempenho num Campeonato Carioca neste milênio. Dívidas não honradas, jogadores medíocres contratados, salários não pagos, derrotas sucessivas. Até que você resolveu dar um basta na indisciplina. Demitiu quatro titulares e assumiu em público a responsabilidade das consequências do ato. Se mereciam, não vem ao caso. O fato é que o momento foi o mais inadequado possível. Já não estávamos bem no campeonato e só pioramos. Na verdade, você deu um basta na nossa esperança.

No instante em que escrevo, acumulamos 9 vitórias em 35 jogos! Para escapar da segunda divisão, precisamos de 3 vitórias em 3 jogos! Haja margem de erro… E isso não basta, dependemos de uma milagrosa combinação de outros resultados. O ideal é trocar a comissão técnica por uma comissão de matemáticos e rezadeiras.

Mas a torcida pode dormir tranquila. Você assume a responsabilidade da queda para a série B. O que significa isso? Se alguém vier nos sacanear, mandamos ligar pra você?

Dia 25 de novembro teremos eleições no clube. No dia seguinte alguém assumirá esta cadeira. E você volta para seu consultório de dentista sem responder por nenhum dos atos irresponsáveis. Ficamos nós, torcedores, arrasados após a passagem de um tsunami. Sem time, sem dinheiro, sem estádio, sem série A. Vai ser duro sair deste buraco.

Mas vamos resistir. Vamos juntar nossos cacos, levantar a cabeça e olhar para o futuro. Brigando para que um dia voltemos a ver lá na frente o Botafogo de craques como Garrincha, Nilton Santos, Jairzinho, Paulo Cezar Caju, entre tantos outros.

E ninguém cala…

Jornal Extra, 22/11/14