FOME NOTURNA

fome noturna

– Demorou! Onde você foi?

– Fui ali comer uma coisinha.

– Te procurei na cozinha e não te achei.

– Não tinha nada que me apetecesse, aí fui na rua.

– Cheiro de perfume barato… Gervásio, isso é perfume de mulher.

– É, sim.

– É sim??? Você foi encontrar outra mulher?

– Encontrar não1 Comer…

– O quê? Peraí, acho que não tô ouvindo direito. Deixa ver se entendi: você estava aqui deitado comigo, se levantou, foi na rua, pegou uma mulher e…

– …Comi.

– …Tá, comeu. Detesto essa palavra! Me deixou aqui, pra co… argh! Comer uma piranha.

– Qual é o drama? Você disse que tava com preguiça, não queria saber de sexo hoje.

– Aí você sai na maior cara dura e…

– Você não tava, mas eu tava. E deixei bem claro. Vai dizer que não sentiu o volume…

– Como você é grosso!

– Grosso, eu? Poxa, achei que tava sendo educado. Não quis incomodar você. Imagina ser um desses maridos que praticamente estupram a mulher quando querem sexo! Eu te respeito, não vou forçar você a fazer nada que não queira.

– Por acaso eu quero ficar deitada ao lado de um homem que se deitou com outra?

– Você pode se levantar, tô cansadão.

– Que nojo! Nem um banho.

– Não queria ficar muito tempo longe de você, meu amor.

– Amor? Deus me livre! Tenho horror a você. E para de tentar me agarrar. Saia já dessa cama! Desse quarto! Dessa casa! Dessa vida!

– Tá bom, tá bom. Só tava sendo sincero com você. Você sabe como eu detesto mentiras.

– Nesse caso, eu preferia que você mentisse.

– Você ia acabar descobrindo, sou péssimo nisso. Não tem nada a ver, pô. Sexo é uma coisa, amor é outra, será que você não consegue entender?

– Nem eu, nem meu advogado.

– Advogado? Deixa que eu explico pra ele. Só tomar um banho, primeiro…

– Gervásio, não tô acreditando que ainda tô ouvindo sua voz! Qual é a parte de “se manda daqui agora!” que você não entendeu? Some! Evapora! Tenho asco de você, seu escroto, babaca, promíscuo, doente!

Sentado no meio fio da rua de madrugada, Gervásio protegia a cabeça da chuva de roupas e livros que a janela do terceiro andar vomitava sobre ele. Jurava inocência e achou exagerada a reação da namorada. “Vai entender essa mulher… Só pode estar na TPM…”- pensava enquanto recolhia os pertences.

 

 

 

 

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ao todo.

PROIBIDO PARA MENORES

sex

O casal andava meio entediado. A rotina estava instalada e não havia meio de sair. Ele não chegava a se incomodar tanto. Afinal, o mais importante era a estabilidade. E a rotina servia muito bem para esse fim. Sem invencionices, não passavam pela sua cabeça ideias que pudessem pôr o relacionamento a perder. Claro que, como a maioria dos homens, tinha suas fantasias, sonhava em pegar uma funkeira popozuda e esculachar geral. Mas achava arriscado. Não confiava que tudo pudesse dar certo, que não houvesse efeitos colaterais.

Ela, porém, não estava satisfeita com o rumo que as coisas haviam tomado. A acomodação se traduzia em pasmaceira, em falta de imaginação. Era um cineminha aqui e ali – se bem que ele preferia netflix. Restaurante uma vez por mês, quando saía o salário – no último ano nem variou mais de restaurante; nos últimos quatro meses, até o prato dele era o mesmo.

Na cama, ele só se deitava sem meias quando tinha certeza de que ia rolar. Ou seja, às sextas-feiras. Sábado era dia de pôquer com uns casais amigos, ele enchia a cara e voltava inutilizado. Perda total.

Algo precisava ser feito. As crianças já estavam crescidas, nem serviam mais de desculpa para o atraso do casal. Ele tinha sido promovido na firma, agora era gerente administrativo, ganhava razoavelmente bem, não tinha motivo para estresse.

Um dia, ao sair do cinema, resolveram voltar a pé para casa. Sem pressa, apreciavam as vitrines das lojas. Roupas, calçados, celulares, armarinhos…até que… Uma porta discreta, com uma placa “Proibido para Menores”. Ávida por novidades, ela ficou curiosa. Ele estava temeroso, podia ser um lugar barra-pesada. Ela perguntou se ele se considerava de menor. Não se tratava disso, mas não queria arriscar levá-la a um lugar perigoso.

– O que pode acontecer, se a gente entrar? – perguntou ela – Vão nos sedar e roubar um rim?

– Deus me livre! Tá louca?

– Que é que tem? Mesmo que nos roube um rim, tenho dois. Pode ser divertido.

– Não fale uma coisa dessas! Agora mesmo é que não entro.

– Deixa de ser bobo!

Ela tomou a iniciativa, segurou a mão dele e empurrou a porta preta. A iluminação de boate, a música eletrônica criavam uma atmosfera libidinosa. Atravessaram um corredor e, no fundo, o óbvio se revelou: tratava-se de uma loja de objetos eróticos.

Ela nunca tinha entrado numa. Ele, sim, com colegas de trabalho numa viagem da empresa. Não comprou nada e nada falou em casa, temia dar a entender que a tinha traído. Ele não sabe mentir e, em certas circunstâncias, não sabe nem dizer a verdade, soa como mentira mal contada.

Ela estava curiosa e foi se animando ao ver os produtos expostos. Ele relaxou. Risinhos nervosos de cumplicidade. O uso de alguns objetos era evidente, de outros, nem tanto.

– Como funciona isso? – perguntou ela.

– Menor ideia.

– Vamos perguntar ao vendedor.

– Tá maluca! Não quero que a gente passe por um casal careta que não entende nada disso.

– Mas a gente é um casal careta que não entende nada disso.

– E os outros precisam saber?

– Que diferença? Ninguém conhece a gente. E está tão escuro que nem conseguem ver nossa cara direito.

Foram olhando, pegando em algemas, máscaras, se divertindo com as fantasias de colegial, bombeiro, enfermeira, dançarina do ventre, policial…

– Calcinha comestível! – ela se espantou, ingênua.

– É aperitivo. – ele brincou. – O parceiro já vai fazendo uma boquinha.

– Tem vários sabores: morango, caramelo, limão.

– Bacalhau…

– Sério?

– Brincadeira. Mas não duvido que exista.

Depois de examinarem algumas peças, passaram à outra seção de objetos, que de fato chamaram a atenção dela. O enigmático colar tailandês foi o que mais a intrigou.

– Quem daria um colar desses de presente pra namorada?

– Se tá aí é porque deve vender.

– E será que a mulher usa?

– Pelo menos uma vez, pra agradar o amante.

– Mas que coisa de mau gosto, sair por aí com uma bijuteria de plástico dessas no pescoço.

– Querida, isso não é bijuteria. E nem se usa no pescoço.

– Não.?

– É de enfiar lá.

– Lá onde?

– Onde o sol não bate.

– Sério? Todo ele?

– Pois é…depois puxa.

– Nossa! Então é tipo motor de lancha, daquelas que ligam puxando a cordinha?

– Mais ou menos.

– Não, não. Preferia algo mais convencional.

– Você tá pensando em comprar ? – ela o surpreendeu.

– Por que não?

– Já vi que tá animada!

– Nem estava, mas fiquei.

Foram se dirigindo ao balcão onde estavam diversos modelos de vibradores. Ela ficou excitada. Ele gostou.

– A gente podia levar um desses.

– Você quer mesmo, querida?

– Não me chame de querida, me chame de cachorra.

– Quer um desses, cachorra?

– Au, au!

Ele sentiu uma leve ereção.

– Olha só este! – ela pegou um que parecia a réplica de um pênis.

– Parece real.

– Prefiro um menos real, mais fantástico. Este aqui!

– Uau! Tá mal intencionada!

– Pensei que fosse me achar bem intencionada. Se é pra gente experimentar, por que ficar de miserinha? Olha este! Será que existe na vida real?

– Desse tamanho, acho que nem no xvideos…

– O que é isso?

– Em casa eu te mostro. – respondeu como quem fosse revelar a senha da conta numerada na Suíça.

– Vamos levar?

Ele sempre teve vontade de propor isso, mas nunca soube como ela poderia reagir. Agora que ela embarcou, não podia dar chance de desistir.

– Claro!

O vendedor percebeu o interesse do casal e logo se aproximou.

– Pois não?

– Queremos levar. – disse ela, mostrando, um tanto acanhada, um modelo de dildo de proporções nada acanhadas.

– Vou pegar um no estoque.

– São dois. – ela corrigiu.

– Oi? – ele se assustou.

– Um pra mim, outro pra você.

– Um só dá. A gente vai brincar juntos, não é?

– Sim, claro. Mas cada um com o seu.

– Como assim?

– Ué. Você usa em mim, eu uso em você.

– Não… – risinho nervoso – Esse modelo é feminino.

– Desculpe, senhor. É unissex.

– Não lhe perguntei nada. – rebateu ele, ríspido.

– Bom, se você não quer, eu também desisto.

Ele ficou sem saber o que dizer. Não estava pensando em ser atravessado por aquilo. Por outro lado, não queria apagar o fogo dela. Olhava para o objeto estático. Num silêncio reflexivo.

– Então, o que vocês decidiram? – perguntou o vendedor.

– Querida, ou melhor, cachorra, o meu pode ser aquele menorzinho?

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FOME

Captura de Tela 2014-08-26 às 18.53.52

 –       Demorou! Onde você foi?

–       Fui ali comer uma coisinha.

–       Te procurei na cozinha e não te achei.

–       Não tinha nada que me apetecesse, aí fui na rua.

–       Cheiro de perfume barato…Gervásio, isso é perfume de mulher.

–       É, sim.

–       É sim?? Você foi encontrar outra mulher?

–       Encontrar não, comer.

–       O quê? Peraí, acho que não tô ouvindo direito. Deixa ver se entendi: você estava aqui deitado comigo, se levantou, foi na rua, pegou uma mulher e …

–       …comeu

–       …tá, comeu. Detesto essa palavra! Me deixou aqui, pra co… argh! Comer uma piranha.

–       Qual é o drama? Você disse que tava com preguiça, não queria saber de sexo hoje.

–       Aí você sai na maior cara dura e…

–       Você não tava, mas eu tava. E deixei bem claro. Vai dizer que não sentiu o volume…

–       Como você é grosso!

–       Grosso, eu? Poxa, achei que tava sendo educado. Não quis incomodar você. Imagina ser um desses maridos que praticamente estupram a mulher quando querem sexo! Eu te respeito, não vou forçar você a fazer nada que não queira.

–       Por acaso eu quero ficar deitada ao lado de um homem que se deitou com outra?

–       Você pode se levantar, tô cansadão.

–       Que nojo! Nem um banho.

–       Não queria ficar muito tempo longe de você, meu amor.

–       Amor? Deus me livre! Tenho horror a você. E para de tentar me agarrar. Saia já dessa cama! Desse quarto! Dessa casa! Dessa vida!

–       Tá bom, tá bom. Só tava sendo sincero com você. Você sabe como eu detesto mentiras.

–       Nesse caso, eu preferia que você mentisse.

–       Você ia acabar descobrindo, sou péssimo nisso. Não tem nada a ver, pô. Sexo é uma coisa, amor é outra, será que você não consegue entender?

–       Nem eu, nem meu advogado.

–       Advogado? Deixa que eu explico pra ele. Só tomar um banho, primeiro…

–       Gervásio, não tô acreditando que ainda tô ouvindo sua voz! Qual é a parte de “se manda daqui agora!”que você não entendeu? Some, evapora! Tenho asco de você, seu escroto, babaca, promíscuo, doente!

Sentado no meio fio da rua de madrugada, Gervásio protegia a cabeça da chuva de roupas e livros que a janela do terceiro andar vomitava sobre ele. Achou exagerada a reação da namorada. “Só pode estar na TPM…”- pensava enquanto recolhia os pertences.

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AMOR CASUAL

SEXO_E_AMOR

– Foi uma noite fantástica. – contava Alex ao amigo. – Há muito tempo que eu cercava ela. Mas ela não abria a guarda. Tinha um namoro sério que, graças a Deus, acabou. Respeitei o período de resguardo, sabe como é, conhecia o namorado e não queria queimar o filme com as amigas delas. Convidei pra sair, tomamos um vinho. Deixei que ela escolhesse. Pediu uma garrafa que custava R$ 150,00. Bem acima do meu padrão. Mas aí pensei: mulher que pede vinho acima dos 100 reais é porque tá a fim de dar.

– Ele não veio logo me atacando assim que a notícia correu – disse Roberta à amiga.- Respeitou minha dor que nem chegava a ser tanta, o namoro durou um ano mas os últimos dois meses dava sinais de que não ia muito longe. Quando saímos, ele me deixou que escolhesse o vinho. Pedi uma garrafa bem acima do meu padrão. Ele não chiou. Bom sinal.

– A conversa era boa.- continuou Alex. – Variei bastante os assuntos pra não dar a entender que só queria uma coisa com ela. Tudo levava a crer que ia rolar .

– Ele puxou assunto. Parecia realmente interessado em mim. – explicava ela. – Não era desses que só queria uma coisa. É um cara diferente.

– Estava duro e sem gasolina pra ir até a Barra, acabei levando ela pra casa mesmo, apesar de estar meio bagunçada.

– Se ele tomasse o caminho pra Barra, ia pedir pra parar. Como assim, logo na primeira vez, me levando pra um motel? Podia pensar que sou dessas. A casa dele estava meio bagunçada. Sinal de que queria intimidade logo de cara. Comecei a achar que o Alex não era nada do que falam por aí.

– Nada de tapa na bunda, puxão no cabelo, gritos de “vem cá, cachorra!”. Peguei leve pra não assustar.

– Que delicadeza! Quanta sensibilidade! Evidente que queria o meu prazer. Até que… – contou ela.

– Até que… – contou ele…


 

–       Ah, você é um amor! – disse Alex sorrindo.

–       Oi? – Roberta chegou a sentir um arrepio.

–       Disse que você é um amor.

–       Eu… – não resistiu a tanta delicadeza. – …te amo, sabia?

–       Você… o quê?

–       Eu te amo.

–       Maneiro.

–       Como é que é?? Então eu me declaro pra você, de coração aberto e tudo que você me diz é “maneiro”?

–       Mas eu achei maneiro!

–       Vou repetir: eu te amo. E você?

–       Eu? Eu… também.

–       Você também me ama?

–       Não, eu disse que concordo com você.

–       Eu disse “eu te amo”, você disse “eu também”.

–       Isso mesmo. Eu também me amo. É disso que eu gosto em você. Você tem muito bom gosto.


– Não pude acreditar no que ouvi. – desabafou ela pra amiga. – Aliás, a última frase que ouvi daquele sujeito.

– Não entendi nada. – se abriu Alex. – Fui o mais sincero possível, a mina se levantou e foi embora lá de casa sem dizer tchau! E ainda dizia que me amava. Vai entender essas mulheres…

 

 

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SEXO NA SELEÇÃO

bunda

No salão da Granja Comari, um jogador se mantinha alheio à zona geral. Felipão olhou o sujeito lá no fundo e ficou orgulhoso. “Meu afilhado está concentrado, já pensando na Croácia”- comentou com o Murtosa. Dois parceiros também perceberam o boleiro isolado mas acharam estranho. Um deles resolveu saber qual o problema.

–     Que é que tá pegando, meu irmão? Pensando na vaga de titular?

–    Não é nada disso. – o jogador rompeu o silêncio. – Tô há dias pensando nas palavras do professor.

–    Calma, rapá! O Felipão ainda não deu nenhuma instrução e você já quer obedecer? Deixa o homem falar primeiro.

–    Ele já passou a mensagem mais importante dessa Copa. Você não acompanha os jornais?-    Claro! Eu sempre leio os classificados pra ver preço de apartamento,  carro e puta.

–    Então não viu essa notícia aqui, ó?

Ele tira do bolso um recorte com a notícia: “Felipão libera sexo normal na seleção”.

–    Qual é o problema? O professor fala que vai liberar o sexo e tu fica com essa cara? Não tô te entendendo.

–    Não leu até o fim? Olha aqui, ele tá dizendo que vai liberar o sexo normal.

–    Então, normal! Depois do treino a gente chama as primas e arma aquela baguncinha. Normal!

–    Aí é que tá, rapá. Normal pra ele não é isso. É tipo papai-mamãe e só com a esposa ou a namorada.

–    E quem for solteiro?

–    Aí deve ficar na mão.

–    Tá de sacanagem! Claro que não é isso.

–    Claro que é! Senão nem virava notícia.

–    Papai-mamãe? E com a própria mulher? Então só tá liberado pros evangélicos.

–    Isso que me preocupa. Ele não quer que a gente se desgaste.

–    Ah, peraí! Sexo sem se desgastar? Sem partir pra dentro? Em sexo não tem jogo-treino, todas as partidas são válidas pelo campeonato.

–    E nada de atuar em bloco. Tem que ser marcação individual, no mano a mano.

–    Oi?

–    Não, peraí, me expressei mal. Só queria dizer que suruba não tá liberada.

–    Nem uma surubinha só com os mais íntimos? Esse cara quer levar a gente à loucura! Esse negócio de ficar no quarto com uma mulezinha só é muito sem graça. E depois, como é faz? Vai conversar com quem? Vai tirar onda de quem?

–    É por isso que eu tô preocupado.

–    Isso é muito grave! E se eu disser que sou casado com três?

–    Não sei, mas acho que vão ter que revezar.

–    Não é possível! Eu não topei vir pra Copa pra ficar nessa palhaçada! Já tinha contactado um pessoal de primeira, trouxe uns brinquedinhos maneiros lá da Europa, algema, chicote, mordaça…só ia pegar leve no viagra por causa do anti-doping.

–    Pode esquecer tudo isso.

O outro amarrou a cara, indignado. Pouco depois, baixa o tom de voz:

–    Você leu aí se o fio terra também tá proibido? Não é por mim não mas é que tem gente que vai sentir falta…

–    Aí eu já não sei. Melhor perguntar direto pro Felipão.

–    Deixa pra lá. Topa um poquerzinho?

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AZUL É A COR MAIS DURA

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Alvarenga completou seus 60 anos dando inveja a seus amigos. Separou-se da mãe de seus três filhos já encaminhados, mudou-se para um pequeno e charmoso apê no posto 6 e reduziu a marcha da rotina. Largou o mercado publicitário, foi à luta de seu sonho, transformar o hobby de escritor em ganha pão. Não precisava mais ganhar, bastava empatar ou perder de pouco. A mudança de ares resultou em bons dividendos no departamento eroto-sexual. Passou a atacar moças mais novas, obtendo sucesso na pescaria noturna.

Um dia, porém, abusou do álcool e o motor afogou. E não houve chupeta que desse jeito. Alvarenga ficou arrasado. Terá sido um ponto fora da curva? Ou o início de um novo e tenebroso tempo? Já tinha falhado algumas vezes com a patroa e avaliou que era normal. Muitos anos de um papai-mamãe burocrático, normal que o desinteresse viesse à tona. Mas e agora? A moça era uma gata, não conseguia entender o que se passou. Pensou em procurar uma terapeuta, melhor, um terapeuta – não queria confessar a fraqueza à uma mulher, seria a segunda a saber, se é que a fama já não estava se disseminando por aí. Pelo menos até onde pôde rastrear, ainda não tinha virado assunto no Facebook.  A moça foi compreensível discreta, merecia receber flores.

–       Deixa de frescura, Alvarenga. Isso acontece com qualquer um. – rebateu Duda, seu amigo e confidente. – Você não precisa passar por isso hoje em dia. Toma um viagra e ponto.

–       Sei não, Duda, não gosto de tomar remédio nem pra dor de cabeça.

–       Esse é diferente, é pra deixar a cabeça dolorida. E ardida. Experimenta.

Alvarenga seguiu o conselho. Comprou uma cartela e guardou na carteira, colada com uma camisinha. Quando surgiu uma oportunidade, engoliu a azulzinha com água da pia do banheiro do restaurante e voltou pra mesa disposto a pedir sobremesa, licor, cafezinho, tudo que fizesse o tempo passar. De vez em quando se apalpava pra ver se já tinha dado resultado. Imaginava que, passados 30 minutos, uma ereção explodiria e teria de pedir emprestado ao garçom o iPad com a carta de vinhos pra disfarçar. Devolveria ao chegar no carro. Não foi preciso.

Na hora H, deu tudo certo. O problema se transferiu para o próximo encontro.

Alvarenga não sabia se estava em forma novamente. Arriscar ou se prevenir? Tomando a pílula jamais teria certeza de que estava curado, de que foi um episódio isolado. Se voltasse a recorrer à Pfizer, o êxito estaria garantido. E a dúvida permaneceria.

A presa era valiosa demais, não podia correr riscos. Ao chegar à farmácia, o balconista foi logo pegando uma cartela.

–       O que você está querendo insinuar? – irritou-se. – Tá me chamando de broxa compulsivo? Vim aqui comprar uma aspirina!

–       Desculpe, é que eu pensei…

–       Você não está aqui pra pensar! Não precisa pegar nada, já tô de saída.

Tirou uma reta indignado até a calçada. Cem metros adiante, entrou em outra farmácia e comprou seu Viagra em paz.

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ao todo.

CAFÉ DA MANHÃ

cafe

–       Passa a manteiga, cachorra.

–       Oi?

–       O queijo, vagabunda.

–       Hellooo! Carlos, tá falando com quem?

–       É contigo mesmo, sua vaca!

–       Carlos! Para com isso. Não tô achando a menor graça.

–       Ué, como não? Ontem mesmo você tava me pedindo: “me chama de piranha, me chama de cachorra!”

–       Isso foi de noite, na cama.

–       Mas eu continuo com tesão!

–        Imagina se as crianças ouvem.

–       E se eu falar isso baixinho no seu ouvido, sua piranha?

–       Não dá, não adianta forçar a barra, Carlos. Esse vocabulário não funciona com a gente vestido pra sair pro trabalho.

–       Quer que eu tire a calça, sua safada?

–       Quero que você cale a boca.

–       Palmadinha na bunda?

–       Experimenta! Te derramo a água do chá.

–       Opa! Tá entrando no clima. Também vou te deixar toda molhadinha.

–       Você não tem reunião daqui a pouco?

–       Quer brincar de secretária, danadinha?

–       Chega! Tô indo.

–       Quer que chame um táxi?

–       O quê??

–       O dinheiro tá na mesinha de cabeceira.

–       Carlos, mais uma dessas e ligo pro meu advogado!

–       Que isso! Vai me processar??

–       Quem falou em processo? É só pra animar a brincadeira.

–       Aí não, aí parou!

–       Não para, não para…

 

 

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CIRURGIA PLÁSTICA: UMA VIAGEM SEM VOLTA

labios-angelina

A mulher começa tirando uma ruguinha. Em seguida, quer reduzir a barriga sem frequentar academia ou usar aqueles aparelhos miraculosos da Polishop. Depois, afina o nariz, diminui a orelha, elimina a papada, estica, puxa, alisa e pronto, temos um novo inimigo do Batman na praça!

Algumas sonham em ter os lábios carnudos da Angelina Jolie, os olhos da Megan Fox, o queixo da Gisele Büdchen, o nariz da Sharon Stone, a bochecha da Halle Berry, os peitos da Pamela Anderson, a bunda da Juliana Paes. Como se pudessem reunir num só corpo as partes convocadas por um Felipão da beleza. Isso não dá certo nem no photoshop, mas é uma ideia cada vez mais perseguida.

Por falar em perseguida, esta é a mais nova mania – a plástica da xoxota. Não é uma xoxota de plástico, mas é quase. São mulheres que acham a sua comissão de frente repugnante. Sabemos que a fêmea gasta fortunas em vestidos pra matar as amigas de inveja. Não acredito que seja o caso da repaginada dos países baixos. Certamente são moças com vida sexual pouco movimentada e que acham que o problema está ali. Será?

Tudo bem quando contratam um Burle Marx para um paisagismo na região. Dá uma graça, às vezes com toque de originalidade. Algumas reforçam suas posições ideológicas adotando o bigodinho de Hitler. Outras, considerando que macho se amarra numa pelada, promovem uma completa devastação para desespero dos ambientalistas. Agora, daí para uma cirurgia vai uma grande distância. Nunca nenhum dos meus amigos desistiu de pegar uma criatura porque achou que ela tinha uma vagina horrível. Aliás, chamar periquita de vagina sem ser ginecologista já dá pra desconfiar.

Imagine a situação: o casal no quarto, Marvin Gaye no ipod (ou Naldo, vai saber…), champanhota gelada no balde, aos beijos começam a se despir. Quando a calcinha de renda vai ao chão, o sujeito dá um ataque:

– Nossa! Que coisa horrorosa! Eu nunca vi nada igual! Deus me livre! Que xoxota mocreia! Eu é que não ponho meu pau aí dentro nem que me paguem. Fui!- e bate em retirada sem olhar pra trás.

Você acha mesmo que o problema é dela? Na boa, esse sujeito forçou a barra pra chegar até ali por medo de enfrentar o preconceito da sociedade e do Marco Feliciano.

Vamos deixar de bobagem, meninas. Macho que é macho não repara nem quando vocês cortam o cabelo! Ele não está esperando encontrar ali os lábios da Angelina Jolie. E aprecia sem moderação.

1.1mil
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